20 de novembro de 2018

Capítulo Quinze


Quando cheguei em casa naquela noite, me deitei, mas não dormi. Fiquei escrevendo várias mensagens para Davis e apagando, até enfim deixar o celular de lado e pegar o laptop. Queria saber o que tinha acontecido com a vida on-line dele, para onde Davis fora depois de abandonar as mídias sociais.
Quando procurei o nome dele no Google, veio uma torrente de notícias sobre o pai: “CEO da Pickett Engenharia revela que não deixará um centavo para os filhos adolescentes” e coisas do tipo. Davis não tinha atualizado Instagram, Facebook, Twitter nem o blog desde o sumiço do pai, e as buscas pelos dois nomes de usuário dele, dallgoodman e davis_naodave02, só me levaram a outras pessoas.
Comecei, então, a procurar nomes de usuário parecidos (dallgoodman02, davis_naodave, davis_naodavid) e a testar opções no Facebook e nos servidores de blogs. Depois de mais de uma hora nisso, já passando da meia-noite, finalmente tive a ideia de buscar a frase: “As folhas seguiram seu caminho, vocês também deveriam ir.”
Apareceu um único link, que levava a um blog de um tal de anônimo02. Havia sido criado dois meses antes e, assim como o outro blog de Davis, as postagens eram quase todas citações ou textos curtos e enigmáticos. Mas esse novo blog também tinha uma aba “poemas”. Fui para a página inicial e desci até a primeira entrada:

“Posso resumir em três palavras tudo o que aprendi sobre a vida: a vida continua.”
— Robert Frost

Catorze dias desde que tudo isso começou. Não posso dizer que minha vida está pior — só menor. Basta olhar para cima pelo tempo certo para sentir nossa infinitesimalidade. A diferença entre estar vivo ou não — é alguma coisa. Mas de onde as estrelas estão olhando para nós, quase não há diferença entre as variedades de vida, entre mim e a grama recém-aparada onde estou deitado agora mesmo. Somos ambos deslumbramentos, o mais próximo de um milagre no universo conhecido.

“Partiu-se a Tábua em minha Mente / E eu fui cair de Chão em Chão…”
— Emily Dickinson

Há cerca de cem bilhões de estrelas na Via Láctea — aproximadamente uma para cada pessoa que já viveu. Esta noite, observando o céu, pensei sobre isso. O tempo estava quente demais para a estação e nunca se viram estrelas tão lindas por essas áreas. Quando olho para o alto, sempre tenho a sensação de estar caindo.
Mais cedo, ouvi meu irmão chorando no quarto dele e fiquei ali em frente à porta fechada por muito tempo. Sei que ele sabia que eu estava ali porque as tábuas do corredor rangeram e ele tentou conter os soluços, e eu só fiquei ali parado, encarando a porta, incapaz de abri-la.

“Até o silêncio / tem uma história para contar.”
— Jacqueline Woodson

A pior parte de estar totalmente sozinho é pensar em todas as vezes em que desejamos que todo mundo simplesmente nos deixasse em paz. Foi o que fizeram. Atenderam ao meu pedido, e acabei me saindo uma péssima companhia.

“O mundo é um globo — quanto mais distante você veleja, mais perto de casa está.”
— Terry Pratchett

Às vezes abro o Google Maps e dou zoom em pontos aleatórios onde ele poderia estar. S veio ontem à noite para nos orientar sobre o que acontece de agora em diante — o que acontece se ele for encontrado, o que acontece se não for — e, em determinado momento, ele disse: “Vocês compreendem que passei a me referir não apenas à pessoa física, mas também à entidade legal.” A entidade legal é o que paira sobre nós, assombrando nossa casa. A pessoa física está em algum lugar do mapa.

“Sou apaixonado pelo mundo.”
— Maurice Sendak

Sempre dizemos que estamos sob as estrelas. Não estamos, é claro — não há em cima ou embaixo, e de qualquer modo estamos rodeados de estrelas. Mas dizemos que elas ficam acima, o que é legal. É comum que a linguagem glorifique o ser humano — somos alguém, os outros animais são algum —, mas ao menos abaixo das estrelas ela nos coloca.

Finalmente, apareceu um ela.

“O que é passado é prólogo.”
— William Shakespeare

Ver o passado — ou uma pessoa do passado — pode ser, ao menos para mim, fisicamente doloroso. Sou tomado por uma melancolia que chega a doer; começo a desejar o passado de volta, a qualquer custo. Não importa que ele não vá voltar, que nunca tenha sequer existido como está na minha memória — eu o quero de volta. Quero que as coisas sejam como eram antes, ou como lembro que foram: inteiras. Mas, não sei por quê, ela não me lembra o passado. Ela é o presente.

O texto seguinte, que tinha sido postado no fim daquela noite em que ele me dera o dinheiro, mais ou menos confirmava que ela era eu.

“Acorda, meu coração, acorda, que tu dormiste bem. Acorda.”
— William Shakespeare

Talvez eu tenha estragado tudo. Mas, se eu não tivesse feito o que fiz, sei que ainda haveria uma dúvida, ela só seria outra. A vida é uma sequência de escolhas entre incertezas.

“A Ilha é cheia de ruídos.”
— William Shakespeare

A proposição de que talvez ela não gostasse de mim se eu não fosse eu é uma proposição impossível. Dá voltas em torno de si mesma. A verdadeira questão é se ela gostaria de mim se meu corpo e minha alma fossem transportados para uma vida diferente, uma vida menor. Nesse caso, voltamos à estaca zero, é claro: eu não seria eu; seria outra pessoa. O passado é uma armadilha que já nos capturou. Um pesadelo, disse Stephen Dedalus, do qual estou tentando acordar.

E a última postagem:

“Esta coisa escura eu reconheço ser meu.”
— William Shakespeare

Ela me lembrou, mais de uma vez, que a chuva de meteoros estava acontecendo, acima do céu nublado, só não podíamos vê-la. Quem se importa com beijos quando ela vê através das nuvens?

Só depois de ler o blog todo eu me dei conta de que todas as postagens que se referiam a mim começavam com citações de A tempestade. Eu me senti invadindo a privacidade de Davis, mas era um blog público, e ler seus textos me dava a sensação de estar com ele, só que sem tanto medo. Cliquei na aba “poemas”.
O primeiro era:

Os passos de minha mãe
Tão silenciosos eram
Que mal a ouvi partir.

Depois:

Nunca se deve manchar a beleza com a verdade,
Ou assim acreditava e.e. cummings.
“E isso é a maravilha que mantém as estrelas distantes”,
escreveu ele, sobre amor e desejo.
Certamente, isso lhe rendeu muitas mulheres.
E essa era a única intenção do poema.
Mas gravidade é diferente de afeto:
Apenas um é constante.

Então cheguei ao primeiro poema, escrito no mesmo dia da primeira postagem, duas semanas após o desaparecimento do pai dele.

Ele me carregou por toda a vida…
Me pegou no colo, me levou a toda parte, disse
Venha comigo. Vou levar você. Vamos nos divertir.
Nunca nos divertimos
Não sabemos o peso de um pai
Até que ele seja nosso fardo.

Eu estava relendo esse poema quando o meu telefone vibrou.
Ele: Oi.
Eu: Oi.
Ele: Por acaso você está lendo meu blog neste exato momento?
Eu: … Talvez. Tem problema?
Ele: Que bom que é você. O Analytics me informou que alguém de Indianápolis está na minha página há trinta minutos. Fiquei nervoso.
Eu: Por quê?
Ele: Não quero meus poemas horríveis saindo nos jornais.
Eu: Ninguém faria isso. E você tem que parar de dizer que seus poemas são horríveis.
Ele: Como você encontrou o blog?
Eu: Procurei por “as folhas seguiram seu caminho, vocês também deveriam ir”. Outra pessoa não saberia como nem onde procurar.
Ele: Desculpa se estou sendo paranoico, é só que gosto de postar no blog e não quero ter que apagar.
Ele: Adorei ver você hoje.
Eu: Eu também.
Vi o “digitando…”, mas não recebi nada, então escrevi:
Eu: Quer falar pelo FaceTime?
Ele: Claro.
Meus dedos tremiam um pouco quando toquei em “iniciar chamada”. O rosto de Davis surgiu na tela, cinza na luz fantasmagórica do celular dele.
Shhh — fiz, levando um dedo à boca.
Ficamos olhando um para o outro em silêncio, embora fôssemos apenas borrões na luz turva das telas dos celulares, e aquele foi o momento mais íntimo que já tive na vida real.
Ao olhar para o rosto de Davis olhando para o meu, percebi que era um ciclo o que nos permitia ver um ao outro: a luz que iluminava o rosto dele vinha do meu quarto, e a luz que iluminava meu rosto vinha do quarto dele. Eu só conseguia vê-lo porque ele conseguia me ver. No medo e na empolgação de estarmos frente a frente naquela luz prateada e granulada, a sensação era de que eu não estava na minha cama, nem ele na dele. Na verdade, estávamos juntos num lugar não sensorial, quase como se dentro da consciência um do outro, uma proximidade que a vida real, com seus corpos reais, nunca alcançaria.
Depois que desligamos, ele mandou uma última mensagem:
Gosto de nós. De verdade.
E eu acreditava nisso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!