20 de novembro de 2018

Capítulo Quatro

Entramos no carrinho que Lyle dirigia e seguimos por uma estreita trilha asfaltada que cruzava o campo de golfe, passando por uma grande cabana feita de troncos de árvores com uma placa de madeira na porta identificando-a como O CHALÉ.
A propriedade dos Pickett parecia ainda mais majestosa do que era anos antes, quando eu estivera ali pela última vez. A areia do campo de golfe estava recém-arada, a trilha por onde seguíamos era toda margeada por bordos recém-plantados e o asfalto era lisinho, sem buracos nem saliências. O gramado se estendia a perder de vista, impecável em um recém-aparado padrão de diamante.
Tudo ali era silencioso, estéril e de uma amplidão sem fim — como um recém-construído empreendimento imobiliário antes de ser ocupado. Fiquei encantada.
Daisy aproveitou para puxar uma conversa nada sutil:
— Quer dizer que o senhor é o chefe da segurança daqui?
— Eu sou o único segurança daqui.
— E há quanto tempo trabalha para o sr. Pickett? — continuou Daisy.
— O suficiente para saber que vocês não são amigas do Davis.
Mas Daisy, a quem faltava a capacidade de sentir constrangimento, não se deu por vencida.
— A Holmes aqui é amiga dele. O senhor estava de serviço na noite em que o sr. Pickett desapareceu?
— O sr. Pickett não gosta que os empregados pernoitem na propriedade — respondeu ele.
— E são quantos empregados, no total?
Lyle parou o carrinho.
— É melhor vocês conhecerem mesmo o Davis, senão levo as duas na mesma hora para a delegacia por invasão de propriedade.

* * *

Depois de uma curva, demos de cara com a piscina, uma vastidão de azul cintilante. Ainda havia a ilha de que eu me lembrava, só que agora estava coberta por um domo geodésico de vidro. Os tobogãs também continuavam ali — um emaranhado de cilindros em curva —, mas estavam secos.
Ladeando a piscina havia uma dúzia de espreguiçadeiras de teca, cada uma com uma toalha branca estendida sobre as almofadas. Contornamos a piscina até uma área com mais espreguiçadeiras, em uma das quais estava deitado Davis Pickett. Ainda estava vestindo a camisa polo e a calça cáqui do uniforme escolar e lia um livro que segurava no ângulo certo para tapar o sol.
Ao ouvir o carrinho se aproximando, Davis se apoiou nos cotovelos e olhou para conferir quem chegava. Tinha pernas magrelas e estava bronzeado. Usava óculos de armação grossa e um boné do time de basquete de Indiana.
— Aza? — disse Davis, se levantando.
Com a silhueta contornada pelo sol, mal dava para ver seu rosto. Saí do carrinho e me aproximei.
— Oi — falei.
Eu não sabia se deveria abraçá-lo, e ele parecia estar com a mesma dúvida, por isso só ficamos ali parados olhando um para a cara do outro, sem nos tocar, o que, para ser sincera, é minha forma preferida de cumprimento.
— A que devo a honra? — perguntou Davis, sem transparecer emoção alguma. Sua voz inexpressiva, indecifrável.
Daisy apareceu atrás de mim, estendeu a mão e já foi logo apertando a dele, animada.
— Daisy. Sou a melhor amiga da Holmes. — E explicou: — Nossa canoa furou.
— Batemos numa pedra e acabamos na Ilha dos Piratas — expliquei.
— Você conhece essas duas, Davis? — perguntou Lyle.
— Sim, Lyle, está tudo certo, obrigado. Querem um pouco de água? Ou um Dr Pepper?
— Dr Pepper? — repeti, um pouco confusa.
— Não é seu refrigerante preferido?
Por um instante apenas o encarei, surpresa.
— Ah, sim — respondi. — Aceito.
— Lyle, pode trazer Dr Pepper pra gente?
— Deixa comigo, chefe — respondeu o segurança, e partiu no carrinho de golfe.
Daisy me lançou um olhar de esguelha que dizia Eu falei que ele ia se lembrar de você e, discretamente, começou a se afastar. Davis pareceu não notar. Ele me fitava de um jeito tímido que era até fofo, olhando de relance para meu rosto mas logo desviando, os olhos castanhos arregalados atrás dos óculos. Todos os traços do rosto dele, olhos e nariz e boca, tudo um pouco grande demais, como se houvessem crescido em um rosto ainda infantil.
— Não sei o que dizer — falou Davis. — Eu não… não sou muito bom de papo.
— Você pode tentar dizer o que está pensando — sugeri. — É uma coisa que eu mesma nunca faço.
Ele esboçou um sorriso e deu de ombros.
— Tá bem. Estou pensando: Tomara que ela não tenha vindo pela recompensa.
— Que recompensa? — retruquei, não muito convincente.
Davis se sentou na espreguiçadeira e se inclinou para a frente, os cotovelos ossudos apoiados nos joelhos ossudos. Eu me sentei na cadeira diante dele.
— Pensei em você faz umas semanas — comentou Davis. — Logo que meu pai foi dado como desaparecido, toda hora repetiam o nome dele no jornal, e sempre falavam o nome completo. Russell Davis Pickett. Eu ficava pensando… Tipo, é o meu nome também. Era muito estranho ouvir nos noticiários que “Russell Davis Pickett foi dado como desaparecido”, porque eu estou bem aqui.
— E por isso você pensou em mim?
— Pois é, sei lá. Eu me lembrei de você me contando do… Daquela vez que eu perguntei sobre o seu nome, e você disse que sua mãe tinha escolhido Aza porque queria que fosse um nome só seu, um som que fosse realmente seu.
— Na verdade, foi meu pai. — Eu me lembrava da explicação: ele dizia que Aza “abarca todo o alfabeto, para que você saiba que pode ser quem você quiser”. — E o seu pai…
— Exatamente, meu pai criou uma réplica. Me condenou a ser sempre um júnior.
— Ah, você não é o seu nome.
— É claro que sou. Não posso não ser Davis Pickett. Não posso não ser o filho do meu pai.
— É, imagino que não…
— E não posso não ser um órfão.
— Sinto muito.
Os olhos cansados de Davis encontraram os meus.
— Vários antigos amigos meus me procuraram nos últimos dias, e eu não sou idiota. Eu sei por quê. Mas não sei onde meu pai está.
— A verdade é que… — comecei, mas parei quando uma sombra nos cobriu.
Eu me virei. Era Daisy, atrás da espreguiçadeira em que eu estava.
— A verdade é que ouvimos no rádio a notícia sobre o seu pai — interveio ela —, e a Holmes aqui me contou que era caidinha por você quando criança.
— Daisy! — sussurrei.
— E eu falei: então vamos lá falar com ele, só pode ser amor verdadeiro. Então a gente armou um naufrágio de mentirinha. E se você lembrou que ela gosta de Dr Pepper, então é porque É AMOR VERDADEIRO MESMO, igual em A tempestade, então agora eu vou deixar vocês em paz para viverem esse amor e serem felizes para sempre.
A sombra de Daisy se afastou, sendo substituída pela luz dourada do sol.
— Isso é… Isso é verdade? — perguntou Davis.
— Hã… Não acho que seja como em A tempestade… — Não consegui me forçar a contar a verdade. Além do mais, não era mentira. Não totalmente. — Claro, a gente era só criança.
Davis ficou um tempo em silêncio.
— Você nem parece mais a mesma pessoa — disse ele, por fim.
— Como assim?
— Sei lá, você era uma pestinha magrela e agora está…
— Estou o quê?
— Diferente. Crescida.
Meu estômago começou a se revirar, mas não entendi por quê. Eu nunca compreendia meu corpo… Aquilo era medo ou empolgação?
Davis ficou com o olhar perdido, como se observasse as árvores dispostas na margem do rio.
— Sinto muito mesmo pelo seu pai — falei.
Davis deu de ombros.
— Meu pai é um bosta. Ele fugiu da cidade para não ser preso porque é um covarde.
Eu não sabia o que dizer. As pessoas falavam sobre seus pais de um jeito que quase me dava alívio por não ter mais um.
— Eu não sei mesmo onde ele está, Aza. E, se alguém sabe, não vai contar, porque ele vai pagar muito mais que a recompensa para calar a boca das pessoas. Cara, cem mil? Para o meu pai, isso é mixaria.
Só fiquei olhando para ele.
— Desculpa — disse Davis. — Acho que não foi uma coisa legal de falar.
— Você acha?
— Tá bom, foi bem babaca. Eu só quis dizer que… Cara, ele vai se livrar dessa. É sempre assim.
Eu ia responder, mas ouvi Daisy voltando, e acompanhada: um cara alto e de ombros largos, com camisa polo e bermuda cáqui.
— Vamos conhecer um tuatara! — exclamou Daisy, muito animada.
Davis se levantou para fazer as apresentações.
— Aza, esse é Malik Moore, nosso zoólogo.
Ele falou “nosso zoólogo” na maior naturalidade, como se todo mundo contratasse um zoólogo ao alcançar determinado padrão de vida.
Eu me levantei e apertei a mão de Malik.
— Eu cuido do tuatara.
Todos pareciam presumir que eu sabia que diabo era um tuatara. Malik foi até a beira da piscina, se ajoelhou, abriu um alçapão escondido no piso de cerâmica e apertou um botão. Uma passarela de aço surgiu da parede e se projetou acima da água, formando uma passarela em arco até o domo no meio da piscina. Daisy agarrou meu braço.
— Isso está mesmo acontecendo? — sussurrou ela.
Então, com um floreio, o zoólogo nos convidou a cruzar a passarela.
Seguimos pela pontezinha de metal até o domo, com Malik logo atrás. Ele aproximou um cartão magnético da porta de vidro. Ouvi um clique, e a porta se abriu. Entrei. De repente me vi num clima tropical, a temperatura pelo menos uns dez graus acima e o ar consideravelmente mais úmido que no mundo lá fora.
Daisy e eu ficamos perto da entrada, enquanto Malik logo se afastou, andando pela ilha até voltar com um lagartão de uns sessenta centímetros de comprimento, talvez, e uns dez de altura, a longa cauda de dragão enrolada no braço do zoólogo.
— Podem fazer carinho nela — disse Malik.
Daisy aceitou a sugestão na mesma hora, mas eu reparei na mão toda arranhada do zoólogo, indicando que nem sempre o bicho gostava de carinho.
Por isso, quando ele se virou para mim, tratei de me esquivar:
— Não sou muito fã de lagartos.
Malik então me explicou, com uma riqueza de detalhes desnecessária, que Tua (o bicho tinha nome) na verdade não era um lagarto, mas uma criatura geneticamente distinta que datava da Era Mesozoica, duzentos milhões de anos atrás, a época dos dinossauros, e que por isso era considerado basicamente um fóssil vivo, e que um tuatara pode chegar a cento e cinquenta anos, e que o plural de tuatara é tuatara, e que eles são a única espécie ainda viva da ordem Rhynchocephalia, e que correm risco de extinção na Nova Zelândia, de onde são nativos, e que sua tese de doutorado tinha sido sobre as taxas de evolução molecular dos tuatara, e continuou falando e falando até a porta do domo se abrir de novo.
— Os refrigerantes, chefe.
Peguei os copos e entreguei um para Davis e um para Daisy.
— Tem certeza de que não quer fazer carinho nela? — insistiu Malik.
— Também tenho medo de dinossauros — expliquei.
— Holmes tem quase todos os medos mais comuns — disse Daisy, ainda fazendo carinho em Tua. — Além do mais, precisamos ir. Tenho deveres de babá a cumprir.
— Eu levo vocês — ofereceu Davis.

* * *

Davis disse que só precisaria passar em casa antes. Eu ia esperar do lado de fora, mas Daisy me empurrou com tanta força que, quando me dei conta, estava andando ao lado dele.
Davis abriu a porta principal, um painel de vidro imenso de pelo menos três metros de altura, e me vi numa sala enorme com piso de mármore. Noah estava largado no sofá, à esquerda, jogando um videogame de combate espacial numa televisão enorme.
— Noah — chamou Davis —, lembra da Aza?
— E aí? — cumprimentou ele, sem tirar os olhos da tela.
Davis subiu correndo a escada moderna de mármore, me deixando ali sozinha com o irmão. Quer dizer, isso foi o que pensei, até ouvir uma mulher dizer:
— Este é um Picasso verdadeiro.
Vestida de branco da cabeça aos pés, ela estava na cozinha imaculada da mansão cortando morangos e outras frutas vermelhas.
— Ah, uau… — falei, seguindo o olhar dela até o quadro em questão: um homem de linhas sinuosas montado num cavalo de linhas sinuosas.
— É como trabalhar num museu — continuou a mulher.
Ao olhar para ela, me lembrei do comentário de Daisy sobre uniformes.
— Sim, é uma casa linda — falei.
— Eles também têm um Rauschenberg. No andar de cima.
Assenti, embora não soubesse quem era esse. Mychal provavelmente saberia.
— Pode ir lá ver, se quiser.
Ela indicou a escada, então eu subi, mas nem dei muita atenção a um negócio no alto dos degraus que parecia uma colagem de lixo reciclado. Fui logo espiando rapidinho pela primeira porta aberta que vi pela frente. Parecia ser o quarto de Davis: imaculadamente limpo, o carpete ainda com as linhas deixadas pelo aspirador de pó. Uma cama king size com um monte de travesseiros e um edredom azul-marinho. Num canto do cômodo, junto a uma parede toda envidraçada, um telescópio apontando para o céu. Fotos de família na escrivaninha — todas antigas, de quando ele era pequeno. Pôsteres de bandas e cantores em outra parede: Beatles, Thelonious Monk, Otis Redding, Leonard Cohen, Billie Holiday. Uma estante cheia de livros de capa dura, uma das prateleiras só com quadrinhos, todas as revistas protegidas por sacos plásticos.
Na mesinha de cabeceira, ao lado de alguns livros, o Homem de Ferro.
Peguei o boneco e dei uma olhada. O plástico estava rachado na parte de trás de uma das pernas, revelando o espaço oco, mas as articulações ainda funcionavam em todos os membros.
— Cuidado — disse Davis atrás de mim. — Você está segurando o único objeto que eu realmente amo.
Devolvi o Homem de Ferro a seu lugar e me virei.
— Desculpa.
— Eu e ele já passamos por muita coisa juntos — disse Davis.
— Tenho que confessar uma coisa — falei. — Sempre achei o Homem de Ferro o pior herói.
Ele sorriu.
— Foi bom enquanto durou, Aza, mas nossa amizade termina aqui.
Eu ri. Davis se dirigiu à escada, e o segui.
— Rosa, você pode ficar até eu voltar? — pediu.
— Claro — disse ela. — Deixei chili de frango e salada na geladeira, para o jantar.
— Obrigado. Noah, meu caro, em vinte minutos estou de volta, ok?
— Beleza — respondeu Noah, ainda batalhando no espaço sideral.

* * *

Fomos andando até o Cadillac Escalade de Davis, em que Daisy já estava recostada.
— Aquela é a governanta?
— É a administradora da casa. Rosa está com a gente desde que eu nasci. Ela é… é o que temos agora, em vez de um pai ou uma mãe.
— Então ela não mora aqui?
— Não, ela sai às seis. Não é uma substituição tão boa assim.
Daisy se sentou no banco de trás e me mandou assumir o posto de copiloto.
Quando eu estava dando a volta no carro, notei Lyle perto do carrinho de golfe. Embora conversasse com um homem que recolhia as primeiras folhas secas do outono, ele nos observava.
— Vou só deixar as duas em casa — explicou Davis a Lyle.
— Se cuida, chefe.
— Tem sempre alguém de olho em mim o tempo todo — reclamou Davis, já com as portas do carro fechadas. — É exaustivo.
— Sinto muito — falei.
Ele parecia prestes a dizer alguma coisa, mas hesitou. Um instante depois, continuou:
— É como se… Sabe quando a gente é criança e anda pela escola e tem a impressão de que está todo mundo olhando para a gente e fofocando? A sensação é a mesma, com a diferença de que as pessoas realmente ficam me olhando e cochichando.
— Talvez achem que você sabe onde seu pai está — opinou Daisy.
— Mas eu não sei. Nem quero saber — disse ele com firmeza, sem vacilar.
— Por que não? — perguntou ela.
Eu estava olhando para Davis quando ele respondeu, e notei que algo estranho cruzou seu rosto, mas logo sumiu.
— A essa altura, o melhor que meu pai pode fazer por Noah e por mim é ficar longe. Nem faria muita diferença, já que ele nunca tomou conta da gente mesmo.

* * *

Embora apenas o rio separasse a casa de Davis da minha, o trajeto levou dez minutos de carro por um caminho sinuoso, porque havia apenas uma ponte no meu bairro. Seguimos em silêncio, exceto por uma ou outra orientação que precisei dar. Quando finalmente paramos em frente à minha casa, pedi o celular de Davis e passei meu número. Daisy saiu sem se despedir, e eu já ia fazer o mesmo, mas, quando devolvi o aparelho, ele segurou minha mão direita e a virou com a palma para cima.
— Eu me lembro disso — disse ele, e segui seu olhar até o band-aid na ponta do meu dedo.
Puxei a mão de volta e fechei os dedos com força.
— Dói? — perguntou ele.
Por algum motivo que não consigo explicar, decidi contar a verdade.
— Se dói ou não, é meio irrelevante.
— É um belo lema de vida.
Sorri.
— É. Sei lá. Bem, tenho que ir.
Saí do carro e, um segundo antes de eu fechar a porta, ele disse:
— Foi bom te ver, Aza.
— Foi bom te ver também.

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