20 de novembro de 2018

Capítulo Onze

No dia seguinte, de manhã, eu estava assistindo a vídeos no celular quando recebi a ligação.
— Alô? — falei.
— Aza Holmes?
— É ela.
— Aqui é Simon Morris. Acredito que você conheça Davis Pickett.
— Só um minuto.
Calcei os sapatos, passei discretamente pela minha mãe, que estava na sala corrigindo provas diante da TV ligada, e saí para o quintal. Fui até o ponto mais distante e me sentei de frente para a casa.
— Oi, pode falar.
— Pelo que me consta, você recebeu um presente do Davis.
— Isso mesmo — respondi. — Eu dividi com uma amiga, tem problema?
— Suas decisões financeiras pessoais não estão em questão. Srta. Holmes, talvez não seja de seu conhecimento que, se um adolescente entra em um banco com uma grande quantidade de notas de cem dólares, acaba levantando suspeitas, por isso eu falei com um de nossos gerentes no banco Second Chance de Indianápolis e acertei tudo para que aceitem seu depósito. Marquei um horário para você às três e quinze da tarde na próxima segunda-feira, na agência da rua 86 com a College. Acredito que suas aulas terminem às duas e cinquenta e cinco, então há tempo suficiente para chegar lá.
— Como é que o senhor sabe o…
— Sou meticuloso.
— Posso fazer uma pergunta?
— Já fez — respondeu ele, seco.
— O senhor está cuidando dos negócios do sr. Pickett enquanto ele está fora?
— Correto.
— E se o sr. Pickett aparecer em algum lugar…
— Nesse caso, as tristezas e as alegrias da sua vida voltarão a pertencer apenas a ele. Até lá, algumas delas recaem sobre mim. Pode ir direto ao ponto?
— Estou um pouco preocupada com Noah.
— Preocupada?
— Ele parece muito triste e não tem ninguém com quem contar de verdade. Será que não tem algum familiar que possa ajudá-lo?
— Nenhum com quem os Pickett tenham um bom relacionamento. Davis é menor emancipado e guardião legal do irmão.
— Não estou me referindo a um guardião legal. Estou falando de alguém que, enfim, dê apoio de verdade a ele. Davis não é pai. E eles não podem ficar sozinhos para sempre, certo? E se o pai deles tiver morrido, sei lá?
— Srta. Holmes, a morte legal não é o mesmo que a morte física. Acredito que Russell esteja tanto legal quanto fisicamente vivo, mas sei que ele está legalmente vivo porque as leis do nosso estado consideram um indivíduo vivo até que surja alguma evidência biológica de sua morte, ou até que se passem sete anos da última evidência de vida. Portanto, a questão legal…
— Não estou falando da questão legal — interrompi. — Eu só quero saber quem vai tomar conta do Noah.
— Posso esclarecer apenas os aspectos legais. E a resposta legal é que eu trato dos assuntos financeiros, uma administradora cuida da propriedade e Davis é o guardião legal do irmão. Sua preocupação é louvável, srta. Holmes, mas garanto que tudo está legalmente assistido. Três e quinze da tarde, amanhã. Você deve procurar a gerente Josephine Jackson. Mais alguma pergunta pertinente à sua situação?
— Acho que não.
— Bem, você tem meu número — concluiu ele. — Tenha um bom dia, srta. Holmes.

* * *

No dia seguinte, tudo ia bem até que as aulas acabaram e Daisy e eu nos pusemos a caminho do banco. Enquanto eu dirigia, ela contava que sua história mais recente tinha viralizado no universo de fanfics de Star Wars e que ela estava recebendo uma enxurrada de elogios e que passara a noite em claro fazendo o trabalho sobre A letra escarlate para a escola e que talvez finalmente conseguisse botar o sono em dia agora que estava se “aposentando” do Chuck E. Cheese’s, e até aí tudo certo. Eu me sentia perfeitamente normal, sem demônios me obrigando a ter pensamentos horríveis, e comecei a pensar coisas tipo Estou bem melhor esta semana. Talvez o remédio esteja mesmo ajudando, quando do nada surgiu na minha mente: O remédio está deixando você negligente. Até se esqueceu de trocar o band-aid hoje cedo.
Eu tinha quase certeza de que trocara, sim, o band-aid, logo depois de acordar, pouco antes de escovar os dentes, mas a dúvida era insistente. Acho que você não trocou. Acho que esse ainda é o band-aid de ontem. Esse não é o band-aid de ontem, porque eu troquei na hora do almoço, com certeza. Trocou mesmo? Acho que sim. Ah, você ACHA que sim? Tenho quase certeza. E o machucado está aberto. Era verdade. Ainda não tinha criado casquinha. E você ficou com o mesmo band-aid por… meu Deus, trinta e sete horas! A essa altura, aposto que está infeccionando embaixo desse curativo velho, quente e molhado.
Olhei para o band-aid. Parecia novo. Você não trocou. Acho que troquei, sim. Tem certeza? Não, mas é um progresso e tanto eu não estar conferindo a cada cinco minutos. Ah, é, progredindo para uma infecção. Vou trocar quando chegar ao banco. Provavelmente já é tarde demais. Isso é ridículo. Depois que a infecção atinge a corrente sanguínea… Para isso não faz sentido não está nem vermelho ou inchado. Você sabe que não precisa inchar nem… Por favor para eu vou trocar o curativo no banco… VOCÊ SABE QUE EU ESTOU CERTA.
— Eu fui ao banheiro antes do almoço? — perguntei, baixinho, a Daisy.
— Sei lá. Hum… Você chegou à mesa depois da gente, então acho que sim.
— Mas não comentei nada?
— Não, você não disse: “Saudações, colegas de mesa. Acabo de voltar do banheiro.”
Senti a tensão do conflito entre a necessidade urgente de estacionar para trocar logo o band-aid e a certeza de que Daisy estava me achando louca. Tentei me convencer de que estava tudo bem, de que aquilo era só um defeito no meu cérebro, que pensamentos são só pensamentos, mas quando desviei o olhar para o band-aid de novo, vi que estava manchado. Era nítido. Sangue. Ou pus. Alguma coisa.
Parei no estacionamento de uma ótica. Tirei o band-aid e examinei o machucado: estava vermelho nas bordas, o band-aid manchado de sangue seco. Como se não fosse trocado havia um tempo.
— Holmes, eu tenho certeza de que você foi ao banheiro. Você sempre vai ao banheiro.
— Não importa, está infeccionado.
— Não está infeccionado nada.
— Está vendo aqui, tudo vermelho? — argumentei, apontando para a pele inflamada ao redor do corte. — É infecção. Isso é sério.
Eu raramente deixava que alguém visse meu dedo sem o band-aid, mas queria que Daisy compreendesse. Aquela não era como as outras vezes. Não era uma preocupação irracional, porque sangue seco era incomum, mesmo quando o calo estava totalmente aberto. Era sinal de que o band-aid tinha ficado tempo demais ali. Aquilo não era normal. Por outro lado, todas as vezes pareciam diferentes, não? Não. Daquela vez parecia diferente dos outros diferentes. Havia sinais claros de infecção.
— Seu dedo está igualzinho a todas as outras vezes em que você se preocupou com ele.
Joguei um pouco de gel antisséptico no corte, senti a forte ardência, abri um novo band-aid e o coloquei no dedo. Continuei parada ali por um tempo, envergonhada, desejando estar sozinha, mas também apavorada. Não conseguia tirar da cabeça a vermelhidão e o inchaço, a resposta da minha pele à invasão das bactérias parasitas. Eu me odiava. Odiava tudo aquilo.
— Ei — chamou Daisy, colocando a mão no meu joelho. — Ei. Não deixe a Aza ser cruel com a Holmes, tá bem?
Daquela vez era diferente. Como a ardência do antisséptico já tinha passado, as bactérias haviam voltado a se reproduzir, penetrando na minha carne até atingir a corrente sanguínea. Por que eu tinha aberto aquele corte, aliás? Por que não deixei quieto? Por que manter um ferimento aberto o tempo todo, e logo no dedo? As mãos são as partes mais sujas do corpo. Por que não beliscar o lóbulo da orelha, ou a barriga, ou o tornozelo? Eu acabaria morrendo de septicemia por insistir num ritual infantil idiota que nunca tinha sequer me provado o que eu queria, porque afinal era algo impossível de saber, pois não há como ter certeza de nada.
Você vai se sentir melhor se colocar mais um pouco de antisséptico. Só mais duas vezes. O relógio marcava 15h12. Tínhamos que chegar logo ao banco. Tirei o curativo, apliquei o antisséptico, coloquei um band-aid novo. 15h13.
— Quer que eu dirija? — ofereceu Daisy.
Recusei. Liguei Harold. Engatei a ré. Puxei o freio de mão.
Tirei o band-aid, coloquei mais gel antisséptico. Ardeu menos dessa vez.
Talvez fosse sinal de que as bactérias já estavam quase mortas. Ou talvez já tivessem penetrado no sangue. Mais uma olhada, só mais uma vez. O inchaço parecia estar melhorando? Só se passaram oito minutos, é cedo demais para dizer. Pare. 15h15.
— Holmes. Precisamos ir. Eu posso dirigir.
Recusei novamente, dei a ré no carro e dessa vez consegui sair do estacionamento.
— Eu queria conseguir entender o que acontece — disse Daisy. — Por exemplo, o que é melhor: tranquilizar você ou me preocupar junto? Tem alguma coisa que eu possa fazer?
— Infeccionou — sussurrei. — E eu fiz isso comigo mesma. É sempre assim. Eu abri o corte e agora está infeccionado.
Eu era o peixe, infectado por um parasita, nadando próximo à superfície, querendo ser devorada.

* * *

Quando finalmente chegamos ao banco, fiquei atrás de Daisy enquanto ela se apresentava a um caixa e éramos conduzidas até um escritório reservado, com paredes de vidro, onde uma mulher magra de terninho preto colocou nosso dinheiro numa máquina para contar as notas. Preenchemos um monte de formulários e pronto: cada uma tinha sua conta bancária novinha, com direito a cartões, que chegariam em uns sete dias. A mulher nos deu cinco folhas de cheque provisórias, até que o talão ficasse pronto, e nos recomendou não fazer nenhuma compra grande por pelo menos seis meses, “enquanto vocês se acostumam com esse golpe de sorte”. Começou a nos mostrar também como poderíamos aplicar o dinheiro — contas de capitalização para a universidade, fundos mútuos, títulos, ações —, e eu estava tentando prestar atenção, mas o problema era que eu não estava realmente no banco. Estava dentro da minha cabeça, os pensamentos gritando e girando, me acusando de ter selado meu destino ao não trocar o band-aid por mais de um dia, e agora era tarde demais, agora eu já sentia a ponta do dedo quente e dolorida, e a gente sabe que algo está acontecendo de verdade quando há sinais físicos, porque os sentidos não mentem. Ou mentem? Aconteceu, pensei, o sujeito da frase indeterminado porque era vasto e aterrorizante demais para ser nomeado.

* * *

Fui levar Daisy em casa, e durante todo o caminho eu esquecia por que estava parada no sinal, começava a apertar o acelerador apenas para olhar para cima e me dar conta de que, ah, claro. Está vermelho.
A gente ouve muito falar sobre as vantagens da insanidade — a própria dra. Singh citou para mim uma frase de Edgar Allan Poe que dizia: “A ciência ainda não nos provou se a loucura é ou não o mais sublime da inteligência.” Acredito que ela estava tentando fazer com que eu me sentisse melhor, mas, ao meu ver, transtornos mentais são muito superestimados. A loucura, na minha experiência assumidamente limitada, não vem acompanhada de superpoderes. Não estar mentalmente saudável não torna uma pessoa portadora de uma inteligência sublime, do mesmo modo que uma gripe não o faz. Sei que era para eu ser uma detetive brilhante, mas na verdade sou uma das pessoas menos observadoras que conheço. Quando deixei Daisy em frente a seu prédio, eu já perdera todo o contato com a realidade à minha volta, e continuou assim até eu chegar em casa.
Corri para o banheiro na mesma hora, para examinar a ferida. O inchaço parecia ter diminuído. Talvez. Talvez a luz no banheiro não me permitisse ver direito. Lavei com água e sabonete, sequei dando batidinhas suaves, apliquei antisséptico e coloquei um novo band-aid. Também tomei a bolinha branca e, alguns minutos depois, um comprimido comprido reservado para quando eu tivesse crises de pânico.
Deixei a leve doçura do comprimido dissolver na língua e esperei fazer efeito. Eu tinha certeza de que ia morrer, e é claro que estava certa: vamos todos morrer um dia, só não temos como saber se esse dia é hoje.
Depois de um tempo, minha cabeça começou a pesar, e me sentei no sofá diante da TV. Não tive energia para ligar o aparelho, por isso fiquei só encarando a tela preta.
O comprimido comprido me deixou toda mole e zonza, mas só do nariz para cima. Meu corpo parecia igual, quebrado e insuficiente como sempre, mas meu cérebro parecia ao mesmo tempo relaxado e exausto, como um corredor de pernas bambas depois de uma maratona. Minha mãe chegou e afundou no sofá ao meu lado.
— Que dia — disse ela. — Os alunos não são o problema, Aza. São os pais que dificultam meu trabalho.
— Que droga — comentei.
— Como foi seu dia?
— Bom — respondi. — Eu estou com febre?
Ela levou a mão à minha testa.
— Acho que não. Está se sentindo mal?
— Só cansada, acho.
Minha mãe ligou a TV, e eu me retirei avisando que ia me deitar e fazer o dever de casa.

* * *

Li um pouco da matéria de história, mas minha consciência parecia uma câmera com as lentes sujas. Resolvi mandar uma mensagem para Davis.
Eu: Oi.
Ele: Oi.
Eu: Tudo bem?
Ele: Tudo. E você?
Eu: Também.
Ele: Vamos continuar esse silêncio constrangedor pessoalmente. Que tal?
Eu: Quando?
Ele: Vai ter uma chuva de meteoros na quinta à noite. Vai ser das boas, se não estiver nublado.
Eu: Legal. A gente se vê, então. Tenho que ir, minha mãe está aqui.
Na verdade, ela só havia espiado pela porta.
— O que foi? — perguntei.
— Quer preparar o jantar comigo?
— Preciso estudar.
Ela entrou e se sentou na beirada da cama.
— Está com medo? — perguntou.
— Mais ou menos.
— De quê?
— Não é assim. A frase não é… Não tem um objeto. Estou com medo, ponto.
— Não sei o que dizer, Aza. Eu vejo no seu rosto que você está sofrendo e queria poder livrá-la desse sofrimento.
Eu odiava deixar minha mãe triste. Odiava fazê-la se sentir impotente. Odiava. Ela começou a fazer carinho no meu cabelo.
— Está tudo bem — disse minha mãe. — Vai ficar tudo bem. Estou aqui com você. Vou estar sempre aqui. — Senti meu corpo enrijecer um pouco enquanto ela continuava brincando com meu cabelo. — Talvez você só precise descansar um pouco.
Era a mesma mentira que eu tinha contado a Noah.

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