20 de novembro de 2018

Capítulo Oito

Daisy já estava perto da minha vaga quando cheguei com Harold à escola no dia seguinte. O verão é curto em Indianápolis, e, embora ainda fosse setembro, ela usava roupas leves demais para o clima daquela manhã: saia com blusa de manga curta.
— Estou enfrentando uma crise — anunciou Daisy assim que saí do carro. Enquanto atravessávamos o estacionamento, ela explicou: — Então, ontem à noite, Mychal me ligou e me chamou para sair. Eu teria me safado se tivesse sido por mensagem, mas você sabe como eu fico nervosa falando no telefone. Sem contar que ainda estou com medo de ele não lidar bem com tudo… isso — disse, apontando vagamente para si mesma. — Estou disposta a dar uma chance ao bebê gigante. Acontece que, num momento de desespero, como eu não queria me comprometer com um encontro de verdade, talvez eu tenha sugerido que a gente chamasse você e Davis para irem junto.
— Não acredito que você fez isso.
— Aí ele disse: “A Aza falou que não quer namorar”, e eu falei: “Ah, mas é porque ela gosta de um cara da Aspen Hall”, e ele falou: “O riquinho?”, e eu: “É”, aí ele disse: “Não acredito que fui rejeitado por engano e ainda por cima com uma desculpa falsa.” Mas enfim, o fato é que sexta à noite você e eu e Davis e o bebê adulto vamos fazer um piquenique.
— Um piquenique?
— É, vai ser incrível.
— Não gosto dessa história de comer ao ar livre. Não podemos ir ao Applebee’s? É só usar dois cupons.
Daisy parou e se virou para mim. Estávamos nos degraus da entrada, com um monte de gente passando em volta, e fiquei com medo de sermos pisoteadas, mas minha amiga tinha o dom de partir as águas dos mares: as pessoas abriam espaço para ela.
— Vou contar a lista das minhas preocupações, tá bom? — anunciou Daisy. — Número um: não quero ficar sozinha com Mychal no nosso primeiro e provavelmente último encontro. Dois: já falei para ele que você gosta de um cara da Aspen Hall, agora já era. Três: a verdade é que eu não dou uns beijos num ser humano há meses. Quatro: consequentemente, estou nervosa com essa história toda e quero minha melhor amiga do meu lado para me dar uma força. Como você deve ter percebido, nenhuma das minhas quatro maiores preocupações é a dúvida se faço um piquenique ou não, então, se você quiser transferir essa joça para o Applebee’s, está totalmente ok para mim.
Pensei por um instante.
— Vou tentar — falei.
Mandei uma mensagem para Davis enquanto esperava que o segundo sinal para a aula de biologia tocasse.
Eu: Vou com uns amigos no Applebee’s da 86 com a Ditch na sexta. Tá a fim?
Ele respondeu na hora:
Ele: Sim. Busco você ou a gente se encontra lá?
Eu: A gente se encontra lá. Às sete tá bom?
Ele: Claro. Até lá.

* * *

Depois da escola, eu tinha uma consulta com a dra. Singh em seu consultório sem janelas no imenso North Hospital da Universidade de Indiana, em Carmel. Minha mãe se ofereceu para me levar, mas eu queria passar um tempo sozinha com Harold.
Durante todo o caminho até o consultório, pensei no que diria a minha médica. Como não consigo pensar enquanto ouço rádio, segui em silêncio a não ser pelo ronco ritmado do coração mecânico de Harold. Eu queria dizer a ela que estava melhorando, porque essa é a narrativa esperada quando se trata de doenças: um obstáculo que você superou, uma batalha que venceu. Doença é uma história contada no pretérito.
— Como você está? — perguntou a dra. Singh assim que me sentei.
As paredes do consultório eram nuas exceto por uma pequena foto de um pescador de pé numa praia, com uma rede jogada no ombro. Parecia uma fotografia genérica de banco de imagens, ou daquelas que já vêm no porta-retratos.
Não tinha nem diplomas pendurados.
— Tenho a sensação de que não sou o motorista do ônibus da minha consciência.
— Você não está no controle — traduziu ela.
— Acho que não.
Ela estava sentada com as pernas cruzadas e o pé esquerdo batendo no chão, uma espécie de pedido de socorro em código Morse. A dra. Karen Singh estava sempre se mexendo, como aqueles desenhos animados antigos, mas no rosto conseguia manter uma ausência de expressão como eu nunca vi igual. Nunca deixava transparecer desprezo nem surpresa. Lembro que quando contei a ela que às vezes me imaginava arrancando o dedo médio e pisando nele mil vezes, ela só disse: “É porque o lócus do seu sofrimento está nele”, e eu respondi: “Talvez”, e ela completou: “Isso não é incomum.”
— A ruminação ou os pensamentos intrusivos ganharam força?
— Não sei. Eles não pararam.
— Quando foi a última vez que você trocou o band-aid?
— Não sei — menti.
Ela só continuou me encarando, sem nem piscar.
— Depois do almoço.
— Ainda com medo da C. diff?
— Sei lá. Às vezes acontece.
— Você se sente capaz de resistir a…
— Não — interrompi. — Ainda sou maluca, se é essa a sua dúvida. Tudo na mesma em matéria de maluquice.
— Percebi que você usa muito essa palavra, “maluca”. E parece zangada quando diz, quase como se estivesse xingando a si mesma.
— Ah, hoje em dia todo mundo é maluco. Sanidade adolescente é tão século XX.
— Me parece que você está sendo cruel consigo mesma.
Fiquei um instante em silêncio.
— Como posso ser cruel comigo mesma? Se eu posso fazer algo comigo mesma, então eu não sou realmente… uma só.
— Você está fugindo do assunto. Tem razão ao dizer que o conceito de indivíduo não é simples, Aza. Talvez não seja mesmo uma só. Cada ser é uma pluralidade, mas pluralidades também podem se integrar, certo? Pense em um arco-íris. É um mesmo arco de luz, mas ao mesmo tempo são também sete arcos de luz de cores diferentes.
— Tá, então eu me sinto mais como sete coisas do que como uma coisa só.
— Você sente que seus padrões de pensamento estão atrapalhando seu dia a dia?
— Hã… Claro que sim — respondi.
— Pode me dar um exemplo?
— Ah, sei lá, tipo… Eu estou no refeitório e começo a pensar que tem um monte de organismos morando dentro de mim e comendo a minha comida por mim, e que eu meio que sou esses organismos, de certa forma… Então eu sou um ser humano tanto quanto sou esse aglomerado nojento de bactérias, e na verdade não tem nada que possa me deixar totalmente limpa, sabe? Porque a sujeira está impregnada no meu corpo inteiro. Não consigo encontrar em mim nenhuma parte, nem a mais profunda, que seja pura, ou intacta, a parte onde supostamente está minha alma. O que significa que as chances de eu ter uma alma são as mesmas que as de uma bactéria.
— Isso não é incomum. — Essa era a frase preferida dela.
A dra. Singh então quis saber se eu estaria disposta a tentar mais uma vez o tipo de terapia cognitivo-comportamental que tínhamos experimentado no início do tratamento. Basicamente, eu tinha que fazer coisas como encostar o dedo médio numa superfície suja e depois tentar não limpar nem trocar o band-aid. O tratamento até tinha me ajudado por um tempo, mas naquele momento eu só conseguia me lembrar do medo que sentia durante as sessões e não suportava a ideia de voltar a passar por todo aquele sofrimento, então rejeitei a proposta de cara.
— Está tomando o Lexapro? — perguntou ela.
— Sim.
A dra. Singh ficou em silêncio.
— Eu fico com um pouco de medo de tomar o remédio, então não tomo todo dia.
— Com medo?
— É. Não sei explicar.
Ela continuou me olhando, ainda batendo o pé. O ar dentro da sala parecia morto.
— Se um remédio deixa a pessoa tão diferente, se a transforma tão profundamente… É uma ideia meio bizarra, entende? Quem está decidindo o que eu sou: eu mesma ou os funcionários do laboratório que produz o Lexapro? É como se tivesse um demônio dentro de mim, e eu quero muito que ele vá embora, mas a ideia de expulsá-lo com remédios é… não sei… esquisita. Mas tem muitos dias em que supero isso e tomo mesmo assim, porque realmente odeio o demônio.
— Você com frequência usa metáforas para tentar compreender suas experiências, Aza. É um demônio morando dentro de você, sua consciência é um ônibus, ou uma prisão, ou uma espiral, ou um redemoinho, ou um looping, ou um… Acho que uma vez você se referiu a um círculo todo rabiscado. Achei interessante.
— Sim — confirmei.
— Um dos desafios da dor, seja física ou psíquica, é que só podemos nos aproximar dela através de metáforas. Não temos como representá-la como fazemos com uma mesa ou um corpo. De certo modo, a dor é o oposto da linguagem.
A dra. Singh se virou para o computador, mexeu no mouse para tirar o monitor do modo de espera e clicou em uma imagem.
— Quero ler para você algo que Virginia Woolf escreveu: “O inglês, capaz de expressar os pensamentos de Hamlet e a tragédia de Lear, não tem palavras para o calafrio e a dor de cabeça… Uma simples colegial, quando se apaixona, tem Shakespeare ou Keats para expressar o sentimento em seu lugar, mas deixem um sofredor tentar descrever uma dor de cabeça a um médico e a língua logo se torna árida.” O ser humano é tão dependente da linguagem que, até certo ponto, não conseguimos entender o que não podemos nomear. Por isso presumimos que as coisas sem nome não são reais. Usamos termos genéricos, como maluco ou dor crônica, termos que ao mesmo tempo marginalizam e minimizam. Dor crônica não exprime a dor inescapável, persistente, constante, opressiva. E o termo maluco chega até nós sem nem um pingo do terror e da preocupação que dominam você. E nenhum dos dois transmite a coragem das pessoas que enfrentam esse tipo de dor, e é por isso que eu encorajaria você a enquadrar sua condição mental numa palavra que não maluca.
— Tudo bem.
— Você consegue dizer isso? Consegue dizer que é corajosa?
Fiz cara feia diante da sugestão.
— Não me obrigue a apelar para essas coisas de autoajuda.
— Essas coisas ajudam.
— Sou uma corajosa guerreira em meu Valhala interior — falei, com desdém.
Ela quase sorriu.
— Vamos pensar em alguma forma de você tomar a medicação todos os dias.
A dra. Singh começou a explicar as diferenças entre tomar pela manhã ou à noite, falou que poderíamos tentar também uma medicação diferente, mas que talvez fosse melhor fazer isso durante um período de menos estresse, como as férias, e por aí foi.
No meio disso tudo, senti uma pontada no estômago. Provavelmente era apenas nervosismo por ouvir informações sobre dosagens, mas eu não pude ignorar que esse é o primeiro sintoma da infecção pela C. diff: o estômago dói porque algumas poucas bactérias nocivas se reproduziram no intestino delgado, então o órgão se rompe e em questão de setenta e duas horas a pessoa está morta.
Eu precisava reler aquele estudo de caso da mulher que não teve nenhum sintoma além de dor de estômago. Só que não posso pegar o celular no meio da consulta, seria desrespeitoso, mas será que aquela mulher não teve mesmo nenhum outro sintoma, ou eu estou sentindo exatamente as mesmas coisas que ela? Mais uma pontada. Ela teve febre? Eu não lembrava. Merda. Você foi infectada. Está suando. A dra. Singh saberia te examinar. Será que vale a pena contar? Ela é médica. Talvez seja melhor contar.
— Estou com um pouco de dor no estômago — falei.
— Você não está infectada — respondeu ela.
Assenti e engoli em seco. Em seguida, retruquei, baixinho:
— A senhora não sabe se estou ou não.
— Aza, você está com diarreia?
— Não.
— Tomou antibiótico recentemente?
— Não.
— Foi hospitalizada recentemente?
— Não.
— Você não tem a C. diff.
Aceitei, mas a dra. Singh não era gastroenterologista, e eu realmente sabia mais sobre a C. diff do que ela. Quase trinta por cento das vítimas fatais não tiveram contato com a bactéria em ambiente hospitalar e quase vinte por cento não tiveram diarreia. A dra. Singh voltou a falar sobre a medicação, enquanto eu só escutava em parte, porque comecei a achar que ia vomitar. A dor era real, como se meu estômago estivesse se contorcendo, como se os trilhões de microorganismos dentro de mim estivessem abrindo espaço para a nova espécie que surgira por ali, aquela que me rasgaria de dentro para fora.
Eu suava. Se apenas eu confirmasse aquele estudo de caso… Então ela percebeu o que estava acontecendo.
— Que tal tentar um exercício de respiração?
E foi o que fizemos, inspirando fundo, depois exalando como se quiséssemos fazer a chama de uma vela tremular, sem apagá-la.
Fiquei de voltar dali a dez dias. Era um bom indício do meu nível de maluquice o período de tempo que a médica julgava seguro me deixar livre até a consulta seguinte. No ano anterior, por alguns meses, a dra. Singh queria me ver a cada oito semanas. Agora eram menos de duas.
No caminho até Harold, procurei o relatório do caso. Aquela mulher teve febre, sim. Falei para mim mesma que podia ficar aliviada, e acho até que consegui, mas quando cheguei em casa o sussurro já estava recomeçando, me dizendo que com certeza havia algo errado com o meu estômago, já que a dor não passava.
Penso: Você nunca vai se livrar disso.
Penso: Você não controla seus pensamentos.
Penso: Você está morrendo, e dentro de você tem bichos que vão comer seu corpo até irromperem pela pele.
Eu penso e penso e penso.

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