20 de novembro de 2018

Capítulo Nove


Mas eu ainda tinha uma vida — uma existência mais ou menos normal —, que seguia seu curso. Os pensamentos me deixavam em paz por algumas horas ou dias, e eu me lembrava da minha mãe dizendo certa vez: o agora não é o sempre.
Eu ia ao colégio, tirava boas notas, fazia meus trabalhos, conversava com minha mãe depois do almoço, jantava, via TV, lia. Não estava o tempo todo presa dentro de mim, ou dentro dos meus muitos eus. Eu não era maluca.
No dia do encontro, cheguei em casa quase à noite e levei duas horas inteiras para me arrumar. Era fim de setembro, meados do outono, e o céu estava sem nuvens. O friozinho justificava um casaco, mas também permitia um vestido de mangas compridas com meia-calça. Por outro lado, a segunda opção deixaria óbvio que eu não estava encarando o evento como algo tão casual, e Daisy não ajudou em nada ao responder à minha mensagem dizendo que iria com um vestido longo de gala; não entendi se era brincadeira ou não.
Acabei usando minha calça jeans preferida, um casaco básico e uma camiseta lilás com estampa do Han Solo e do Chewbacca num abraço apertado. Presente de Daisy.
Depois fiquei meia hora passando e tirando maquiagem. Não sou muito fã dessas coisas, mas eu estava nervosa, e às vezes a maquiagem serve como armadura.
— Você passou delineador? — perguntou minha mãe quando saí do quarto. Ela estava organizando algumas contas, com papéis espalhados pela mesa de centro. A caneta em uma das mãos pairava acima do talão de cheques.
— Um pouquinho — falei. — Por quê? Está esquisito?
— Só diferente — respondeu ela, sem conseguir disfarçar a desaprovação. — Aonde você vai?
— Ao Applebee’s, com Daisy, Davis e Mychal. Volto antes da meia-noite.
— É um encontro?
— É um jantar — respondi.
— Você está namorando Davis Pickett?
— Vamos jantar no mesmo restaurante, ao mesmo tempo. Não é exatamente um casamento.
Minha mãe indicou o lugar ao lado dela no sofá.
— Preciso estar lá às sete — falei.
Ela insistiu, então eu me sentei, e ela me abraçou.
— Você não conversa muito com a sua mãe.
A dra. Singh me disse uma vez que se colocarmos na mesma sala uma guitarra perfeitamente afinada e um violino perfeitamente afinado e tocarmos a corda ré da guitarra, a corda ré do violino vai vibrar junto, do outro lado do cômodo. Eu sempre sentia quando alguma nota vibrava na minha mãe.
— Não converso muito com ninguém.
— Quero que você tenha cuidado com esse Davis, tudo bem? O dinheiro é negligente, temos que ser sempre prevenidos perto dele.
— Davis não é dinheiro. É uma pessoa.
— As pessoas também podem ser negligentes. — Ela me abraçou com tanta força que senti meus pulmões se esvaziando. — Tome cuidado.

* * *

Fui a última a chegar, e só tinha lugar ao lado de Mychal, de frente para Davis, que usava uma camisa xadrez sem um único amassado, os antebraços expostos pelas mangas dobradas até o cotovelo. Não sei bem por quê, mas sempre senti uma atração especial pelo antebraço masculino.
— Legal sua camisa — comentou Davis.
— Daisy que me deu, de aniversário.
— Falando nisso, sabia que algumas pessoas acham que um Wookiee amar um ser humano é bestialidade? — comentou Daisy.
Mychal suspirou.
— Lá vai ela com aquela história de “Wookiees são pessoas”. Já estava demorando.
— Mas isso é o mais fascinante do universo de Star Wars! — exclamou Davis.
— Ai, meu Senhor… — gemeu Mychal. — Vai começar…
Daisy imediatamente se lançou em defesa do amor interespécie.
— Você sabia que, num trecho de Star Wars Apocrypha, Han Solo chegou a ser casado com uma Wookiee? Por acaso alguém deu chilique por causa disso?
Davis estava inclinado para a frente, atento. Ele era menor que Mychal, mas ocupava mais espaço — seus braços compridos e desengonçados dominavam a mesa como um exército domina um território.
Davis e Daisy lançaram-se numa discussão entusiasmada sobre a desumanização do Exército dos Clones, e Mychal se intrometeu para explicar que Daisy era uma escritora de fanfic de Star Wars mais ou menos famosa.
Davis procurou o nome de usuário dela no celular e ficou impressionado com as duas mil visualizações da sua história mais recente, e depois os três morreram de rir de alguma piada de Star Wars que eu não entendi direito.
— Água para todos, por favor — pediu Daisy, quando Holly se aproximou.
— Aqui não tem Dr Pepper? — perguntou ele, olhando para mim.
— O cupom não inclui refrigerantes — explicou Holly, em um tom apático. — E não trabalhamos com Dr Pepper. Só Pepsi.
— Bom, acho que podemos nos permitir uma rodada de Pepsi — respondeu Davis.
Percebi, no silêncio que se seguiu, que eu não havia falado nada desde que respondera ao elogio de Davis sobre minha blusa. Ele, Daisy e Mychal acabaram retomando a conversa sobre Star Wars, o tamanho do universo e viagens mais rápidas que a luz.
Star Wars é a religião oficial dos Estados Unidos”, ouvi Davis dizer em algum momento, ao que Mychal retrucou: “Eu acho que religião é a religião oficial dos Estados Unidos.” Embora eu risse com eles, tinha a sensação de estar observando tudo de algum outro lugar, assistindo a um filme sobre a minha vida, e não vivendo de fato.
Quando ouvi meu nome, voltei de repente ao meu corpo, sentada ali no Applebee’s, as costas apoiadas no banco acolchoado de vinil verde, o cheiro de fritura, o burburinho das conversas me cercando.
— Holmes tem Facebook também — dizia Daisy —, mas não deve postar nada desde os dez anos. — Ela me lançou um olhar que não consegui interpretar muito bem e continuou: — Holmes é quase minha vó quando se trata de internet. — Outra pausa. — Não é? — acrescentou, com intensidade, e só então me dei conta de que ela estava tentando a todo custo me incluir na conversa.
— Eu uso internet, só não sinto necessidade de, sei lá, contribuir com ela.
— É verdade, parece que já tem informação demais on-line — concedeu Davis.
— Pelo contrário — retrucou Daisy. — Por exemplo, tem pouquíssimas histórias românticas de qualidade sobre o Chewbacca, mas eu sou uma só, existe um limite para a minha produtividade. O mundo precisa que Holmes também entre nessa empreitada.
Houve uma breve pausa na conversa. A tensão fazia meus braços pinicarem, e o suor ameaçava vir com tudo a qualquer segundo. Até que eles retomaram a conversa, os assuntos indo de um lado para o outro, os três contando histórias, falando todos ao mesmo tempo, rindo. Tentei sorrir e assentir nas horas certas, mas estava sempre uma fração de segundo atrasada. Eles riam porque achavam graça em alguma coisa; eu ria porque eles riam.
Eu não estava com fome. Fiquei comendo meu hambúrguer vegetariano em pedacinhos minúsculos, para dar a impressão de que estava comendo normalmente, mas meu estômago não aguentaria aquela comida toda. A conversa diminuiu enquanto comíamos, e, por fim, Holly apareceu com a conta.
Fui a primeira a pegar a nota, mas Davis colocou a mão sobre a minha, me impedindo.
— Por favor — disse ele. — Faço questão.
Deixei que ele pagasse.
— E aí? O que vamos fazer agora? — perguntou Daisy, animada. Eu já estava pronta para ir embora, comer alguma coisa sozinha no silêncio do meu quarto e dormir. — Que tal irmos ao cinema?
— Podemos ir para a minha casa — sugeriu Davis. — A gente recebe todos os filmes.
Mychal ficou intrigado.
— Como assim, vocês “recebem todos os filmes”?
— Recebemos todos os filmes que saem nos cinemas. Temos uma sala de exibição… A gente compra, sei lá. Na verdade, não sei como funciona.
— Você está dizendo que, quando um filme chega aos cinemas… você recebe também na sua casa?
— Isso mesmo. Quando eu era pequeno, tínhamos que chamar um operador para mexer no projetor, mas agora é tudo digital.
— Tipo… dentro da sua casa? — insistiu Mychal, ainda sem entender.
— Isso. Vou mostrar para vocês.
Daisy olhou para mim.
— Você topa, Holmes?
Contraí o rosto num sorriso e concordei.

* * *

Fui com Harold, enquanto Daisy seguiu com Mychal na minivan dos pais dele e Davis foi com seu carro na frente. Nossa pequena caravana pegou a rua 86 até a Michigan Road, passou pelo Walmart, pelas lojas de penhores e pelos escritórios que ofereciam empréstimo consignado até chegar ao portão majestoso da mansão dos Pickett, bem em frente ao museu de arte. A área não chegava a ser um bairro chique, mas a propriedade gigantesca constituía, por si só, praticamente um bairro todo.
O portão se abriu, e seguimos Davis até o estacionamento, ao lado da casa envidraçada. O visual era ainda mais incrível à noite. Pelas paredes, via-se toda a cozinha mergulhada na luz dourada.
Mychal correu até mim quando saí do Harold.
— Você sabia que… Minha nossa, sempre quis conhecer essa casa. É da Tu-Quyen Pham!
— Quê?
— A arquiteta — explicou ele. — Tu-Quyen Pham. Ela é absurdamente famosa. Só projetou três residências nos Estados Unidos. Meu Deus, não consigo acreditar que estou realmente aqui.
Quando entramos na casa, Mychal começou a recitar uma série de artistas.
— Pettibon! Picasso! Meu Deus, isso é um KERRY JAMES MARSHALL!
Eu só conhecia Picasso.
— Pois é, eu que insisti para meu pai comprar esse — comentou Davis. — Dois anos atrás, ele me levou a uma feira de arte em Miami Beach. Eu adoro o trabalho do Marshall, é incrível.
Percebi que Noah continuava deitado no mesmo sofá, aparentemente jogando o mesmo jogo.
— Noah, trouxe alguns amigos. Pessoal, este é o Noah.
— E aí? — disse Noah.
— Tudo bem por você se eu só… hã… der uma volta por aqui? — perguntou Mychal.
— Sim, claro. Você vai gostar da colagem do Rauschenberg no segundo andar.
— Não acredito — exclamou Mychal, e disparou pela escada, com Daisy atrás.
Eu me descobri atraída pelo quadro que Mychal tinha chamado de “Pettibon”. Era uma espiral colorida, talvez uma rosa ou um redemoinho. Algum efeito nas linhas curvas fazia meus olhos se perderem na pintura, me obrigando a voltar repetidas vezes do todo para partes menores. Mais do que estar olhando para alguma coisa, a sensação era de ser aquela coisa. Tive que me conter para não arrancar o quadro da parede e fugir com ele.
Tomei um susto quando Davis tocou minhas costas.
— Raymond Pettibon. Ele é mais famoso pelas pinturas de surfistas, mas gosto das espirais. Era um músico punk antes de se tornar artista plástico. Fez parte da Black Flag antes que a banda se chamasse Black Flag oficialmente.
— Não sei o que é Black Flag.
Ele pegou o celular e, com alguns toques, fez surgir uma onda de som e gritos estridentes, e uma voz grave encheu a sala, projetada pelos alto-falantes no teto.
— Isso é Black Flag — disse Davis, e desligou a música. — Quer conhecer o cinema?
Concordei. Fomos até o porão, que não era exatamente um porão, porque o pé-direito devia ter quase cinco metros, e seguimos pelo corredor até uma estante cheia de livros de capa dura.
— Aqui fica a coleção de primeiras edições do meu pai — explicou Davis. — Não temos permissão para ler nenhuma delas, é claro. A oleosidade das mãos estraga o papel. Mas você pode pegar esse aqui. — Ele apontou para um exemplar de Suave é a noite.
No momento em que toquei a lombada, a estante se abriu ao meio e correu para trás, revelando um cinema com seis fileiras de poltronas em couro preto, cada uma um pouco mais alta que a da frente, como num cinema de verdade.
Não falei nada. Ainda estava me recuperando do impacto da imensa tela.
— Está óbvio o esforço que estou fazendo para impressionar você — continuou Davis.
— Não está funcionando. Estou acostumada a frequentar mansões com cinemas escondidos.
— Quer ver um filme? Ou podemos caminhar um pouco lá fora. Quero te mostrar uma coisa.
— Não podemos abandonar Daisy e Mychal.
— Vou avisar a eles. — Davis voltou a pegar o celular. — Vamos dar uma volta — disse para o aparelho. — Fiquem à vontade. O cinema é no porão, se estiverem a fim.
Um segundo depois, alto-falantes no teto repetiram o que ele acabara de dizer.
— Eu poderia ter mandado uma mensagem — falei.
— Poderia, mas não teria o mesmo efeito.

* * *

Fechei o casaco e segui os passos de Davis. Descemos em silêncio por um dos caminhos asfaltados que levavam ao campo de golfe, passando pela piscina — que tinha iluminação subaquática, as cores mudando lentamente de vermelho para laranja, depois para amarelo e verde. As luzes projetavam um reflexo esquisito nas paredes de vidro do terrário, um efeito que me lembrou a aurora boreal tal como eu vira em fotos.
Seguimos andando até uma das bancas de areia no campo de golfe. Davis se deitou ali no meio, a cabeça apoiada na curva gramada. Eu me deitei ao lado dele, nossos casacos se tocando.
— A poluição luminosa está forte — disse Davis, apontando para o céu —, mas a estrela mais brilhante visível… Ali, está vendo?
— Sim.
— Aquilo não é uma estrela. É Júpiter. Mas, dependendo das órbitas e tal, Júpiter está entre 628 e 928 milhões de quilômetros de nós. Nesse momento, está a cerca de oitocentos milhões de quilômetros, o que é mais ou menos quarenta e cinco minutos-luz. Conhece essa medida?
— Mais ou menos.
— Quer dizer que, se estivéssemos viajando na velocidade da luz, levaríamos quarenta e cinco minutos para irmos da Terra a Júpiter. Portanto, o Júpiter que estamos vendo agora é, na verdade, o Júpiter de quarenta e cinco minutos atrás. Mas ali, logo acima daquelas árvores, sabe aquelas cinco estrelas que meio que formam um W torto?
— Estou vendo.
— Então. Aquela é Cassiopeia. O mais louco é que a estrela no alto, Caph, está a 55 anos-luz de distância. Depois vem Shedar, a 230 anos-luz. E depois Navi, a 550 anos-luz. Não só nós não estamos perto das estrelas como as estrelas não estão perto umas das outras. Até onde se sabe, Navi explodiu quinhentos anos atrás.
— Uau. Então, estamos olhando para o passado.
— Sim, é isso mesmo.
Senti que ele tateava à procura de alguma coisa; o celular, provavelmente. Quando olhei para baixo, vi que Davis estava tentando segurar minha mão. Dei a mão a ele. Ficamos em silêncio sob a luz ancestral das estrelas. Eu estava pensando na cor do céu — ao menos daquele céu —, que na verdade não era preto. A única escuridão real estava nas árvores, que só víamos como silhuetas. Elas eram sombras de si mesmas contra o rico azul-prateado do céu noturno.
Senti Davis virar o rosto para mim. Fiquei tentando entender por que queria que ele me beijasse, e como saber por que queremos estar com alguém, e como desemaranhar os nós do querer. Tentei entender por que eu tinha medo de me virar para ele.
Davis voltou a falar sobre as estrelas — que, conforme avança a escuridão da noite, podemos ver mais e mais estrelas, tênues e vacilantes, oscilando no limite do visível — e sobre poluição luminosa, e que eu veria as estrelas se movendo se tivesse paciência, e que um filósofo grego achava que as estrelas eram furinhos no manto cósmico. Então, depois de um momento de silêncio, Davis comentou:
— Você não fala muito.
— Nunca sei direito o que dizer.
Ele repetiu o que eu mesma havia dito para ele no dia em que nos reencontramos, junto à piscina de sua casa:
— Você pode tentar dizer o que está pensando. É uma coisa que eu mesmo nunca faço.
Resolvi contar a verdade.
— Estou pensando bobagens sobre o nosso organismo.
— Que bobagens?
— Não consigo explicar.
— Tenta.
Foi então que me virei para encará-lo. Tanta gente exalta a beleza dos olhos verdes e azuis, mas havia uma profundidade nos olhos castanhos de Davis que simplesmente não existe nas cores mais claras, e o olhar dele me fez sentir como se houvesse alguma coisa que valesse a pena ver também no castanho dos meus olhos.
— Acho que eu não gosto de ter que viver num corpo, se é que isso faz sentido. Acho que talvez, no fundo, eu seja só um instrumento, uma coisa que existe apenas para transformar oxigênio em dióxido de carbono, um mero organismo nessa… nessa imensidão toda. E é um pouco aterrorizante pensar que o que eu considero como o meu… abre aspas, meu eu... fecha aspas... não está nem um pouco sob o meu controle. Tipo, como você já deve ter percebido, minhas mãos estão suando apesar do frio, e eu odeio suar, porque quando começo não consigo fazer parar, e aí não consigo pensar em mais nada a não ser no suor. E se a gente não pode escolher o que faz nem o que pensa, então talvez a gente não seja real, sabe? Talvez eu seja uma mentira que estou sussurrando para mim mesma e nada mais.
— Na verdade, eu nem percebi que você estava suando. Mas imagino que dizer isso não ajude em nada.
— É, não mesmo.
Sequei a mão na calça jeans e depois sequei o rosto com a manga do casaco. Eu tinha nojo de mim mesma. Eu era uma criatura repulsiva, mas não conseguia fugir do meu “eu”, porque estava presa naquele corpo. Então lembrei que o cheiro do nosso suor não é do suor em si, mas das bactérias que se alimentam dele.
Comecei a contar a Davis sobre um parasita esquisito, Diplostomum pseudospathaceum, que cresce nos olhos dos peixes mas só se reproduz dentro do estômago dos pássaros. O peixe infectado com o parasita adormecido nada em águas profundas para tornar mais difícil que os pássaros o vejam, mas quando o parasita está pronto para se reproduzir, o peixe infectado de uma hora para outra começa a nadar próximo da superfície. Ele basicamente começa a tentar ser comido por um pássaro, e acaba conseguindo, e o parasita que foi o autor dessa história o tempo todo vai parar bem onde precisa: na barriga do pássaro. O parasita se reproduz ali, e os bebês parasitas caem na água pelas fezes dos pássaros, onde acabam encontrando um novo hospedeiro, e assim o ciclo recomeça.
Eu estava tentando explicar a Davis por que aquilo me apavorava tanto, mas não conseguia, e percebi que havia levado aquela conversa para muito longe do ponto em que nos daríamos as mãos e quase nos beijaríamos e que no momento eu estava falando sobre fezes de pássaros infectadas por parasitas, o que é meio que o total oposto do conceito de diálogo romântico, mas eu não conseguia me conter, porque queria que ele compreendesse que eu me sentia como o peixe, como se toda a minha história estivesse sendo escrita por outra pessoa.
Cheguei a contar algo que eu nunca tinha dito nem a Daisy, ou à dra. Singh, a ninguém: que todo o problema de apertar a ponta do dedo tinha começado como uma tentativa de me convencer de que eu era real. Minha mãe uma vez me disse, quando eu era pequena, que se eu me beliscasse e não acordasse era porque estava sonhando, e por isso toda vez que me vinha o medo de não ser real eu cravava a unha na pele e sentia a dor, e por um segundo eu pensava: “É claro que sou real.” Mas o peixe sente dor, essa é a questão. O problema é que não dá para saber se estamos sob o comando de algum parasita, não dá para ter certeza.
Depois de toda essa minha verborragia, não dissemos nada por um bom tempo. Por fim, Davis quebrou o silêncio:
— Minha mãe ficou internada por uns seis meses depois do aneurisma. Sabia? — Apenas balancei a cabeça. — Acho que ela estava em coma, não sei… Ela não conseguia falar nem fazer nada, nem se alimentar, mas às vezes apertava a mão de quem tocasse a dela.
“Noah era pequeno demais para visitá-la, mas eu ia. Todo dia, Rosa me levava ao hospital, e eu ficava deitado na cama com minha mãe, e ficávamos vendo Tartarugas Ninja na TV.
“Ela ficava de olhos abertos e tudo o mais, respirava sozinha também, e eu ficava deitado com ela vendo TV, o Homem de Ferro sempre comigo. Eu apertava o boneco com força, deixava a mão na da minha mãe e esperava. Às vezes, ela apertava a minha, o punho fechado com firmeza no meu, e quando isso acontecia eu me sentia… sei lá… amado, acho.
“Enfim. Eu me lembro de uma vez que meu pai apareceu lá e ficou encostado na parede do outro lado do quarto, como se ela tivesse alguma doença contagiosa. Minha mãe apertou minha mão, e eu contei a ele. Falei que ela estava fazendo aquilo, e ele disse: ‘É só um reflexo.’ Eu insisti: ‘Ela está apertando minha mão, pai, olha.’ Aí ele disse: ‘Ela não está aí, Davis. Ela não está mais aí.’
“Mas não é assim que funciona, Aza. Minha mãe ainda era real. Ainda estava viva. Era uma pessoa tanto quanto qualquer outra. Você é real, mas não por causa do seu corpo ou dos seus pensamentos.
— Então, por quê? — perguntei.
Ele suspirou.
— Não sei.
Eu me virei para ele.
— Obrigada por me contar tudo isso.
Eu observei seu rosto. Davis às vezes parecia um menino, a pele clara, as espinhas no queixo, mas naquele momento ele estava bonito. O silêncio entre nós foi ficando desconfortável, até que acabei fazendo a pergunta mais idiota possível, porque realmente queria saber a resposta.
— No que você está pensando?
— Estou pensando que é bom demais para ser verdade — respondeu ele.
— O quê?
— Você.
— Ah. — Depois de um segundo, acrescentei: — Ninguém nunca diz que algo é ruim demais para ser verdade.
E foi então que eu entendi, pelo que ele me contou a seguir.
— Eu sei que você viu a foto. A foto da câmera de visão noturna. — Como não falei nada, ele continuou: — É isso o que você disse que sabia, o que quer contar à polícia. Eles vão te dar a recompensa?
— Não estou aqui por causa… — comecei.
— Mas como eu posso ter certeza, Aza? Como algum dia vou poder ter certeza? Em relação a qualquer pessoa? Você já entregou a foto?
— Não, não entregamos. Daisy quer fazer isso, mas não vou deixar. Prometo.
— Como posso ter certeza? — repetiu ele. — Fico tentando deixar isso de lado, mas não consigo.
— Eu não quero a recompensa — afirmei, mas nem eu mesma sabia se era verdade.
— Estar vulnerável é pedir para ser usado.
— É assim com todo mundo — retruquei. — E o que Daisy e eu temos nem é importante. É só uma foto. Não ajuda a desvendar onde ele está.
— Dá aos policiais uma hora e um lugar. Mas você tem razão, não vão encontrá-lo. Só que vão me perguntar por que não contei isso, e eu não tenho um bom motivo. Só não quero ter que lidar com o pessoal do colégio durante o julgamento. Não quero que Noah passe por isso. Quero que… que tudo seja como antes. E, com meu pai desaparecido, nossa vida é bem mais normal do que seria com ele na cadeia. A verdade é que ele não me contou que estava indo embora. Mas, se tivesse contado, eu não teria impedido.
— Mesmo se a gente entregasse a foto à polícia, eles não prenderiam você nem nada do tipo.
De repente, ele se levantou e saiu andando pelo campo de golfe.
— É um problema fácil de resolver — ouvi Davis dizer consigo mesmo.
Fui atrás dele, pegando o caminho que levava ao chalé, e entramos. Era uma cabana rústica, com painéis de madeira por toda parte, pé-direito alto e uma impressionante variedade de cabeças de animais empalhadas nas paredes. Um conjunto muito macio de sofá e cadeiras forrados com tecido xadrez formavam um semicírculo de frente para uma enorme lareira.
Davis foi até o bar, abriu o armário acima da pia, pegou uma caixa de cereal e a virou na pia — de cereal mesmo caiu só um pouquinho, mas logo surgiu um maço de notas presas por uma tira de papel. Quando me aproximei, vi escrito “10.000”. Achei impossível haver dez mil dólares naquele maço tão fino: devia ter menos de um centímetro. Então um segundo maço caiu da caixa, e mais outro. Davis então pegou no armário outra caixa de um cereal diferente e repetiu o processo.
— O que… o que você está fazendo? — perguntei.
— Meu pai esconde dinheiro em tudo quanto é lugar — respondeu ele, já na terceira caixa. — Encontrei um desses bolinhos de notas embaixo das almofadas do sofá outro dia. Ele esconde dinheiro como alcoólatras escondem garrafas de vodca.
Davis limpou os farelos de cereal das notas e as empilhou na bancada. Juntas, cabiam em apenas uma das mãos.
— Aqui tem cem mil — informou ele, estendendo todo o dinheiro para mim.
— Nem pensar, Davis. Não posso…
— Aza, os policiais encontraram tipo dois milhões quando vieram prender meu pai, e aposto que não é nem metade do que está escondido por aqui. Eu encontro esses maços pela casa inteira, entende? Não estou esnobando, mas é que para o meu pai isso é mixaria. Pega sua recompensa por não entregar a foto. Vou pedir para o nosso advogado ligar para você amanhã. O nome dele é Simon Morris. Ele é legal, só meio formal demais.
— Não estou…
— Eu preciso ter certeza — insistiu Davis. — Por favor, só… Se depois disso você ainda me procurar, vou saber que não estava interessada apenas na recompensa. Você também vai saber. Vai ser bom saber… mesmo se você não me ligar nunca mais.
Ele foi até um armário, pegou uma sacola azul, enfiou todo o dinheiro nela e me entregou.
Davis parecia tão vulnerável naquele momento: os olhos castanhos marejados, o medo e a exaustão evidentes no rosto, como uma criança acordando de um pesadelo. Peguei a bolsa.
— Eu vou ligar — falei.
— Vamos ver.

* * *

Saí da cabana devagar, mas atravessei às pressas o campo de golfe, contornei a área da piscina e entrei a toda na mansão. Subi a escada como um raio e cruzei o corredor até ouvir a voz de Daisy atrás de uma porta fechada. Abri. Ela e Mychal estavam se beijando numa enorme cama de dossel.
— Hã…
— Podemos ter um pouco de privacidade, por favor? — disse Daisy.
Fechei a porta, resmungando:
— Como se a casa fosse sua.
Eu não sabia para onde ir, então desci. Noah estava no sofá, vendo TV. Fui até ele e percebi que, aos treze anos, ele ainda usava um pijama infantil (do Capitão América). No colo repousava uma tigela de algum cereal colorido, sem leite. Noah pegou um punhado e enfiou na boca.
— E aí? — disse ele, mastigando.
O cabelo dele estava oleoso e emaranhado na testa, e, quando cheguei mais perto, achei o irmão de Davis pálido demais, a pele quase translúcida.
— Está tudo bem, Noah?
— Tô arrasando. — Ele engoliu e depois perguntou: — Já descobriu alguma coisa?
— Hein?
— Sobre o meu pai. Davis disse que você está atrás da recompensa. Descobriu alguma coisa?
— Nada.
— Posso mandar um negócio para você? Copiei do iCloud todas as anotações do celular do meu pai. Vai que ajuda. Pode ter alguma pista, sei lá. A última anotação, que ele escreveu na noite em que sumiu, é “a boca do corredor”. Sabe o que significa?
— Não.
Dei o número do meu celular a Noah, para que ele me enviasse as anotações, e prometi investigar.
— Obrigado — disse ele, baixinho. — Davis acha que vai ser melhor para a gente se ele continuar desaparecido. Que seria pior se o papai fosse preso.
— E o que você acha?
Noah pensou sobre aquilo por alguns instantes, apenas me encarando.
— Quero que ele volte para casa.
Eu me sentei ao lado dele.
— Tenho certeza de que seu pai vai aparecer.
Senti Noah se inclinando até apoiar o ombro no meu. Digamos que contato físico com estranhos não é algo que me empolgue muito, ainda mais se tudo indica que a pessoa não toma banho há alguns dias, mas mesmo assim tentei consolar o garoto.
— Não tem problema sentir medo, Noah. — Ele virou o rosto e começou a chorar. — Está tudo bem — menti. — Vai dar tudo certo. Ele vai voltar.
— Minha cabeça está uma confusão — confessou, o fiapo de voz saindo meio estrangulado por causa do choro. — Desde que ele foi embora, estou muito confuso.
Eu sabia bem como era. Sempre me senti incapaz de pensar direito, de concluir os pensamentos, porque eles me vinham à cabeça não em linhas retas, mas num emaranhado de nós enroscados uns nos outros, em areia movediça, sendo engolidos por buracos negros.
— Está tudo bem — menti de novo. — Você só precisa descansar um pouco.
Eu não sabia o que mais poderia dizer. Ele era tão pequeno e estava tão solitário…
— Você me conta? Se descobrir alguma coisa?
— Claro que conto.
Depois de um tempo, ele endireitou a postura e secou o rosto na manga do pijama. Sugeri que tentasse dormir um pouco. Já era quase meia-noite.
Noah deixou a tigela na mesa de centro, se levantou e subiu sem se despedir.
Eu não sabia para onde ir e estava ficando nervosa com aquela sacola de dinheiro. Acabei indo embora. Olhando para o céu enquanto andava devagar até Harold, fiquei pensando sobre as estrelas de Cassiopeia, a centenas de anos-luz de mim e umas das outras.
A sacola balançava na minha mão a cada passo. Não pesava quase nada.

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