20 de novembro de 2018

Capítulo Doze

No dia da chuva de meteoros, quando cheguei com Harold à escola, me deparei com um fusca laranja-fluorescente estacionado na minha vaga cativa. Parei ao lado e só então vi que era Daisy ao volante. Abri a janela.
— A moça do banco não mandou a gente esperar seis meses para fazer compras grandes?
— Eu sei, eu sei — respondeu Daisy. — Mas consegui fazer o cara da concessionária baixar em mil e seiscentos dólares o preço original, então na verdade eu saí no lucro. Sabe como se chama essa cor? — Ela estalou os dedos. — Laranja Estalo! Porque chama atenção!
— Não vai gastar o dinheiro todo, hein.
— Relaxa, Holmes, isso aqui é um investimento. Liam será um item de colecionador no futuro. Aliás, ele vai se chamar Liam.
Tive que sorrir. Era uma piada interna que ninguém mais entenderia.
Enquanto saíamos do estacionamento, Daisy me entregou um catálogo grosso: Guia Fiske de Universidades.
— Também peguei isso — disse ela. — Mas já vi que não vou precisar, porque vou ficar na Universidade de Indiana mesmo. Sempre soube que faculdade é uma coisa muito cara, mas tem algumas aqui que custam quase cem mil pratas por ano. O que tem lá de tão sensacional? As aulas são em iates? Os alunos moram num castelo e são servidos por elfos domésticos? Nem a Daisy Rica consegue bancar uma universidade desse naipe.
Se você ficar comprando carros, aí é que não vai conseguir mesmo, tive vontade de responder, mas preferi mudar de assunto.
— Conseguiu descobrir o que é a tal “boca do corredor”? — perguntei.
— Holmes. Já recebemos nossa recompensa. Esquece isso.
— Eu sei, eu sei.
E, antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Daisy viu Mychal do outro lado do estacionamento e foi correndo abraçá-lo.

* * *

Passei a manhã inteira mergulhada no catálogo. De tempos em tempos o sinal tocava, me transferindo para outra sala de aula, e tão logo eu me sentava, abria de novo o guia no meu colo embaixo da carteira. Na verdade, eu nunca tinha pensado em tentar qualquer universidade que não a de Indiana ou a Purdue (minha mãe tinha estudado na primeira, e meu pai, na segunda), pois, por ficarem no meu estado, custariam bem menos.
Porém, ao ver as centenas de opções daquele catálogo, que classificava as universidades em todos os quesitos possíveis, desde os acadêmicos propriamente ditos até a qualidade das refeições oferecidas, foi inevitável me imaginar numa instituição de pequeno porte e construções centenárias localizada no alto de uma colina no meio do nada. Havia uma em especial que oferecia o privilégio de frequentar a mesma biblioteca em que Alice Walker estivera. Era bem verdade que cinquenta mil dólares não chegava nem perto de cobrir todas as taxas, mas talvez eu conseguisse uma bolsa. Minhas notas não eram ruins e eu em geral me saía bem nas provas.
Comecei a imaginar como seria — ter aulas sobre geografia política e literatura feminina britânica do século XIX em salas aconchegantes, os alunos sentados em círculo. Imaginei o cascalho sob meus pés no caminho até a biblioteca, onde eu estudaria com meus amigos, e, antes do jantar variado, com opções de cereal a sushi, pararíamos no café e conversaríamos sobre filosofia, ou sobre sistemas políticos, ou seja lá o que se discute nos corredores de uma universidade.
Era tão divertido imaginar as possibilidades… Costa Oeste ou Costa Leste? Cidade grande ou do interior? Eu tinha a sensação de que poderia ir para qualquer lugar que quisesse. Imaginar todos os futuros possíveis, todas as Azas que eu poderia me tornar, foi um descanso glorioso do meu eu naquele momento.
Só me desliguei do catálogo para almoçar. Sentado à minha frente, Mychal trabalhava em seu novo projeto de arte, traçando meticulosamente as formas das ondas de uma música num papel muito fino e translúcido, enquanto Daisy entretinha nossa mesa com a história da compra do carro, sem jamais revelar como tinha obtido a verba necessária. Depois de algumas mordidas no meu sanduíche, peguei o celular e mandei uma mensagem para Davis.
Eu: Que horas hoje?
Ele: Chuva de meteoros cancelada. Parece que vai estar nublado de noite.
Eu: Meu interesse maior não são os meteoros.
Ele: Ahh. Depois da escola, então?
Eu: Marquei de fazer o dever com a Daisy. Pode ser às 7?
Ele: Combinado.

* * *

Depois da aula, Daisy e eu nos trancamos no meu quarto para estudar por umas duas horas.
— Faz só três dias que me aposentei do Chuck, mas é impressionante como as coisas já estão bem mais fáceis no colégio — comentou ela.
Daisy tirou da mochila um notebook novinho e o colocou na escrivaninha.
— Meu Deus, não é para gastar o dinheiro todo de uma vez — falei, baixinho, para minha mãe não ouvir. Daisy me olhou de cara feia. — O que foi?
— Você já tinha carro e computador — justificou-se ela.
— Só estou dizendo que você pode se arrepender.
Ela apenas revirou os olhos. Ainda perguntei de novo qual era o problema, mas Daisy desapareceu em seu mundo on-line. Da minha cama, dava para ver que ela estava lendo os comentários das suas histórias, enquanto eu lia um ensaio de Alexander Hamilton em O federalista para a aula de história. Tentei continuar, mas as palavras não entravam na minha cabeça, me forçando a voltar e ler o mesmo parágrafo mil vezes.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que Daisy se manifestou:
— Eu me esforço de verdade para não julgar você, Holmes, e me dá um pouco de raiva quando você me julga.
— Não estou julgando…
— Sei que você se acha pobre e tal, mas não sabe como é passar dificuldade de verdade.
— Tudo bem, não está mais aqui quem falou.
— Você fica tão presa dentro da sua cabeça… que parece que realmente não consegue pensar em mais ninguém.
Eu me sentia ficando cada vez menor.
— Desculpa, Holmes, eu não deveria ter dito isso. Mas é que às vezes é tão frustrante! — Não falei nada, e ela continuou: — Não estou querendo dizer que é uma péssima amiga nem nada, mas você é um pouco sofrida, e isso às vezes também é doloroso para as pessoas em volta.
— Entendi o recado.
— Não estou falando isso para magoar você.
— Eu sei.
— Mas você entende o que eu quero dizer, né?
— Entendo.
Depois de mais uma hora estudando em silêncio, Daisy foi embora, porque prometera jantar com os pais. Quando ela se levantou, nós duas pedimos desculpas ao mesmo tempo e começamos e rir. Por causa de todo esse clima entre nós, acabei deixando Davis um pouco de lado. Recebi uma mensagem dele às 18h52.
Ele: Estou em frente à sua casa. Devo entrar?
Eu: Não não não não não já estou saindo.
Minha mãe estava esvaziando o lava-louça quando cheguei à cozinha.
— Vou jantar fora hoje — avisei, enquanto pegava o casaco e saía antes que ela me fizesse perguntas.
— Oi — disse Davis assim que entrei no carro.
— Oi.
— Quer comer em algum lugar?
— Não estou com muita fome, mas podemos comprar alguma coisa no caminho, se você quiser.
— Por mim, não precisa — disse ele, dando partida no carro. — Na verdade, eu odeio ter que comer. Sempre tive um estômago nervoso.
— Eu também. — Meu celular começou a tocar. — É minha mãe. Não diga nada. — Atendi. — Oi.
— Diga ao motorista desse carro preto para dar a volta agora mesmo e parar aqui em casa.
— Mãe…
— Essa história só vai para a frente se eu conhecer o rapaz.
— Você já conheceu. Quando eu tinha onze anos.
— Eu sou sua mãe, ele é seu… seja lá o que for… e eu quero conversar com ele.
— Tá bom — cedi, contrariada, antes de encerrar a ligação. — A gente tem que… hã… precisamos voltar, se você não se incomodar, para falar com a minha mãe.
— Claro.
Algo na voz de Davis me recordou que ele tinha perdido a mãe, e me veio à cabeça que as pessoas sempre pareciam meio desconfortáveis quando falavam dos próprios pais na minha frente. Acho que era medo de me lembrar da ausência do meu — como se eu pudesse esquecer.

* * *

Eu nunca tinha notado como minha casa era pequena até ver Davis nela, olhando tudo — o linóleo do piso da cozinha envergando nos cantos, as pequenas rachaduras nas paredes, a mobília mais velha que eu, estantes de conjuntos desiguais.
Davis parecia enorme e deslocado ali. Pelas minhas contas, um homem não pisava naquela sala fazia muito tempo. Ele não tinha muito mais que um metro e oitenta de altura, mas por algum motivo sua presença fazia o teto parecer mais baixo. Senti vergonha dos nossos livros velhos e empoeirados, das paredes decoradas com fotos de família em vez de obras de arte. Eu sabia que não deveria ter vergonha disso, mas… tive mesmo assim.
— É um prazer rever a senhora — disse Davis, estendendo a mão para cumprimentar minha mãe.
Ela o abraçou.
Nós nos sentamos à mesa da cozinha, que quase nunca recebia mais de duas pessoas: minha mãe e eu. Naquele momento, parecia superlotada.
— Como você está, Davis? — perguntou ela.
— Tudo bem. Como a senhora deve estar sabendo, sou praticamente órfão agora, mas estou bem. E a senhora?
— Quem está tomando conta de você?
— Bem, todo mundo e ninguém, até onde sei. Quer dizer, temos uma pessoa que administra a casa e um advogado que cuida de tudo relacionado a finanças.
— Você está no penúltimo ano da Aspen Hall, certo?
Fechei os olhos e tentei implorar telepaticamente à minha mãe que não o interrogasse.
— Estou.
— Aza não é uma garota qualquer do outro lado do rio.
— Mãe…
— Eu sei que você pode ter o que quiser na hora que quiser, e isso pode fazer a pessoa pensar que é dona do mundo, dona dos outros. Mas espero que você compreenda que não tem o direito de…
— Mãe!
Eu me virei para Davis com um pedido de desculpas no olhar, mas ele não viu, porque estava encarando minha mãe. Davis começou a dizer alguma coisa, mas logo parou, porque seus olhos ficaram marejados.
— Davis, está tudo bem? — perguntou minha mãe.
Ele tentou falar de novo, mas só conseguiu deixar escapar um soluço engasgado.
— Querido, desculpa, eu não percebi…
— Desculpa — disse ele, ficando vermelho.
Minha mãe começou a estender a mão por cima da mesa, mas se conteve.
— Só quero que você seja legal com a minha filha. Ela é única no mundo.
— Temos que ir — falei.
Minha mãe e Davis continuaram se encarando, até ela finalmente dizer:
— Volte às onze.
Peguei Davis pelo braço e o puxei na direção da porta, fuzilando minha mãe com o olhar ao sair.

* * *

— Você está bem? — perguntei assim que estávamos a salvo dentro do carro.
— Sim — respondeu ele, baixinho.
— Ela só é superprotetora.
— Eu entendo.
— Não precisa ficar envergonhado.
— Não estou envergonhado.
— O que houve, então?
— É complicado.
— Não estou com pressa — falei.
— Não é verdade que eu posso ter tudo que quiser, na hora que quiser.
— O que você quer e não tem?
— Para começar, uma mãe.
Ele deu ré e saiu da entrada da garagem.
Eu não sabia bem o que dizer, então acabei optando pelo mais simples.
— Sinto muito.
— Você conhece aquela parte do poema de Yeats, de “A segunda vinda”, em que ele diz mais ou menos assim: “Falta aos melhores convicção, enquanto os piores estão cheios de ardor apaixonado”?
— Sim, lemos esse poema no curso preparatório para a faculdade.
— Na verdade, acho que é pior perder a convicção. Porque aí a gente só continua vivendo, entende? Somos apenas uma bolha na maré do império.
— Bela frase.
— Roubada de Robert Penn Warren. Minhas frases boas são sempre roubadas. Me falta convicção.
Atravessamos o rio. Lá embaixo, vi a Ilha dos Piratas.
— Sua mãe se importa, sabe? A maior parte dos adultos é simplesmente vazia. Vemos adultos tentando preencher o vazio com bebida, dinheiro, Deus, fama ou com o que quer que idolatrem, e tudo isso faz com que apodreçam por dentro, até não sobrar nada além do dinheiro, da bebida ou do Deus que eles acharam que era a salvação. Meu pai é assim… Ele na verdade já desapareceu faz tempo, e talvez seja por isso que não fiquei tão chateado quando sumiu agora. Gostaria que ele estivesse aqui, mas desejo isso há tanto tempo... Os adultos pensam que sabem controlar o poder, mas na realidade é o poder que acaba controlando os adultos.
— O parasita acredita que é o hospedeiro.
— Sim — concordou Davis. — É verdade.

* * *

Quando entramos na casa dos Pickett, vi que havia dois lugares arrumados num canto da enorme mesa de jantar. Uma vela tremeluzia no meio, e uma suave luz dourada iluminava o primeiro andar. Eu estava com um nó no estômago e sem a menor vontade de comer, mas acompanhei Davis.
— Acho que Rosa preparou o jantar para nós — disse ele. — Vamos dar pelo menos umas garfadas, por educação. — Ele se virou para a mulher e falou: — Oi, Rosa. Obrigado por ficar até mais tarde.
Ela o puxou para um abraço apertado.
— Fiz espaguete. Vegetariano.
— Não precisava.
— Meus filhos já estão grandes, então você e Noah são os únicos menininhos que me restam. E quando você disse que ia encontrar sua namorada…
— Namorada, não — corrigiu Davis. — Uma velha amiga.
— Velhas amigas são as melhores namoradas. Comam. Vejo você amanhã. — Ela o puxou para mais um abraço e deu um beijo no rosto dele. — Leve alguma coisa para o Noah lá em cima, senão ele vai morrer de fome — acrescentou Rosa. — E não se esqueça de lavar a louça. Não é tão difícil assim colocar os pratos na máquina, Davis.
— Pode deixar.
— Sua vida é tão esquisita — comentei, enquanto nos sentávamos à mesa, com uma latinha de Dr Pepper no meu lugar e uma de Mountain Dew no dele.
— Acho que é mesmo — disse ele, e ergueu a latinha em um brinde. — Ao esquisito!
— Ao esquisito!
Brindamos e bebemos.
— Ela trata você como um filho.
— Bem, Rosa me conhece desde que eu era bebê. Ela criou a gente, mas também é paga para isso, entende? E se ela não recebesse… Enfim, teria que arrumar outro emprego.
— Entendi.
Eu tinha a impressão de que uma das características que definem os pais é que eles não são pagos para amar os filhos.
Davis perguntou como tinha sido meu dia no colégio e contei a ele sobre a briga com Daisy. Perguntei sobre o dia dele.
— Foi bom. Espalharam um boato de que eu matei não só meu pai, como minha mãe também. Então… Bom, eu não devia deixar isso me chatear.
— Chatearia qualquer um.
— Eu aguento, mas me preocupo com Noah.
— Como ele está?
— Ele deitou na minha cama essa noite e não parou de chorar. Fiquei com tanta pena que emprestei meu Homem de Ferro para ele.
— Sinto muito.
— Noah é só… Acho que, em algum momento, todo mundo percebe que a pessoa responsável por nós é só um ser humano, não tem superpoderes, e que na verdade não pode nos proteger da dor. Normal. Mas Noah está começando a compreender que quem ele achou que fosse o super-herói acabou se revelando meio que o vilão. E isso é horrível mesmo. Ele continua achando que nosso pai vai voltar para casa e se provar inocente, e não sei como contar que, bem, ele não é inocente.
— A expressão “boca do corredor” te lembra alguma coisa?
— Não. Os policiais também me perguntaram isso. Disseram que estava no celular dele.
— É.
— Sabe, meu pai fazia muitas atividades, mas não corria. Ele considera exercícios físicos irrelevantes, porque Tua ainda vai revelar o segredo para a vida eterna.
— Sério?
— Sim. Meu pai acredita que Malik vai conseguir identificar um agente qualquer no sangue do tuatara que os faz envelhecer mais devagar e assim vai “curar a morte” — explicou Davis, desenhando aspas no ar. — É por isso que no testamento ele deixa tudo para Tua… Meu pai acha que vai ser lembrado como o homem que venceu a morte.
Aproveitei o momento para perguntar se Tua ia mesmo ficar com todo o dinheiro.
— Tudo — respondeu Davis, com uma risadinha. — A empresa, a casa, a propriedade. Quer dizer, Noah e eu temos o suficiente para a faculdade e outras despesas… mas não vamos mais ser ricos.
— Se vocês tiverem o suficiente para a faculdade e outras despesas, então vão ser ricos, sim.
— É verdade. E meu pai não deve nada à gente. Eu só queria que ele, você sabe, fizesse as coisas que um pai faz. Levar meu irmão à escola, cobrar o dever de casa, não desaparecer no meio da noite fugindo da polícia…
— Sinto muito.
— Você pede muitas desculpas.
— Sinto muito por isso.
Davis olhou no fundo dos meus olhos.
— Você já se apaixonou, Aza?
— Não. E você?
— Não. — Ele olhou para meu prato e continuou: — Muito bem, se não vamos comer, acho que é melhor irmos lá para fora. Talvez a gente consiga pegar uma brecha nas nuvens.

* * *

Vestimos nossos casacos e saímos. Grudei o queixo no peito enquanto caminhava, para evitar o vento forte, mas percebi que Davis andava de cabeça erguida.
Notei que duas espreguiçadeiras da piscina haviam sido arrastadas para o campo de golfe e colocadas perto de uma das bandeirolas que marcavam um buraco. A bandeirola balançava ao vento e eu ouvia o trânsito ao longe, mas, fora isso, tudo estava quieto, o frio calando as cigarras e os grilos. Nos deitamos nas espreguiçadeiras, perto um do outro mas sem nos tocarmos, e ficamos observando o céu por um tempo.
— Que decepcionante — comentou Davis.
— Mas ainda está acontecendo, não está? A chuva de meteoros. Só não conseguimos ver.
— Correto.
— Como seria? — perguntei.
— Não entendi.
— Se não estivesse nublado, o que eu estaria vendo?
— Bem… — Ele pegou o celular e abriu um aplicativo de observação de estrelas. — Então, aqui no hemisfério Norte temos a constelação do Dragão, que para mim parece mais um gatinho, mas seria perto dela que haveria meteoros visíveis. Por causa da lua nova, provavelmente veríamos de cinco a dez meteoros a cada hora. Basicamente estamos nos movimentando em meio à poeira cósmica que um cometa chamado Giacobini-Zinner levantou ao passar, e seria muito lindo e romântico se não morássemos nessa Indiana sombria.
— É lindo e romântico. Só não estamos vendo.
Eu pensei em quando ele me perguntou se eu já havia me apaixonado. Em inglês se usa uma expressão estranha, in love, que seria algo como estar “imerso no amor”, como se o amor fosse um mar em que mergulhamos, ou uma cidade em que moramos. Não se usa essa expressão para mais nenhum sentimento — não se está em uma amizade, ou em raiva, ou em esperança. Só é possível estar imerso no amor. Tive vontade de dizer a Davis que, embora eu nunca tivesse me apaixonado, nunca tivesse me sentido imersa no amor, sabia como era estar imersa em sentimentos; não só cercada, mas permeada por eles, da mesma forma que minha avó dizia que Deus estava em toda parte. Quando meus pensamentos entravam em espiral, eu estava imersa na espiral, pertencia a ela. Quis dizer a ele que a ideia de estar imersa num sentimento colocava em palavras algo que até então eu não conseguia descrever, dava forma à sensação, mas não encontrei meios de expressar tudo isso em voz alta.
— Não sei se isso é um silêncio comum ou um silêncio constrangedor — disse Davis.
— Tem uma parte que eu gosto naquele poema, “A segunda vinda”. Sabe quando ele fala da espiral que se alarga?
— O giro que se alarga — corrigiu ele. — “A rodar e rodar no giro que se alarga.”
— Tanto faz. O mais apavorante não é girar sem parar numa espiral crescente, é girar sem parar na espiral que se afunila. É ser sugado para um redemoinho que vai se fechando mais e mais e esmagando seu mundo até você estar apenas girando sem sair do lugar, preso numa cela que é exatamente do seu tamanho e nem um milímetro a mais, até você finalmente se dar conta de que na verdade não está preso na cela. Você é a cela.
— Você devia escrever uma resposta. Para o Yeats.
— Eu não escrevo poesia.
— Mas fala como um poeta — retrucou ele. — Se você passasse para o papel metade do que diz, teria um poema melhor do que todos os dele.
— Você escreve?
— Mais ou menos. Nunca sai nada bom.
— O que você escreve? — perguntei.
Era tão mais fácil conversar com Davis no escuro, olhando para o mesmo céu, e não no fundo dos olhos dele. Era como se não tivéssemos corpo, como se fôssemos apenas vozes se comunicando.
— Se algum dia eu escrever algo que me dê orgulho, prometo deixar você ler.
— Eu gosto de poesia ruim — falei.
— Por favor, não me faça recitar meus poemas bobos. Ler poesia para uma pessoa é como ficar nu na frente dela.
— Então, estou basicamente dizendo que quero ver você nu.
— São só umas bobagens.
— Eu quero ouvir — repeti.
— Tá bom. Então: ano passado, escrevi um chamado “Últimos patos do outono”.
— Que começa…
— “As folhas seguiram seu caminho / vocês também deveriam ir / no seu lugar eu não hesitaria em partir / mas fato é que estou aqui / caminhando sozinho / no amanhecer gelado.”
— Gostei bastante.
— Gosto de poemas curtos com rimas esquisitas, porque é assim que a vida é.
— É assim que a vida é? — Eu estava tentando entender o que ele queria dizer.
— Sim. Rima, mas não como se espera.
Olhei para ele e, de repente, quis tanto Davis que já não me importava mais o motivo, se esse querer era com letra maiúscula ou minúscula. Toquei seu rosto gelado com minha mão gelada. E o beijei.
Quando me afastei para respirar, senti as mãos dele na minha cintura.
— Eu… Nossa. Uau — disse Davis.
Fiz uma careta. Gostei de sentir o corpo dele no meu, sua mão subindo e descendo pelas minhas costas.
— Tem algum outro poema?
— Tenho feito só dísticos ultimamente. Tipo, coisas sobre a natureza. Como: “O narciso sabe mais da estação florida / do que a rosa aprende em toda vida.”
— Esse é bom também.
E o beijei de novo.
Senti um aperto no peito, os lábios frios e a boca quente, suas mãos me puxando com avidez através das camadas dos nossos casacos.
Gostei de ficar com ele estando vestida com tantas roupas. Nosso hálito embaçou os óculos de Davis enquanto nos beijávamos, e ele tentou tirá-los, mas eu os empurrei para cima no nariz, e rimos, e ele beijou meu pescoço, e foi quando um pensamento me ocorreu: a língua de Davis tinha entrado na minha boca.
Falei para mim mesma que aproveitasse o momento, que me permitisse sentir o calor de Davis na pele, mas a língua dele estava no meu pescoço, úmida, viva e cheia de micróbios, e a mão dele se infiltrava por baixo do meu casaco, os dedos gelados tocando minha pele nua. Está tudo bem você está bem só continua beijando ele você precisa conferir uma coisa está tudo bem é só ser normal cacete ver se os micróbios dele ficam em você bilhões de pessoas se beijam e não morrem só tem que ver se os micróbios dele não vão ficar em você para sempre ah por favor para ele pode ter a campylobacter ele pode ser um portador assintomático de E. coli se você se contaminar vai precisar de antibióticos e então vai pegar a C. diff e bum morta em quatro dias por favor cacete para só beija ele CHECA SÓ PARA TER CERTEZA.
Eu me afastei.
— Você está bem? — perguntou Davis.
Assenti.
— Eu só… só preciso de um pouco de ar.
Eu me sentei de costas para ele, peguei meu celular e procurei “bactérias de pessoas que você beija ficam dentro do seu corpo?”. Rolei rapidamente a tela, passando por dois resultados pseudocientíficos antes de chegar ao único estudo de verdade sobre o assunto. Cerca de oitenta milhões de micróbios são trocados em média por beijo e “depois de seis meses de acompanhamento, os microbiomas do sistema gastrointestinal humano parecem ser modesta mas consistentemente alterados”.
As bactérias dele ficariam em mim para sempre, oitenta milhões delas, se reproduzindo e crescendo e se juntando às minhas bactérias e produzindo só Deus sabe o quê.
Senti a mão de Davis no meu ombro. Eu me virei rapidamente e me desvencilhei dele. Comecei a ficar sem ar. Pontos pretos surgiram na minha visão. Você está bem ele nem é o primeiro garoto que você beijou oitenta milhões de organismos em mim para sempre calma alterando permanentemente meu microbioma isso não é racional você precisa fazer alguma coisa por favor dá para consertar isso por favor vai ao banheiro.
— O que está havendo?
— Nada, não é nada — falei. — Eu… hã… Eu só preciso ir ao banheiro.
Peguei novamente o celular para reler o estudo, mas resisti, bloqueei a tela e guardei o aparelho no bolso. Mas não seria fácil assim: eu tinha que conferir se o texto dizia modestamente alterado ou moderadamente alterado. Peguei de novo o celular e abri a página do estudo. Modestamente. Muito bem. Modestamente é melhor do que moderadamente. Mas consistentemente. Merda.
Eu estava com nojo e com o estômago embrulhado, mas também me sentia patética. Sabia que tinha feito um papelão na frente do Davis. Sabia que minha maluquice não era mais uma peculiaridade, uma simples ferida na ponta do dedo. Tinha se tornado um aborrecimento, como era para Daisy, como era para qualquer um próximo de mim.
Apesar do frio, comecei a suar. Subi o zíper do casaco até o queixo enquanto me dirigia à casa. Não queria correr, mas cada minuto contava. Precisava chegar a um banheiro. Davis abriu a porta dos fundos para mim e me indicou o banheiro de visitas no fim do corredor. Fechei a porta, me tranquei lá dentro, para ficar enclausurada, e me debrucei na bancada. Abri o casaco e me olhei no espelho.
Tirei o band-aid, abri a ferida com a unha do polegar, lavei as mãos e coloquei um band-aid novo. Procurei um enxaguante bucal nas gavetas, mas não encontrei, por isso acabei só bochechando com água e cuspindo.
Pronto, estamos bem?, perguntei a mim mesma, e respondi: Mais uma vez, só para garantir. Bochechei e gargarejei com mais água e cuspi. Sequei com papel higiênico o rosto suado e saí do banheiro para a luz dourada da mansão de Davis.
Ele fez um gesto me chamando para sentar e me abraçou. Eu não queria o microbioma dele perto de mim, mas não o afastei, porque também não queria parecer maluca.
— Você está bem?
— Sim. Foi só, tipo, um ligeiro ataque de pânico.
— Foi alguma coisa que eu fiz? É melhor eu…
— Não, não tem nada a ver com você.
— Pode me contar.
— Não, não tem mesmo. Eu… só fiquei um pouco apavorada por causa do beijo, acho que foi isso.
— Muito bem, então sem beijos por enquanto. Não tem problema.
— Mas vai ter. Eu entro nessas… espirais de pensamento, e não consigo sair.
— A rodar e rodar no giro que se alarga — disse ele.
— Eu… Isso não… não passa. Você precisa entender isso.
— Não estou com pressa.
Eu me inclinei para a frente, encarando o piso de madeira.
— O que eu quero dizer é que nunca não vou ter isso. Sou assim desde que me entendo por gente e nunca melhorou, e não posso ter uma vida normal se não consigo beijar alguém sem surtar.
— Está tudo bem, Aza. Sério.
— Você pode pensar assim agora, mas não vai pensar assim para sempre.
— Mas não é para sempre. É agora. Você quer alguma coisa? Água?
— Podemos… podemos só assistir a um filme, talvez?
— Sim — concordou Davis. — Com certeza. — Ele me ofereceu a mão, mas eu me levantei sozinha. Quando estávamos chegando à escada do porão, Davis falou: — Aqui, na residência dos Pickett, temos filmes para todos os gostos: Star Wars Star Trek. Qual é o seu preferido?
— Não sou muito fã de filmes no espaço.
— Ótimo, então vamos ver Star Trek IV: A Volta para Casa. Quarenta por cento dele se passa bem aqui na Terra.
Olhei para ele e sorri, mas não conseguia laçar meus pensamentos, que galopavam sem parar pelo meu cérebro.

* * *

Fomos até o porão, onde toquei no romance de F. Scott Fitzgerald para abrir a estante. Eu me sentei em uma das poltronas reclináveis de couro, tão macias, grata por haver descanso para os braços entre os assentos. Davis apareceu depois de algum tempo com um Dr Pepper, colocou-o no porta-copos que havia no descanso e se sentou ao meu lado.
— Como você consegue ser a melhor amiga da Daisy sem gostar desse tipo de filme?
— Vejo os filmes com ela, só não amo — falei.
Ele está tentando te tratar como se você fosse normal e você está tentando agir como se fosse normal mas todos os envolvidos sabem que você definitivamente não é normal. Pessoas normais podem beijar quando quiserem. Pessoas normais não suam tanto. Pessoas normais escolhem os próprios pensamentos como escolhem o que vão ver na TV. Todos nessa conversa sabem que você é maluca.
— Você já leu a fanfic dela? — perguntou Davis.
— Li umas duas histórias quando ela começou a escrever, ainda no fundamental. Não curto muito.
Eu sentia as glândulas sudoríparas em ação no meu buço.
— Daisy é uma escritora muito boa. Você deveria ler as histórias dela. Na verdade, você meio que está em algumas.
— Aham, tá bom — falei, baixinho.
Então, Davis finalmente pegou o celular e iniciou o filme por um aplicativo. Fingi prestar atenção enquanto seguia todo o caminho da espiral. Não parava de pensar naquele quadro de Pettibon, com o redemoinho multicolorido, atraindo o olhar para o centro. Tentei praticar a respiração com “selo de aprovação da dra. Singh” sem ser muito óbvia, mas em poucos minutos estava suando em bicas, e Davis com certeza percebeu, porque já tinha visto aquele filme umas cem vezes, e na verdade só estava vendo de novo para me ver vendo, e eu sentia o olhar dele em mim, e, embora eu tivesse fechado o casaco, Davis obviamente havia percebido meu terrível buço ensopado.
Eu sentia a tensão no ar e sabia que ele estava tentando descobrir como me deixar feliz de novo. O cérebro dele girava alucinadamente junto com o meu. Eu não conseguia me fazer feliz, mas conseguia fazer as pessoas ao meu redor infelizes.

* * *

Quando o filme terminou, falei que estava cansada, porque esse parecia ser o adjetivo mais apropriado para conseguir o que queria naquele momento: estar sozinha na minha cama. Davis pegou o carro, me levou para casa, foi comigo até a porta e deu um selinho casto nos meus lábios suados. Acenei para Davis enquanto ele dava ré, e depois entrei na garagem, abri a mala do Harold e peguei o celular do meu pai, porque fiquei com vontade de ver as fotos dele.
Passei de fininho pela minha mãe, que estava dormindo no sofá diante da TV. Achei um antigo carregador na minha escrivaninha, liguei o celular e fiquei sentada ali por um bom tempo, passando por todas as fotos que ele tirara do céu fragmentado por galhos de árvores.
— Você sabe que temos essas fotos no computador, não sabe? — disse minha mãe, num tom afetuoso, atrás de mim.
Ela havia se levantado, mas eu nem ouvira.
— Sim, eu sei.
Tirei o celular do carregador e desliguei o aparelho.
— Você estava conversando com ele? — perguntou ela.
— Mais ou menos.
— O que estava contando?
Sorri.
— Segredos.
— Ah, eu também faço isso. Seu pai é muito bom em guardar segredos.
— O melhor.
— Aza, sinto muito se magoei Davis. Escrevi um bilhete de desculpas. Fui longe demais. Mas também preciso que você compreenda…
— Está tudo bem — interrompi. — Olha, preciso trocar de roupa.
Peguei meu pijama e fui para o banheiro, onde me despi, sequei o suor e deixei meu corpo esfriar, meus pés gelados no piso. Soltei o cabelo e me olhei no espelho. Eu odiava meu corpo. Ele me dava nojo — os pelos, o suor, a magreza. A pele esticada cobrindo o esqueleto, um cadáver com vida. Queria sair — do meu corpo, dos meus pensamentos, sair —, mas estava presa naquela coisa, exatamente como todas as bactérias que me colonizavam.
Uma batida à porta.
— Estou me trocando — falei.
Removi o band-aid e examinei para ver se o machucado estava sangrando ou se tinha pus, joguei o band-aid no lixo, apliquei gel antisséptico no dedo, e o corte ardeu.
Vesti uma calça de moletom e uma camiseta antiga da minha mãe. Quando saí do banheiro, ela estava à minha espera.
— Está ansiosa? — perguntou ela, sem rodeios.
— Estou bem — respondi, e voltei para o meu quarto.
Apaguei as luzes e deitei. Não era bem cansaço o que eu estava sentindo, mas também não tinha mais energia para permanecer consciente. Quando minha mãe entrou, alguns minutos depois, fingi que estava dormindo para não ter que conversar. Ela ficou parada pertinho de mim, sussurrando uma música antiga que sempre cantava quando eu não conseguia dormir. Até onde eu lembrava, era algo que ela fazia desde que eu era muito pequena.
É uma música que os soldados da Inglaterra cantavam usando a melodia da canção de Ano-Novo “Auld Lang Syne”. Dizia: “We’re here because we’re here because we’re here because we’re here.” — estamos aqui porque estamos aqui porque estamos aqui porque estamos aqui. O tom ficou agudo durante a primeira metade, como se estivesse prendendo a respiração, então ficou mais grave aos poucos. “We’re here because we’re here because we’re here because we’re here.”
Embora eu supostamente estivesse grande demais para isso e minha mãe me irritasse à beça, só consegui parar de pensar quando a canção de ninar finalmente me fez adormecer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!