20 de novembro de 2018

Capítulo Dois

Eu já havia transpirado quase todo o meu medo, mas no caminho do refeitório até a aula de história não consegui me conter e peguei o celular para ler de novo a história de terror chamada “microbioma humano” na Wikipédia. Então ouvi minha mãe me gritar da porta da sala dela. Estava sentada à mesa de metal, com o nariz enfiado num livro. Apesar de ser professora de matemática, a leitura era sua grande paixão.
— Nada de celular no corredor, Aza!
Guardei o telefone e fui até ela. Restavam quatro minutos de almoço, tempo perfeito para uma conversa entre mãe e filha. Ao levantar o olhar do livro, ela deve ter percebido alguma coisa no meu rosto.
— Você está bem?
— Aham.
— Não está ansiosa?
Em algum momento, a dra. Singh orientara minha mãe a não perguntar se eu estava ansiosa, então ela reformulou a pergunta para torná-la mais sutil.
— Estou bem.
— Está tomando seu remédio — afirmou ela.
De novo, evitando perguntas diretas.
— Aham — respondi, o que, em linhas gerais, era verdade.
No primeiro ano do ensino médio, quando tive uma espécie de colapso nervoso, um médico me prescreveu um comprimido branco, que eu deveria tomar todo dia mas tomava umas três vezes por semana, em média.
— Estou achando você…
Suada, eu sabia que era isso que ela queria dizer.
— Mãe, você sabe quem decide o horário do almoço? Aqui na escola.
— Olha, não tenho a menor ideia. Provavelmente alguém da coordenação.
— Assim, por que trinta e sete minutos de almoço e não cinquenta? Ou vinte e dois? Ou qualquer outro número?
— Seu cérebro deve ser um lugar muito intenso — comentou ela.
— Só acho esquisito que esse intervalo seja decidido por alguém que eu não conheço e que eu precise adaptar minha vida a ele. Eu sigo a agenda de outras pessoas, entende? Pessoas a quem nem sequer fui apresentada.
— Sim… Bem, olhando por esse ângulo, e por muitos outros, as escolas americanas são bem parecidas com as prisões.
Arregalei os olhos.
— Ai, meu Deus, você tem toda razão, mãe! Os detectores de metal... Os muros altos…
— Os dois são lugares com gente demais e recursos de menos — continuou ela. — E nos dois há sirenes indicando o que fazer.
— E ninguém escolhe quando vai almoçar — acrescentei. — E as autoridades nas prisões são pessoas com sede de poder e corruptas, exatamente como os professores.
Ela me fuzilou com o olhar, mas logo começou a rir.
— Você vai direto para casa hoje?
— Vou. Depois vou deixar a Daisy no trabalho.
Minha mãe assentiu.
— Às vezes sinto falta de quando você era pequena, mas então me lembro daquelas atrações esquisitas do Chuck E. Cheese’s.
— Ela está tentando juntar dinheiro para a faculdade.
Minha mãe voltou a se concentrar no livro.
— Sabe, se a gente morasse na Europa, não precisaria fazer tanto sacrifício para cursar uma universidade.
Já fui me preparando para ouvir de novo o discurso da minha mãe sobre os custos do ensino superior.
— Existem universidades públicas no Brasil. Em grande parte da Europa. Na China. Mas aqui querem cobrar vinte e cinco mil dólares por ano, e nem estou falando das mais caras. Eu mal acabei de pagar meu crédito universitário e daqui a pouco já vamos ter que fazer um novo para você.
— Ainda estou no segundo ano. Dá tempo de ganhar na loteria. E se isso não acontecer até lá, é só eu começar a vender metanfetamina.
Ela deu um sorriso cansado. Pagar minha faculdade era uma preocupação real para minha mãe.
— Tem certeza de que está bem? — perguntou.
Confirmei mais uma vez, e na mesma hora as entidades superiores tocaram o sinal, me mandando para a aula de história.

* * *

Quando cheguei ao meu carro, depois da aula, Daisy já estava sentada no banco do carona. Tinha trocado a blusa manchada pela camisa polo vermelha do uniforme do trabalho e estava com a mochila no colo, bebendo a caixinha de leite que vinha no almoço. Daisy era a única pessoa a quem eu confiava uma cópia da chave do Harold. Nem minha mãe tinha, só ela.
— Por favor, nada de comida dentro do Harold — pedi.
— Leite é bebida, não comida.
— Cara de pau.
Antes de seguirmos para minha casa, parei em frente à escola e esperei Daisy jogar fora a caixinha do leite.

* * *

Talvez você já tenha se apaixonado. Estou falando de amor de verdade, do tipo que minha avó descrevia recorrendo à Segunda Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, aquele amor gentil e paciente, que não tem inveja nem se enaltece, que tudo sofre, tudo crê e tudo suporta. Não sou de usar em vão a palavra que começa com A, dado que é um sentimento raro e precioso e que não deve ser banalizado. É possível levar uma vida feliz sem jamais conhecer o amor verdadeiro, o amor do livro de Coríntios, mas tive a sorte de encontrá-lo em Harold.
Harold era um Toyota Corolla de dezesseis anos, pintado de um turquesa brilhante e com um motor que zunia em ritmo constante, como se fosse seu imaculado coração metálico pulsando. Harold pertencia, antes, ao meu pai; foi ele quem o batizou, aliás. Minha mãe não quis vendê-lo, e por isso o carro ficou oito anos parado na garagem, até eu completar dezesseis anos.
Fazer o motor de Harold funcionar depois de tanto tempo me custou todos os quatrocentos dólares que eu tinha economizado ao longo da vida — mesadas, trocos que eu guardava quando minha mãe pedia que eu comprasse alguma coisa no mercado, empregos de férias no Subway, presentes de Natal dos meus avós. Assim, de certo modo, toda a minha existência culminava em Harold, ao menos financeiramente falando. E eu o amava. Sonhava com ele. Harold tinha um porta-malas extraordinariamente espaçoso, volante personalizado (enorme e todo branco) e o banco traseiro forrado de couro bege. Ele acelerava com a serenidade suave de um mestre zen-budista que sabe como é desnecessário fazer as coisas com pressa; seus freios guinchavam como os riffs de uma guitarra, e eu o amava.
Mas Harold não tinha bluetooth, nem um mísero CD player, ou seja, oferecia apenas três opções: 1) dirigir em silêncio; 2) ouvir rádio; ou 3) escutar o lado B da fita cassete do excelente álbum da Missy Elliott So Addictive, que, por não ser possível ejetar do toca-fitas, eu já tinha ouvido centenas de vezes.
No fim das contas, o sistema de som imperfeito de Harold veio a ser a última nota na melodia de coincidências que mudou minha vida.

* * *

Daisy e eu estávamos passando de uma estação de rádio para outra em busca de uma música da boy band que julgávamos brilhante e desvalorizada quando esbarramos numa notícia: “… Pickett Engenharia, construtora de Indianápolis que emprega mais de dez mil pessoas no mundo todo, foi hoje…” Minha mão já estava em movimento e teria trocado de estação mais uma vez se Daisy não tivesse me impedido.
— Era disso que eu estava falando com você! — exclamou ela.
E o rádio continuou: “… cem mil dólares de recompensa por alguma informação que leve ao paradeiro do CEO da empresa, Russell Pickett, desaparecido na noite anterior à data marcada para o cumprimento da ordem de prisão emitida pela operação policial encarregada da investigação de fraude e suborno. Pickett foi visto pela última vez em sua propriedade à beira do rio, no dia 8 de setembro. Quem tiver informações relacionadas ao caso deve ligar para o Departamento de Polícia local.”
— Cem mil dólares — repetiu Daisy. — E você conhece o filho dele.
— Conhecia.
Por duas vezes seguidas, nas férias de verão do quinto e do sexto anos, Davis e eu fomos para o Camping da Depressão, nosso apelido para o Acampamento Spero, no condado de Brown, exclusivo para crianças que perderam um dos pais.
Afora o tempo que passamos lá, Davis e eu às vezes esbarrávamos um no outro pela cidade, porque ele morava logo depois de mim, seguindo o rio, mas na margem oposta. Minha mãe e eu morávamos no lado que de vez em quando alagava. Os Pickett moravam no lado que tem barreiras de contenção forçando a água na nossa direção.
— Ele nem deve se lembrar de mim.
— Todo mundo se lembra de você, Holmes — insistiu Daisy.
— Isso não foi…
— Não é um julgamento de valor. Não estou dizendo que você é muito boa ou muito generosa ou muito legal, só estou dizendo que é memorável.
— Faz anos que eu não vejo esse garoto.
Mas é claro que a gente não esquece quando vai brincar numa mansão que tem campo de golfe, piscina com quatro tobogãs, uma ilha e tudo o mais. Davis foi o mais próximo de uma celebridade que eu já conheci.
— Cem mil dólares — repetiu Daisy. Peguei a I-465, o cinturão rodoviário que contorna Indianápolis. — Eu ganho oito dólares e quarenta por hora para consertar máquinas de pinball no fliperama, enquanto tem uma bolada de cem mil esperando pela gente!
— Eu não diria exatamente “esperando pela gente”. Sem contar que hoje eu tenho que ler sobre as consequências da varíola nas populações indígenas, então não vai dar mesmo para resolver o Caso do Bilionário Fugitivo.
Acelerei até a velocidade máxima. Eu nunca dirigia além do limite. Amava demais Harold para isso.
— Holmes, você conhece esse tal de Davis melhor que eu, portanto, como dizem os infalíveis rapazes da melhor boy band do mundo, you’re the one! — Ela estava citando uma música chiclete que eu já não tinha mais idade para curtir mas curtia mesmo assim. — Você é a escolhida!
— Só não discordo de você porque essa música é realmente boa demais.
— Você é a es-co-lhi-da. You’re the one that I choose. The one I’ll never lose. You’re my forever. My stars. My sky. My air. It’s you.
Começamos a rir, e troquei a estação do rádio. Pensei que o assunto estivesse encerrado, mas então Daisy acessou a matéria do Indianapolis Star no celular e começou a ler para mim:
— “Russell Pickett, o controverso CEO e fundador da Pickett Engenharia, não estava em casa na manhã desta sexta-feira quando a polícia apareceu com um mandado de busca e apreensão e não foi visto desde então. O advogado de Pickett, Simon Morris, alega desconhecer o paradeiro do cliente, e o agente especial Dwight Allen declarou hoje, em entrevista coletiva, que não foi registrada nenhuma operação com os cartões de crédito em nome de Pickett, nem movimentação alguma em suas contas bancárias desde a véspera da ação policial.” Blá-blá-blá… “Allen declarou também que, além da câmera no portão principal, não há câmeras de vigilância na propriedade. Segundo consta em uma cópia do relatório oficial da polícia, o qual o Star teve acesso, Pickett foi visto pela última vez por seus filhos, Davis e Noah, na noite de quinta-feira.” Blá-bláblá… “… a residência do empresário fica na rua 38… diversos processos… doações ao zoológico…”, blá-blá-blá... “… ligar para a polícia se souber de alguma coisa…”, blá-blá-blá… Ei, como assim não tem câmeras na propriedade? Que tipo de bilionário não tem um sistema de segurança?
— O tipo que não quer seus negócios duvidosos gravados.
Enquanto dirigia, fiquei remoendo a história na cabeça. Eu sabia que havia alguma ponta solta, mas não conseguia identificar qual. Até que me veio a lembrança de assustadores coiotes verdes de olhos brancos.
— Espera aí — falei. — Tinha uma câmera, sim. Não era de segurança, mas Davis e o irmão instalaram uma daquelas de captura de movimentos no bosque, perto do rio. A câmera tinha visão noturna e registrava qualquer bicho que passasse por ali… cervos, coiotes, tudo.
— Holmes! Já sabemos por onde começar!
— E, por causa da câmera no portão da frente, ele não pode ter simplesmente saído de carro por ali. Quer dizer, ou Pickett escalou o muro da própria casa ou atravessou o bosque na direção do rio e foi embora por ali, concorda?
— Sim…
— Então, ele pode ter sido flagrado perto do rio. Quer dizer, já faz alguns anos que estive lá, talvez eles não tenham mais essa câmera.
— Mas talvez tenham! — exclamou Daisy, animada.
— É isso aí.
— Pegue essa saída aqui — disse ela, de repente.
Obedeci. Eu sabia que era a saída errada, mas entrei mesmo assim e, sem que Daisy dissesse nada, segui pela pista da direita, na direção da minha casa. Na direção da casa de Davis.
Daisy pegou o celular e ligou para alguém.
— Oi, Eric. É a Daisy. Escuta, me desculpa, mas estou com infecção intestinal. Pode ser norovírus.
— …
— Claro, sem problema. Me desculpa. — Ela desligou e guardou o celular  na bolsa. — Basta sugerir diarreia que eles deixam você ficar em casa, porque morrem de medo de contaminação. Muito bem, então: vamos entrar em ação. Você ainda tem aquela canoa?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!