20 de novembro de 2018

Capítulo Dezoito

Minha mãe me acordou às seis e cinquenta.
— Perdeu a hora? — perguntou ela.
Entreabri os olhos. Ainda estava escuro no quarto.
— Está tudo bem — falei.
— Tem certeza?
— Aham.
Saí da cama me arrastando e apenas trinta e dois minutos depois já estava na escola. Minha cara não era das melhores, mas já tinha desistido havia muito de impressionar o corpo discente da White River High School.
Daisy estava sentada sozinha nos degraus da entrada.
— Caramba, que cara de sono! — comentou ela quando me aproximei.
Fazia um dia nublado, daqueles em que o sol é uma mera suposição.
— Tive uma noite difícil. Tudo bem com você?
— Tudo ótimo, tirando o fato de que quase não vejo mais minha melhor amiga. Quer fazer alguma coisa mais tarde? Applebee’s?
— Claro.
— Ah, minha mãe pegou meu carro emprestado. Posso ir com você?

* * *

Sobrevivi ao almoço, ao rotineiro encontro pós-intervalo com minha mãe, que quis saber o porquê dos meus “olhos cansados”, à aula de história e à de estatística. Em cada sala, a luz fluorescente capaz de sugar almas aplicava um filtro doentio ao ambiente, e o dia se arrastou até o sinal de saída finalmente me libertar. Fui até Harold e me sentei ao volante para esperar Daisy.
Fazia dias que eu não dormia direito. Que não pensava direito. O gel antisséptico é basicamente etanol, não pode ser ingerido. A atitude mais sensata seria ligar para minha médica, mas como explicar a ela que eu tinha pirado de vez? Não suportava nem imaginar a dra. Singh fingindo compaixão, perguntando se estou tomando o remédio todo dia. Até porque não adiantaria. Nada adianta.
Três remédios diferentes, cinco anos de terapia, e aqui estou eu.

* * *

Acordei com um susto. Era Daisy, abrindo a porta do carro.
— Tudo bem? — perguntou ela.
— Aham. — Liguei o carro. Meu corpo se tensionou involuntariamente. Dei ré e esperei na fila para sair do estacionamento. — Você nem se deu ao trabalho de mudar meu nome.
Minha voz saiu estridente, mas aos poucos fui me sentindo mais segura.
— Hein?
— Ayala, Aza. O início do alfabeto, depois o fim e depois de volta ao início. Ela tem compulsões. Tem minha personalidade. Qualquer um que lesse saberia o que você acha de mim. Mychal. Davis. Todo mundo na escola, provavelmente.
— Aza… — Meu nome de verdade não soou bem na voz dela. — Você não é…
— Vai se ferrar.
— Eu escrevo essas histórias desde que a gente tinha onze anos, e você nunca leu nenhuma.
— Você nunca me pediu para ler.
— Em primeiro lugar, pedi, sim. Várias vezes. Até que cansei de ouvir você dizendo que ia ler mas nunca lia. Em segundo lugar, eu não deveria ter que pedir. Você podia reservar pelo menos três segundos da sua maldita contemplação infinita de si mesma para pensar nos outros. E quer saber? Eu criei a Ayala no sétimo ano. Sei que foi escroto, mas agora ela é uma personagem com vida própria. Ela não é você, entendeu? — Avançamos devagar pelo estacionamento. — Poxa, eu adoro você, e eu sei que não é culpa sua, mas essa sua ansiedade é um pé no saco.
Finalmente saí do estacionamento e peguei a rua. Daisy continuou falando, é claro. Não parava nunca.
— Desculpa, tá bem? Eu devia ter deixado a Ayala morrer faz tempo. Mas você tem razão, ela é meio que uma forma de lidar com… Sabe, Holmes, você é exaustiva.
— Verdade, tudo que a nossa amizade rendeu para você nos últimos meses foram cinquenta mil dólares e um namorado. Tem razão, sou uma pessoa horrível. Do que você me chamou naquela história mesmo? Inútil. Sou uma inútil.
— Aza, ela não é você. Mas você é… extremamente egocêntrica. Sei que tem as suas paranoias e tal, mas isso faz de você uma… Você sabe.
— Não sei, não. Faz de mim o quê?
— Mychal disse uma vez que você é como mostarda. Ótima em pequenas quantidades, mas em excesso é… demais.
Não respondi.
— Desculpa. Eu não devia ter dito isso.
Paramos em um sinal vermelho, e quando ficou verde castiguei um pouco o acelerador do Harold. Eu sentia meu rosto queimar, mas não sabia se estava prestes a chorar ou gritar.
— Mas você sabe do que eu estou falando — continuou Daisy. — Por exemplo, qual é o nome dos meus pais?
Não respondi. Eu não sabia. Só respirei fundo, tentando desacelerar o coração. Não precisava que Daisy entrasse em detalhes sobre a grande merda que eu era. Eu já sabia.
— Eles trabalham em quê? Quando foi a última vez que você foi à minha casa? Cinco anos atrás? Teoricamente somos melhores amigas, mas você não sabe nem se eu tenho um bicho de estimação. Você não tem ideia de como as coisas são para mim, e você é tão, tipo, tão patologicamente desinteressada que nem passa pela sua cabeça tudo que você não sabe.
— Você tem um gato — sussurrei.
— Você não faz a mínima ideia, cacete. É tudo tão fácil para você! Porque, na sua cabeça, você e sua mãe são pobres, mas você usou aparelho nos dentes. Você tem carro e laptop e a porra toda e acha que isso é o básico. Não acha grande coisa ter uma casa com um quarto só seu e uma mãe que te ajuda nos estudos. Não se acha privilegiada, mas tem tudo do bom e do melhor. Você não sabe como é a minha vida e também nem pergunta! Tenho que dividir um quarto com a minha irmã irritante de oito anos que você nem sabe como se chama e aí me julga por comprar um carro em vez de guardar dinheiro para a universidade, mas você não entende. Quer que eu seja uma heroína, abnegada e virtuosa, que é boa demais para se importar com dinheiro, mas isso é babaquice, Holmes. Não ter dinheiro não torna ninguém mais puro ou seja lá que merda você pensa. É só uma bosta. Você não sabe nada da minha vida. E nunca fez o menor esforço para saber, então também não tem o direito de julgar.
— O nome dela é Elena — falei, baixinho.
— Você acha que as coisas são difíceis, e tenho certeza de que são mesmo, dentro da sua cabeça, mas… você não entende nada porque seus privilégios são como o ar que você respira. Pensei que o dinheiro fosse… Pensei que isso fosse deixar a gente no mesmo nível. O tempo todo eu só tentava alcançar você, tentava digitar no celular tão rápido quanto você digita no computador, e achei que se eu tivesse mais dinheiro a gente seria mais próxima, mas acabou que essa história só me fez perceber que… você é meio mimada. Sempre teve tudo e nem consegue se dar conta de como essas coisas tornam tudo mais fácil, porque não consegue enxergar a realidade de mais ninguém.
Tive ânsia de vômito. Pegamos a avenida. Minha mente estava desnorteada: eu odiava Daisy, odiava a mim mesma, achava que ela estava certa e ao mesmo tempo errada, achava que eu merecia e ao mesmo tempo não merecia aquilo.
— Você acha que é fácil para mim? — perguntei.
— Não estou dizendo que…
Eu me virei para ela.
— CALA A BOCA! Meu Deus do céu, você não para de falar há dez anos! Sinto muito se não é divertido andar comigo porque vivo enclausurada na minha cabeça, mas imagina só como é realmente estar presa na própria cabeça, sem ter como sair, sem ter nem um minuto de descanso. Porque essa é a minha vida. Para usar a analogia brilhante do Mychal, imagina NÃO COMER NADA além de mostarda, estar afundada em mostarda O TEMPO TODO, e se você me odeia tanto, é só parar de me chamar para…
— HOLMES! — gritou ela.
Mas era tarde demais. Quando olhei, só deu tempo de perceber que continuava acelerando enquanto o tráfego havia ficado mais lento. Não consegui nem tirar o pé do acelerador antes de bater no carro à frente. Um instante depois, alguma coisa atingiu a traseira. Guincho de pneus, buzinas. Outra batida, dessa vez mais fraca. Então, o silêncio.
Tentei recuperar o fôlego, mas não consegui, porque doía até para respirar. Xinguei, mas só saiu um ahhhggg. Estendi a mão para a porta, mas logo percebi que ainda estava com o cinto de segurança. Olhei para Daisy, que olhava para mim.
— Você está bem!? — gritou ela.
Notei que eu gemia a cada vez que inspirava. Meus ouvidos zuniam.
— Sim. E você?
A dor me deixava zonza. Minha vista começava a ser tomada pela escuridão.
— Acho que sim — respondeu Daisy.
Eu tentava respirar, e o mundo ia se estreitando, virando um túnel.
— Não se mexa, Holmes. Você está ferida. Seu celular está aí? Temos que chamar uma ambulância.
O celular. Soltei o cinto e empurrei a porta. Tentei ficar de pé, mas a dor me derrubou de volta para o banco. Merda. Harold. Uma mulher de tailleur se ajoelhou para ver dentro do carro. Pediu que eu não me mexesse, mas eu precisava. Fiquei de pé, e a dor me cegou por um minuto, mas então os pontos pretos se dispersaram, e só então eu vi o estrago.
Tanto a mala quanto o capô de Harold estavam amassados — ele parecia uma leitura de sismógrafo, mas as laterais estavam perfeitamente intactas. Harold nunca me deixou na mão, nem quando falhei com ele.
Apoiada em Harold, fui cambaleando até a traseira. Tentei abrir o porta-malas, mas estava emperrado. Comecei a bater na lataria, gritando a cada inspiração:
— Merda ah meu Deus, meu Deus, merda! Ele está destruído! Ele está destruído!
— Você só pode estar brincando — disse Daisy, indo até mim. — Está chateada por causa do maldito carro? É um carro, Holmes. A gente quase morreu, e você está preocupada com seu carro?
Soquei a tampa da mala de novo e de novo, até a placa cair, mas não abria.
— Você está chorando por causa do carro?
Eu estava vendo a tranca, só não conseguia abri-la, e sempre que tentava levantar a tampa, a dor nas costelas me cegava. Finalmente, consegui abrir uma brecha suficiente para passar o braço. Tateei o estepe até encontrar o celular do meu pai. A tela estava estilhaçada.
Apertei o botão de ligar, mas, sob as ramificações do vidro quebrado, a tela apenas cintilou com um brilho cinza enevoado. Me arrastei de volta para o lado do motorista e afundei no banco de Harold, a testa apoiada no volante.
Eu sabia que havia cópias das fotos em algum lugar, que não tinham se perdido. Mas era o celular dele, sabe? Meu pai havia segurado aquele aparelho, falado nele. Tirado fotos minhas com ele.
Passei o polegar pelo vidro estilhaçado e chorei até sentir um toque no meu ombro.
— Meu nome é Franklin. Você sofreu um acidente de carro. Sou bombeiro. Tente não se mexer. A ambulância já está a caminho. Como você se chama?
— Aza. Eu não me machuquei.
— Aguenta firme, Aza. Você sabe que dia é hoje?
— Esse é o celular do meu pai — falei. — É o celular dele, e…
— Esse carro é dele? Você está com medo de que ele fique zangado? Aza, eu trabalho nisso há muito tempo e posso garantir que seu pai não vai ficar bravo com você. Ele vai ficar aliviado por você estar bem.
Eu tinha a sensação de estar sendo rasgada por dentro, a supernova de eus explodindo e entrando em colapso simultaneamente. Chorar doía, mas eu não chorava havia muito tempo, e, para falar a verdade, não tinha a mínima vontade de parar.
— Onde está doendo?
Apontei para as minhas costelas, do lado direito. Uma mulher se aproximou, e eles começaram a debater se eu precisava de uma maca. Tentei dizer que me sentia zonza, mas nesse momento tive a sensação de estar caindo, embora não houvesse altura de onde cair.

* * *

Acordei vendo o teto de uma ambulância, presa a uma maca, um homem segurando uma máscara de oxigênio no meu rosto, as sirenes distantes, meus ouvidos ainda zumbindo. Mas logo me vi caindo de novo, caindo e caindo, e de repente estava num corredor de hospital, minha mãe me olhando, a maquiagem escorrendo dos olhos inchados.
— Meu bebê, ai, meu Deus. Meu amor, você está bem?
— Estou. Acho que só quebrei uma costela. O celular do papai quebrou.
— Está tudo bem. Temos todos os arquivos salvos. Eles me ligaram e disseram que você estava ferida, mas não me disseram se estava… — Ela começou a chorar.
Minha mãe meio que desabou em cima de Daisy, e foi só então que me dei conta de que Daisy estava ali, com uma marca vermelha na clavícula.
Eu me virei e olhei para a luz fluorescente no teto, sentindo lágrimas quentes no rosto.
— Não posso perder você também — disse minha mãe.
Uma mulher entrou e me levou para fazer uma tomografia computadorizada, e me senti um pouco aliviada por me afastar da minha mãe e de Daisy por um tempo, por não sentir o turbilhão de medo e culpa pelo enorme fracasso que eu era como filha e amiga.
— Acidente de carro? — perguntou a mulher, enquanto me empurrava na maca e passávamos pela palavra bondade pintada em fonte cursiva na parede.
— Isso.
— Esses cintos de segurança salvam vidas, mas também machucam bastante — comentou ela.
— Pois é. Vou precisar tomar antibiótico?
— Eu não sou médica. Depois do exame ela vem falar com você.
Colocaram alguma coisa no meu dispositivo intravenoso que me deu a sensação de fazer xixi na calça, depois me passaram pelo cilindro da máquina de tomografia e, por fim, me devolveram à pilha de nervos que era minha mãe. Não saía da minha cabeça a voz dela falhando ao dizer que não podia me perder também. Eu sentia seu nervosismo e a via andando de um lado para outro, trocando mensagens com minha tia e meu tio no Texas, deixando escapar suspiros profundos entre os lábios cerrados e dando batidinhas com um lenço de papel na maquiagem borrada.
Daisy não falou muito, pela primeira vez na vida.
— Você pode ir para casa, não tem problema — falei para ela em determinado momento.
— Você quer que eu vá?
— Você que sabe. Sério.
— Vou ficar, então — disse Daisy, e se sentou em silêncio, olhando para mim, depois para minha mãe e de volta para mim.

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