20 de novembro de 2018

Capítulo Dezessete

Mais tarde naquela noite, recebi uma mensagem de Davis.
Ele: Tá por aí?
Eu: Sim. Quer falar no FaceTime?
Ele: A gente pode se ver no mundo real?
Eu: Pode, mas não sou uma boa companhia no mundo real.
Ele: Eu gosto de você no mundo real. Que tal agora?
Eu: Ótimo.
Ele: Traz o casaco. Está frio lá fora, e o céu está limpo.

* * *

Harold e eu fomos até a mansão Pickett. Harold não é muito fã do frio, e tive a sensação de ouvir alguma parte do motor se enrijecendo, mas ele aguentou firme por mim, aquela lindeza de carro.
Quase congelei durante o breve percurso da entrada até a casa, mesmo com meu casaco mais quente e minhas luvas. Nunca reparamos muito no clima quando ele está bom, mas é impossível ignorar aquele frio que faz a gente ver a própria respiração. É o clima que decide quando devemos pensar nele, não o contrário.
A porta se abriu automaticamente assim que me aproximei. Davis estava no sofá com Noah, que fazia o de sempre: imerso no videogame, num jogo de batalhas estelares.
— Oi — falei.
— Oi — disse Davis.
— E aí? — acrescentou Noah.
— Ei, cara — falou Davis, levantando-se —, vou dar uma volta com a Aza antes que ela tire o casaco. Já volto, beleza?
Ele bagunçou o cabelo do irmão antes de se afastar.
— Beleza — respondeu Noah.

* * *

— Eu li as histórias da Daisy — contei a ele enquanto caminhávamos pelo campo de golfe.
A grama ainda era mantida imaculada, embora o único membro da família afeito ao esporte já estivesse desaparecido havia meses.
— Muito boas, não achou?
— É, muito boas. Mas a Ayala é tão insuportável que não consegui prestar atenção em mais nada.
— Não chega a tanto. Ela só é ansiosa.
— Ela causa cem por cento dos problemas.
Davis bateu o ombro no meu de brincadeira.
— Eu até que gosto dela, mas acho que sou suspeito para falar.

* * *

Demos uma volta pela propriedade e paramos na piscina. Davis abriu a cobertura pelo aplicativo do celular e nos sentamos nas espreguiçadeiras. Fiquei observando o vapor da água aquecida encontrar o ar frio, enquanto Davis, deitado, contemplava o céu.
— Não consigo entender por que ele se fecha tanto dentro de si mesmo, quando existe esse infinito em que se perder.
— Quem?
— Noah.
Davis enfiou a mão no bolso do casaco e pegou um objeto, que ficou girando na palma da mão. A princípio, pensei que fosse uma caneta, mas quando ele começou a movê-lo entre os dedos, como um mágico fazendo um truque de cartas, percebi que era o boneco do Homem de Ferro.
— Não me julgue — pediu Davis. — Tem sido uma semana difícil.
— Só não acho que o Homem de Ferro seja mesmo um super-he…
— Você está partindo meu coração, Aza. Mas, ei, está vendo Saturno ali em cima?
Apontando com o boneco, ele me explicou como diferenciar um planeta de uma estrela e como encontrar cada constelação. Disse que nossa galáxia era uma grande espiral, assim como muitas outras.
— Todas as estrelas que estamos vendo agora estão nessa espiral. Ela é enorme.
— E tem um centro? — perguntei.
— Tem. A galáxia toda gira ao redor de um buraco negro imenso. Mas bem devagar. Para você ter uma ideia, nosso sistema solar leva duzentos e vinte e cinco milhões de anos terrestres para completar uma órbita na galáxia.
Perguntei se as espirais da galáxia eram infinitas, e Davis me explicou que não. Ele perguntou sobre as minhas espirais.
Contei sobre um matemático, Kurt Gödel, que morria de medo de ser envenenado e, portanto, não comia nada que não fosse preparado por sua esposa. Um dia, ela ficou doente e teve que ser internada, então Gödel parou de comer. Muito provavelmente, ele sabia que o risco de morrer por inanição era maior que o de ser envenenado, mas simplesmente não conseguiu se forçar a comer e acabou morrendo de fome. Aos setenta e um anos. Ele coabitou um corpo com um demônio por setenta e um anos, e o demônio o venceu no final.
— Você tem medo de que isso aconteça com você? — perguntou Davis.
— É muito estranho: sabemos que a nossa cabeça é doida, mas mesmo assim não conseguimos fazer nada em relação a isso, entende? Não é que a gente se iluda achando que comportamentos desse tipo são normais. A gente sabe que tem um problema. Só não consegue descobrir o que fazer para consertá-lo. Porque pra gente não existe certeza. Para Gödel, por exemplo, não havia como ter certeza de que a comida não estava envenenada.
— Você tem medo de que isso aconteça com você? — perguntou ele novamente.
— Eu tenho medo de muitas coisas.
Continuamos conversando, por tanto tempo que as estrelas se moveram no céu.
— Quer nadar? — sugeriu Davis em determinado momento da noite.
— Está meio frio para isso.
— A piscina é aquecida.
Ele se levantou e tirou a camisa e a calça enquanto eu só observava. Gostei de vê-lo se despir. Davis era magro, mas eu gostava do corpo dele — os músculos das costas sutis, porém definidos, os pelos das pernas arrepiados. Tremendo de frio, ele pulou na água.
— Está magnífica.
— Não trouxe biquíni.
— Mas está de calcinha e sutiã, é quase um biquíni.
Eu ri, tirei o casaco e fiquei de pé.
— Se importa de virar de costas? — pedi.
Ele se posicionou na direção da luz bruxuleante do terrário, onde a futura bilionária se escondia em algum lugar de sua floresta artificial.
Tirei a calça jeans e depois a blusa. Fiquei me sentindo nua, embora tecnicamente não estivesse, mas baixei as mãos e falei:
— Tudo bem, pode olhar.
Entrei devagarzinho na água quente, ao lado dele. Davis colocou as mãos na minha cintura, mas não tentou me beijar.
Ele estava de costas para a ilha, e, depois que meus olhos tinham se adaptado à escuridão, vi a tuatara em um galho, nos encarando com seus olhos escuros.
— Tua está nos observando — falei.
— É uma tarada.
Ele se virou para o terrário. Uma espécie de limo amarelo crescia na pele verde de Tua, e ela respirava com a boca entreaberta, mostrando os dentes. A cauda de crocodilo em miniatura se agitou de repente, e Davis, assustado, se aproximou mais de mim.
— Odeio esse bicho — falou, com uma risada.

* * *

Estava muito frio quando saímos da piscina. Não tínhamos nenhuma toalha por perto, por isso pegamos nossas roupas e corremos de volta para a mansão. Noah ainda estava no sofá, jogando o mesmo jogo. Passei rápido por ele e subi às pressas a escada de mármore.
Já vestidos, fomos para o quarto de Davis. Ele colocou o Homem de Ferro na mesinha de cabeceira e se ajoelhou para me mostrar como funcionava o telescópio. Ele inseriu algumas coordenadas num controle remoto, e o telescópio se mexeu sozinho. Quando o aparelho parou, Davis se inclinou para olhar pelas lentes e então se afastou para me deixar ver também.
— Essa é Tau Ceti — disse ele.
Com a imagem tão ampliada, eu só via escuridão e um disco cintilante de luz branca.
— Fica a doze anos-luz de distância — continuou Davis. — É parecida com o nosso sol, mas um pouco menor. Dois dos planetas que orbitam Tau Ceti talvez até sejam habitáveis… provavelmente não, mas talvez. É minha estrela preferida.
Eu não sabia o que deveria estar vendo. Para mim era só um círculo como outro qualquer. Mas então ele explicou:
— Gosto de olhar para ela e imaginar como alguém no sistema solar de Tau Ceti vê a luz do nosso sol. Neste momento, estão vendo a luz de doze anos atrás… Na luz que eles estão vendo, minha mãe ainda vai viver mais três anos. Nossa casa acabou de ser construída e meus pais discutem dia e noite por causa do projeto da cozinha. Na luz que eles estão vendo, você e eu ainda somos crianças. Temos o melhor e o pior de nossas vidas pela frente.
— Ainda temos o melhor e o pior de nossas vidas pela frente — corrigi.
— Espero que não. Torço muito para que o pior já tenha ficado para trás.
Eu me afastei da luz de doze anos atrás de Tau Ceti e olhei para Davis. Segurei sua mão e tive vontade de dizer que o amava, mas eu não sabia definir muito bem o que sentia por ele. Nossos corações estavam partidos nos mesmos lugares. Isso é parecido com amor, mas talvez não seja exatamente a mesma coisa.
É horrível perder uma pessoa da família, e eu entendia o que ele queria dizer quando falava sobre buscar conforto na luz de anos atrás. Eu sabia que em três anos ele encontraria outra estrela preferida, com uma luz ainda mais antiga para observar. E quando o tempo alcançasse essa nova estrela, ele amaria uma ainda mais distante, e outra depois dessa, porque não podemos deixar a luz alcançar o presente. Caso contrário, esqueceríamos.
Era por isso que eu gostava de olhar para as fotos do meu pai. Era o mesmo princípio, na verdade. Fotografias são apenas luz e tempo.
— Preciso ir — falei, baixinho.
— A gente pode se ver no fim de semana?
— Pode.
— Que tal na sua casa, da próxima vez?
— Claro — concordei. — Se você não se incomodar de ser interrogado pela minha mãe.
Ele me garantiu que não se importava, e nos abraçamos. Fui embora e deixei Davis sozinho no quarto, ajoelhado diante do telescópio.

* * *

Quando cheguei em casa, contei para minha mãe que Davis queria passar lá no fim de semana.
— Vocês estão namorando? — perguntou ela.
— Acho que sim.
— Ele trata você bem?
— Sim.
— Escuta você tanto quanto você o escuta?
— Bem, eu não sou muito de falar. Mas, sim. Davis me escuta. Ele é muito, muito fofo comigo, e em algum momento você vai ter que confiar em mim, sabe?
Ela suspirou.
— Tudo que eu mais quero nesse mundo é proteger você. Proteger você da dor, do estresse, de tudo.
Eu a abracei.
— Você sabe que eu te amo, filha.
Sorri.
— Sim, mãe. Eu sei que você me ama. Quanto a isso não precisa mesmo se preocupar.

* * *

Naquela noite, já na cama, entrei no blog de Davis.

“Duvida que as estrelas sejam fogo, / duvida que o sol se mova.”
— William Shakespeare

Ele não se move, é claro… Quer dizer, se move, mas não ao nosso redor. Até mesmo Shakespeare presumiu verdades fundamentais que acabaram se provando equivocadas. Quem sabe em que mentiras eu acredito, ou você? Quem sabe do que devemos duvidar?
Esta noite, sob as estrelas, ela me perguntou: “Por que todas as postagens sobre mim têm citações de A tempestade? É porque naufragamos?”
Sim. Sim, é porque naufragamos.

Recarreguei a página quando terminei de ler, para ver se havia algum texto novo, e, de fato, ele postara minutos antes.

“Existe a seguinte expressão na música clássica: ‘Saímos para o prado.’ É para aquelas noites que só podem ser descritas desta forma — não há paredes, não há palco, não há nem mesmo instrumentos. Não há teto, não há chão: saímos para o prado. Isso descreve uma sensação.”
— Tom Waits

Sei que ela está lendo isto neste momento. (Oi.) Tenho a sensação de que saímos para o prado esta noite, só não havia música. Nas melhores conversas, nem nos lembramos do que falamos, só nos lembramos da sensação. Foi como se nem estivéssemos lá, deitados na beirada da piscina. Foi como se estivéssemos num lugar impossível de se estar, algum lugar sem teto, sem paredes, sem chão e sem instrumentos.

Eu realmente deveria ter parado por aí, mas, em vez de ir dormir, decidi me torturar lendo mais histórias de Ayala.
Não compreendia como Davis podia gostar dela. Ayala era uma chata — totalmente egocêntrica e sempre incomodando todo mundo. Em uma cena, durante uma festa, Rey observava: “É claro que quando Ayala está por perto, nunca é realmente uma festa, porque em festas as pessoas se divertem.”
Fechei o site, mas não consegui me forçar a deixar o computador de lado e ir dormir. Em vez disso, acabei na Wikipédia, lendo sobre fanfics e Star Wars, e depois me peguei nos mesmos velhos artigos sobre microbioma humano e estudos sobre como a composição microbiana havia moldado pessoas e, em alguns casos, matado.
Em determinado momento, esbarrei com este trecho: “O cérebro dos mamíferos recebe um fluxo constante de informações interoceptivas do trato gastrointestinal. Então as combina a outras informações interoceptivas do organismo e a informações do ambiente para, então, mandar uma resposta integrada às células-alvo do trato gastrointestinal, pelo que é comumente chamado de ‘eixo cérebro-intestino’, mas pode ser melhor descrito como ‘ciclo cérebro-intestino’.”
Sabia que aquele não era o tipo de texto que invocaria pavor em pessoas normais, mas me deixou paralisada de medo. Ali estava escrito que minhas bactérias afetavam meus pensamentos — talvez não diretamente, mas através das informações que as bactérias faziam meu sistema gastrointestinal mandar para o cérebro. Talvez você nem esteja pensando esse pensamento. Talvez seu pensar esteja infeccionado. Eu não deveria ter lido aqueles artigos. Deveria ter ido dormir. Tarde demais.
Dei uma olhada pela fresta embaixo da porta para ver se realmente não havia mais nenhuma luz acesa, sinal de que minha mãe já tinha ido dormir, e fui na ponta dos pés até o banheiro. Troquei o band-aid e o examinei com atenção.
Havia sangue. Não muito, mas um pouco. Levemente rosado. Não está infeccionado. Está sangrando porque ainda não cicatrizou. Talvez esteja infeccionado. Não está. Tem certeza? Você limpou o machucado hoje de manhã? Devo ter limpado. Eu sempre limpo. Tem certeza? Ah, pelo amor de Deus.
Lavei as mãos e coloquei um band-aid novo, mas àquela altura eu já estava afundando a toda velocidade. Abri o armário tomando cuidado para não fazer barulho e peguei um gel antisséptico com aroma de aloe vera. Bebi um gole, depois outro. Fiquei um pouco zonza. Você não deveria fazer isso. Essa merda é álcool puro. Você vai passar mal. Melhor tomar mais um pouco. Espremi mais um tanto na língua. Chega. Você vai ficar limpa depois disso. Só mais um gole. Tomei. Ouvi minhas entranhas reclamarem. Meu estômago começou a doer.
Você pode matar as bactérias boas junto, e é aí que a C. diff entra. Cuidado.
Ótimo, você me diz para tomar o álcool e depois diz para não tomar.
Voltei ao meu quarto, suando em bicas, o corpo pegajoso, parecendo um cadáver. Minha cabeça deu um nó. Você não vai ficar mais saudável bebendo gel antisséptico, sua maluca imbecil. Mas as bactérias podem se comunicar com seu cérebro. ELAS podem dizer ao seu cérebro o que pensar, e você, nãoEntãoquem está no comando aqui? Para, por favor.
Tentei não pensar aquele pensamento, mas, como um cachorro na coleira, eu só conseguia me afastar até certo ponto, e se tentasse ir além, começava a ser estrangulada. Meu estômago roncou.
Nada adiantou. Até mesmo ceder ao pensamento só me garantia um instante de alívio. Eu me lembrei de uma pergunta que a dra. Singh me fizera anos antes, na primeira crise: Você acha que é uma ameaça para si mesma? Mas o que é a ameaça e o que é o “si mesma”? Eu não não era uma ameaça, mas não saberia dizer a quem ou ao que, os pronomes e objetos da frase indefinidos pela abstração de tudo aquilo, as palavras sugadas até lá embaixo em um abismo não verbal. Você é um nós. Você é um você. Você é um ela, um eles. Meu reino por um eu.
Eu me sentia escorregando, mas até mesmo isso era uma metáfora. Afundando, outra metáfora. Não sei descrever a sensação a não ser dizendo que eu não sou eu. Forjada no molde da alma de outro alguém. Por favor, só me tire dessa. Quem quer que seja o meu autor, me tire dessa. Faço qualquer coisa para sair disso.
Mas não consegui sair.
Três flocos, e então quatro.
E depois muitos, muitos mais.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!