20 de novembro de 2018

Capítulo Dezesseis

E, por um tempo, encontramos formas de sermos nós — nos vendo de vez em quando, mas trocando mensagens e nos falando por vídeo quase toda noite. Encontramos um jeito de andar na roda-gigante sem falar sobre ela. Alguns dias eu mergulhava nas espirais mais fundo que em outros, mas trocar o band-aid ajudava um pouco, além de fazer os exercícios de respiração, tomar o remédio e todo o resto.
Assim, minha vida seguia seu curso: eu lia e estudava, fazia provas e via TV com minha mãe, encontrava Daisy quando ela não estava com Mychal ou escrevendo, lia e relia aquele catálogo de universidades, imaginando a variedade de futuros que ele prometia.
Então, numa noite em que eu estava entediada e com saudade dos dias em que Daisy e eu passávamos metade de nossa vida juntas no Applebee’s, resolvi ler as histórias dela.
A mais recente, “Rey: Um raio de calor”, tinha sido publicada na semana anterior. Fiquei pasma ao ver que já alcançara milhares de visualizações. Daisy estava famosinha.
Narrada por Rey, a história se passava em Tatooine, onde os pombinhos Rey e Chewbacca fizeram uma parada para pegar uma carga com um camarada de dois metros e meio de altura chamado Kalkino. Chewie e Rey estavam acompanhados de Ayala, uma garota de cabelo azul que Rey descrevia como “minha melhor amiga e meu maior fardo”.
Na fanfic, eles encontram Kalkino numa corrida de pods e Kalkino oferece ao trio dois milhões de créditos para levar quatro caixas de carga a Utapau.
— Estou com um mau pressentimento — disse Ayala.
Revirei os olhos. Ayala não entendia nada direito. E quanto mais se preocupava, pior as coisas ficavam. Ayala tinha a integridade moral deuma garota que nunca passou fome, sempre criticando como Chewie e eu ganhávamos a vida, sem se dar conta de que nosso trabalho era o que lhe garantia comida e abrigo. Chewie tinha uma dívida eterna com Ayala porque o pai dela havia morrido para salvá-lo, anos antes, e Chewie era um Wookiee de princípios, mesmo quando princípios não eram convenientes. Já a ética pessoal de Ayala era conveniência pura, porque uma vida de privilégios era o único tipo de vida que ela conhecia.
— Isso não está certo — resmungou Ayala.
Ela enfiou a mão na cabeleira azul e puxou uma mecha, enrolando-a no dedo. Um tique nervoso, mas a verdade é que ela era toda nervosismo.
Continuei lendo, com um nó no estômago. Ayala era horrível. Ela interrompeu um momento tórrido entre Chewie e Rey a bordo da Millennium Falcon para fazer uma pergunta irritante sobre o hiperpropulsor “cuja resposta uma criança de cinco anos razoavelmente competente seria capaz de descobrir sozinha”. Ayala abriu uma das embalagens do carregamento, revelando geradores que dispararam tanta energia que quase explodiram a nave e consequentemente comprometeram a entrega da carga. Em determinado ponto, Daisy escreveu: “Ayala não é má pessoa, só é uma inútil.”
Eles concluem a missão com sucesso e entregam os geradores, mas como um deles perdeu energia por causa de Ayala, os destinatários descobrem que nossos intrépidos heróis violaram a carga e oferecem uma recompensa por suas cabeças — ou devo dizer: por nossas cabeças. Isso significava que os riscos seriam ainda maiores no capítulo da semana seguinte.
Havia dezenas de comentários. O último era: “EU AMO ODIAR AYALA. OBRIGADO POR TRAZÊ-LA DE VOLTA.” Daisy respondeu com: “Obg! Obg por ler!”
Li todas as fanfics em ordem cronológica inversa e descobri que Ayala já havia arruinado as coisas para Chewie e Rey de todas as formas possíveis. A única vez que eu tinha feito alguma coisa decente foi quando, transtornada pela ansiedade, vomitei em um Hutt chamado Yantuh, o que acabou distraindo o inimigo, dando a chance de Chewie pegar uma pistola blaster para nos salvar da sentença de morte.

* * *

Fiquei acordada até tarde lendo e até mais tarde ainda pensando no que diria a Daisy no dia seguinte, mas meus pensamentos oscilavam entre fúria e medo, rondando o quarto feito um abutre. Acordei um caco: não apenas cansada, mas também apavorada. Estava me vendo como Daisy me via: sem noção, sem conserto, sem utilidade. Sem nada de bom.
Enquanto ia com Harold à escola, a cabeça latejando por causa da noite em claro, não parava de pensar em como morria de medo de monstros quando criança. Na época, eu sabia que monstros não eram, digamos, reais, mas também sabia que o que não era real podia me causar sofrimento. Sabia que coisas que inventamos eram relevantes e podiam matar. Voltei a me sentir assim depois de ler as histórias de Daisy, como se algo invisível estivesse me perseguindo.
Achei que fosse ficar furiosa ao ver Daisy, mas quando a encontrei, sentada nos degraus da escola encolhida de frio, acenando para mim com a mão enluvada, na verdade senti que… que eu merecia aquilo. Como se Ayala fosse o que Daisy precisava fazer para me aturar.
Ela se levantou quando cheguei.
— Tá tudo bem, Holmes?
Assenti, porque não conseguiria dizer nada. Sentia minha garganta apertada, como se eu estivesse prestes a chorar.
— O que houve? — perguntou ela.
— Só cansaço.
— Holmes, não me leva a mal, mas você tá parecendo um fantasma que acabou de sair de uma casa mal-assombrada e agora está num estacionamento tentando comprar drogas.
— Vou fazer o máximo para não levar a mal.
Daisy me enlaçou pela cintura.
— Olha, você continua linda. Não consegue deixar de ser linda, Holmes, por mais que tente. Só estou dizendo que você precisa dormir um pouco. Se cuidar, entende? — Assenti e dei um jeito de me desvencilhar dela. — Faz uma eternidade que a gente não sai, só nós duas. Pensei em passar na sua casa mais tarde, o que acha?
Quis responder que não, mas lembrei que Ayala sempre dizia não para tudo e não quis ser como minha versão fictícia.
— Claro.
— Mychal e eu vamos fazer o dever de casa juntos hoje à noite, mas, se nós duas formos direto para sua casa depois da aula, tenho aproximadamente cento e quarenta e dois minutos, o que, por acaso, é exatamente a duração de Ataque dos Clones.
— Uma noite de dever de casa?
Mychal apareceu atrás de mim.
— Estamos lendo Sonho de uma noite de verão um para o outro, para a aula de inglês.
— Nossa… Jura?
— O que foi? Não tenho culpa se somos fofos. Mas, primeiro, batalha com o sabre de luz de Yoda na sua casa, depois da escola. Fechou?
— Fechou.
— Combinado, então.

* * *

Seis horas depois, estávamos deitadas no chão, apoiadas nas almofadas do sofá, assistindo a Anakin Skywalker e Padmé se apaixonarem em câmera extremamente lenta. Daisy considerava Ataque dos Clones o filme mais subestimado de Star Wars. Eu achava uma porcaria, mas era divertido ver Daisy assistindo. Ela recitava cada fala, sem exagero.
Passei a maior parte do tempo olhando para o celular, dando uma lida em matérias sobre o desaparecimento de Pickett, procurando alguma coisa que tivesse ligação com corredores ou com bocas de corredores. Eu realmente pretendia cumprir o que prometera a Noah… mas as pistas que tínhamos simplesmente não pareciam pistas.
— Eu queria gostar do Jar Jar, porque odiar o Jar Jar é tão clichê, mas ele é horrível — comentou Daisy. — Eu até o matei, faz uns anos, na minha fanfic. Foi uma sensação deliciosa. — Meu estômago se revirou, mas me concentrei no celular. — O que você está procurando aí?
— Só estou lendo sobre a investigação do Pickett, vendo se há alguma novidade. Noah está mesmo lidando muito mal com tudo isso, e eu… Eu só queria ajudar de algum jeito.
— Holmes, já recebemos a recompensa. Acabou. Seu problema é que você não percebe quando venceu.
— Entendi.
— A questão é que Davis nos deu a recompensa pra gente esquecer essa história. Então, esquece essa história.
— É, você tem razão.
Eu sabia que Daisy tinha razão, mas ela não precisava falar daquele jeito.
Pensei que o assunto estivesse encerrado, mas segundos depois ela pausou o filme e continuou falando:
— É que, tipo, essa não vai ser uma daquelas histórias em que a garota pobretona fica rica mas depois percebe que a verdade importa mais que a grana então ela vai lá e banca a heroína e volta a ser uma pobretona, entendeu? A vida de todo mundo está melhor sem esse cara. Aceita isso.
— Ninguém vai tirar o seu dinheiro de você — falei, baixinho.
— Eu te amo, Holmes, mas seja esperta.
— Já entendi.
— Promete que vai esquecer isso?
— Prometo.
— E nós partimos corações, mas não quebramos promessas.
— Você fica repetindo esse seu “lema”, mas agora passa noventa e nove por cento do tempo com o Mychal.
— Só que neste exato momento estou me divertindo com você e com Jar Jar Binks — brincou ela.
Voltamos a ver o filme. Quando terminou, ela apertou meu braço, dizendo:
— Te amo.
E saiu correndo para a casa do Mychal.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!