20 de novembro de 2018

Capítulo Dezenove

— Tenho boas e más notícias — anunciou a mulher de uniforme azul-marinho quando entrou no quarto. — A má notícia é que você sofreu uma lesão no fígado. A boa é que é uma lesão branda. Vamos deixar você sob observação por alguns dias, para termos certeza de que a hemorragia não vai aumentar. Você deve sentir dor por algumas semanas, mas é só tomar o analgésico que vou receitar. Alguma dúvida?
— Ela vai ficar bem? — perguntou minha mãe.
— Sim. Se a hemorragia piorar, será necessário fazer uma cirurgia, mas, de acordo com a avaliação do radiologista, isso é bem improvável. Em se tratando de lesões no fígado, esse é o melhor cenário possível. Considerando tudo, sua filha teve muita sorte mesmo.
— Ela vai ficar bem? — repetiu minha mãe.
— Como eu disse, vamos ficar em alerta por uns dias. Depois, ela terá que ficar em repouso por pelo menos uma semana. E, dentro de seis semanas, mais ou menos, sua filha já estará recuperada.
Minha mãe se dissolveu em lágrimas.
— Vou ter que tomar antibiótico? — perguntei.
— Creio que não. A menos que a cirurgia seja necessária. Mas, por enquanto, não.
Senti um arrepio de alívio. Nada de antibióticos. Menos riscos de pegar a C. diff. Eu só precisava ter alta o mais rápido possível, então.
A médica perguntou sobre os remédios que eu tomava e fez algumas anotações na ficha.
— Daqui a pouco deve vir alguém para levar você lá pra cima, mas antes disso vamos lhe dar alguma medicação para dor.
— Espera aí. O que a senhora quer dizer com “lá pra cima”?
— Como eu disse, você vai precisar passar umas duas noites aqui para que possamos…
— Não não não não. Eu não posso ficar no hospital.
— Meu amor, você precisa ficar — disse minha mãe.
— Não, eu não posso mesmo. Eu… Esse é o único lugar onde eu não posso ficar. Por favor, me deixa ir para casa.
— Isso não seria aconselhável.
Ah, não. Calma, está tudo bem. A maior parte das pessoas que dão entrada em um hospital saem de lá mais saudáveis. Quase todas, na verdade. A infecção pela C. diff só é comum em pacientes pós-cirúrgicos. Você não vai nem tomar antibiótico. Ah não não não não não não não.

* * *

De todos os lugares do mundo para cair, ali estávamos nós, no meio da espiral que se estreita, no quarto andar de um hospital da cidade de Carmel, Indiana.
Daisy foi embora depois que subimos para o quarto, mas minha mãe ficou, deitada na cadeira reclinável perto da minha cama, virada para mim.
Eu sentia seu hálito enquanto ela dormia, os lábios entreabertos, os olhos fechados ainda borrados, os micróbios de seus pulmões sendo lançados no ar e alcançando meu rosto. Eu não podia trocar de lado porque mesmo com o analgésico a dor era paralisante, e quando virei a cabeça, a respiração dela soprou meu cabelo no rosto, por isso tive que me conformar.
Minha mãe acordou, e seu olhar logo encontrou o meu.
— Você está bem?
— Sim.
— Dói?
Assenti.
— Sabe, Sekou Sundiata diz em um poema que a parte mais importante do corpo “não é o coração, ou os pulmões, nem o cérebro. A maior e mais importante parte do corpo é a parte que dói”.
Ela pousou a mão no meu braço e voltou a dormir.
Mesmo chapada de morfina, ou seja lá o que tinham me dado para a dor, eu não conseguia dormir. Ouvia sem cessar os bipes nos quartos em volta, e o cômodo não estava muito escuro, e estranhos bem-intencionados não paravam de entrar para extrair sangue do meu corpo e/ou tirar minha pressão, e, acima de tudo, eu sabia, sabia que a C. diff estava invadindo meu corpo, que estava pairando no ar. No celular, li histórias de pacientes contando que haviam entrado no hospital para uma cirurgia de retirada de pedra na vesícula ou nos rins e saído completamente destroçados.
O grande problema da C. diff é que todo mundo a carrega no corpo. Todos temos essa bactéria, que fica ali à espreita, até que ela sai do controle, assume o comando e então começa a destruir seu organismo. Às vezes, acontece por puro acaso. Às vezes, acontece porque alguém ingeriu a C. diff expelida por outra pessoa. Sem contar que a C. diff é ligeiramente diferente em cada um, e aí ela começa a se misturar com a do outro e bum!
Eu sentia pequenos espasmos nos braços e nas pernas, enquanto meu cérebro pulava de pensamento em pensamento, tentando descobrir um jeito de se salvar.
O tubo intravenoso apitava. Eu nem sabia quando trocara o band-aid do dedo pela última vez. A C. diff vagava dentro de mim e em tudo à minha volta. Ela era capaz de sobreviver meses fora do corpo, esperando calmamente um novo hospedeiro. O peso combinado dos maiores animais do mundo — seres humanos, vacas, pinguins, tubarões — é de cerca de um bilhão de toneladas. O peso combinado das bactérias é de quatrocentos bilhões de toneladas. Não chegamos nem perto delas.
Do nada, a música “Can’t Stop Thinking About You” grudou na minha cabeça. Quanto mais eu pensava nela, mais esquisita parecia. O refrão — can’t stop can’t stop can’t stop thinking about you — sugere que tem algo de bonitinho ou romântico em não conseguir tirar alguém dos seus pensamentos, mas se algum garoto pensa em você como eu penso na C. diff, pode ter certeza de que não é nada bonitinho nem romântico. Simplesmente não consigo parar de pensar. Tento encontrar alguma coisa sólida em que me agarrar nesse mar revolto de pensamentos. O quadro da espiral. Daisy odeia você, e com toda a razão. Davis com a língua encharcada de micróbios no seu pescoço. O hálito morno da sua mãe. A camisola do hospital colada às suas costas ensopadas de suor. E, lá no fundo, algum eu gritando me tira daqui me tira daqui por favor me tira daqui faço qualquer coisa, mas os pensamentos continuavam girando, a espiral se estreitando cada vez mais, a boca do corredor, a estupidez de Ayala, Aza e Holmes e todos os meus eus irreconciliáveis, meu egocentrismo, a imundície das minhas entranhas, pensa em qualquer coisa que não seja você mesma sua narcisista de merda.
Peguei o celular e mandei uma mensagem para Daisy:
Eu: Sinto muito não ter sido uma boa amiga. Não consigo parar de pensar nisso.
Ela respondeu na mesma hora:
Ela: Tudo bem. Como você tá?
Eu: Eu me importo, sim, com sua vida. Desculpa não ter demonstrado isso.
Ela: Holmes relaxa tá tudo bem desculpa ter brigado com você vamos fazer as pazes vai ficar tudo bem.
Eu: Eu sinto muito mesmo. Não consigo pensar direito.
Ela: Para de se desculpar, garota. Você tá chapada de remédio, é isso?
Não respondi, mas não conseguia parar de pensar em Daisy, em Ayala e, principalmente, nos micróbios que havia dentro e fora de mim, e eu sabia que era egoísmo fazer um drama por causa daquilo, transformando as infecções reais que afligiam outras pessoas na minha infecção hipotética. Repreensível. Enfiei a unha do polegar no dedo para atestar a realidade do momento, mas não consigo escapar de mim mesma. Não consigo beijar ninguém, não consigo dirigir, não consigo funcionar no mundo real povoado de sensações. Como eu pude sequer fantasiar em estudar em outro estado, onde se paga uma fortuna para dormir em alojamentos repletos de desconhecidos, com banheiros e refeitórios coletivos e nenhum espaço privado onde eu pudesse ser maluca em paz? Ficaria presa na universidade dali, isso se conseguisse pelo menos organizar a mente um pouquinho, ao menos o suficiente para me candidatar. Moraria na minha casa com minha mãe, e depois da faculdade também. Nunca me tornaria uma adulta funcional daquele jeito; era inconcebível que eu chegasse a ter uma carreira. Nas entrevistas de emprego, me perguntariam: Qual é seu maior defeito?, e eu explicaria que provavelmente passaria boa parte do expediente aterrorizada por pensamentos que sou forçada a pensar, possuída por um demônio sem nome e sem forma, e que, portanto, se aquilo fosse um problema, era melhor não me contratarem.
Pensamentos são só um tipo diferente de bactéria, nos colonizando. Pensei sobre o eixo cérebro-intestino. Talvez você já seja território dominado. Os detentos agora comandam a prisão. Não uma pessoa, mas uma multidão. Não uma abelha, mas toda a colmeia.
Eu não suportava mais o hálito da minha mãe no meu rosto. Minhas mãos suavam. Sentia meu eu me escapando. Você sabe o que precisa fazer.
— Pode se virar, mãe? — sussurrei, mas em resposta ela apenas exalou outra vez. Você só precisa se levantar.
Peguei o celular para mandar uma mensagem para Daisy, mas as letras ficaram borradas na tela, o pânico já me dominando por completo. Olhei o recipiente do antisséptico para mãos preso à parede ao lado da porta.
É o único jeito isso é burrice se funcionasse alcoólatras seriam as pessoas mais saudáveis do mundo você só precisa desinfetar as mãos e a boca por favor pensa em qualquer outra merda levanta ODEIO ESTAR PRESA DENTRO DE VOCÊ você sou eu não sou você somos nós não sou você quer se sentir melhor você sabe o que precisa fazer isso só vai me fazer vomitar você vai ficar limpa pode ter certeza eu nunca tenho certeza levanta não é nem uma pessoa é uma linha de raciocínio cheia de falhas levanta logo, você sabe que quer fazer isso a médica me mandou repousar e a última coisa que eu preciso no momento é de uma cirurgia você vai se levantar e empurrar o suporte do soro me tire dessa empurra o suporte até a porta do quarto por favor e aperta o recipiente para cair um pouco do gel antisséptico, limpa com cuidado, depois aperta de novo para cair mais, passa nas mãos, coloca na boca, bochecha e passa nos seus dentes e nas suas gengivas imundas. Mas esse negócio tem álcool que meu fígado já lesionado vai ter que processar VOCÊ QUER MORRER DE INFECÇÃO? não mas isso não é racional ENTÃO LEVANTA E EMPURRA O MALDITO SUPORTE DO SORO ATÉ O RECIPIENTE NA PAREDE SUA RETARDADA. Por favor, me deixa em paz. Faço qualquer coisa. Eu me retiro. Pode ficar. Não quero mais este corpo. Você vai se levantar. Não vou. Sou eu que estou no comando, não as minhas vontades. Você vai se levantar. Por favor. Vai até o antisséptico. Agora. Penso, logo não existo. Estou suando você já se contaminou como isso dói você já está contaminada para por favor para você nunca vai ficar livre você nunca vai ficar livre você nunca vai ter a si mesma de volta você nunca vai ter a si mesma de volta você quer morrer disso? você quer morrer disso? porque você vai você vai você vai você vai você vai você vai.
Forcei meu corpo a ficar de pé. Por um momento achei que desmaiaria, tamanha foi a dor. Agarrei o suporte do soro e dei alguns passos, arrastando os pés. Ouvi minha mãe se mexendo. Não me importei. Apertei o recipiente de antisséptico, esfreguei o gel nas mãos. Apertei de novo e enfiei na boca.
— Aza, o que você está fazendo? — perguntou minha mãe.
A vergonha me consumia, mas fiz de novo, porque eu precisava fazer aquilo.
— Aza, pare!
Ouvi minha mãe se levantando e soube que não tinha muito tempo, por isso peguei mais um pouco de gel e enfiei na boca, tendo ânsia de vômito na mesma hora. Um espasmo de náusea me fez vomitar, a dor na costela me cegou, minha mãe me segurou pelo braço. A bile amarela manchou toda a camisola azul-clara do hospital.
Uma voz saiu de um alto-falante em algum lugar atrás de mim.
— Enfermeira Wallace.
— Minha filha está vomitando! Acho que ela bebeu álcool em gel!
Eu sabia que era um ser desprezível. Sabia. Sabia e não havia dúvida. Eu não estava possuída por um demônio. Eu era o demônio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!