20 de novembro de 2018

Capítulo Dez

No dia seguinte, logo ao acordar, mandei uma mensagem para Daisy.
Tenho novidades. Me liga.
No segundo seguinte, o telefone tocou.
— Oi — atendi.
— Sei que ele é um bebê gigante, mas um exame detalhado me mostrou que também é gostoso. E, no geral, bem charmoso, além de muito receptivo e confiante em termos sexuais, embora a gente não tenha feito aquilo nem nada.
— Isso é incrível! Mas então, ontem eu…
— E acho que ele realmente gosta de mim, sabe? Normalmente eu sinto que intimido um pouco os garotos, mas com ele não teve isso. Quando ele me abraçava, eu me se sentia abraçada, está me entendendo? Sem contar que ele me ligou agora cedo e eu achei fofo em vez de exagerado. Mas, por favor, não pense que vou ficar que nem aquelas garotas que se apaixonam e abandonam a melhor amiga. Ai, meu Deus, acabei de dizer que estou apaixonada! Faz menos de vinte e quatro horas que a gente ficou e já estou usando essa palavra amaldiçoada. O que está acontecendo? Como é que de repente esse garoto que eu conheço desde o oitavo ano ficou tão incrível?
— Porque você lê fanfics de romance demais?
— Não existe isso de ler fanfic demais. E o Davis?
— É sobre isso que eu estou tentando falar. A gente pode se encontrar? Você tem que ver com seus próprios olhos.
Queria só ver a cara dela quando eu mostrasse o dinheiro.
— Poxa, não vai dar. Tenho um compromisso daqui a pouco.
— Achei que você não fosse abandonar sua melhor amiga.
— E não vou. Meu encontro é com Charles Cheese, o ratinho. Sofro demais. Dá para esperar até segunda?
— Na verdade, não.
— Tudo bem. Eu saio às seis. Applebee’s. Mas talvez eu tenha que ser multitarefas, porque estou tentando terminar uma história… Não leve para o lado pessoal, viu opa ele tá me ligando tenho que atender te amo beijo tchau.
Quando afastei o celular do ouvido, vi minha mãe à porta.
— Está tudo bem? — perguntou ela.
— Santa superproteção, mãe.
— Como foi o encontro com aquele menino?
— Que menino? São tantos. Tenho até uma planilha para organizar todos eles direitinho.

* * *

Para fazer hora até o encontro com Daisy, dei uma olhada no arquivo que Noah me mandara, com os registros do pai no aplicativo de anotações do iPhone. Era uma lista longa e aparentemente desconexa. Tinha de tudo, desde títulos de livros a citações.
Com o tempo, os mercados sempre vão procurar se tornar mais livres.
Valor experimental.
Quinto andar escada um
Desonra - Coetzee
Páginas e mais páginas disso, apenas pequenos lembretes pessoais, inescrutáveis para outras pessoas. Mas as quatro últimas anotações chamaram minha atenção.
Maldivas Kosovo Camboja
Nunca fale sobre o nosso negócio com estranhos
A menos que você deixe uma perna para trás
A boca do corredor
Era impossível saber a data daquelas anotações, ou mesmo se tinham sido escritas na mesma ocasião, mas era muito provável que estivessem relacionadas, considerando o que descobri. Uma rápida busca no Google me informou que tanto Kosovo como o Camboja e as Ilhas Maldivas não tinham tratado de extradição com os Estados Unidos, ou seja, Pickett provavelmente se livraria das acusações de que era alvo se fosse morar em um desses lugares. Quanto a Nunca fale sobre o nosso negócio com estranhos, é a biografia de uma mulher cujo pai passou a vida fugindo da lei. Por fim, os principais resultados para “a menos que você deixe uma perna para trás” levavam a uma reportagem que investigava como era a vida de fugitivos do colarinho-branco, e a frase em questão se referia à dificuldade de forjar a própria morte.
Só não consegui achar sentido algum para “a boca do corredor”, e a busca só me levou a várias imagens de gente correndo de boca aberta. É claro, todo mundo de vez em quando anota coisas absurdas e aleatórias, que só fazem sentido na nossa cabeça. É para isso que servem aplicativos desse tipo. Talvez Pickett simplesmente tivesse visto algum atleta com uma boca esquisita. Acabei deixando a lista de lado, apesar de me sentir mal por frustrar as expectativas de Noah.

* * *

Harold e eu chegamos ao Applebee’s meia hora antes do combinado. Por alguma razão, eu estava com medo de sair do carro, mas então me ocorreu que dava para alcançar o porta-malas abaixando o encosto do banco traseiro. Com um pouco de contorcionismo, passei para a parte de trás e tateei até encontrar a sacola com o dinheiro e o celular do meu pai, com o carregador.
Enfiei a bolsa embaixo do banco do carona, coloquei o celular do meu pai para carregar e esperei um pouquinho para conseguir ligar.
Anos antes, minha mãe tinha salvado todas as fotos e e-mails do meu pai no computador e em vários HDs externos, mas eu ainda gostava de ver as fotos no próprio telefone; em parte, porque sempre fiz assim, mas principalmente porque havia certa mágica em mexer no celular dele, ainda que passados oito anos desde que seu corpo parara de funcionar.
As luzes do aparelho se acenderam e a tela inicial me recebeu com a foto que mostrava minha mãe e eu no Juan Solomon Park, a Aza de sete anos num balanço, de costas, se inclinando toda para conseguir olhar para a câmera. Minha mãe sempre diz que eu me lembro das fotos em vez do que realmente aconteceu, mas eu sinto como se lembrasse do momento em si: meu pai me empurrando no balanço, a mão dele do tamanho das minhas costas, a certeza de que me deixar levar e subir era também voltar para ele.
Abri uma das fotos. A maioria tirada por ele próprio, eram raras as que mostravam seu rosto. Em vez de ver meu pai, eu via o que ele via, o que atraía seu olhar — a maior parte sendo minha mãe, eu e o céu entrecortado por galhos de árvores.
Fui passando de foto em foto, nos vendo rejuvenescer. Minha mãe num triciclo minúsculo segurando uma Aza pequenina nos ombros; eu tomando café da manhã, o rosto todo sujo de açúcar e canela. As únicas fotos em que meu pai aparecia eram selfies, mas os celulares da época não tinham câmera frontal, o que impedia um enquadramento preciso. As imagens inevitavelmente saíam tortas e cortavam algum pedaço do nosso rosto, mas pelo menos eu sempre saía, grudada na minha mãe — eu vivia agarrada com ela.
Como minha mãe parecia jovem naquelas fotos! A pele lisinha, o rosto fino. Meu pai sempre tirava cinco ou seis seguidas, certo de que alguma sairia boa, e se eu passasse rápido por elas, via o sorriso da minha mãe aumentando ou diminuindo e a Aza de seis anos se esticando para um lado ou outro, mas o rosto do meu pai nunca se alterava.
Quando ele caiu, a música ainda saía pelos fones de ouvido. Eu me lembro bem disso. Era alguma canção soul antiga, o som brotando bem alto dos fones no chão, o corpo caído de lado. Meu pai ficou ali, com o cortador de grama parado, perto da única árvore do nosso jardim. Minha mãe me mandou ligar para a emergência, e foi o que eu fiz. Avisei à atendente que meu pai tinha caído. Ela me perguntou se ele estava respirando, eu repeti a pergunta à minha mãe, que disse que não, e o tempo todo aquele soul totalmente destoante vazando dos fones no mesmo tom agudo e metálico.
Minha mãe continuou tentando reanimá-lo, sem descanso, até a ambulância chegar. Meu pai já estava morto desde o primeiro momento, mas não sabíamos. A certeza só veio quando um médico entrou na sala de espera sem janelas e nos perguntou: “Seu marido tinha problemas cardíacos?” Tinha, no passado.
Minhas fotos preferidas eram as poucas em que meu pai estava fora de foco, porque é assim que as pessoas são, na verdade. Escolhi uma dessas, uma dele com um amigo, num jogo dos Pacers, a quadra de basquete aparecendo atrás, os dois com os traços embaçados.
Então eu contei a ele. Falei que tinha dado sorte e arranjado um dinheiro, e que eu tentaria usá-lo do jeito certo, e que sentia saudades.

* * *

Eu já tinha guardado o celular e o carregador quando avistei Daisy indo na direção do Applebee’s. Abri a janela do Harold e gritei seu nome. Ela entrou no carro e se instalou no banco do carona.
— Tem como você me levar em casa depois? Meu pai não pode me buscar porque vai levar Elena a um evento aí de matemática.
— Claro. Escuta, tem uma sacola embaixo do seu banco. Não faça escândalo.
Ela enfiou a mão no local indicado, puxou a sacola e abriu.
— Cacete — sussurrou. — Meu Deus do céu, o que é isso, Holmes? É de verdade?
Seus olhos ficaram cheios de lágrimas. Eu nunca tinha visto Daisy chorar.
— Davis disse que valia mais a pena para ele, que preferia nos dar logo a recompensa, para a gente não ficar mais xeretando.
— Isso é dinheiro de verdade?
— Imagino que seja. Parece que o advogado dele vai me ligar amanhã.
— Holmes, isso é, isso é… Tem cem mil dólares aqui?
— Aham, cinquenta para cada. Será que a gente pode aceitar isso?
— Claro que pode.
Contei a ela que Davis havia chamado aquilo de “mixaria”, mas confessei que mesmo assim eu tinha medo de ser dinheiro sujo, ou de nos acusarem de extorsão, ou… Mas ela me fez calar a boca.
— Ah, Holmes… nunca vou entender essa ideia escrota de que recusar dinheiro é um gesto nobre.
— Mas é que… Sei lá, só conseguimos esse dinheiro porque conhecemos alguém.
— Sim, e Davis Pickett só conseguiu esse dinheiro porque ele conheceu alguém, mais especificamente o pai. Não é ilegal nem antiético. É maravilhoso.
Daisy estava com o olhar perdido. Começara a chuviscar um pouco — era um daqueles dias chuvosos em Indiana, quando se tem a sensação de que o céu está muito próximo do chão.
Lá fora, na Ditch Road, o sinal de trânsito ficou amarelo e, depois, vermelho.
— Eu vou estudar — disse Daisy. — E não vai ser numa faculdade qualquer.
— Ei, isso não paga o curso inteiro.
Ela sorriu.
— Sim, eu sei que não paga o curso inteiro, sua estraga-prazeres. Mas são cinquenta mil, e isso já é meio caminho andado, sim, senhora. — Daisy saiu do transe e se virou para mim, me agarrando pelos ombros e me sacudindo. — HOLMES. VÊ SE FICA FELIZ. ESTAMOS RICAS. — Ela tirou uma única nota de cem dólares de um dos bolos e a enfiou no bolso. — Vamos pedir o melhor prato que o Applebee’s tem a oferecer.

* * *

Acomodadas à nossa mesa de sempre, Daisy e eu deixamos Holly chocada pedindo refrigerantes.
— Vai querer seu Blazin’ Texan Burger? — perguntou ela, ao trazer as bebidas.
— Holly, qual é a melhor carne que vocês têm?
— Nenhuma é lá essas coisas — respondeu ela, com seu mau humor de sempre.
— Bem, então vou querer meu tradicional Blazin’ Texan Burger, mas dessa vez o acompanhamento vai ser anéis de cebola. Sim, eu sei que é cobrado à parte.
Holly anotou tudo e olhou para mim.
— O vegetariano — pedi. — Sem queijo, sem maionese e…
— Sim, já sei — interrompeu Holly. — Trouxe o cupom?
— Hoje não, Holly — respondeu Daisy. — Hoje não.

* * *

Passamos a maior parte do jantar imaginando detalhadamente a demissão de Daisy do Chuck E. Cheese’s.
— Quero entrar lá amanhã como se fosse um dia normal, e, quando meu nome sair no sorteio para me vestir de ratinho Chuck, eu simplesmente vou dar meia-volta e levar embora a fantasia. Vou sair de lá pela porta da frente, entrar no meu carro zero quilômetro, levar o Chuck para casa, mandar empalhar aquele bicho e pendurar na minha parede como um troféu de caça.
— É tão estranho pendurar na parede a cabeça de animais que as pessoas matam. O chalé do Davis é cheio desses troços.
— Nem me fale — disse Daisy. — Mychal e eu tivemos que nos agarrar à sombra da cabeça de um alce. A propósito: valeu mesmo por interromper a gente ontem, sua pervertida.
— Desculpa, eu queria contar que você estava rica. — Daisy riu e balançou a cabeça, ainda incrédula. — Aliás, esbarrei com Noah, sabe? O irmão mais novo do Davis? Ele me perguntou se eu sabia de alguma coisa sobre o Pickett e me mostrou essas anotações do pai dele. Olha só. — Mostrei a ela. — A última delas é “a boca do corredor”. Você sabe o que pode ser isso? — Mas Daisy também não fazia ideia. — Fiquei mal pelo Noah. Ele chorou e tudo.
— Aquele garoto não é problema seu. Nosso negócio não é ajudar órfãos bilionários. Nosso negócio é ficar rica. E está dando certo.
— Cara, cinquenta mil não deixa ninguém rico. Não chega nem à metade do que se paga para estudar na Universidade de Indiana.
Era a instituição que ficava a duas horas de onde morávamos, em Bloomington.
Daisy ficou em silêncio, os olhos vazios, tamanha a concentração.
— Muito bem — disse ela, por fim. — Eu estava só fazendo uns cálculos mentais. Cinquenta mil equivalem a quase cinco mil e novecentas horas de trabalho no meu emprego atual, o que dá setecentos e oito dias de trabalho, e isso se eu conseguisse sempre um turno integral, o que normalmente não acontece. A partir disso, concluímos que cinquenta mil são dois anos de trabalho, considerando uma frequência de sete dias por semana, oito horas por dia. Isso pode até não ser o seu conceito de rica, mas é o meu.
— Faz sentido.
— E tudo isso estava numa caixa de Cheerios.
— Na verdade, mais da metade estava em caixas de cereais de fibra de trigo.
— Sabe o que demonstra que você é uma BFF de respeito, Holmes? Você me contou sobre o dinheiro. Olha, eu espero ser o tipo de pessoa que teria dividido o dinheiro com você numa situação que envolvesse um prêmio de loteria no valor de seis dígitos, mas, para ser honesta, não confio em mim mesma. — Ela deu uma mordida no hambúrguer e engoliu quase tudo de uma vez antes de voltar a falar. — Esse cara, esse advogado, será que ele não vai tentar pegar o dinheiro de volta?
— Acho que não.
— Temos que ir ao banco para depositar a bufunfa. Agora mesmo.
— Davis disse que é melhor a gente falar com o advogado.
— Você confia nele?
— Sim. Confio de verdade.
— Own, Holmes, nós duas apaixonadas. Eu, por um artista, e você, por um bilionário. Finalmente estamos levando a vida que sempre merecemos.
Naquela noite, nossa conta deu menos de trinta dólares, mas deixamos vinte de gorjeta para Holly, por nos aturar.

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