20 de novembro de 2018

Capítulo Cinco

Enquanto eu levava Daisy para casa no abraço cálido de Harold, ela não parava de falar que eu com certeza estava a fim de Davis.
— Holmes, você está reluzindo. Está luminosa. Radiante.
— Não estou, não.
— Está, sim.
— Sério, eu nem sei se acho ele bonito.
— Ele está naquela vasta região intermediária — respondeu Daisy. — Sabe? Bonito o suficiente para despertar meu desejo de ser conquistada. O grande problema dos garotos é que noventa por cento deles são meio que qualquer coisa. Se a gente vestisse e higienizasse os caras direitinho, se conseguisse colocar uma postura decente neles, fazer com que ouvissem as garotas e não fossem uns idiotas, eles seriam totalmente aceitáveis.
— Não estou a fim de namorar ninguém, juro.
Sei que muita gente que diz isso no fundo quer, sim, namorar, mas no meu caso era verdade. Até me sentia atraída por alguns garotos e gostava da ideia de ter um namorado, mas, na prática, meus talentos não atendiam ao funcionamento geral da coisa. É que algumas partes de um relacionamento romântico clássico me deixam ansiosa, entre elas: 1) beijar; 2) ter que dizer as coisas certas para não magoar a outra pessoa; 3) acabar dizendo mais coisas erradas enquanto você ainda está tentando se desculpar pelas primeiras; 4) ser obrigada a ficar de mãos dadas no cinema mesmo quando você está suando e os suores dos dois já estão começando a se misturar; e 5) se sair bem naquele momento em que o garoto pergunta “Em que você está pensando?” e espera que você diga “Estou pensando em você, meu bem”, mas na verdade você está pensando no que leu outro dia, que as vacas literalmente não sobreviveriam não fosse pelas bactérias que vivem no estômago delas e que isso meio que significa que elas não existem como formas de vida independentes, o que, como isso não é exatamente algo que se possa dizer em voz alta, acaba forçando você a escolher entre mentir e ser esquisita.
— Pois eu quero namorar — confessou Daisy. Estávamos entrando no estacionamento do condomínio dela. — Até daria em cima do Pobre Órfão Bilionário se ele não tivesse olhos só para você. Ah, falando nisso, fiquei sabendo de uma coisa fascinante. Adivinha só quem fica com os bilhões do Pickett se ele morrer?
— Humm… Davis e Noah?
— Não. Mais uma chance.
— O zoólogo?
— Não.
— Diz logo!
— Adivinha.
— Tá bom: você.
— Infelizmente, não, o que é uma terrível injustiça. Sou uma bilionária nata, Holmes, só me faltam os bilhões. Tenho a alma de uma proprietária de jatinho e a conta bancária de alguém que depende de transporte público. Uma verdadeira tragédia. Mas não, não sou a herdeira. Nem Davis. Nem o zoólogo. Quem ganha a bolada é o tuatara.
— Hein?
— O maldito tuatara, Holmes. Malik disse que essa informação é de conhecimento público, e é mesmo. Escuta só. — Ela pegou o celular. — Matéria do Indianapolis Star do ano passado: “O bilionário Russell Pickett, CEO e fundador da Pickett Engenharia, chocou todos os elegantes convidados na cerimônia de entrega do Indianapolis Prize, noite passada, ao anunciar que deixará todo o seu patrimônio para seu tuatara de estimação. Referindo-se a tais criaturas, que chegam a viver mais de cento e cinquenta anos, como ‘animais mágicos’, Pickett contou que fundou um instituto de pesquisa voltado para estudar especificamente seu tuatara de estimação e lhe garantir os melhores cuidados possíveis. ‘Ao investigarmos os segredos de Tua’, declarou o empresário, usando o nome de batismo do animal, ‘descobriremos a peça-chave para a longevidade e compreenderemos melhor a evolução da vida na Terra.’ Ao ser questionado por um repórter do Star sobre sua intenção de, postumamente, investir todos os seus bens em um fundo em benefício de um único espécime, Pickett reiterou: ‘Minha riqueza beneficiará Tua e apenas Tua, até sua morte. Posteriormente, será revertida para um fundo que beneficiará os tuatara do mundo inteiro.’ Um representante da companhia salientou que os assuntos particulares de Pickett em nada afetam a direção da empresa.” Nada melhor que deixar sua fortuna para um lagarto se a sua intenção é mandar um grande foda-se para os seus filhos.
— Bem, como você deve se lembrar, não é um lagarto — observei.
— Holmes, um dia você ainda vai ganhar o Prêmio Nobel por Arrogância Extrema, e eu vou morrer de orgulho.
— Obrigada.
A essa altura, havíamos chegado ao edifício de Daisy. Estacionei Harold.
— Então, se o pai do Davis tiver morrido, ele e o irmão não vão receber nada? — perguntei. — A lei não obriga a pessoa a deixar um valor mínimo para a subsistência dos filhos ou coisa parecida?
— Não sei. Mas isso me faz pensar: será que Davis entregaria o pai se soubesse onde ele está?
— Pois é — concordei. — Bom, alguém tem que saber. Ele precisou de ajuda, certo? Não tem como uma pessoa desaparecer do mapa assim, sem mais nem menos.
— Sim, mas existem muitos possíveis cúmplices. Pickett deve ter uns bons milhares de funcionários. Sem contar as sei lá quantas pessoas que trabalham naquela propriedade dele. Cara, eles têm um zoólogo.
— Deve ser um saco viver cheio de gente rondando sua casa o dia todo. Pessoas que nem são da sua família, sabe? Se metendo no seu espaço a cada segundo.
— É mesmo. Como alguém aguenta o sofrimento de lidar com criados eficientes e entusiasmados…? — Eu ri. Daisy continuou: — Muito bem! Minha lista de tarefas: pesquisar sobre a lei de herança e conseguir o relatório da polícia. A sua é se apaixonar pelo Davis, mas já está quase completa. Valeu pela carona. Hora de fingir que amo minha irmã.
Ela pegou a mochila e saiu do carro, batendo a frágil e preciosa porta do Harold antes de se afastar.

* * *

Em casa, fiquei vendo TV com minha mãe, mas não conseguia parar de pensar em Davis olhando para o meu dedo, segurando a minha mão.
Às vezes tenho esses pensamentos que a dra. Karen Singh chama de “intrusivos”. Na primeira vez que ela mencionou esse termo, eu entendi “invasores”, o que na verdade é bem mais apropriado, porque, assim como as ervas daninhas e toda a categoria de plantas invasoras, esses pensamentos parecem chegar à minha biosfera vindos de alguma terra muito distante e ali se
instalarem, multiplicando-se sem controle.
Em teoria, todo mundo tem pensamentos assim. Você está cruzando uma ponte, digamos, e, quando olha lá de cima, do nada lhe ocorre que poderia simplesmente pular. Se for como a maioria das pessoas, vai pensar: Cruzes, que troço macabro e seguir sua vida, mas para algumas pessoas o invasor pode assumir o controle, expulsando todos os outros pensamentos até ser o único a ocupar sua mente, de tal modo que você estará perpetuamente presa àquela ideia — seja pensando naquilo, seja tentando não pensar naquilo.
Então você está numa boa vendo TV com a sua mãe — aquele programa sobre detetives que viajam no tempo — e se lembra de um garoto segurando sua mão, olhando para seu dedo, e vem o pensamento: Você precisa tirar o band-aid e ver se está infeccionado.
Você não quer fazer aquilo, é só um intruso. Todo mundo tem pensamentos assim, mas você não consegue fazê-los parar. Tendo já passado por uma boa dose de terapia cognitivo-comportamental, você diz a si mesma: Eu não sou meus pensamentos, embora no fundo não saiba exatamente o que você é. Então envia a ordem interna de clicar no X pequenininho ali no canto superior do pensamento para fazê-lo ir embora. Talvez funcione por um instante; você está de volta em casa, no sofá, junto da sua mãe. Mas então seu cérebro diz: Ei, espera aí. E se seu dedo estiver infeccionado? Por que não dá uma conferida rapidinho? O refeitório não era lá o lugar mais limpo para reabrir esse corte. E depois você ainda esteve no rio…
Agora você está nervosa, porque já viveu esse mesmo ciclo milhares de vezes e também porque quer ser capaz de escolher quais pensamentos vai chamar de seus. Afinal, o rio era mesmo sujo. Você chegou a molhar a mão? Não seria improvável. Hora de tirar o band-aid. Você diz a si mesma que tomou o cuidado de não tocar na água, mas seu cérebro retruca: Mas e se você tocou em alguma coisa que tocou na água? Então você responde que é quase certo que o machucado não vai estar infeccionado, mas a brecha aberta pelo “quase” é logo preenchida pelo pensamento: Você precisa ter certeza. Só para a gente se tranquilizar. E aí você cede, tá bom, tudo bem, e avisa que vai ao banheiro, tira a pontinha do band-aid, e não está sujo de sangue, mas talvez esteja um pouco úmido. Você levanta a pontinha do band-aid para observar melhor à luz amarelada do banheiro, e, sim, definitivamente está úmido.
Pode ser suor, é claro, mas também pode ser água do rio, ou, pior ainda, uma secreção com pus, sinal certo de infecção. Por isso, você pega o gel antisséptico no armário do banheiro e passa um pouco no machucado, o que queima como o inferno, e em seguida lava as mãos com vigor, contando os vinte segundos recomendados pelos médicos, depois seca muito bem as mãos na toalha. Então você crava a unha do polegar bem no talho do dedo, fazendo sangrar, e aperta por alguns segundos até o fluxo de sangue parar, e enfim seca a ferida com um lenço de papel. Você pega um band-aid no bolso da calça, um estoque que está sempre sendo reposto, e, com cuidado, coloca o novo curativo. Então volta à sala para ver TV e por alguns minutos, talvez até muitos minutos, sente a tensão deixando seu corpo, o alívio de ter cedido aos anjos maus de sua natureza.
Dois ou cinco ou seiscentos minutos se passam até você começar a se perguntar: Será que eu consegui tirar todo o pus? Era pus mesmo, ou só suor? Se era pus, acho que vou precisar drenar de novo.
E assim a espiral afunila, até o infinito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!