20 de novembro de 2018

Capítulo Catorze

Na segunda-feira, antes de entrar na escola, contei a Daisy sobre a troca de mensagens, o beijo e os oitenta milhões de micróbios.
— Pensando por esse lado, beijar é meio nojento mesmo — comentou ela. — Mas pensa só: talvez os micróbios dele sejam melhores que os seus. Você pode ficar mais saudável.
— Pode ser.
— Vai que você ganha superpoderes? “Ela era uma garota normal até beijar um bilionário e se tornar… a MULHER MICROBIÔNICA, a exterminadora dos micro-organismos.”
Olhei para ela sem a menor empolgação.
— Desculpa, não ajudou? — perguntou Daisy.
— Com o tempo deve ficar menos esquisito, né? Cada vez que a gente se beijar e nada de ruim acontecer, vai ser menos apavorante. Ele não vai me passar a campylobacter nem nada. — Depois de um instante, acrescentei: — Acho.
Daisy ia dizer alguma coisa quando viu Mychal cruzando o estacionamento na nossa direção.
— Fica tranquila, você não vai pegar nada, Holmes. A gente se vê no almoço. Beijo!
E correu ao encontro de Mychal, se jogando nos braços dele e lhe tascando um beijo apaixonado, a perna dobrada para trás teatralmente, como se estivesse num filme.

* * *

Fui à casa de Davis logo depois da escola. Encontrei o portão de ferro fundido da entrada fechado e tive que sair de Harold para tocar o interfone.
— Residência dos Pickett — atendeu uma voz que identifiquei como de Lyle.
— Oi, é a Aza, amiga do Davis.
Ele não respondeu, mas o portão se abriu com um rangido. Voltei para Harold e entrei. Lyle estava no carrinho de golfe quando parei em frente à mansão.
— Oi — cumprimentei.
— Os garotos estão na piscina. Quer uma carona?
— Posso ir andando.
— Vamos — insistiu ele, categoricamente, indicando o lugar ao seu lado no banco. Subi no carrinho, e Lyle nos pôs em movimento sem a menor pressa. — Como está Davis?
— Bem, acho.
— Frágil… é assim que ele está. Os dois.
— Verdade — concordei.
— Lembre-se disso. Já perdeu alguém?
— Já.
— Então você sabe como é — concluiu ele, quando já nos aproximávamos da piscina.
Davis e Noah estavam sentados lado a lado na mesma espreguiçadeira, os dois inclinados para a frente, encarando o chão. A frase de Lyle ressoava em minha mente: Então você sabe como é. Não, eu não sabia. Não exatamente. Toda perda é única. Não dá para saber como é a dor de outra pessoa, da mesma forma que tocar o corpo de alguém não é o mesmo que viver naquele corpo.
Quando ouviu o carrinho chegando, Davis se virou na nossa direção e ficou de pé.
— Oi — falei.
— Oi. Eu… preciso de uns minutos aqui, desculpa. Aconteceu uma coisa com o Noah. Lyle, por que não dá uma volta com a Aza? Mostra o laboratório para ela, talvez. Encontro vocês lá daqui a pouco, tudo bem?
Concordei e voltei para o carrinho. Lyle pegou o celular e fez uma ligação.
— Malik, você tem uns minutinhos para fazer um tour com uma amiga do Davis?
Enquanto cruzávamos o campo de golfe, Lyle me perguntou como iam as coisas na escola, se as minhas notas eram boas e o que meus pais faziam. Contei a ele que minha mãe era professora.
— E seu pai?
— Ele morreu.
— Ah. Sinto muito.
Seguimos por uma trilha de terra batida entre as árvores até um prédio retangular todo em vidro e com teto plano. Uma plaquinha anunciava: LABORATÓRIO.
Lyle me levou até a porta, abriu para mim e se despediu. Debruçado sobre um microscópio, Malik, o zoólogo, parecia não ter me ouvido entrar. O local era enorme, com uma mesa preta comprida no centro, igual às que usávamos no colégio nas aulas de química. Embaixo da mesa havia armários e, no tampo, todo tipo de equipamentos, alguns dos quais reconheci: tubos de ensaio e provetas cheias de líquidos. Fui até a mesa e vi uma máquina redonda com vários tubos de ensaio.
— Desculpa — disse Malik, enfim. — Essas células não sobrevivem muito tempo fora do corpo, e Tua pesa só seiscentos e oitenta gramas, por isso eu coleto apenas o necessário quando tiro sangue dela. Isso é uma centrífuga. — Ele foi até a máquina, pegou um tubo que parecia conter sangue e o colocou com cuidado num suporte apropriado. — Quer dizer que você se interessa por biologia?
— É, acho que sim — respondi.
Malik olhou para a pequena quantidade de sangue no fundo do tubo.
— Sabia que os tuatara podem ser hospedeiros de parasitas, mas não pegam nenhuma doença deles? Tua tem salmonela, por exemplo.
— Eu não sei muito sobre os tuatara…
— Poucos sabem. É uma pena, porque os tuatara são, sem dúvida, a espécie mais interessante de réptil. Eles são um verdadeiro portal para o passado distante.
Meus olhos continuavam fixos no sangue coletado.
— É difícil para nós, seres humanos, imaginar quanto eles são bem-sucedidos. Eles estão por aqui há bem mais tempo que nós, milênios a mais. Pense só: para sobreviver tanto quanto o tuatara, os humanos teriam que ter surgido no primeiro décimo do um por cento da história do nosso planeta.
— Parece improvável — comentei.
— Muito. O sr. Pickett adora esse aspecto de Tua… Como ela é bem-sucedida. Ele acha incrível que ela, aos quarenta anos, talvez ainda esteja no primeiro quarto de sua vida.
— Então ele vai mesmo deixar todos os bens para ela?
— Há usos piores para uma fortuna — argumentou Malik.
Eu não tinha tanta certeza disso.
— Mas o que mais me fascina, e que também é o foco da minha pesquisa, é o índice de evolução molecular. Por favor, me perdoe se eu estiver entediando você.
Na verdade, eu gostava bastante de ouvi-lo. Malik ficava muito animado ao falar sobre o assunto, os olhos brilhando, demonstrando um amor sincero por seu trabalho. Não era fácil encontrar adultos assim.
— Não, eu acho interessante — falei.
— Você tem aula de biologia?
— Estou tendo agora.
— Muito bem, então você sabe o que é DNA. — Assenti. — E sabe que o DNA sofre mutações? É isso o que cria a diversidade da vida.
— Sei.
— Então, veja só. — Malik foi até um microscópio conectado a um computador e abriu na tela a imagem de uma bolha quase circular. — Isto é uma célula de tuatara. Até onde podemos observar, os tuatara não mudaram muito nos últimos duzentos milhões de anos, certo? São iguais aos fósseis deles. E os tuatara fazem tudo devagar. Amadurecem devagar, visto que só param de crescer aos trinta anos; reproduzem-se devagar, pondo ovos apenas uma vez a cada quatro anos; e também têm um metabolismo muito lento. E, apesar de toda essa lentidão e da mudança mínima que sofreram em duzentos milhões de anos, os tuatara têm uma taxa de mutação molecular maior do que qualquer outro animal conhecido.
— Isso quer dizer que eles estão evoluindo mais rápido?
— Em um nível molecular, sim. Eles mudam mais rápido que os humanos, ou os leões, ou as moscas-das-frutas. O que nos leva a muitas perguntas: todos os animais já sofreram mutações nessa velocidade? Se sim, o que, afinal, tornou a mutação molecular mais lenta? Como o animal em si muda tão pouco, se o DNA dele muda tão rapidamente?
— E você sabe as respostas?
Ele riu.
— Ah, não, não, não. Não estou nem perto de saber. O que eu amo na ciência é que quanto mais aprendemos, menos respostas conseguimos. O máximo que conseguimos são perguntas melhores.
Ouvi a porta se abrir. Era Davis.
— Vamos ver o filme? — perguntou ele.
Agradeci a Malik pelo tour.
— Pode visitar o laboratório sempre que quiser — respondeu ele. — Talvez da próxima vez fique à vontade para fazer carinho na Tua.
Sorri.
— Duvido muito.
Davis e eu não nos abraçamos, não nos beijamos nem nada, só andamos lado a lado pelo caminho de terra batida por um tempo.
— Noah se meteu em confusão na escola — disse ele, enfim.
— O que aconteceu?
— Acho que ele foi pego com maconha.
— Caramba, que droga. Ele foi preso?
— Ah, não, eles não envolvem a polícia em coisas assim.
Tive vontade de contar a ele que, se fosse na White River High School, com certeza a polícia seria envolvida em um caso como aquele, mas fiquei quieta.
— Ele vai ser suspenso — completou Davis.
Estava tão frio que eu via o vapor saindo da minha boca.
— Talvez seja bom para ele.
— Noah já foi suspenso duas vezes e não adiantou nada até agora. Cara, quem leva maconha para a escola aos treze anos? É como se ele quisesse ser castigado.
— Sinto muito.
— Noah precisa de um pai — falou Davis. — Mesmo que seja um pai de merda. E eu não consigo… Não tenho a menor ideia do que fazer. Lyle tentou conversar com ele hoje, mas Noah mal respondeu… tá, sim, aham. Eu vejo que ele sente saudades do nosso pai, mas não tem nada que eu possa fazer, entende? Lyle não é pai dele. Eu não sou pai dele. Enfim, eu estava precisando desabafar, e você é a única pessoa com quem eu posso conversar no momento.
O “única” mexeu comigo. Senti minhas mãos começando a suar.
— Vamos ver o filme — falei.

* * *

— Eu estava tentando pensar em filmes no espaço que agradassem você — disse Davis, já no cinema. — Esse é tosco, mas também incrível. Se você não gostar, pode escolher o filme nas próximas dez vezes. Combinado?
— Combinado.
O filme se chamava O destino de Júpiter e era realmente tosco e incrível ao mesmo tempo. Depois de alguns minutos, segurei a mão de Davis e me senti bem. Ótima. Eu gostava das mãos dele e de como os dedos dele se entrelaçavam aos meus, seu polegar fazendo pequenos círculos naquele pedacinho de pele entre o polegar e o indicador.
Em um dos muitos clímax da história, eu ri de alguma coisa ridícula.
— Está gostando? — perguntou ele.
— Sim. É bobo, mas é ótimo.
Tive a sensação de que ele continuava olhando para mim, por isso tentei, hesitante, retribuir o olhar.
— Não sei dizer se estou interpretando esse momento errado — disse ele, e seu sorriso despertou em mim uma grande vontade de beijá-lo.
Estava sendo gostoso ficar de mãos dadas, o que geralmente não acontecia, por isso tive a esperança de que o beijo também fosse melhor daquela vez.
Eu me debrucei por cima do descanso de braço consideravelmente grande que nos separava e dei um selinho nele. Gostei de sentir o calor da boca de Davis. Queria mais. Toquei seu rosto e comecei a beijá-lo de verdade, senti a boca dele se abrindo, e eu só queria ficar com ele como uma pessoa normal ficaria. Queria sentir aquela intimidade esfuziante que sentia toda vez que trocávamos mensagens, e estava gostando de beijá-lo. Davis era bom nisso.
Mas então os pensamentos vieram, e comecei a sentir como se a saliva dele estivesse viva na minha boca. Eu me afastei do modo mais sutil que consegui.
— Você está bem? — perguntou Davis.
— Sim. Estou ótima. Eu só…
Estava tentando pensar no que uma pessoa normal diria… Porque se eu pudesse simplesmente dizer e fazer o que uma pessoa normal diz e faz, talvez ele até acreditasse que eu era uma pessoa normal, ou talvez isso me fizesse ser normal.
— Quer ir com calma? — sugeriu ele.
— Quero — respondi. — É exatamente isso.
— Tranquilo. — Ele apontou com a cabeça para a tela. — Eu estava louco para chegar nessa cena. Você vai adorar. É insana.
Havia um poema de Edna St. Vincent Millay que ecoava na minha cabeça desde a primeira vez que o li. Um trecho dele diz assim: “Soprados da montanha negra até minha porta / Três flocos, e então quatro / Chegam, e depois muitos, muitos mais.” Podemos contar os primeiros três flocos, e o quarto. Então a linguagem falha, e só nos resta nos preparar para sobreviver à nevasca.
Era assim que a espiral de pensamentos se afunilava. Pensei nas bactérias dele dentro de mim. Pensei na possibilidade de algum percentual das ditas bactérias ser maligna. Pensei na E. coli e na campylobacter e na Clostridium difficile, que muito provavelmente faziam parte do microbioma de Davis.
Um quarto pensamento chegou. E depois muitos, muitos mais.
— Tenho que ir ao banheiro — falei. — Já volto.
Emergi do porão para a luz do entardecer que cintilava pelas janelas, tornando as paredes brancas um pouco rosadas. Noah estava jogando videogame no sofá.
— Aza? — chamou ele.
Dei meia-volta na mesma hora e entrei num banheiro. Lavei o rosto e encarei meu reflexo no espelho, atenta à minha respiração. Observei a mim mesma, tentando descobrir um modo de desligar aquilo, tentando encontrar o botão que calaria meu monólogo interior, tentando.
Então peguei o gel antisséptico no bolso do casaco e espremi uma gota gorda na boca. Tive um pouco de ânsia de vômito enquanto bochechava aquela gosma ardente e em seguida engoli.

* * *

— Vocês estão vendo O destino de Júpiter? — perguntou Noah quando abri a porta do banheiro.
— Sim.
— Legal.
Quando eu já ia saindo da sala, ele me chamou de novo:
— Aza?
Fui até o sofá e me sentei ao lado dele.
— Ninguém quer encontrar ele.
— Seu pai?
— Eu não consigo pensar em outra coisa. Eu… é… Você acha que, não sei, que ele faria mesmo isso, desaparecer e nem mandar uma mensagem? Acha que ele pode estar tentando se comunicar e a gente só ainda não descobriu como ouvir?
Era muito triste ver Noah daquele jeito.
— Talvez seja isso. Ou talvez ele esteja só esperando um momento seguro para voltar.
— É mesmo. É, isso faz sentido. Valeu. — Eu estava começando a me levantar quando ele voltou a falar: — Mas por que ele não mandou um e-mail? Se usasse uma rede Wi-Fi pública, não teriam como rastrear. Por que ele não mandou uma mensagem de um celular pré-pago qualquer?
— Vai ver ele está com medo.
Eu queria muito ajudar, mas talvez não houvesse como.
— Você vai continuar investigando?
— Claro que vou, Noah.
Ele pegou o controle do videogame de novo, minha deixa para voltar à sala de cinema.

* * *

Davis havia pausado o filme no meio de uma batalha entre naves espaciais, e a luz intensa de uma explosão paralisada se refletia na lente de seus óculos quando ele se virou.
— Está tudo bem? — perguntou ele, quando me sentei ao seu lado.
— Sinto muito mesmo.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer para…
— Não, não tem nada a ver com você. É só que… Eu só… Não consigo falar sobre isso agora.
Minha cabeça girava, e eu estava tentando manter o rosto afastado para que ele não sentisse o cheiro do gel antisséptico no meu hálito.
— Está tudo bem — disse Davis. — Eu gosto de nós. Gosto que a gente tenha nosso próprio jeito de se relacionar.
— Você não pode estar falando sério.
— Estou, sim.
Fiquei encarando a tela congelada, esperando que ele desse play no filme de novo.
— Eu ouvi você falando com Noah.
Eu ainda sentia a saliva dele na minha boca, e o alívio do gel antisséptico já estava sumindo. Se eu ainda sentia a saliva dele, provavelmente ainda estava ali.
Talvez seja melhor você tomar mais. Isso é ridículo. Bilhões de pessoas no mundo se beijam e nada de ruim acontece. Você sabe que vai se sentir melhor se tomar mais.
— Ele precisa conversar com alguém — falei. — Um psicólogo, talvez.
— Ele precisa de um pai.
Por que você tentou beijar Davis? Você sabia que isso ia acontecer. Poderia ter tido uma noite normal, mas preferiu isso. A prioridade agora é Noah, não eu. As bactérias dele estão nadando em você. Estão na sua língua agora mesmo. Nem álcool puro seria capaz de matar todas.
— Quer só terminar o filme?
Concordei com a ideia, e ficamos sentados próximos, mas sem contato físico, por uma hora, enquanto a espiral dava voltas e voltas e mais voltas.

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