26 de novembro de 2018

Capítulo 9

— SÓ PARA CONSTAR, AINDA ACHO QUE DEVERÍAMOS ter matado a garota. — Hala manteve a cabeça e a voz baixas, o capuz obscurecendo seu rosto em meio à multidão.
— Sei que acha — sussurrei, olhando por cima do ombro para os muros do palácio pela milionésima vez, enquanto nos arrastávamos até as portas da casa de oração numa lentidão meticulosa. Os corpos das três garotas ainda estavam pendurados lá. Mas somente três. Tínhamos algum tempo para salvar a vítima daquela manhã. Pelo menos um pouco.
Sobre nós, a luz da manhã começava a refletir no grande domo dourado. Sinos ecoaram pela cidade, convocando para as orações. Hoje, íamos atendê-los.
As preces estavam sendo muito mais frequentadas desde que a cidade fora sitiada. Centenas de pessoas se reuniam todos os dias, conduzidas pela visão da barricada profana ao nosso redor. Ou pela visão dos inimigos em nossos portões. Ou pelo medo de que suas filhas fossem levadas.
A última garota tinha sido levada durante a noite, provavelmente perto da hora em que Sam e eu voltávamos para a Casa Oculta, encharcados após o mergulho acidental. Jin havia erguido as sobrancelhas, curioso.
— Quero saber o que aconteceu?
— Provavelmente não — respondi, indo procurar roupas secas enquanto Sam esperava de pé, pingando e sorrindo como um idiota.
Ela se chamava Fariha. Tinha apenas catorze anos. Eu rezava para não ser tarde demais para salvá-la. Mesmo sem ter certeza de que havia alguém ouvindo minhas preces.
— E acho que essa é uma péssima ideia — Hala acrescentou.
— Eu sei — repeti, incerta se significava que eu sabia o que ela achava ou que eu sabia que era uma péssima ideia.
— Mesmo que a gente não a mate, você podia me deixar despedaçar a mente dela — Hala murmurou enquanto seguíamos o fluxo de pessoas para dentro da grande construção abobadada. — Ela é uma ameaça
— Já tinha ouvido nas três primeiras vezes que disse isso.
Estávamos tensas e irritadas. Não era culpa de Hala. Eu só tivera algumas horas de sono. E podíamos estar caminhando para a morte. Tudo isso porque eu não queria devolver Leyla morta ou insana para o pai. Hala argumentou que era exatamente o que ele faria conosco se os papéis fossem invertidos. E era exatamente por isso que me recusava a fazê-lo. Não éramos o sultão. Precisávamos ser melhores do que ele.
Então nós duas concordamos que não deixaríamos a cidade sem fazer alguma coisa. Mesmo se significasse acabar não saindo da cidade.
A multidão nos empurrou para frente. Estávamos tão perto que eu podia notar detalhes dos painéis de ouro nas portas. Em um deles, o primeiro herói golpeava com a espada o pescoço de um monstro. No de baixo, o Criador de Pecados aparecia atrás dele com uma faca, prestes a traí-lo. Em outro, os outros djinnis cercavam o Criador de Pecados, banindo-o por sua traição. Passamos tão perto que acabei olhando para o rosto dos djinnis, tentando reconhecer meu pai entre eles. Mas haviam se desgastado ao longo dos séculos. Se algum dia tinham parecido com alguém, agora estavam anônimos. Desbotados, enquanto os djinnis se afastavam da rotina dos mortais.
E então as portas e seus painéis ficaram para trás, e Hala e eu passávamos sob o alto arco azul e dourado, sendo recebidas pelo abraço caloroso da casa de oração. O ar do lado de fora ainda carregava parte do frio da noite, mas lá dentro fogueiras queimavam por toda parte, em lareiras nas paredes revestidas com terracota. O ar estava denso, com o cheiro de óleo queimado e incenso.
Eu não tinha conseguido notar no escuro da noite passada, enquanto nos preparávamos, mas agora dava para ver claramente que os azulejos de cada parede tinham uma cor diferente, com os mesmos padrões espirais repetidos várias e várias vezes. A parede do norte tinha dois tons de azul, representando a água. A do oeste era dourada e marrom por causa da terra. Aqueles eram dois elementos que haviam sido misturados para criar um corpo humano quando os djinnis nos criaram. A parede do sul tinha uma mistura impressionante de branco e prata para simbolizar o ar que moldou a argila na forma de nossos corpos. E a parede ao leste tinha um vermelho violento e dourado da centelha de fogo que nos deu vida. Todas convergiam para o chão, como uma grande torrente de cores se derramando das paredes. E, acima disso tudo, o domo dourado nos coroava.
Com as lareiras acesas, dava para ver o fio de bronze que passava por dentro do domo em um espiral. Uma marca evidente da mão inventiva de Leyla. Descendo do ápice do domo no mesmo fio, havia um rosto de bronze, com a boca aberta como se gritasse. A máquina de falar de Leyla, a que havia chamado de zungvox. Feita para que as preces pudessem se espalhar pela cidade em uma tentativa vã de controlar o povo enquanto cada vez mais pessoas começavam a cultuar a muralha de fogo. Mas que acabou sendo usada pelo sultão para falar através dos abdals e nos ameaçar pela cidade inteira.
Hala e eu passamos pela multidão enquanto todos à nossa volta encontravam um lugar no chão frio de mármore.
Mas nós duas continuamos a avançar. Mais adiante, vi um jovem de pé ao lado do pai sagrado, mexendo com incensos e uma cópia enorme dos Livros Sagrados, com as laterais douradas. Ele se destacava por seu kurti finamente bordado e pelo queixo igual ao do pai.
Era fato que pelo menos um dos filhos do sultão participava das preces matinais todos os dias. Era uma tentativa de acalmar a agitação crescente. O sultão tinha enviado um príncipe para o meio do povo para lembrar que estavam todos juntos naquela situação.
Estávamos prestes a criar confusão. Com alguma esperança, salvaríamos Fariha e todas as garotas depois dela. Mesmo que significasse nossa morte. Hala me havia feito jurar. Atingiríamos nosso objetivo vivas ou morreríamos ali — só havia essas duas opções.
Estávamos quase na frente quando o pai sagrado de pé na plataforma ergueu as palmas das mãos tatuadas sobre a multidão, num gesto para todos se ajoelharem. Com algum barulho e uma série de encontrões, as pessoas obedeceram.
Exceto nós duas.
— Pronta? — sussurrei para Hala, minha mão se fechando sobre uma faca na cintura. Eu estava tremendo. Nunca ficava nervosa antes de uma luta, mas aquilo era uma encenação.
— Não me diga que justo agora decidiu se acovardar. — Eu não podia ver o rosto dele Hala, mas dava quase para ouvi-la revirando os olhos. —Sua coragem é uma das poucas coisas que gosto em você.
Decidi assumir que aquilo era um “sim”.
Foi como cair da cortina em um espetáculo, um mar de pessoas se ajoelhando enquanto nos mantínhamos de pé. Movemo-nos juntas, Hala inclinando a cabeça para trás e deixando o capuz cair ao mesmo tempo que eu puxava a faca e a colocava em seu pescoço. Então dei um assovio longo. Ao nosso redor, todas as cabeças que haviam se abaixado, prontas para as preces, levantaram de repente. Os assistentes espalhados ao redor olharam na nossa direção, prontos para resolver o problema. Até o pai sagrado olhou para cima irritado, com as sobrancelhas franzidas. Mas sua expressão mudou assim que nos viu.
Ninguém olhando para nós veria duas demdjis. Veriam a princesa Leyla com a Bandida de Olhos Azuis segurando uma faca na sua garganta, ainda que não tivessem como reconhecê-las. A princesa Leyla nunca fora vista pela maioria dos moradores de Izman; e havia tantas histórias circulando sobre o Bandido de Olhos Azuis que ninguém sabia ao certo se era mulher, homem ou lenda. Mas Hala podia invadir a mente de cada uma daquelas pessoas, que teriam plena certeza de quem éramos.
— Vossa alteza — gritei sobre a cacofonia de sussurros. O príncipe, com sua túnica elaborada, olhou na nossa direção.
Eu não sabia o nome dele, que agora nos observara com olhos inocentes. Não fazia muita diferença. Havia centenas de príncipes. De acordo com Leyla, os príncipes mais novos tinham sido enviados para um lugar seguro até a tempestade passar e poderem voltar para casa. Então o sultão poderia moldar um deles como o herdeiro que realmente queria. Um que não o desapontasse como Kadir. Que não se rebelasse como Ahmed. Que não se ressentisse como Rahim. No meio-tempo, os outros filhos estavam sendo usados. Me perguntei se tinham consciência disso. Que não importava o que fizessem, não seriam escolhidos como herdeiros.
— Acredito que seu pai queira isso de volta. — Pressionei a faca na garganta de Hala. O jovem príncipe estremeceu, pensando que via a irmã choramingando sob minha faca. — Agora, ouça o que eu quero. Devolva Fariha Al-Ilham, a garota presa neste momento no palácio. E viva. Acha que pode transmitir a mensagem ao seu pai antes do sol nascer? — O jovem príncipe parecia confuso, nos encarando boquiaberto. Definitivamente não havia puxado a inteligência do pai. — Isso significa que é melhor você correr.
O rapaz acelerou como uma lebre que acaba de ver um falcão, disparando pela curta distância de volta ao palácio para buscar seu pai e, com alguma esperança, Fariha ainda vida. Abordei a multidão ajoelhada ao nosso redor, virando-me e segurando Hala para encará-los.
— É melhor o restante de vocês dar o fora daqui, se quiserem ficar longe disso.
Minha voz ecoou pelo domo alto da casa de oração como as palavras do pai sagrado faziam, de modo que parecessem vir de um poder maior.
Ninguém se moveu de imediato, permanecendo ajoelhados ao meu redor. Olhando para cima, para mim. Absorvendo minhas palavras.
— Agora — eu gritei.
E todos obedeceram, levantando aos tropeções, quase criando uma debandada na pressa de sair da linha de fogo. Não importava o que aconteceria dali em diante, ou qual era a verdade. Os homens e mulheres correndo contariam o que tinham visto: a Bandida de Olhos Azuis devolvendo a filha do sultão. Seria impossível convencer a cidade de que aquilo não tinha sido real. A crença era um idiota estrangeiro à lógica, Jin havia me dito muito tempo antes. Eu esperava que ele estivesse certo. Que a cidade acreditar que o sultão havia recuperado sua filha fosse suficiente para acabar com as execuções. O sultão não teria mais justificativas aos olhos de seu povo.
Voltei a atenção na direção dos assistentes e do pai sagrado, ainda ali, incertos do que deveriam fazer.
— “O restante” significa todo mundo — ordenei.
Eles quase se atropelaram, reunindo as túnicas pesadas do pai sagrado, empurrando-o apressadamente enquanto fugiam, gratos. As grandes portas de ouro que levavam à praça se fecharam, nos deixando sozinhas na imensa casa de oração.
Tirei a faca da garganta de Hala agora que não tínhamos mais plateia. Olhei atenta para o chão. O festival de cores que se derramavam das paredes era caótico. Mas elas lentamente convergiam em ordem, conforme seguiam harmoniosamente para o centro, onde o desenho de um enorme sol dourado se alinhava perfeitamente com a cúpula acima dele. Comecei a contar a partir do centro. Cinco azulejos na direção da plataforma e seis à direita. Hala e eu demos passos cuidadosos sem falar, conferindo o caminho como se nossas vidas dependessem disso. E de fato dependiam.
— É este aqui, gênia. — Hala apontou, encontrando o azulejo certo uma fração de segundo antes de mim. — Não te ensinaram a contar nos confins do deserto?
— Sim, e às vezes usam as mãos para isso — rebati. — Quatro dedos mais um dedão formam o punho com o qual estou tentada a te socar. O que me diz? — Assumimos nossa posição com cuidado, garantindo que estivéssemos exatamente onde deveríamos estar.
A pequena porta lateral foi aberta com violência bem na hora em que eu reposicionava a faca na garganta de Hala. Ela ligava o palácio à grande casa de oração, uma passagem para o sultão e os príncipes poderem participar das preces sem ter que passar pelo povo. O sultão entrou, seguido por quatro abdals. Um deles estava segurando uma jovem chorosa: Fariha.
Precisei lembrar a mim mesma de que não era Rima, Ghada ou Naima, que estavam penduradas nos muros do palácio. Eu havia falhado com elas. Mas Fariha ainda podia ser salva. Assim como uma centena de outras garotas da cidade. Garotas cujos nomes eu jamais saberia, contanto que salvássemos a vida daquela.
— Amani. — O sultão me cumprimentou com um sorriso lento e exuberante. Eu odiava aquela voz. Odiava que ainda me impelisse a endireitar a coluna e inclinar para ouvir o que diria.
Ele havia me mostrado várias facetas antes. O árbitro benevolente no tribunal dos suplicantes, o pai preocupado, o homem com o fardo pesado de todo um país em seus ombros jantando na minha frente. Mas todas aquelas máscaras tinham sido descartadas. Diante de mim, o sultão se mostrava o que ele era de verdade: um governante que descendia de centena de outros, que haviam lutado com unhas e dentes por aquele trono. Que o tinham agarrado. E então mantido. Ele era o sangue de Imtiyaz, o Abençoado; Mubin, que vencera o Conquistador de Olhos Vermelhos; Fihr, que construíra a cidade de Izman do nada.
E eu era apenas a filha descartada de um djinni vinda de uma cidade nos confins do deserto, improvisando truques tirados da manga. Ouvi mais uma vez aquela voz no fundo da minha cabeça, mais alta a cada dia que os olhos da rebelião se viraram para mim esperando ordens que eu não queria dar. E respostas que eu não tinha. Quem eu pensava que era para enfrentar aquele homem, descendentes de conquistadores e lendas?
— E quem é essa? — O sultão analisou Hala, que mantinha a ilusão na mente de todos, embora não conseguisse enganar o pai da princesa. Eu não achava mesmo que ele cairia. Não era necessário. Enganar o povo era suficiente.
— Isso importa? — Larguei a faca e parei de fingir, embora Hala não tivesse descartado a ilusão de imediato, mantendo o rosto de Leyla. — Todo mundo pensa que entrei aqui com a sua filha. Então acho que seria bom se eles viessem Fariha saindo. Ou algumas pessoas vão acabar se perguntando por que o sultão não parece um homem de palavra agora que recuperou a filha.
Odiei o sorriso lento e sarcástico que se abriu no rosto dele, aquele que Jin havia herdado. Parte de mim queria impressioná-lo com o truque. Queria que ele soubesse que eu entendia que estava brincando com a gente ao matar aquelas garotas. Uma parte de mim chegava a querer reconhecimento por enfrentá-lo com meu próprio jogo.
— Havia maneiras mais fáceis de fazer isso, é claro. — O sultão deu um passo na nossa direção. Seus quatro abdals o seguiram em uma marcha militar perfeitamente sincronizada, forçando a garota chorosa para frente. Resisti à urgência de recuar. Não podíamos nos mover, não se queríamos pelo menos uma chance de escapar com vida. — Alguém deve ter sugerido me entregar Leyla morta. — Ele estava usando aquela voz paciente irritante, como se fosse meu pai me ensinando uma lição muito importante.
Hala ergueu a mão para responder.
— Ah, acredite, eu sugeri. Inúmeras vezes.
A ilusão se alterou num piscar de olhos, como uma cena que se altera sem explicação em um pesadelo. Hala não era mais uma Leyla viva e respirando, e sim o cadáver dela, pendurado do telhado em uma longa corda vermelha, igual às três garotas nos muros do palácio, seus pés batendo nos azulejos enquanto o corpo balançava. Mas o sultão olhou para a ilusão sem se impressionar. Não importava o quanto parecesse real, não era suficiente para comovê-lo. Ele voltou a atenção a mim.
— Era um bom conselho, mas você não ouviu. — Parecia que ele já esperava por isso. Como se não tivesse o menor medo de que sua filha morresse nas minhas mãos. — É por isso que perderam. Porque tentaram bancar os heróis.
— Ainda não perdemos. — Eu queria que fosse uma resposta impactante, mas soou como uma criança batendo o pé. Ele estava me enrolando. Quase me seduzindo para contar a ele nosso segredo: Ahmed ainda estava vivo. Tínhamos pouco tempo. O dia estava quase terminando de nascer. As badaladas dos sinos começariam em breve, nosso sinal para Sam nos tirar daqui. E precisávamos libertar a garota primeiro. — Vou pedir mais uma vez: deixe Fariha ir, para seu próprio bem.
Um longo momento de silêncio se passou enquanto o sultão considerava minhas palavras. Eu quase podia ouvir os momentos se esvaindo, grãos de areia deslizando rápido demais pela ampulheta. Uma contagem regressiva de segundos preciosos até que fôssemos puxados para fora dali, deixando Fariha para trás. Então, finalmente, ele assentiu, concedendo uma pequena perda.
— Solte a garota — ele ordenou ao abdal. Imediatamente, suas mãos de metal se afrouxaram. Ela cambaleou, com os olhos arregalados e assustados. E então correu, disparando na direção das portas e da segurança.
Eu queria manter os olhos no sultão, mas não consegui evitar. Precisava vê-la sair. Virei a cabeça só um pouco enquanto saía. Foi um erro. Soube disso assim que ouvi o clique, como uma bala entrando em posição antes de ser disparada.
Voltei a cabeça e vi uma pequena esfera, menor que uma bola de criança, feita de metal e engrenagens, rolar na nossa direção, ganhando vida com um zumbido repugnante. Era uma das invenções de Leyla.
Estava tentando sacar a arma quando veio a explosão. Não de fogo e pólvora, mas de pó. De repente, uma nuvem cinza nos envolveu. Inalei aquilo antes que pudesse pensar e senti o gosto pungente de metal. Percebi o que era enquanto olhava para Hala e a via na sua verdadeira forma, a ilusão completamente dissipada, apenas uma menina de pele dourada tossindo violentamente.
Pó de ferro. O sultão havia jogado uma bomba de pó de ferro em nós, drenando nossos poderes pelo tempo em que permanecesse em nossa pele, nossa língua, nossa garganta.
— Segurem as duas — ele ordenou, e ouvi o zumbido dos abdals assim que começaram a se mover. Tirei meu sheema rápido, usando-o para evitar inalar mais do pó e cobrindo meus olhos o melhor que pude. Podia não ter meus poderes agora, mas não estava indefesa.
Vi um brilho de bronze através da nuvem de pó e mergulhei, com a faca na mão, girando para acertar o calcanhar. Ela afundou em bronze suave, mutilando a palavra que alimentava o abdal e fazendo-o cair. Senti uma mão de metal no ombro e me movi como Shazad havia me ensinado. Não era nem de perto tão boa quanto ela com a faca, mas mantive minha vantagem o suficiente para cortar o braço do abdal selvagemente antes de sacar a arma do coldre e atirar em seu pé. Ele caiu enquanto eu girava para o lado oposto, saindo de perto da nuvem de pó de ferro que levantou.
Virei, pronta para encarar o próximo oponente. Vi o sultão de pé a alguns metros de mim, o braço em volta de Hala, segurando-a firme contra seu corpo e pressionando uma faca em sua garganta. Do mesmo modo que eu havia feito quando ela vestia o rosto de Leyla.
Ela estava indefesa, sua pele dourada coberta pelo pó de ferro grudento, seu brilho transformando em um cinza mosqueado. Eu nunca tinha visto ninguém parecendo tão furioso e assustado ao mesmo tempo.
Mantive a arma apontada para o sultão. Ela não tremeu, embora meu coração batesse violento como um tambor.
— Vá em frente. Me mate — ele provocou. — E o que vai fazer então, Amani? Com nossos inimigos nos portões e uma cidade sem um governante ou herdeiro, o que acha que vai conquistar? Uma invasão? Uma guerra civil? — Ele tinha razão e eu sabia disso. Mas minha arma não estava apontada para ele. Eu mirava Hala.
Tínhamos um acordo. Ela me havia feito prometer. E a promessa de um demdji era inquebrável.
Na noite anterior, no escuro do quarto que dividíamos, concordamos que, se tudo desse errado, nenhuma de nós deixaria a outra ser usada contra a rebelião. O sultão poderia fazer muito mais estrago tendo uma demdji sob seu controle do que enforcando garotas nos muros do palácio.
A promessa me lembrou das centenas de conversas que Shazad e eu tivéramos à noite, na nossa tenda nos tempos do acampamento rebelde. No escuro, de alguma forma, parecia mais seguro dizer aquilo. Como se pudéssemos confessar qualquer coisa li. Confiar nossas vidas uns aos outros.
Encarei seus olhos escuros em seu belo rosto dourado. Seus lábios se moveram muito discretamente. Anda.
Naquele momento, sob a luz fria do amanhecer, me perguntei se tinha sido um truque. Seu lado djinni se revelando, enquanto me fazia firmar aquele acordo. Quando Hala sabia que era ela quem se arriscava a morrer ali. Quando sabia que não estava armada, que não lutaria caso algo desse errado, que ia se jogar aos pés do sultão para me poupar. Quando o que ela realmente queria era garantir que eu não ia deixá-la para trás, para ser usada como já havia sido no passado.
Minha mão começou a tremer, e eu vi a luz do sol dançar na ponta da arma.
O sultão estava dizendo mais alguma coisa, mas não o ouvi. Tudo o que eu podia ver eram os lábios de Hala se movendo, moldando as palavras do que queria que eu fizesse. Ela não podia falar dentro da minha mente, não com o ferro ainda preso em sua pele. Mesmo assim, eu quase podia ouvi-la.
Estava ficando sem tempo, mas hesitei até o último momento possível, minha mente procurando outra saída. Eu não ia puxar o gatilho até que não restassem opções.
Nos braços do inimigo, à beira da morte, Hala revirou os olhos para mim. Então ouvi com clareza em minha mente as palavras que ela havia dito mais cedo.
Não me diga que justo agora decidiu se acovardar. Sua coragem é uma das poucas coisas que gosto em você.
E então os sinos da grande casa de oração badalaram. Aquele era o sinal de que o tempo havia acabado. Não havia outra forma de tirar Hala daquela situação. Eu precisava manter minha promessa.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Respirei fundo e prendi o ar.
Hala sorriu.
Apertei o gatilho.
Meus olhos estavam fechados, mas não importava. Eu não ia errar.
Um tiro ecoou pelo grande domo dourado bem no momento em que mãos se fecharam sobre meus pés. Senti o chão se abrir embaixo de mim, como se estivesse virando água. Não consegui evitar. Abri os olhos por uma fração de segundo, enquanto afundava rapidamente. O momento em que seria tarde demais estava se aproximando depressa. Eu precisava ver. Tinha que me assegurar de que não havia quebrado minha promessa.
Ela estava caída nos braços do sultão, sangue vermelho manchando seu rosto ainda sorridente. Seus dedos raspando no chão. Somente oito deles. Foi como eu soube que estava morta. Se estivesse viva, tentaria esconder aquela ferida, de um jeito ou de outro. Como sempre fazia.
Por um momento, enquanto afundava, vi de relance o abdal quebrado. Percebi que Hala parecia com ele, sua pele dourada brilhante lembrando o bronze polido. Se eu a tivesse deixado viva, ela acabaria como ele, uma coisa para ser usada, uma máquina. Um demdji mecânico.
O chão pareceu ir para cima, e fechei os olhos novamente, como Sam havia me ensinado. Quando toquei o chão firme de novo, eu os abri. Estava de pé no escuro, quebrado somente pela chama de uma lamparina a óleo que tremeluzia debilmente, posicionada perto dos pés dele.
Tínhamos encontrado os túneis sobre os quais Leyla falara na noite anterior e planejado uma rota de fuga, uma maneira de sair quando Fariha estivesse segura, a qual o sultão não fosse capaz de antecipar. O chão era de pedra, o que significava que Sam podia passar seus braços por ele e nos puxar para fora da casa de oração, levando-nos para os túneis eu ficavam abaixo dela. Havíamos marcado um ponto e descoberto que azulejo da parte de cima correspondia a ele. Estávamos paradas exatamente onde precisávamos estar para escapar em segurança. Para sair dali vivas.
Só não contávamos com bomba de pó de ferro.
Sam abriu a boca, com uma pergunta em seus olhos claros. Hala? Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, sacudi a cabeça rápido.
Sam entendeu.
Ela havia morrido para que outros pudessem viver. Para que pudéssemos salvá-los. Para que outras garotas não morressem enquanto estivéssemos fora da cidade. Talvez até tivesse entrado ali sabendo que uma de nós morreria e decidira que seria ela. Para que pudéssemos viver. Escapar.
Ela havia morrido para que pudéssemos fugir. Então fugimos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!