26 de novembro de 2018

Capítulo 7


Levei boa parte do dia para encontrar Sam, o que não ajudou nem um pouco a diminuir a raiva que eu sentia dele. Comecei a imaginar maneiras criativas de matá-lo em algum momento perto do meio-dia, com o suor ensopando minha camisa e meu cabelo grudado no sheema. Quando finalmente consegui encurralá-lo antes do pôr do sol, tinha construído uma imagem muito vívida de como ele encontraria seu fim em minhas mãos.
Tivéramos muita sorte de Sam não sangrar até a morte no dia em que tentara entrar no palácio. Depois que levara o tiro, conseguimos levá-lo de volta à Casa Oculta ainda respirando, graças a Hala e a Jin. As horas seguintes foram um caos. Tentávamos manter nosso amigo estrangeiro vivo, além de preparar todo mundo para fugir se precisássemos. Eu não sabia se alguém havia nos seguido, mas eu já tinha levado o sultão até nosso esconderijo uma vez. Não ia arriscar.
Finalmente, Sam parou de sangrar e voltou a respirar bem, ainda que por muito pouco. Nenhum soldado bateu à porta da Casa Oculta.
Passei a noite tomando conta dele enquanto os demais ficavam de guarda pelas ruas. Se tivéssemos que fugir, seria difícil levá-lo conosco, ferido como estava. Então esperamos e continuamos de guarda. Rezei um bocado.
Três dias após Sam levar o tiro, acordei ao lado de uma cama vazia. Eu havia pressionado o rosto com tanta força na coberta que havia ficado uma marca na minha bochecha. Onde Sam deveria estar não havia nada além de lençóis emaranhados, vagamente manchados de sangue. Meu primeiro pensamento foi de que ele havia morrido em algum momento da noite e Jin removera o corpo para me poupar. Mas então vi o bracelete de ouro com esmeraldas colocado no meu punho enquanto eu dormia. Era de Shazad, uma das peças com a qual pagara Sam na época em que ele estava levando informações do palácio para a rebelião.
Então entendi o que era: um bilhete de despedida. Nenhum dinheiro vale a minha vida, dizia. Ele não estava errado. Dinheiro era algo irrelevante demais por que morrer. Só que eu havia pensado que Sam permanecia conosco por algo mais.
Ainda assim, deixar o bracelete parecia um gesto mais simbólico do que qualquer coisa, já que levou todo o resto do pagamento de Shazad, até o último de seus anéis.
Foi graças às joias dela que o encontrei. Havia um ourives na esquina da rua da Lua, conhecido por não fazer perguntas. Ele precisou de um pouco de suborno, mas me disse onde Sam andava. Estava a caminho do Peixe Branco, um bar nas docas frequentado por marinheiros de todos os tipos passando por Izman. Estava lotado com os mesmo marinheiros nos últimos tempos, visto que ninguém podia entrar ou sair da cidade. A barricada de fogo mergulhava até o fundo do mar.
Só que havia um rumor circulando de que existia um homem que sabia como passar pela barricada. Pelo preço certo, mostraria como. Ele aceitava qualquer pessoa com dinheiro.
Eu tinha ouvido o rumor, mas ignorara, porque era obviamente um golpe. Mas Sam devia ser tolo o suficiente para cair nele.
O calor de um longo dia investigando as ruas da cidade grudava nas minhas roupas quando empurrei as portas do Peixe Branco. Uma dúzia de pares de olhos masculinos grudou em mim também. Eu sabia o que eles viam. Não importava que estivesse vestida com roupas resistentes do deserto ou que estivesse armada: era uma mulher em um lugar frequentado somente por homens. Quase senti falta da época em que era uma garota magricela da Vila da Poeira e podia me passar por menino quando precisava. Mas passara um ano fazendo refeições decentes, e havia muito de mim agora para esconder.
A maioria dos homens voltou a seus drinques e apostas, encolhendo os ombros quando adentrei o bar procurando um rosto familiar. Um homem entrou no meu caminho, tão rápido que tive que parar de repente para não esbarrar nele.
— Qual é o preço? — ele perguntou sem cerimônias.
— Para você sair da frente? — Minha mão já estava na arma. — Vou fazer um favor a você. Vou contar até três e deixar que saia de graça. Depois, vou começar a cobrar em dedos dos pés.
Quando ele olhou para baixo, a pistola estava apontada para sua bota. Seria um tiro fácil à queima-roupa.
Reconheci a risada de Sam um segundo antes de passar o braço por cima do meu ombro.
— Não liga para a minha amiga aqui. — A voz estava alegre demais, como se tentasse cortar a tensão, como o sol passando pelas nuvens. — Ela é muita areia para sua caverna, de qualquer modo. — Ele piscou para o homem. Então, em voz baixa, falando em albish devagar o bastante para que eu conseguisse entender, disse: — Abaixe a arma antes que ele faça algo idiota e a gente tenha que fazer algo heroico.
Mordi a língua com raiva, mas ele tinha razão. Eu não estava ali para atrair atenção começando uma briga de bar. O homem nos analisou rapidamente antes de dar um passo para trás. Sam me puxou para o outro lado, me virando na direção de uma mesa cheia de homens segurando cartas e nos observando com interesse.
— Desculpe a interrupção, rapazes — Sam declarou alto demais. — Tive que ir buscar meu amuleto da sorte. — Ele sentou de maneira abrupta, me puxando para seu colo tão rápido que só pensei em dar um tapa nele quando já estava sentada.
Passei meios mais dolorosos de matar alguém para o topo da lista que havia criado naquela tarde.
Mas eu precisava admitir que os olhares de interesse tinham sido substituídos por uma compreensão presunçosa. Agora os outros apostadores achavam que entendiam o que eu era e a quem pertencia. Sam sabia o que estava fazendo.
— Você vai precisar de mais do que boa sorte esta noite, meu amigo estrangeiro — um homem com um sheema verde escuro solto em volta do pescoço disse com uma risada, — Com cartas como essas...
— Vocês olharam minhas cartas? — Sam bateu uma mão dramaticamente no peito com choque fingido, como se tivesse sido baleado no coração. — Vira-latas! Trapaceiros! Traid...
Eu não tinha tempo para aquilo.
— Sam — interrompi. — Compre uma bebida para mim. — Quando ele estava prestes a protestar, brinquei com a manga do braço dele, apoiada em meu ombro. Podia sentir as cartas enfiadas lá dentro. — Agora, antes que eu diga algo que acabe fazendo você levar um tiro.
Ele entendeu o recado e levantei, me libertando da indignidade de seu colo.
— Senhores — ele disse dramaticamente enquanto levantava, chutando a cadeira de volta ao lugar —, a infidelidade de vocês não me deixa nenhuma escolha além de desistir dessa mão. Mas voltarei assim que conseguir um pouco mais de sorte.
Ele deu uma piscadela, me puxando firme para si. Pensei em esmagar seus dedos antes de assassiná-lo.
— Então, escuta o que eu estou pensando — disse Sam, me levando para uma mesa em um canto escuro e gesticulando para o atendente. — Você chegou bem na hora de me ajudar a vencer. — O atendente largou dois copos de um líquido âmbar na nossa frente, analisando-me cuidadosamente. Eu o encarei de volta. — Tudo o que precisamos fazer é combinar algum tipo de código — Sam prosseguiu alegremente, sem se importar de ser ouvido.
— Vender as joias de Shazad não foi o suficiente? Ficou ainda mais ganancioso agora? — Passei um dedo pela borda do copo à minha frente.
— Não fale assim. — Ele me cutucou, como se fosse uma piada. — Meu amigo ali está cobrando os olhos da cara para tirar pessoas às escondidas daqui. — Ele apontou na direção de um homem que olhava para nós do bar. — Os únicos que podem se dar ao luxo de vender um olho e continuar tão charmosos quanto eu são piratas. Não tenho o menor interesse em passar o resto da vida comendo peixe com um gancho no lugar da mão.
— Por que alguém trocaria sua mão por um gancho?
Sam não costumava me dar tanta dor de cabeça.
Ele abriu a boca como se fosse explicar algum conceito estrangeiro que tinha ido muito além da minha compreensão, como costumava fazer nas reuniões no palácio, mas então pareceu mudar de ideia e só deu um gole na bebida.
— O ponto é — Sam prosseguiu, animado por alguma energia inquieta — se eu quiser sair desta cidade com dois olhos na cara, tenho que encontrar outra coisa para oferecer a ele.
Olhei para o homem apoiado no bar. Se ele realmente sabia como sair daquela cidade, eu era a rainha de Albis.
— Tá, então me conta. Qual é o plano exatamente? — Movi a cadeira para ficar de olho nele. — Mesmo que consiga sair de Miraji, você é um desertor. — Não me dei ao trabalho de suavizar o golpe. — Não sei o que eles fazem em Albis, mas aqui, quando se abandona o exército, eles arrancam sua cabeça.
— Em Albis, eles deixam você continuar com seu pescoço, para amarrar uma corda e te pendurar em uma árvore alta. — Sam não pareceu muito incomodado com isso. — Um carvalho, se houver um disponível, mas pinheiros e teixos também servem. Como seria um crime deixar o mundo sem a minha presença, não voltarei para lá. Ouvi dizer que a península íoniana tem mulheres lindas e boa comida, e que o sol de vez em quando é suportável, diferente daqui.
— Então você tomou um tiro e agora está fugindo de medo? — Todos levamos tiros uma vez ou outra na guerra. Eu havia retirado uma bala do ombro de Jin antes mesmo de saber o nome dele. Tinha uma cicatriz na barriga de um ferimento que quase havia me matado. Sam perdeu um pouco de sangue e, de repente, estava desertando de novo.
Mas ele não pareceu tão intimidado quanto eu tinha esperanças de que ficasse.
— Sim — ele disse, como se eu estivesse sendo irracional. — Qualquer um que afirme não ter medo de morrer ou é burro ou está mentindo. — Ele inclinou seu drinque para mim, como num brinde. — E olha que eu sou o melhor dos mentirosos.
Bati meu copo de leve no dele, pensando no que Tamid havia me contado sobre a probabilidade de ser queimada viva quando liberasse a energia de Fereshteh da máquina.
— Todos vamos morrer um dia, Sam. O que mais você vai fazer? Continuar fugindo de um país para outro até morrer com uma faca entre as costelas porque atravessou o muro errado na próxima cidade? Com a bebida envenenada porque deu em cima da mulher errada na seguinte? Ou acha que vale a pena tomar uma atitude pelo menos uma vez na vida? — perguntei. — Aqui, conosco.
Ele me deu um sorriso sarcástico.
— Falavam um monte de coisas sobre tomar atitude quando entrei para o exército. Só que, para filhos de fazendeiros como eu, isso significa que esperam coragem diante dos canhões inimigos, para que os filhos de homens ricos logo atrás possam voltar para casa cobertos de glória.
— Eu não me importo com glória — desafiei. — Me importo em levar todos para casa. Pessoas com as quais eu sei que você também se importa.
Sam apoiou a cabeça na parede, como se realmente estivesse considerando o que eu dissera. De canto de olho, percebi que o homem no bar continuava a nos observar. Então ele desviou os olhos, como se tivesse sido flagrado. Algo nele me incomodava.
— Sam — eu disse com cautela, mantendo a voz neutra. — Seu amigo por acaso disse como consegue levar alguém de barco para fora de Izman, considerando que faz semanas que ninguém consegue fazer isso?
— Hum? — Ele coçou a sobrancelha com o polegar, evitando o assunto. — Não lembro de ele ter dito nada.
Aquilo me soou como um “não”. O homem estava batendo o pé freneticamente. Quase como se estivesse nervoso. Ou esperando alguma coisa.
— E ele disse o preço? — perguntei. — Mencionou um número, ou você se deu conta de que, independente da quantia que trouxesse, não era suficiente?
— Bem... — Sam parecia pensativo. A bebida o deixava lento. — É assim que os negócios funcionam. Quando há muita demanda por um serviço... Seria tolice definir um preço muito baixo...
Agora até ele parecia cético.
— Não acha estranho — minha mãe desviou para a pistola, mas mantive a voz firme — isso estar acontecendo agora, justo quando o sultão está desesperado para recuperar sua filha? E que você por acaso não tinha a quantia exata de dinheiro e por isso teve que ficar pela área, apostando até reunir o suficiente para escapar da cidade?
Sam finalmente entendeu o que eu dizia. Ele xingou em albish, parecendo mais irritado do que qualquer outra coisa.
— É uma armadilha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!