26 de novembro de 2018

Capítulo 6

NÃO ERA FÁCIL SE MOVER PELAS RUAS DE IZMAN com abdals patrulhando as ruas durante o toque de recolher. Na verdade, para a maioria das pessoas, era impossível. Mas não éramos a maioria das pessoas. Éramos demdjis. Quando o céu começou a clarear, já tínhamos conseguido chegar aos arredores do palácio.
Ficamos escondidos enquanto as pessoas saíam às ruas, até finalmente a praça na frente do palácio estar cheia o bastante para podermos nos misturar. Prosseguimos em campo aberto, assumindo nossos lugares entre o povo de Izman. Havia uma inquietude fora do comum. Todos tinham se reunido ali no dia anterior para os jogos do sultim, que foram interrompidos. Agora, não sabiam o que veriam, uma execução ou uma troca de reféns. Olhei para os rostos à minha volta. Algo parecia diferente em relação à execução de Ahmed ou de Shira. Os dois haviam sido acusados. Tinham sido colocados diante da multidão para enfrentar o que se passava por justiça no mundo do sultão. Agora, contudo, quem aparecesse na plataforma seria inquestionavelmente inocente, para pagar por crimes que não eram seus. Nas bocas tensas e nos olhares baixos, vi que não era a única a reconhecer isso.
Ainda assim, o povo de Izman se agrupava enquanto as sombras da noite se recolhiam. Tínhamos nos dividido: Jin e eu armados, em dois pontos estratégicos, Izz e Maz na forma de estorninhos, empoleirados num telhado próximo, Hala na retaguarda para ficar de olho em todo mundo. Até onde podíamos notar, nossa maior ameaça eram os abdals. Fora por causa deles que eu não conseguira salvar Imin. As ilusões de Hala não os afetavam. Além disso, eles podiam nos queimar vivos se chegássemos perto demais. Atirar no peito deles não funcionava. Precisávamos destruir a palavra inscrita em seus calcanhares que lhes dava vida. Que Leyla tinha coberto com uma armadura de metal. Eu torcia para que as garras de um jaguar pudessem arrancá-las; Izz cuidaria disso. Em seguida, Jin ou eu atiraríamos, dependendo de quem estivesse mais perto. E então, sob uma ilusão de Hala, Maz poderia mergulhar num voo e pegar a garota. Não era um plano à prova de erros, mas era melhor do que nada, que era o que tínhamos quando Imin morreu bem na nossa frente.
Eu me remexi inquieta, observando o lugar onde Imin e Shira tinham perdido a vida. Finalmente amanheceu. Todos os olhos estavam atentos à plataforma, esperando a aparição da garota que morreria pelos nossos crimes. Minutos passaram vagarosamente enquanto eu tocava sem parar a arma na minha cintura, me certificando que ainda estava lá. Mas não houve movimentação vinda do palácio. As portas não se abriram, nenhum sinal de um abdal e de uma garota se debatendo.
— Acha que a princesa foi devolvida? — uma voz perguntou na multidão atrás de mim.
— Talvez fosse um blefe — outra pessoa considerou. Mas eu sabia que nenhuma daquelas possibilidades podia ser verdade. Então o que o sultão estava esperando?
Percebi um movimento pelo canto do olho. Não na plataforma, mas acima de nós, nos muros do palácio. De início não parecia nada, e por um momento pensei estar vendo coisas, um truque de luz. Mas mantive os olhos fixos naquele ponto, como se eu pudesse ver através da pedra por pura força de vontade.
E então o sultão apareceu, segurando uma garota pela cintura.
A silhueta dele impressionava na luz do amanhecer. Estava vestido com um kurti escarlate e um sheema dourado drapejado em volta do pescoço: as cores do sangue se espalhando sobre o céu do amanhecer. Abdals o acompanhavam, o bronze de sua pele artificial brilhando à luz do sol. Mal pude segurar a onda de raiva, ódio e humilhação correndo pelo meu corpo. Parecia capaz de me derrubar.
A jovem estava em roupas brancas de dormir, que chicoteavam e se retorciam em volta de suas pernas no vento da manhã. Seu cabelo escuro caía em volta dos ombros em um emaranhado selvagem. Pareceria estar sem cor, não fosse o toque vermelho no seu pescoço. Por um momento, temi que sua garganta já tivesse sido cortada e que a tivessem levado para fora para morrer lentamente. Mas não, era só um pano vermelho brilhante. De longe, parecia um sheema jogado em volta do seu pescoço, como qualquer garota do deserto poderia vestir. Mas havia outro lampejo vermelho, idêntico a ele, amarrado nas ameias dos muros do palácio. Os mesmos muros de onde eu e Jin havíamos pulado no caos do Auranzeb, confiando que uma corda nos manteria seguros. Mas aquela corda vermelha não estava lá para protegâ-la.
Ele não ia executá-la na plataforma. Ia enforcá-la.
Meu coração começou a acelerar freneticamente enquanto eu olhava em volta, procurando pelos outros. Não conseguiria alcançá-la dali. Procurei desesperadamente pelos gêmeos para sinalizar que esquecessem o plano e voassem para os muros do palácio, mas havíamos nos dividido, e a multidão agora escondia os outros de mim.
Eu estava por conta própria. E longe demais.
Comecei a andar mesmo assim, abrindo caminho pela massa de curiosos, rezando para que conseguisse chegar perto o suficiente dos gêmeos para avisá-los, ou de Hala, para ordenar que criasse uma ilusão que atrapalhasse o sultão. Ou perto o bastante para arriscar um tiro, uma bala bem no meio dos olhos do sultão. Ou para fazer qualquer outra coisa que não fosse ver a menina morrer. Mas a multidão trabalhava contra mim, como se eu estivesse tentando ir contra a correnteza de um rio caudaloso. A meu redor, rostos começaram a virar para cima, notando que algo acontecia.
O sultão deu um passo à frente, parando na beira do muro.
Eu estava perto o suficiente para ver que a garota tremia e chorava diante do precipício. Perto o suficiente para ver o sultão virá-la de costas para ele, na direção do sol nascente. Para vê-lo se inclinar na direção dela e sussurrar algo em seu ouvido. Para ver a garota fechar os olhos com força.
Mas longe demais para fazer qualquer coisa.
Ele a empurrou.
Um único movimento violento e ligeiro, que a jogou da borda do muro, caindo rapidamente. Seu grito irrompeu no ar como uma faca cortando o pano, atraindo todos os olhares que não a haviam notado. Alguns gritos da multidão se misturaram aos dela enquanto toda a praça assistia imponente à sua queda. As roupas se torciam cruelmente em torno de suas pernas agitadas, os pés procurando freneticamente um apoio que não encontrariam. Enquanto ela caía, o tecido comprido e colorido se desenrolava como um sheema capturado pelo vento do deserto, chicoteando atrás dela em uma trilha de vermelho.
Até que terminou de desenrolar.
A corda se retesou. O laço em volta de seu pescoço se apertou firme, interrompendo a queda num puxão violento. Seu grito cessou de repente, me fazendo enjoar. E eu sabia que havia acabado.
O nome dela era Rima. Era de uma família pobre que morava nas docas. A porta de sua casa tinha um sol pintado com tinta escarlate, resquício da Insurreição da Abençoada Sultima. Por aquele motivo fora escolhida. O sol de Ahmed, antes o símbolo da rebeldia, havia sido transformado em alvo.
Ela era a filha do meio de cinco. O sultão podia ter arrancado qualquer uma delas da cama naquela noite. Mas Rima tinha a idade mais próxima da minha.


A segunda menina se chamava Ghada. Sequer tivemos chance de salvá-la. Nem chegamos a vê-la com vida. A manhã chegou com seu corpo já pendurado nos muros do palácio, perto de Rima. Tinha sido morta lá dentro, onde não tínhamos esperanças de chegar. O sultão não era tolo o suficiente para repetir o mesmo truque duas vezes.
Na tarde após a morte de Ghada, seu pai, que havia se revoltado nas ruas contra o sultão, ficou de pé na praça diante do palácio e denunciou que a rebelião havia condenado sua filha inocente. Eu não o culpava por suas palavras. Ele tinha outra filha que precisava ser salva.


A terceira menina se chamava Naima. A terceira que falhamos em salvar. A terceira que morreu por nossos crimes.
Não importava o que fizéssemos, o que tentássemos, chegávamos sempre tarde demais. Éramos lentos demais. Teríamos que conseguir entrar no palácio para salvá-las antes que morressem. E não tínhamos como fazer isso sem Sam. Não havíamos conseguido nem quando ele ainda estava conosco.
— Seus pais já morreram. — Sara estava me contando o que havia aprendido sobre Naima enquanto embalava Fadi nos braços. — Mas tinha quatro irmãos.
As cortinas estavam puxadas para bloquear os olhares curiosos, mas a luz da manhã passava através da treliça da janela e dançava ansiosamente me seu rosto conforme se movia. Havia mais alguma coisa que ela não estava me dizendo.
— O que foi?
— Você não precisa se torturar — Jin interrompeu Sara antes que ela pudesse terminar. Estava apoiado na parede oposta, me observado. — Não é responsável por cada morte dessa rebelião, assim como Ahmed também não era.
Aquele foi um bom conselho, do tipo que Shazad me daria se ainda estivesse ali. Mas ela não estava.  Nem Ahmed. Eu disse a Tamid que havia mudado, que não era mais alguém que deixava as pessoas morrerem por mim. Mas havia três corpos pendurados nos muros do palácio para provar que eu estava errada. Talvez eu não fosse tão diferente da menina egoísta da Vila da Poeira quanto pensava. Talvez voltar com Tamid realmente fosse me levar direto para o ponto onde eu havia começado.
 — Mas sou responsável por essa.
Ninguém me contradisse. Era a verdade, no fim das contas.
Os olhos de Sara se revezaram entre mim e Jin por um momento antes de prosseguir:
— Estão dizendo que foi um vizinho que os denunciou ao palácio como aliados da rebelião. Alguém que seus irmãos pensavam ser um amigo, tão envolvido com a revolta quanto eles.
— O vizinho deve ter feito isso para salvar a própria família — Jin concluiu, parecendo sombrio.
Sara assentiu solenemente.
— Os irmãos de Naima descobriram que ele fez a denúncia. Acabaram de encontrá-lo espancado até a morte em casa. — Senti o estômago revirar. Um ato violento de vingança e luto. Irmãos tentando fazer alguém pagar pela morte na família, já que não podiam pôr as mãos no sultão.
— É isso que ele quer — Jin falou. — Que as pessoas que ainda apoiam a rebelião na cidade se virem umas contra as outras.
— É legal da nossa parte facilitar a vida dele — murmurei.
— Sabe — Hala interveio — podemos relaxar e continuar a assistir às pessoas morrerem. Ou podemos consertar o erro que você cometeu e devolver aquela princesa inútil para o pai dela.
— Não. — Eu sacudi a cabeça enfaticamente. — Mesmo que ela acabe se provando inútil para nós, não é inútil para o pai. — Olhei para a porta fechada. Do outro lado dela, Tamid falava outra vez com Leyla. Ele não havia conseguido nada de útil, mas ainda não desistira. Voltara no segundo dia carregando um dos volumes dos Livros Sagrados. Parecia achar que poderia convencê-la a se arrepender através da religião. Ela havia matado um ser imortal, então era de se esperar que não funcionasse, mas àquela altura eu estava disposta a tentar qualquer coisa.
— Eu não disse que devemos devolver a garota com vida — disse Hala, atraindo minha atenção bruscamente de volta. Suas palavras mudaram o clima no ar no mesmo instante. Procurei em seu rosto um sinal de que estivesse sendo sarcástica, considerando seu senso de humor cruel. Mas eu não a vira rir muito desde a morte de Imin.
— Não vamos matá-la — disse Jin, erguendo suas sobrancelhas escuras para ela. Como se pensasse que não estava falando sério.
— Por que não? — Hala ergueu suas sobrancelhas também, em uma imitação debochada. — Porque ela é sua irmã? Não perderia a chance de matar cada um de nós. E o ultimato do sultão nunca especificou se a queria viva ou morta.
— Acho que viva estava implícito — Jin disse secamente. — É assim que costuma funcionar com reféns.
— Ele devia ter escolhido melhor as palavras — disse Hala. — Somos filhos de djinnis, levamos as coisas ao pé da letra. — Ela deu um sorriso sarcástico para ele. Os gêmeos ficaram inquietos no parapeito onde estavam sentados, parecendo desconfortáveis em meio à conversa sobre assassinato. — Além disso — Hala acrescentou, finalmente rompendo o contato visual com Jin — não acho que seja uma decisão sua. — Então ela olhou para mim.
Eu podia sentir Jin me olhando também. Ele esperava que eu dissesse “não” na mesma hora, que ficasse do lado dele contra a ideia de Hala assassinar sua irmã.
Mas hesitei.
O sultão estava tentado virar a cidade contra nós. Ele havia matado três garotas e saído impune porque estava invertendo a história, para que nós parecêssemos os vilões. Sequestrar princesas não era o tipo de coisa que um herói fazia; aquele era o papel do monstro. Heróis salvavam princesas. E não ficavam de braços cruzados quando garotas inocentes eram mortas. As pessoas esqueceriam que o sultão era o responsável pelas mortes. Só lembrariam que nós as havíamos enviado para a forca. Matar Leyla não nos tiraria da cidade, mas pelo menos impediria que mais garotas morressem em nosso nome. Talvez impedisse que a cidade inteira se voltasse contra nós antes que pudéssemos trazer Ahmed de volta para liderá-la.
Mas que tipo de monstros seríamos se deixássemos o cadáver da filha dele à sua porta?
Fui salva de responder quando a porta do quarto de Leyla foi aberta. Tamid se juntou a nós, segurando o volume dos Livros Sagrados.
— Teve sorte? — perguntei sem muita esperança, mas grata pela distração.
— Não, mas... — Ele hesitou, olhando para os pés, como se já temesse o que estava prestes a dizer. — Tenho uma ideia do que pode fazer Leyla falar.
— Se forem ameaças de morte, nem se incomode — disse Hala. — Ela já deixou claro que não tem medo de morrer. Ou pelo menos pensa que não tem. — Ela me lançou um olhar afiado, como se aquilo justificasse completamente seu plano de matar a princesa.
— Não — Tamid concordou. — Mas ela tem medo de uma coisa específica. Algo que valoriza mais do que tudo.
Todos aguardavam ansiosos as palavras de Tamid, que hesitava. Ele sabia que usaríamos o que quer nos contasse, e seria culpa sua. Em vez de falar comigo, olhou para Hala.
— É verdade o que dizem que você fez com o homem que arrancou seus dedos? — ele perguntou a ela.
Nem eu nunca tinha ousado perguntar isso a Hala. A maioria dos demdjis não gostava de falar sobre a vida antes da rebelião. Era difícil ser quem erámos em um país ocupado por forças estrangeiras que queriam nos matar. E, mesmo sem os gallans, demdjis tendiam a ser vendidos, usados, assassinados, ou coisa pior. Todos sabíamos que a mãe dela a havia vendido. Mas o rumor que circulava no acampamento, na época em que tínhamos um, era de que Hala havia se vingado do homem que havia cortado seus dedos. Que ela tinha usado seu dom de demdji e virado sua mente do avesso. Que o deixara tão afundado na loucura que ele nunca viu a luz da sanidade novamente.
Entendi o que Tamid estava sugerindo. Morrer era uma coisa, mas, para Leyla, viver sem sua inteligência seria algo completamente diferente. Antes de mais nada, ia torná-la inútil para o pai. E ela já havia visto a loucura antes. Sua mãe havia enlouquecido tentando construir uma versão do que Leyla havia terminado com sucesso. Foi o que levou Rahim a se voltar contra o pai. E Leyla havia levado as esposas de seu irmão Kadir à loucura — Ayet, Mouhna e Uzma, três garotas do harém, ciumentas mas indefesas, que ela havia usado como cobaias em sua máquina, antes de usar sua força total para dominar a energia de um djinni.
Leyla podia não temer a morte. Mas certamente temia   a loucura.
— É verdade? — Tamid insistiu.
Hala passava o dedão da mão que tinha apenas três dedos em um círculo lento e pensativo sobre a boca dourada enquanto pensava.
— Não — ela admitiu, finalmente. — O que eu fiz com ele foi muito pior do que você ouviu.


Quando entrei, Leyla estava encolhida de lado. Ela me lembrou minha prima Olia, quando ficava amuada no quarto compartilhado na Vila da Poeira, claramente querendo que alguém prestasse atenção nela, mas tentando disfarçar.
— Está aqui para atirar em mim de novo? — Leyla murmurou no travesseiro. A posição em que estava deitada deixava os curativos no braço evidentes. Imaginei que Tamid a houvesse costurado. O que provavelmente era inteligente, já que não queríamos que sangrasse até a morte. Embora, se dependesse de mim, teria deixado que sofresse um pouco mais.
— Não. — Me apoiei na porta. — Vim aqui te dar uma última chance de não perder os parafusos dessa sua cabecinha brilhante. — Sentei na ponta da cama. — Já viu alguém ficar louco por conta do sol, Leyla? Eu já, uma vez. Um homem chamado Bazet, da cidade onde cresci. Foi como ver alguém cuja mente tinha sido incendiada, mas não conseguia apagar o fogo. Ele ficou absolutamente delirante, balbuciando, gritando, vendo coisas. No fim, meu tio atirou nele como se fosse um cachorro. Um tiro de misericórdia.
Leyla sentou, pressionando com força o travesseiro, deixando uma pequena marca onde seu rosto estivera.
— O poder de Hala é parecido. Ela pode fazer você ver coisas por um tempo, claro, mas também pode estraçalhar completamente sua mente, fazendo você duvidar para sempre do que é real ou alucinação. E, acredite em mim, ela realmente quer fazer isso com você.
Leyla estava com a boca levemente aberta, os olhos arregalados e infantis.
— Vocês não fariam isso comigo. Precisam de mim.
— No momento você está nos custando muito mais vidas do que ajudando a salvar — eu disse. — E não acho que seu pai possa manter a cidade trancada para sempre. Cedo ou tarde, o cerco vai terminar e estaremos livres. Mas eu quero que as pessoas parem de morrer antes disso, claro. E, se eu te devolver para ele sem os parafusos no lugar, os assassinatos param, ainda que você não vá mais ter muita serventia para ele, já que não poderia construir seus brinquedinhos bélicos. Acha que ainda vai ser a filha favorita depois de enlouquecer?
Ela se remoía, decidindo se devia responder.
— Para onde você vai? — Leyla perguntou finalmente. E então, mais baixo, acrescentou: — Vai resgatar meu irmão?
A pergunta me pegou desprevenida. Não havia cogitado que Leyla se importasse com Rahim. Ela o deixara ser preso com os outros rebeldes. Tinha chamado-o de traidor. Mas parecia incerta, quase tímida. Talvez sentisse que ainda era seu irmão, o único dos muitos filhos do sultão nascido da mesma mãe.
— É esse o plano.
Na verdade, o plano era resgatar dois irmãos dela, mas Leyla não precisava saber que Ahmed ainda estava vivo, mesmo que não tivesse nenhuma maneira de passar a informação para o pai.
Leyla mastigou o lábio pensativa por um longo momento antes de responder.
 — Existem túneis sob a cidade. — Ela começou a falar rápido, como se pudesse tirar todas as palavras traidoras da boca de uma só vez. — Eu precisava de um jeito de conduzir a energia por todo o caminho até o lado de fora dos muros. Então meu pai mandou escavar túneis saindo do palácio e passou fios através deles para que o fogo da máquina pudesse alimentar tudo. Suas esposas e filhos que estavam no harém fugiram por um dos túneis para esperar uma embarcação antes que os invasores chegassem. Mas as saídas foram fechadas com tijolos agora.
Tijolos não eram tão ruins — mais fáceis de atravessar do que uma muralha de fogo. Levantei.
— Vou pegar um mapa da cidade. Quero que me diga por onde esses túneis passam, cada um deles. Vou saber se você tentar mentir para mim de novo.
Lancei um olhar penetrante para os curativos em seu braço machucado.
— Isso não importa, sabia? — Leyla disse, interrompendo minha saída do quarto. Estava terrivelmente falante agora que havia começado. Eu a ignorei. — Mesmo que consiga passar por essa muralha, não vai conseguir passar pela próxima.
Eu parei, com a mão apoiada na porta. Dava para ver que era uma isca, pelo modo como o tom de sua voz ficava mais alto no final das palavras, em deboche. Queria que eu perguntasse. E era por isso que eu não queria perguntar. Mas eu sabia que acabaria cedendo. Não adiantava ser teimosa numa guerra como aquela.
Então virei e fiz o que ela queria.
— O que quer dizer com isso?
— Tem uma muralha em volta da prisão para onde os traidores foram levados. — Ela parecia toda feliz consigo mesma agora que havia reconquistado a vantagem, com os joelhos puxados para perto do queixo. Havia um tom monótono e irritante nas suas palavras quando continuou: — De onde acha que meu pai tirou a ideia de proteger a cidade desse jeito?
A Muralha de Ashra. A história me veio à mente no momento em que vi a grande barreira de fogo. E eu não tinha sido a única a lembrar. Todo mundo vinha sussurrando o nome de Ashra nos últimos dias. Era impossível não pensar na lenda dos Livros Sagrados. Mas não era possível que Leyla se referisse a isso. Porque significaria que Ahmed e os outros estavam presos em...
— Eremot. — Uma satisfação cruel se espalhou pelo rosto de Leyla. — Eles foram levados para Eremot.
O nome antigo me fez sentir que havia algo errado, um desconforto mais profundo do que a pele e os ossos, que parecia agitar até minha alma. Metade de mim era imortal. Metade de mim tinha estado lá, em Eremot, nos dias antigos. Metade de mim lembrava.
Eremot era o nome citado nos Livros Sagrados. Era o lugar onde a Destruidora de Mundos havia surgido, liderando seu exército de carniçais, e onde havia sido aprisionada no fim da Primeira Guerra. Atrás da Muralha de Ashra, uma grande barreira de fogo que mantinha a escuridão afastada.
— Eremot...
Não é real. Só que não consegui concluir em voz alta.
— É uma lenda — Leyla terminou por mim, com um olhar satisfeito. — Nos confins da civilização, onde ninguém pode encontrar. Mas eu encontrei.
Ela queria me intimidar. Mas eu havia crescido nos confins da civilização, e Jin havia me encontrado sem problemas.
— Vamos dar um jeito.
A bússola de Jin nos levaria onde quer que os prisioneiros estivessem. Fosse Eremot ou não.
Leyla deu de ombros.
— Mesmo se encontrar a cidade, acha realmente que pode atravessar a “grande barreira impenetrável contra o mal, erguida pelo sacrifício verdadeiro e que”...
— “E que permanecerá inviolada até a coragem da humanidade falhar” — terminei por ela. — Também posso citar os Livros Sagrados quando quero.
Ashra tinha sido a filha de um tecelão nascida quando a Primeira Guerra estava chegando ao fim. Os carniçais já eram obrigados a se esconder na escuridão, espreitando o deserto sozinhos à noite, em vez de formar exércitos. Os maiores monstros da Destruidora de Mundos tinham sido mortos, derrotados pelo primeiro herói e por todos os que vieram depois dele: Attallah, o príncipe cinzento, o sultão Soroush e o campeão de Bashíb. A Destruidora de Mundos foi derrotada e teve que recuar para a escuridão da morte de onde viera.
Mas ela não podia ser afastada para sempre. De tempos em tempos, libertava-se de sua prisão para aterrorizar o deserto. E o djinnis assistiam, desesperados, os humanos que os defenderam por tanto tempo, temendo que eles não fossem capazes de realizar sua última missão. Então anunciaram que concederiam a imortalidade a qualquer um que aprisionasse a Destruidora de Mundos para sempre. Muitos heróis morreram tentando.
Ashra não era uma heroína. Era apenas uma garota de uma pequena vila nas montanhas, a mais velha de doze irmãos, que passava os dias ajudando o pai a tingir a lã e as noites ajudando a mãe a cozinhar para seus onze irmãos.
Até o dia em que a Destruidora de Mundos foi à sua vila.
Os moradores não tinham armas, então ascenderam tochas contra ela, posicionando-as em círculo e se amontoando no meio, em uma tentativa de permanecer vivos até o amanhecer, quando poderiam fugir.
A Destruidora de Mundos percorreu a escuridão ao redor da vila, ao redor das tochas. Então ela riu, e com a sua respiração apagou todas as tochas. Todas menos uma, que permaneceu com Ashra e sua família.
Antes que a Destruidora de Mundos pudesse atacar, Ashra agarrou a última tocha e se incendiou com ela. Um corpo não queima muito, mas diz a lenda que ela engoliu uma faísca, o suficiente para iluminar sua alma e seu corpo. E sua alma queimou, ficando muito mais brilhante do que seu corpo jamais poderia. Quando a garota flamejante deu um passo à frente, a Destruidora de Mundos deu um passo atrás. Então Ashra deu outro passo, e outro, e lentamente a Destruidora de Mundos recuou.
Ashra a levou por todo o caminho de volta na direção de Eremot. Enquanto andava, fez como seu pai havia lhe ensinado e teceu o fogo queimando dentro de seu corpo, entrelaçando-o como se fizesse um tapete, até que se tornasse um muro impenetrável. Quando chegaram a Eremot, ela havia tecido um muro tão alto e amplo que era capaz até de segurar a Destruidora de Mundos, amplo o suficiente para cercar a entrada de Eremot e mantê-la aprisionada para sempre dentro da montanha.
Os djinnis testemunharam o sacrifício dela e mantiveram sua promessa. Garantiram a Ashra uma vida imortal para que sua alma queimasse para sempre, na forma da grande muralha que havia criado. Disseram que, enquanto a muralha permanecesse de pé, a Destruidora de Mundos continuaria aprisionada. Se caísse, cairia no mundo uma nova era de escuridão.
Então foi por isso que Leyla perguntou se íamos salvar Rahim. Não porque o que sentia pelo irmão havia mudado, mas porque queria ter certeza de que mesmo se traísse seu pai e nos deixasse passar pelo muro, nós ainda falharíamos. Havia outra barreira entre nós e nosso objetivo.
— O que seu pai pretende enviando os prisioneiros para Eremot? — Só de dizer o nome, me senti desconfortável. — Se ele vai quebrar a promessa feita ao seu povo de conceder a misericórdia à rebelião, deve haver maneiras mais fáceis de matá-los.
Leyla olhou para mim através dos cílios negros.
— Ele não quer que eles morram. Só não liga se eles morrerem. São duas coisas diferentes. Ele está atrás de algo em Eremot. E quem entra lá não sai. Eventualmente, as horas e horas cavando no escuro espremem toda a vida das pessoas. Então meu pai envia pessoas descartáveis.
Mas eu não estava mais prestando atenção. Só poderia haver uma coisa que o sultão procuraria em Eremot.
— Seu pai quer encontrar a Destruidora de Mundos.
Eu devia saber melhor do que ninguém a distância que separava as lendas da verdade. As histórias nem sempre eram contadas inteiras. Os monstros das histórias eram menos ferozes no mundo real; os heróis menos puros; os djinnis mais complicados. Mas havia certas coisas que não deveriam ser cutucadas só para ver se os dentes eram mesmo tão afiados quanto as histórias diziam. Porque, considerando a mínima possibilidade de as histórias estarem certas, você acabaria perdendo um dedo. A Destruidora de Mundos estava no topo da lista de lendas que eu não queria descobrir se eram mesmo verdade.
— Não sei quanta atenção você deu à leitura dos Livros Sagrados, mas existem vários motivos para não libertar a Destruidora de Mundos. Começando pela possibilidade de destruição da humanidade.
— Ah, ele não quer que ela escape — Leyla disse, séria. — Ele a quer pelo mesmo motivo que quer os djinnis. Meu pai é um herói. Vai acabar com ela de uma vez por todas. E usar seus restos para o bem. Como fez com Fereshteh.
O sultão queria matá-la, transformar sua vida imortal em energia que pudesse usar. Lembrei de algo que ele me dissera uma vez, que o tempo dos imortais já tinha passado. Era nossa vez, o momento de parar de viver tão ligados a lendas e à magia. E, obviamente, estava destruindo todas nossas lendas, uma por vez, arrastando Miraji para uma nova era, quer o país quisesse ir com ele ou não. Quer libertar grandes males da terra fosse uma boa ideia ou não.
— Mas ele não pode fazer isso sem você, pode?
A satisfação de Leyla voltou a se tornar medo.
— Se me matar, ele vai encontrar outra maneira. A terra da minha mãe está cheia de pessoas como eu, capazes de ter grandes ideias e criar novas invenções. — E eu tinha certeza de que algumas delas estariam inclusive preparadas para desafiar as leis da religião e do bom senso.
Eu não queria matá-la. Mas não havia como mantê-la ali. Podíamos ter uma saída, mas não dava para desaparecer da cidade sem fazer alguma coisa a respeito de Leyla, não com garotas morrendo a cada amanhecer em seu nome.
O esboço de um plano estava começando a se formar na minha mente. Só que faltava uma pessoa para colocá-lo em prática.
Eu precisava de Sam.

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