26 de novembro de 2018

Capítulo 5

— Bem, foi tudo inútil. — Hala bateu a porta atrás de si, fazendo um barulhão.
Eu estava cochilando de leve no parapeito da janela, mas sua raiva me acordou de imediato.
Tínhamos deixado Leyla no aposento que eu dividia com Hala. Nas histórias, as princesas roubadas de seus pais ficavam escondidas em torres no deserto ou em palácios acima das nuvens. Mas tudo o que tínhamos na Casa Oculta era um quarto com uma fechadura mais ou menos decente. Se tanto.
A maioria dos rebeldes tinha sido capturada com Ahmed, mas ainda havia o suficiente de nós para não cabermos com as mulheres e crianças que moravam na Casa Oculta. Estávamos apertados em grupos de três ou quatro por aposento, dormindo em almofadas ou no chão. Um grupo maior dormia no telhado sob o céu ardente que nunca escurecia, protegendo os olhos como podiam. O que significava que nossa preciosa prisioneira tinha mais espaço do que qualquer outra pessoa na casa.
Hala e eu movemos nossa minguada coleção de pertences para o quarto vizinho, que pertencia a Sara e seu filho. Fadi, filho de Shira, também dormia lá. Parecia natural que ela também cuidasse dele, já que era a única entre nós que sabia o que fazer com um bebê embora eu tivesse visto Jin acalmá-lo uma ou duas vezes quando Sara estava dormindo.
De qualquer maneira, era uma solução temporária. Fadi não era meu, de Sara ou de Jin: era um órfão. Quando a guerra acabasse, eu precisaria encontrar um lugar onde pudesse ficar. Se vencêssemos. Ou então...
Eu estava acomodada no parapeito do quarto compartilhado. Jin se encontrava no chão, com a cabeça jogada pra trás, apoiada na parede abaixo de mim. Eu tinha baixado a mão para sua cabeça enquanto caía no sono, como se precisasse ter certeza de que ele ainda estava lá. Agora estávamos os dois acordados observando Hala, cansados. A invasão ao palácio e o sequestro inesperado da princesa naquela manhã nos deixara exaustos.
Sara sentou no canto, balançando o berço que havia conseguido para Fadi. Conforme ia e voltava, eu podia ver sua mecha de cabelo azul entre as cobertas. Outro dendji. Outra criança que morreria se o país caísse sob o domínio do gallans que esperavam do lado de fora dos portões.
Na única cama do quarto, o filho pequeno de Sara se mexia um pouco, inquieto em seu sono, com o punho enfiado na boca. A luz do fim da tarde atravessava a treliça da janela e desenhava sombras em seu rosto. Shazad dissera uma vez que o pai do menininho era Bahi, seu amigo mais antigo, que havia morrido nas mãos do meu irmão, Noorsham. Não convivi com Bahi por muito tempo, mas até eu podia ver a semelhança. Eu via os cachos indisciplinados e a expressão sincera que fizera confiar em Bahi quando ainda não tinha certeza se poderia voltar a confiar em Jin, agora no rosto de um menino que nunca conheceria seu pai por causa da guerra.
Continuávamos perdendo pessoas. E não só as nossas. Pessoas que pertenciam a outras. Pessoas cujas vidas não tínhamos o direito de sacrificar.
— Vocês não deveriam ter voltado com papéis? — Hala desabou contra a porta, sua ira desaparecendo, como um fantoche cujas cordas tivessem sido cortadas, finalmente liberando-a de um grande show. Tinha olheiras escuras por falta de sono e parecia mais magra do que nunca. — Ou talvez algum tipo de mapa que dissesse “porta secreta para atravessar a barricada bem aqui.” Em vez disso, voltam com uma princesa que nos trouxe o pai uma vez. — Suas costas deslizaram vagarosamente pela porta até sentar no chão. — Da próxima vez gostaria de uma recompensa melhor depois de todos os meus esforços para colocar vocês dentro do palácio. Tenho uma queda por rubis, por exemplo. Mas safiras também são aceitáveis.
— Peguei tudo o que podia. — Jin alongou os ombros, esbarrando na minha perna. — Imagino que exista um escritório separado para mapas de passagem secreta. Eles provavelmente guardam as safiras lá também.
Os documentos que Jin tinha encontrado na mesa do sultão não rendiam muita coisa. Indicavam que o exército gallan avançava em nossa direção. O que já sabíamos, porque estavam acampados nos portões. Também havia informações de que reforços viriam poucas semanas depois, o que explicava porque o sultão estava esperando para usar os abdals contra os estrangeiros. Queria aniquilar todos de uma vez. Havia algumas anotações sobre enviar tropas extras para o sul, onde o caos começava a reinar e o povo parecia incerto se continuaria sob a influência da rebelião ou se estava sujeito ao trono.
E também tinha o fato de que o sultão sabia que Balir, emir de Iliaz, tinha se oferecido para traí-lo. O que só poderia significar problemas para ele. Mas nosso aclamado governante não parecia saber que Balir estava morrendo, ou que o preço do jovem emir para mudar de lado tinha sido se casar com uma das demdjins de Ahmed. O que não era algo que pretendíamos cumprir, já que nenhuma de nós pertencia a Ahmed. Então planejamos assumir o controle do exército de Balir de outra forma, com Raim usurpando-o, contando com a lealdade dos soldados de Iliaz que costumava comandar. Mas Rahim estava preso com Ahmed agora. Precisávamos soltar os dois se pretendíamos assumir o controle daquele exército.
E então havia uma anotação que gelara meu sangue. Uma carta escrita às pressas, no mesmo dia em que os rebeldes foram emboscados. Era uma ordem para enviar os soldados atrás do pai de Shazad, o general Hamad. Ele estava posicionado na fronteira mais a oeste, impedindo que fôssemos invadidos pelo país vizinho de Amonpour enquanto a guerra se desenrolava. Ele seria executado pelos crimes de sua filha, revelada como traidora. A ordem tinha sido enviada antes que a cidade fosse isolada; a vida de um homem encerrada em poucas linhas rabiscadas, enquanto estávamos presos na cidade sem ter como alertá-lo.
Shazad encontraria uma maneira de salvar o pai se estivesse conosco. De alertá-lo. Mas não estava. E eu não conseguia chegar a nenhum dos dois. Ela era uma prisioneira, e seu pai ia morrer. Um homem que havia arriscado a vida nos passando informações. Que ajudara soldados que mostraram sinais de que estavam dispostos a se voltar contra o sultão a chegar até nós. Que tinha até ajudado as esposas de alguns soldados a ir para a Casa Oculta quando os homens sob seu comando mostravam-se maridos ruins.
Ele havia trabalhado silenciosamente contra o sultão ao mesmo tempo que mantinha a família em segurança. E agora iam todos morrer por minha culpa.
— Imagino que no meio dessa conversa toda esteja escondida a má notícia de que você ainda não conseguiu fazer Leyla falar? — Sai do parapeito da janela enquanto voltava a atenção para Hala.
O sol estava quase se pondo, e eu vinha observando o povo de Izman correr de um lado para o outro nas ruas, concluindo suas incumbências com pressa antes do toque de recolher. Ao pôr do sol, os abdals tomariam as ruas para garanti-lo.
Hala arranhou a pele escura com suas unhas douradas claras.
— É muito mais difícil enganar alguém quando a pessoa sabe do que você é capaz. — A ideia tinha sido simples: Hala invadiria a mente de Leyla de modo a enganá-la para descobrir a informação de que precisávamos. Era boa naquilo. Havia enganado minha tia, fazendo com que pensasse que eu era minha mãe quando precisássemos de sua ajuda para tirar o metal da minha pele. Havia iludido uma cidade inteira. Mas Leyla não era uma expectadora inocente. Ela sabia o que uma demdji podia fazer. — E gostaria de lembrar a vocês que eu não precisaria enganar ninguém se tivessem trazido respostas em vez de mais perguntas.
Ficamos todos em silêncio. Eu sabia o que Ahmed faria numa situação dessas. Reuniria todo mundo para ouvir o que achavam que deveríamos fazer, ouviria conselhos, elaboraria um plano. Mas agora nós éramos todo mundo. Imin estava morta. Não tínhamos mais Ahmed, Shazad e Delila. Rahim, nosso mais novo aliado, fora capturado com eles. Agora até Sam estava... ausente. Os gêmeos dormiam em algum lugar. Restavam apenas eu, Jin e Hala. Duas demdjins cansadas e um príncipe relutante – isso era tudo que tínhamos. Um grupo terrivelmente pequeno e triste se comparado a quantos de nós costumavam se reunir no pavilhão de Ahmed no oásis.
E então uma voz brotou do lado de fora, quebrando o silêncio.
— Ouçam-me, meus súditos.
Um terror repentino brotou no meu peito. Bastava uma única palavra para eu reconhecer a voz do sultão. Poderia fazê-lo mesmo se a ouvisse no meio do nada, do outro lado do mundo. Conhecia o tom melhor que o de Jin. E naquele momento não havia a menor dúvida de que a voz vinha de algum lugar diretamente abaixo da nossa janela. Ele havia nos encontrado.
Nós — ou melhor, eu — havia pegado sua filha e o levado diretamente até nós. Estávamos acabados. Ele executaria Jin, descartando outro filho traidor. E escravizaria todos os demdjins. O restante dos rebeldes morreria em alguma prisão no deserto, sem ninguém para salvá-los.
Por um segundo, fiquei congelada. Todo o sangue tinha sumido do meu corpo, e eu era apenas uma concha de medo. Quase como se estivesse fora do meu corpo, olhei para o quarto, vendo expressões igualmente petrificadas nos outros.
Jin se mexeu primeiro, sacando a arma enquanto se escorava na parede. Eu o segui enquanto o sangue voltava a correr nas minhas veias, sacando a arma e me posicionando contra a parede, olhando para fora. Estava preparada para ver o sultão de pé logo ali, gritando para nós. Como Bashir, o bravo, chamando Rahat, a bela, presa na torre do djinni.
Em vez disso, na rua lá embaixo havia apenas um abdal em toda sua glória de bronze reluzente, olhando diretamente para frente com seus olhos cegos. Os soldados mecânicos do sultão, alimentados pelo fogo djinni.
— Falo a vocês não como seu governante, mas como pai. — A voz do sultão vinha do abdal. A máquina que estava falando, embora seus lábios de metal não se movessem. — Um pai para vocês, meu povo, e para minha filha inocente, sua princesa Leyla, que foi sequestrada de dentro do palácio por radicais perigosos agindo em nome do príncipe traidor morto.
Ele não disse o nome de Ahmed, privando-o de qualquer identidade além da de traidor.
A voz do sultão soou mais alta do que a voz de um homem normal. Estiquei o pescoço para espiar e vi outro abdal na esquina, provavelmente emitindo a mesma voz. As pessoas que ainda estavam na rua se apertavam contra as paredes, como se pudessem atravessá-las e se esconder, assimilando cada palavra...
Isso não estava acontecendo somente ali. Meu palpite era de que o sultão tinha espalhado seus soldados mecânicos por toda cidade para transmitir a mesma mensagem. Ele estava falando de uma só vez com milhares de pessoas, de um modo que todos tinham que prestar atenção.
— Como o sultão está fazendo isso? — sussurrei, sem saber se os abdals podiam nos ouvir.
Jin olhava fixamente para a rua. Ele parecia sombrio, a treliça da janela projetando padrões estranhos em seu rosto. Balançou sua cabeça.
— Alguns de vocês entenderão o quanto é pesaroso perder de um filho. — A voz do sultão ecoou da máquina. Olhei para Hala, do outro lado do quarto, bem quando revirou os olhos com tanta vontade que achei que poderia perdê-los dentro da cabeça. — Se estivessem no meu lugar agora — a máquina prosseguiu — fariam tudo ao seu alcance para recuperar sua filha. — As palavras não ditas pareciam ecoar tão alto quanto aquelas despejadas pelos lábios imóveis dos abdals: e não existe nada fora do meu alcance. — Quem salvar minha filha desses radicais e devolvê-la a mim será recompensado com seu peso em ouro. — Meu dedo, que estivera firme no gatilho, relaxou um pouco. Subornos em ouro não eram novidade. Nenhum rebelde nos trairia pelo dinheiro do sultão. Se isso era tudo que ele tinha a oferecer...
— Mas — a voz continuou, impedindo o alívio que começava a nascer — para cada alvorecer sem que minha filha seja devolvida ao palácio, a filha de outro homem morrerá.
Perdi o chão. Por um momento tive que apertar os olhos e me apoiar na parede para não cair. Mas as palavras não pararam. Com os olhos fechados, soavam como se o sultão estivesse falando diretamente na minha cabeça.
— Eu perdoei vocês, que se aliaram ao meu filho traidor. Seus crimes foram deixados de lado com a morte dele.  Uma nova alvorada... Um novo começo para os traidores. — Ele disse debochado, jogando as palavras de Ahmed contra nós. — Mas não confundam perdão com ignorância. Sei quem me deu as costas por causa das falsas promessas daqueles renegados. E está sob meu poder tirar a vida de suas filhas pela ausência da minha.
Não era mentira ou um blefe. O sultão era um homem de palavra. Não sabia o que tinha imaginado que aconteceria com o sequestro de Leyla. Não tinha pensado muito naquilo no momento em que mergulhara no harém. Havia sido imprudente. Como sempre. E Shazad não estava ali para consertar meu estrago. Ou Ahmed, para lidar com as consequências.
— Minha mensagem é simples. Devolvam minha filha ou suas filhas vão começar a morrer amanhã ao nascer do sol — a voz do sultão concluiu lá embaixo. — A escolha é de vocês.
Um longo momento de silêncio perdurou nas ruas. Abri os olhos. Abaixo de nós, os abdals continuavam parados, cegos e implacáveis, como se estivessem esperando a mensagem penetrar nas pessoas. De repente, a máquina sob nossa janela deu um passo, e ouvi o ruído de dezenas de outros pés metálicos batendo contra a pedra enquanto os abdals começavam a marchar com seus passos perfeitamente sincronizados. Voltando ao palácio para esperar a resposta da cidade.
Me afastei da parede enquanto aquele som ecoava pelas ruas. Ainda segurava a arma quando atravessei o aposento. Não precisei tirar Hala da frente; ela sabia exatamente para onde eu estava indo. Afastou-se da porta que levava até Leyla.
Abri a porta com força. A princesa tinha se aproximado o máximo possível da janela, com suas mãos acorrentadas ao estrado da cama. Ela virou a cabeça para mim quando entrei.
— O que foi isso?
Atrás de mim, ouvi Fadi começar a chorar. Eu o havia acordado. Olhei por cima do ombro. Sara me olhou repreensiva enquanto o pegava no colo e o tirava do quarto.
— Eu poderia ter dito a você que me levar embora era um erro — Leyla regozijou-se. Ela também tinha ouvido a mensagem, cada palavra.
— O que foi isso? — repeti, dando um passo ameaçador na direção dela.
Leyla não se acovardou.
— Um zungvox. — Ela soou desagradavelmente satisfeita consigo mesma. — Uma boa ideia, não acha? Usam na terra da minha mãe. Fiz uma adaptação para integrá-los aos abdals. Meu objetivo era que as preces do pai sagrado pudessem ser ouvidas na cidade inteira, para afastar os idiotas idolatrando a barreira de fogo como se fosse trabalho de Deus, e não meu. — Ela voltou desajeitadamente para a cama, se aconchegando. — Acho que meu pai encontrou outro uso.
— Ele não é o tipo de pai que se importa em ter a filha de volta. — Dava para sentir o despeito nas minhas palavras enquanto as dizia. — Ele é só um governante que quer sua inventora de volta.
— Bem, pelo menos meu pai se importa em saber se vou viver ou morrer. — Leyla levou as mãos presas ao rosto, tirando o cabelo dos olhos de modo desafiador. — Você pode dizer o mesmo?
Dei outro passo na direção dela, que recuou contra a cabeceira. Não percebi que ainda segurava a arma até Jin passou os dedos pelo dorso da minha mão, envolvendo-a gentilmente. Ele tinha vindo atrás de mim, e agora seu outro braço estava na minha cintura, me puxando para trás, para que me afastasse dela.
— Não. — Ele falou calmamente no meu ouvido, para que apenas eu pudesse ouvir. — Deixe para lá.
Abri os dedos e soltei a arma nas mãos dele. Enquanto nos afastávamos de Leyla, saindo de sua prisão, percebi que vinha segurando a arma com tanta força que o punho havia ficado marcado na minha palma.
— Sei que tem medo dele — Leyla gritou atrás de mim enquanto eu começava a fechar a porta entre nós. — E deveria mesmo. — Ela falou mais alto para que eu pudesse ouvi-la mesmo do outro lado da parede. — Quando elas morrerem, vai ser culpa sua.
Eu a ignorei. Não precisava que me dissesse isso. Já sabia que era verdade.


Revirei tudo o que foi possível na cozinha antes encontrar um pedaço de pão mofado. Cortei-o em pedaços. Sara havia expulsado todos nós do quarto para poder lidar com as crianças que havíamos acordado. Hala tinha ido procurar os gêmeos. Eles dormiam na forma de vários animais desde que chegamos ali, principalmente lagartos e pássaros. Estavam tentando ocupar o mínimo possível de espaço, já que tínhamos tão pouco, o que dificultava na hora de rastreá-los. Precisávamos de todo mundo se íamos bolar um plano, já que não tínhamos mais Shazad para fazê-lo por nós.
— Não podemos devolver Leyla — eu disse, mas era o que todos vínhamos pensando. — Ela é a melhor chance que temos de encontrar uma maneira de sair dessa cidade.
 — Eu sei — Jin respondeu distraído, passando a mão pela mandíbula e me olhando com atenção. — Se Hala passar mais alguns dias com ela, podemos conseguir arrancar alguma informação, quando estiver de guarda baixa. Mas...
— Mas não temos mais alguns dias até o sultão começar a matar meninas — eu completei.
Jin estava apoiado na porta, com os braços cruzados, como se pudesse ficar entre mim e o mundo inteiro.
— Você fez a coisa certa com Leyla — ele disse após um momento. — Mesmo que tenha sido uma tremenda idiotice, ainda é uma chance de sair daqui, e temos que aproveitar todas as chances que pudermos.
— E se ela realmente ficar de boca fechada? — Ergui a cabeça, olhando diretamente para ele do outro lado da cozinha. — O que vamos fazer?
Estávamos enfrentando um homem que tinha exércitos e fogo djinni ao seu dispor. E o que eu era? Ninguém. Uma garota com uma arma vinda dos confins do deserto. Para a maioria das pessoas, sequer tinha um nome. Era somente a Bandida de Olhos Azuis.
Eu havia sido ambiciosa demais após a execução de Imin, quando levantei e me voluntariei para nos liderar. Tinha esquecido que não era ninguém naquela luta e que havia dezenas de homens e mulheres mais bem nascidos do que eu. Criados melhor do que eu. Educados melhor do que eu.
Shazad teria uma estratégia. Ahmed esperaria até ter certeza do que fazer. Rahim teria exércitos que marchariam por ele. Eu só dava tiros aleatórios no escuro e torcia para acertar alguma coisa.
— Vamos dar um jeito — disse Jin. — Como sempre demos. — Não era uma boa resposta, mas era tudo o que tínhamos. De repente, fiquei agitada. Comecei a me mexer novamente. Abrindo e fechando armários. Como se um deles pudesse conter a resposta. Ou pelo menos café.
— Você não tem dormido muito — disse Jin atrás de mim.
Batia a porta de outro armário.
— Você tem?
Falei como um desafio. Mas a pergunta pareceu, de alguma forma, mais perigosa do que deveria. Durante o último mês, tinha um monte de gente entre nós, em uma casa lotada demais para se encontrar alguma privacidade. Foi só então que percebi que Jin e eu estávamos sozinhos pela primeira vez em muito tempo.
E agora ele estava perguntando sobre a qualidade do meu sono. Porque vínhamos dormindo separados. O que de repente me fez pensar em dormir... juntos. O que era ridículo. Estávamos presos no meio de algo muito maior que o que havia entre nós. Algo que nos consumia a ponto de não deixar muito espaço um para o outro. Ainda assim, ultimamente vínhamos chegando cada vez mais perto de algo mais. Estávamos indo na direção de águas desconhecidas, pelo menos pra mim. Eu sabia que era eu, e não ele, que nos mantinha ancorados.
— Não — Jin respondeu. Ele pareceu ler meus pensamentos e, de repente, foi como se o ar tivesse fugido e eu não conseguisse mais respirar de tanta vontade de encostar nele. — Não tenho.
Eu me movi primeiro, mas ele foi mais rápido. Só precisou de alguns passos para me alcançar, apoiando-me contra a mesa. Mas ele parou um instante antes de nos tocarmos.  Não me movi. Dava para ver que estava sendo cuidadoso comigo. Tudo parecia mais frágil nos últimos tempos. Ele estava perto o suficiente para eu sentir seu calor. Inclinei a cabeça, encontrando o canto de sua boca. Jin desceu as mãos para minha cintura, algo sólido em que se agarrar. Suas mãos pegaram a camisa empoeirada que eu não havia tido a chance de trocar, puxando apenas o suficiente para que eu sentisse seu polegar passeando sobre minha pele, deixando uma trilha de calor. Ele não tinha se barbeado, e eu me vi passando os lábios de leve pela barba por fazer que cobria seu maxilar. A aspereza arrepiou meu corpo.
Jin deixou escapar um suspiro que parecia uma rendição um segundo antes de me abraçar por completo, me erguendo e me sentando na mesa como se eu fosse leve como uma pluma. Minha camisa se embolou em seus braços, subindo pela maior parte da minha coluna, suas mãos seguindo minha pele mais para cima, passeando pelos meus ombros, me fazendo estremecer de novo.
— Você precisa se barbear. — Eu me afastei dele, sem ar, passando a mão pela sua mandíbula. Estávamos frente a frente, eu sentada e ele de pé. Olhos nos olhos. Mas era difícil de encará-lo, era demais. Se eu fizesse isso, tudo que eu vinha contendo por semanas correria pelo meu sangue e me queimaria viva de dentro pra fora. Seria mais fácil olhar para o sol do meio dia.
Jin sorriu ironicamente, ainda com minha mão em seu rosto.
— Mais tarde — ele disse, antes de me pedir outro beijo.
Sem pensar, passei as pernas em volta de sua cintura, puxando-o mais para perto.
— E eu que pensei que os rumores circulando por aí de que Sara comandava um bordel eram falsos. — A amargura na voz de Hala me separou de Jin.
— Não sou especialista, mas imagino que as portas dos bordéis tenham fechaduras. Para obrigar as pessoas a bater antes de entrar — retruquei.
 Jin ainda não havia me soltado. Vi o sorriso que dançou em seu rosto antes de ele se afastar, dando espaço para eu colocar os pés no chão firme.
Ela estava apoiada na porta, com um gêmeo de cada lado. Eles estavam enrolados em roupões, os cabelos azuis e negros espetados, sorrindo para o espetáculo.
— Isso aí são vocês dois bolando um plano? — Hala perguntou, revirando os olhos e entrando na cozinha.
— Eu tenho um plano. — Podia sentir meu rosto ainda quente enquanto ajeitava a camisa. — Não devolvemos Leyla e salvamos as meninas.
— Ótima ideia — Izz concordou alegremente.
— Excelente — Maz o acompanhou. — Adorei.
— Sim, maravilhoso. Do que mais poderíamos precisar além de uma declaração vaga? — Hala parecia irritada. — Isso não é um plano; mal chega a ser uma ideia. Além disso, o que faz você pensar que podemos salvar alguém se não conseguimos nem salvar Imin? — Aquele golpe foi planejado para doer e de fato doeu, mas eu não ia ficar parada ali discutindo. Não dava para discutir nada com ela nos últimos tempos, já que tudo o que fazia era cuspir seu sofrimento por perder Imin como se fosse veneno.
— É por isso que estamos aqui — eu disse, virando para os outros. — Para discutir os detalhes. — A noite tinha caído lá fora, e a única luz da cozinha vinha das brasas do fogo. À meia-luz, parecia que ninguém estava ali presente por completo. Eu precisava trazê-los de volta. — Agora me digam uma coisa: vocês querem ajudar ou deixar que elas morram?
Nenhum de nós queria que mais alguém morresse.
Bolamos algo que estava no meio do caminho entre uma ideia vaga e um plano real faltando algumas horas para o nascer do sol. Algumas horas preciosas durante as quais nós concordamos que tentaríamos dormir. A Casa Oculta estava silenciosa quando saímos da cozinha. Hala e eu voltamos para o aposento de Sara pelos corredores escuros enquanto os meninos seguiam pelo outro caminho.
Estávamos na metade dos muitos lances de escada quando notei a luz escapando por baixo de uma das portas: Tamid, lendo até tarde da noite.
Meu velho amigo não era um rebelde. Ele só não tinha outro lugar para ir quando Leyla nos traiu. Ele havia exigido um quarto só para ele, o que a maioria de nós considerou mesquinharia, já que o espaço era tão valioso. Eu permiti porque ele tinha trabalho a fazer, passando noites em claro enquanto procurava as palavras para libertar a energia de Fereshteh e desarmar a máquina do sultão. E porque não precisava dar a ele mais motivos para me desprezar.
Parei no patamar que levava para seu quarto.  Hala parou também quando percebeu que eu não estava mais ao seu lado. Ela me olhou de um jeito mordaz três degraus acima.
— Ele não que falar com você — disse, e não era a primeira vez. Eu sabia disso. Hala se deleitava, porque com ela Tamid queria falar.
Fazia semanas que eu não falava com ele, que mantinha distância de seu quarto. Mas aquilo era diferente. Não se tratava do que nós dois queríamos. Tratava-se do que precisávamos.
— Vá dormir — dispensei Hala.
Por um momento pareceu que ela falaria mais alguma coisa, então jogou as mãos sobre a cabeça como se dissesse que não podia evitar minhas idiotices e me deixou para trás.
Quando não conseguia mais ouvir seus passos, bati gentilmente na porta.
— Entre — Tamid disse do outro lado, sem parecer surpreso pela visita no meio da noite. Mas, quando abri a porta, puder ver em seu rosto que ele não esperava por mim.
Provavelmente pensou que seria Hala com mais livros. A coleção que ela havia adquirido pra ele estava espalhada pelo aposento. Mal dava para ver o chão sob as pilhas de volumes abertos uns sobre os outros, ou descartados em um canto. Tinham sido roubados de bibliotecas universitárias ou de cofres de casas de oração. O dom de demdji de Hala permitia que saísse de qualquer prédio em Izman com uma pilha de livros nos braços sem chamar atenção. E ela vinha colocando-o em prática, sem reclamar. Eu imaginava que gostava de se manter ocupada. Ou que gostava de correr ricos. Aquilo a distraía da dor.
Contra todas as possibilidades, Hala e Tamid pareciam estar se dando bem. Talvez porque os dois estivessem com raiva de mim. Tamid porque o arrastei para a rebelião, Hala porque não salvei Imin. Eu sabia que falavam de mim pelas minhas costas. De que outra forma Hala saberia que ele não queria me ver?
Tamid voltou a olhar para o livro aberto na mesa à frente. Estava sentado em uma posição que parecia desconfortável, sua perna amputada apoiada em uma banqueta. A prótese estava apoiada em uma parede, fora de alcance. Ele a havia trocado por muletas. A perna de bronze lindamente projetada que Leyla havia feito para ele tinha sido perdida quando escapamos do sultão. O governante a tirou dele, revelando o dispositivo que a garota havia escondido para guiar o pai até nosso esconderijo. A nova era uma peça simples de madeira medida e cortada no tamanho certo para se encaixar e anexada a um sistema grosseiro de tiras de couro. Estava longe de ser tão sofisticada quanto a outra. Mas tinha a vantagem de não estar sendo usada para nos entregar ao inimigo. Era uma boa troca.
Olhei para um livro jogado no canto. Estava aberto numa gravura da queda de Abbadon, repleta de chamas e pedras desmoronando.
— Alguma sorte? — perguntei, arrastando um dedo distraidamente ao longo do contorno das chamas que consumiam a cidade.
— Não se trata de sorte — Tamid disse, ríspido. — Se eu tivesse sorte, não estaria aqui.
— Vou assumir que isso seja um “não” — eu disse. Tamid vinha repassando os livros havia semanas, procurando as palavras que precisávamos para libertar os djinnis.
Palavras no idioma primordial, que existia antes de mentiras serem inventadas. E a língua de um demdji, incapaz de contar mentiras.
Era uma combinação poderosa: com as palavras certas no idioma primordial, uma demdji como eu podia fazer qualquer coisa acontecer. Bastaria dizer e poderia fazer chover dinheiro, derrubar reis, ressuscitar os mortos.
Mas o idioma primordial estava fragmentado e perdido. Então eu me contentaria com as palavras certas para desativar a máquina e impedir que nosso exército fosse queimado vivo. Assim que tivéssemos um exército.
Tínhamos o esboço de um plano antes da emboscada, da execução e da cidade ser cercada: levar Rahim para Iliaz e assumir o controle de seus homens, eu ainda eram leais a ele.
Depois disso, eu poderia me infiltrar no palácio para desativar a máquina e o exército de Abdal. A partir daí, teríamos uma chance real de vencer o exército do sultão e tomar o trono. Um exército mortal contra outro.
Só que, para o plano funcionar, precisávamos das palavras certas no idioma primordial. E, a julgar pela biblioteca crescente no quarto de Tamid, não estávamos mais perto de encontrá-las do que estivéramos um mês antes. Eu me perguntava se aquelas palavras teriam se perdido para sempre. Me parecia muito plausível que a humanidade tivesse preservado as palavras usadas para capturar um djinni e forçá-lo a nos obedecer, mas não as que seriam necessárias para devolver sua liberdade. Revelaria uma falta de visão própria da nossa espécie. Mas tudo o que podíamos fazer era pesquisar.
— Você não veio aqui falar sobre isso — Tamid esfregou os olhos, cansado. — O que você quer, Amani?
— Temos uma prisioneira. — Eu devia escolher as palavras com cuidado ali, mas não havia lá muito tempo para sutilezas. — Leyla.
Tamid estremeceu ao ouvir seu nome. Nós dois tínhamos sido enganados por ela, nós dois tínhamos sido traídos. Pensamos que era uma garota indefesa e inocente presa no harém. Mas ela significara algo mais para ele. E Leyla tinha usado esse relacionamento para sair do palácio e levar seu pai diretamente até nós. Ela tinha tirado muitas pessoas de mim, mas eu estava longe de ser a única que ela havia machucado.
— Porque trazer Leyla para um esconderijo rebelde funcionou muito bem da última vez... — Tamid comentou, mais ríspido do que precisava.
— Eu sei. — Me sento exausta de repente, como se quisesse desabar, mas não havia nenhum lugar para sentar entre os livros, então simplesmente me recostei na porta. — Mas ela sabe coisas. Coisas que precisamos saber.
— A menos que ela saiba as palavras certas para libertar um djinni, não estou interessado — disse Tamid.
— Isso Leyla não sabe — eu disse. — Mas talvez conheça um jeito de nos tirar dessa cidade. — Tamid finalmente olhou para mim, com uma centelha de interesse. — Mas ela não está contando nada. Pelo menos não para mim. Acha que há alguma chance de que fale com você?
— Duvido — Tamid zombou, rápido demais para me fazer acreditar que tivesse pensado a respeito.
— Eu não pediria se não estivéssemos desesperados. Mas o sultão vai começar a matar garotas se não a devolvermos, e precisamos de uma saída. Pode pelo menos tentar antes de me dizer que não vai funcionar? — Tentei atrair sua atenção de volta para mim, mas ele havia voltado a olhar para os livros, com raiva de mim novamente. — Tamid. — Ouvi o desespero em minha própria voz. — Preciso da sua ajuda.
— É claro que precisa. — Tamid franziu a testa, olhando para o livro. — Porque tudo sempre gira ao seu redor. Tudo na minha vida tem girado ao seu redor desde que você entrou nela. Estou aqui por sua causa. Leyla me usou para chegar até você. Até isso — ele apontou para os livros — é por sua causa.
A súbita explosão foi seguida pelo silêncio. Eu queria dizer a ele que aquilo não era verdade. Que não era justo. Que, se sua vida na Vila da Poeira tinha girado ao meu redor, a culpa era dele, não minha. Por outro lado, fui eu que sempre quis arrastá-lo comigo para o mundo. Ele havia tentado me segurar. No fim das contas, eu havia puxado com mais força. Mas Leyla... Aquela culpa ele não podia jogar para cima de mim.
— Estou enganada ou ela fez a perna para você antes de eu aparecer? — Tentei não usar um tom de acusação, para não parecer uma esposa com ciúmes da amante do marido. — Se quer ser um mártir, Tamid, não posso impedir, mas não deixe que pessoas que não escolheram esse caminho, morram.
Tamid encarou a página por um longo momento.
— Vou falar com ela. Mas tenho uma condição.
Qualquer coisa, pensei, mas não disse isso.
— Qual é?
— Se ela souber como sair dessa cidade, eu também vou. Não quero fazer parte disso. Dessa rebelião, da missão de resgate suicida que vocês acham que vão fazer. Nunca quis. Só quero ir para casa. — Casa. Voltar para a Vila da Poeira. — Nunca tive a intenção de sair de lá, pra começo de conversa.
Eu nunca havia entendido que motivos ele tinha para ficar lá. Seu sonho sempre fora treinar para ser um pai sagrado e um dia assumir a casa de oração da Vila da Poeira. Eu daria praticamente tudo para não ter que voltar. Sentia como se fosse uma armadilha esperando por mim no fim do deserto. Como se, ao voltar para o lugar onde nasci, ele pudesse fechar suas mandíbulas de ferro ao meu redor e nunca mais me deixar partir.
— E em que situação isso nos deixa? — perguntei. — Ninguém mais sabe como ler o idioma primordial aqui. — Ninguém mais foi treinado pelo pai sagrado no Último Condado, onde as velhas tradições e os antigos idiomas haviam perdurado mais que nas cidades ao norte. — Não temos chance contra o sultão se não pudermos descobrir uma maneira de desativar a máquina.
— Então vai me manter trancado aqui na esperança de que eu descubra alguma coisa? — Tamid retrucou. — Odeio dizer isso a você, mas se eu fosse encontrar as palavras de que precisamos, já teria encontrado. — Ele gesticulou com raiva para o quarto. — Porque, acredite, eu tenho tentado.
Ele não estava errado.
— Está bem — concedi. — Se conseguirmos sair daqui, levaremos você para o mais perto da Vila da Poeira que conseguirmos. Fale com Leyla. Logo.
Eu virei para ir embora, mas a voz e Tamid me parou.
— Amani. — Eu me virei, com a porta entreaberta. Ele finalmente olhou para mim, com uma expressão pesarosa no rosto, antes de desviar os olhos novamente. — Tem mais uma coisa. — Seus olhos vagaram pelos livros espalhados pelo quarto. Como se estivesse procurando outra resposta no último momento. — Eu... Encontrei alguma coisa.  Não as palavras para desativar a máquina, não se anime. Mas... — Agora quem aprecia escolher as palavras com cuidado era ele. — Há relatos de djinnis morrendo na Primeira Guerra. Em todos eles, sem exceção, tudo ao redor foi destruído. Eles são feitos de fogo. E sua morte... é como uma explosão. Quando morreram, arrasaram cidades, campos e batalha, secaram rios, racharam a própria terra, antes de desaparecer no céu para se tornarem estrelas. A máquina de Leyla... Quando Fereshteh morreu, a máquina aprisionou esse poder, se aproveitou dele para alimentar a redoma e os abdals. Ao desativar a máquina, todo esse poder, ele não será mais contido... — Tamid deixou a frase no ar, desconfortável.
Eu sabia o que ele queria dizer.
— Se eu desligar a máquina e libertar o poder de Fereshteh, você acha que há uma chance de que ela me destrua. — Tamid não precisou me responder. Agora eu entendia porque não me olhava nos olhos. Não importava o quanto nossa história fosse complicada, aquilo não significava que quiséssemos ver o outro morto.
Olhei novamente para a destruição de Abbadon no livro aberto. Podia imaginar claramente todo o fogo da alma de Fereshteh, liberado da máquina gamanix que Leyla construíra, queimando tudo naquelas catacumbas. Incluindo eu.
Tentei concentrar minha mente cansada naquilo. Minha própria morte. Mas parecia muito distante. Havia um monte de outras coisas que poderiam me matar antes que eu me arriscasse a ser queimada viva por fogo djinni. Naquele momento, entre princesas não cooperativas e ameaças de assassinato de meninas inocentes, parecia um incômodo remoto.
— Um problema de cada vez, Tamid. — Passei a mão no rosto, tentando me livrar da exaustão. — Nesse momento, tem alguém na minha frente na fila para morrer. E precisamos tentar salvá-la.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!