26 de novembro de 2018

Capítulo 47

O governo do bom príncipe Ahmed

UMA VEZ, NO PAÍS DESÉRTICO DE MIRAJI, um príncipe tomou o trono de seu pai.
Muitas pessoas contaram histórias naquele dia.
Disseram que o príncipe rebelde tinha travado uma batalha gloriosa contra um oponente acovardado, que se escondera atrás de seus muros e deixara seus soldados caírem em ondas. Disseram que a crueldade do sultão era tamanha que o povo se virou contra ele. E que, quando ele caiu, seu exército largou as armas aos pés do príncipe Ahmed e se rendeu grato à misericórdia do novo governante.
Disseram que quando o príncipe rebelde entrou em Izman, choveram flores das janelas, jogadas pelo povo, agradecido por ser libertado. Sua irmã demdji, Delila, que havia começado aquela luta assim que nascera, mandara beijos para as pessoas enquanto passavam, feliz de finalmente voltar para seu lar no palácio, de onde fora forçada a fugir. E a Bandida de Olhos Azuis pegara as flores para fazer uma coroa para o príncipe enquanto avançavam na direção do palácio.
Mas eram apenas histórias. Nunca contariam a verdade do que eu me lembrava daquele dia.
Eu lembrava da rua coberta de sangue, não de pétalas. Da confusão depois que o sultão caiu, enquanto os homens continuavam a lutar. Homens bons, não corrompidos. Que só estavam seguindo as ordens dadas a eles por um governante morto. Cujas famílias sairiam de casa mais tarde para chorar sobre seus corpos. Eu sabia como o sultão havia caído, porque eu o havia matado, e teria pesadelos por meses. Às vezes seu rosto se transformava no de Hala. Às vezes no de Shira. Ou de Sam.
Mas os contadores de histórias nunca saberiam disso. Ninguém saberia além de Jin, que acordaria de noite junto comigo, pronto para lutar, até perceber que a ameaça estava na minha mente e ele não podia me defender dela.
Mesmo se as pessoas soubessem a verdade, não teriam interesse em contá-la. Pétalas derramadas das janelas como estrelas cadentes eram um material melhor para histórias.
Elas nunca contariam que, depois que o sultão morreu, enquanto atravessávamos a cidade, cada cadáver nos lembrava do custo da guerra. Que, enquanto eu abria caminho pelas ruas, encontrei Samir com uma bala no peito. Um garoto da Vila da Poeira como eu, que havia se juntado a nós em Sazi. O fato de o termos treinado não fez diferença. A guerra tomava vidas e mudava as dos sobreviventes.
As histórias se lembrariam que Izz sobreviveu à queda pelas mãos do sultão, mas não que sua asa queimada e mutilada se transformaria em um braço que jamais se curaria completamente, independente da forma que ele assumisse. Ele ficava manco quando estava em quatro patas, e sua asa batia inútil quando tentava assumir a forma de um pássaro. Maz parou de se transformar em criaturas que voassem, porque não queria ir a lugares onde seu irmão não pudesse segui-lo.
Eu lembrava de como o ar ficara espesso com a fumaça das piras funerais naquela noite. Queimamos tantos corpos quanto conseguimos. E queimamos quatro piras vazias também.
A primeira foi para Sam. Não havia nada dele para queimar, embora tivéssemos revirado o palácio procurando. Só encontramos cinzas e corpos de abdals caídos. Se eu não soubesse, poderia achar que havia simplesmente atravessado uma parede, fugido atrás de outra aventura. O capitão Westcroft me contou que em Albis eles acreditavam que, quando você morria e era enterrado, seu corpo brotava na forma de uma árvore ou de um campo de flores. Em uma nova vida. Então cobrimos a pira funeral de Sam com flores, cortadas do harém. Do mesmo tipo que Sam colhera na noite em que o conheci.
Colocamos um anel de ouro na pira vazia de Hala para simbolizar a perda da garota dourada.
Para nossa demdji de mil faces, usamos um dos khalats de Shazad que Imin gostava de pegar emprestado.
Uma coroa para Shira, a sultima morta.
Corpos havia muito perdidos, porque morreram não naquela batalha, mas por causa da guerra. Agora finalmente tínhamos tempo de lamentar suas mortes, porque a guerra havia acabado.
Queimamos o sultão também, e seus filhos ficaram de pé perto da pira, como deviam. Mesmo que fossem o motivo de sua morte. Porque era assim que as coisas funcionavam. Éramos mortais. Filhos estavam destinados a ocupar o lugar dos pais.
As piras queimaram até a fumaça encobrir a lua.
Eu lembrava de finalmente desabar em uma cama familiar, porque havia dormido nela quando era prisioneira no harém. Não sabia para onde mais ir no enorme palácio vazio que havíamos conquistado. Acordei com o barulho do travesseiro se movendo quando Jin foi deitar comigo. Me movi apenas o suficiente para deixar que seus braços me envolvessem e me puxassem para junto dele.
— Homens não são permitidos no harém — lembro de murmurar quase adormecida perto de seu ombro, enquanto ele tentava achar uma posição confortável. Senti sua risada por todo o meu corpo, e a alegria de ainda estar viva cresceu tão rápido dentro de mim que pensei que eu fosse despedaçar.
— Acho que eles abrem exceções para príncipes — Jin disse no meu ouvido antes de me beijar.
Eu lembrava de notar que nós dois ainda carregávamos nossas armas e me perguntar quanto tempo levaria para a batalha realmente ficar para trás, depois da vitória.
Mas nossas memórias interessavam apenas a nós, não eram matéria-prima para as histórias. As histórias eram feitas para contar o que o povo queria ouvir. E o povo queria saber que tínhamos vencido e que estava tudo bem.
Ahmed se tornou uma lenda em todo o deserto em questão de dias: o príncipe ressuscitado, que voltara dos mortos para salvar a cidade. Para salvar o país inteiro. As histórias diziam que ele havia queimado os invasores estrangeiros em seu caminho para derrotar o pai.
Mas quem fizera aquilo fora o sultão. Ele havia dispersado nossos ocupantes em potencial. Ele havia nos ajudado e tornado Miraji um lugar a salvo do jugo estrangeiro. O massacre dos gallans fora o único motivo de termos conseguido tomar a cidade ao pôr do sol sem o risco de perdê-la ao amanhecer.
Mas as histórias gostavam que as coisas fossem simples. O sultão era o vilão. Nós éramos os heróis. E havíamos dado ao povo de Miraji um novo príncipe, mais benevolente que seu pai. Um novo deserto, livre da ocupação. Uma nova alvorada.


Eu me esforcei para fechar o medalhão em forma de sol ao redor do pescoço enquanto caminhava, me atrapalhando com a corrente por alguns momentos antes de finalmente ter que parar.
Estava atrasada.
Me apoiei em um mosaico de cisnes que se alongava pelo corredor que atravessava o palácio, de frente para uma arcada que se abria para uma lagoa de aparência plácida, enquanto tentava fechar o ganchinho na parte de trás.
Nunca tivera uma joia antes, e teria continuado assim alegremente se Ahmed não tivesse me dado aquele medalhão. Ele me marcava como uma das novas conselheiras do sultão no grupo temporário que havia formado para tentar solucionar os obstáculos para a criação de um novo país. Era simbólico, e eu devia usá-lo exatamente por isso.
Inclinei a cabeça para a frente, deixando cair sobre o rosto o cabelo que Shazad havia arrumado com tanta habilidade. Tinha crescido desde que fora cortado no palácio, meses antes. Estava comprido o bastante para prender no fecho do cordão se eu não tomasse cuidado. Tão comprido que eu poderia prendê-lo para cima, mas Shazad não deixara. Ela havia passado a mão pelos meus cachos escuros algumas vezes com um pingo de óleo nos dedos, até eles parecerem artisticamente desgrenhados. Também havia me maquiado, espalhando kohl escuro apressadamente ao redor dos olhos e vermelho na minha boca, para combinar com o khalat que eu vestia, da cor do nascer do sol. Vermelho como o alvorecer, mas com a borda trançada em ouro, formando o horizonte de Izman ao longo da bainha. Parecia que eu tinha acabado de chegar da batalha. O que, percebi enquanto ela saía, era exatamente sua ideia. Shazad parecia estilosa e elegante – uma líder, uma general. Eu estava desempenhando o papel de Bandida de Olhos Azuis, misteriosa e pouco apta ao ambiente da nobreza. Éramos todos personagens agora, pelo resto de nossas vidas, sempre que aparecêssemos em público. Um preço justo a pagar pela vitória.
Finalmente fechei o gancho com um estalido satisfatório. Joguei o cabelo para trás e corri o mais rápido que pude sem perder os sapatos, em direção aos jardins.
As celebrações da Shihabian tinham começado ao entardecer. Ali e por toda a cidade, a noite havia clareado com a luz das lanternas. Acesas com óleo daquela vez, e não com fogo roubado de djinnis. Contudo, havia conversas sobre replicar o que Leyla havia feito sem a necessidade de assassinar seres primordiais. E produzir luz sem fogo. Ou fazer mais alguns abdals, que nos defenderiam se necessário. Ainda estávamos em guerra com Gallandie, afinal. Contudo, imaginei que levaria muito tempo até que recobrassem suas forças e fossem atrás do nosso país outra vez. Havia rumores de que seu império no norte estava se desmantelando. A aliança com Albis tinha falhado. Era um império decadente cercado de inimigos. Incluindo nós. E Albis. Ahmed havia forjado uma paz experimental com a rainha de lá. Lutava por uma paz diferente da que seu pai havia forjado com os gallans. Uma na qual nós governássemos. Tínhamos aliados agora. Não ocupantes.
As regiões no extremo leste do império gallan estavam se rebelando por independência. Pela liberdade e pelo direito de ter um país onde a religião gallan e o ódio aos seres primordiais que andava junto não fossem impostos.
Mas se os gallans avançassem novamente, precisaríamos estar preparados. As criações de Leyla tinham mudado o mundo, e não havia como voltar atrás.
Mesmo Ahmed, que resistiu o quanto pôde a fazer qualquer coisa que pudesse lembrar seu pai, tinha usado o zungvox de Leyla mais uma vez. Para anunciar eleições na cidade de Izman.
Seu pai, e o pai dele, e todos até o primeiro sultão, haviam governado sem a voz do povo. Queríamos mudar isso. Queríamos deixar que decidissem se ele continuaria a ser sultão. Ahmed não queria ser um conquistador do seu próprio país. Pediu que o escolhessem.
E então foram organizadas eleições.
Ninguém ficou surpreso quando Ahmed ganhou. Havíamos declarado que qualquer pessoa poderia se apresentar como um concorrente ao trono. Vários dos filhos do sultão se apresentaram, além de um ou dois emires. Ao todo, doze homens contra Ahmed. Espalhamos a notícia pelo país inteiro, enviando os homens e mulheres em quem depositávamos maior confiança para coletar os votos de cada cidade, cidadela e vila. Em alguns lugares, onde não sabiam ler ou escrever, tiveram que votar com figuras em vez de nomes. Uma coleção estranha foi levada de volta para Izman para a apuração: nomes rabiscados em papeis às centenas juntamente com sacos de pedras coloridas e pedaços de madeira pintados. Mas, no fim, foi fácil saber o resultado. Éramos demdjis, então, depois de fazer a contagem, quando avisamos que a maioria dos votos tinha ido para Ahmed, todos sabiam que era verdade. Não cometíamos erros.
Ele foi eleito líder de Miraji pela próxima década. Tempo suficiente para construir o país que havia prometido, mas não tanto que o poder chegasse a corrompê-lo.
No jardim, homens e mulheres se misturavam em roupas espetacularmente coloridas. Eram pessoas que Ahmed precisava que apoiassem seu governo. Emires, seus familiares e filhos, incluindo Rahim de Iliaz e Haytham de Tiamat, bons exemplos para os outros seguirem. Embora soubéssemos que já havia resmungos de dissidentes. Capitães que agora serviam sob o comando de uma general mais jovem e mulher, que precisavam ser convencidos a obedecer. O general Hamad havia abdicado em favor da filha. Ele estava ficando velho e tinha lutado duas grandes guerras. Visto dois sultões morrerem. Um dos quais ele havia traído. Ahmed estava providenciando para que ele recebesse uma bela aposentadoria. Hamad disse que era um raro privilégio se aposentar em vez de morrer no campo de batalha. E era hora de uma nova geração assumir o comando.
Shazad já havia começado a mudar as coisas. Uma das guarnições tinha sido reservada a mulheres, e estava enchendo lentamente. Muitas das novas soldadas eram rebeldes que haviam lutado conosco em Izman e decidido não voltar para casa. Mas algumas eram novas recrutas, surgindo aos poucos pela cidade, algumas até da Casa Oculta de Sara. Os capitães não aceitariam sua nova general e suas novas recrutas da noite para o dia. Mas não era como se tivessem escolha. O mundo estava mudando, e precisavam mudar com ele.
Tínhamos vencido uma guerra, mas sabíamos que ainda havia milhares de pequenas lutas nos esperando. Mas naquela noite, vozes alegres se espalhavam pelo jardim no ar refrescante da noite, e havia bom vinho. Por algumas poucas horas, houve descanso.
Eu me demorei à margem da celebração, despercebida nas sombras enquanto procurava Jin na multidão. Seu irmão me encontrou primeiro.
— Uma comemoração diferente da que tivemos ano passado — disse Ahmed, aparecendo ao meu lado vindo de dentro do palácio. Pelo menos eu não era a única atrasada.
— Com certeza. — Nossa última Shihabian tinha sido no vale de Dev. Escondidos. Sem um reino. Sem uma única vitória real. Sem tantas mortes. Na última Shihabian, estivéramos cercados por muitas pessoas que agora haviam se tornado poeira no deserto.
Ahmed vestia um kurta preto com tranças douradas. Seu cabelo estava cuidadosamente escovado para trás, fazendo-o parecer ter mais do que dezenove anos. Ele parecia um governante da cabeça aos pés.
Desde a eleição no mês anterior, ele havia passado cada dia trancado em uma ou outra reunião, ajeitando o país que tínhamos salvado. Eu participara de algumas delas, mas não de todas. Rahim e Ahmed haviam se reunido naquele mesmo dia para decidir o que fazer com a princesa traidora, ainda presa em Iliaz. O restante de nós abandonara a reunião discretamente. Ninguém queria ser chamado para escolher um lado na hora de decidir tratá-la como irmã ou inimiga.
— Já sabem o que fazer? — perguntei, mesmo sem ter certeza de que queria ouvir a resposta.
Ahmed só sacudiu a cabeça com um ar sério.
— Ainda não chegamos a um acordo. Meu pai teria mandado executar Leyla. Shazad diz que devíamos fazer dela um exemplo. Rahim quer que eu a poupe de qualquer punição grave, é claro. Embora ela não tenha falado muito com ele desde… — Ele parou e passou o dedo pela borda do copo. — Rahim trouxe notícias dela quando voltou de Iliaz. Está esperando um filho.
De Balir, percebi. Não descartaria que Leyla tivesse planejado aquilo também. Como uma forma de se manter viva. Devia imaginar que separar uma criança de sua mãe seria um dilema para Ahmed, independente de seus crimes. Já que o sultão havia tirado a mãe dele e de Delila dos dois.
— Não sei. — Ahmed suspirou, olhando para a festa enquanto nos demorávamos um pouco mais em seus arredores. A luz e o barulho escapavam, nos alcançando de leve, nos convidando a entrar. — Não acho que exista vitória possível contra ela. Estou começando a entender melhor meu pai depois de sua morte. Fazendo escolhas que odeio só porque a alternativa é pior.
— Você não é como seu pai — eu disse, me apoiando na pedra fria da parede do palácio. Mas ele tinha razão. Se matasse Leyla, uns diriam que era cruel e outros que era justo. Se a prendesse, uns diriam que era fraco e outros que era bondoso.
— O que você faria no meu lugar? — Ahmed perguntou, me pegando desprevenida.
— Com Leyla? — perguntei. — Consigo pensar em um monte de coisas, mas ouvi que se deve tratar meninas grávidas com gentileza.
Ahmed sorriu, mas não desistiu.
— Sabe que não foi isso que eu quis dizer. — Ele tocou o medalhão dourado no meu pescoço. — Coloquei você no posto de conselheira por um motivo. Quero que me aconselhe.
— Eu mandaria Leyla para o exílio — falei antes que pudesse pensar duas vezes. Assim que as palavras saíram, eu soube que era o que pensava de verdade. Gente demais havia morrido naquela guerra. E tudo para construirmos um lugar melhor. Uma nova alvorada. Um novo deserto. — Para Albis — eu disse, a ideia ficando mais clara na minha mente. — Ou de volta para a terra da mãe dela. Basta deixar claro que jamais poderá colocar os pés no deserto outra vez. Envie a todos a mensagem de que a pior punição por traição não é a morte, mas viver em outro lugar que não o grande país que está construindo. É disso que eu teria mais medo, de ter que deixar o meu lar. — Ahmed me observou com atenção, sua boca formando um sorriso sutil. — O que foi? — perguntei na defensiva.
— Nada. É que… Teria sido um desperdício inacreditável se você tivesse passado a vida presa naquela cidade no fim do deserto. — Ele me ofereceu o braço. Era hora de entrar na Shihabian.
— Não se preocupe. — Passei meu braço no dele, como tinha visto Shazad fazer em ocasiões formais. — Mesmo que ainda estivesse presa lá, teria votado em você.
Entramos juntos na comemoração.
A noite absoluta caiu à meia-noite, como de costume. Extinguindo o fogo. A lua. As estrelas. Só por aquele momento, foi como se eu estivesse morta novamente naquelas catacumbas. Escuridão absoluta. Então a mão de Jin encontrou a minha. Me lembrando que estávamos vivos. Que éramos apenas uma chama bruxuleante em uma noite muito longa. Mas estávamos ali, naquele momento.
Talvez Jin tivesse razão, lá nas catacumbas no dia da batalha de Izman. Talvez não existisse nada além daquela vida. Talvez ele e eu nos tornássemos apenas poeira, procurando um ao outro para sempre. Mas seríamos mais do que isso. Seríamos histórias, bem depois de termos partido. Histórias imperfeitas e imprecisas. Histórias que jamais fariam jus à verdade.
Eu já havia começado a ouvir a lenda de como Jin e eu tínhamos sido salvos da morte pela graça dos djinnis, tão comovidos com nosso grande amor que nos alimentaram com chamas até nossos corpos reacenderem.
Mais tarde, as histórias diriam que a Bandida de Olhos Azuis e o príncipe estrangeiro lutariam muitas outras batalhas pelo país. E suas muitas aventuras seriam recontadas à noite para crianças, em volta das fogueiras. As histórias diriam que, quando a morte finalmente fosse até eles novamente, ao cabo de vidas muito longas, ela os reivindicaria juntos, lado a lado, no deserto pelo qual haviam lutado.
Mas nunca contariam que o príncipe estrangeiro manteve sua promessa para a Bandida de Olhos Azuis e a ensinara a nadar. As histórias esqueceriam os pequenos momentos dos quais ela se lembraria: a sensação dos dedos dele em suas costas quando a erguera junto ao seu corpo na água dos banhos onde costumava ser o harém. Que ele sempre sorria quando a beijava e ela estava com gosto de sal. Que ela se esforçou em aprender por causa dele, mesmo que se sentisse uma chama mergulhada na água. As histórias só contariam sobre o dia em que a Bandida de Olhos Azuis estava em um navio que começou a afundar durante uma tempestade e saltou do convés, nadando até a costa. E que de lá enviou uma onda de areia para salvar o navio do naufrágio. Mas nenhum contador de histórias jamais se perguntaria como uma garota do deserto sabia nadar.
Cada história sobre o governo do príncipe Ahmed falaria de sua bondade e da prosperidade que levou ao país. Jamais saberiam das noites longas com óleo queimando nas lamparinas para tomar decisões difíceis, ou dos dias em que a Bandida de Olhos Azuis sairia impetuosa de seus aposentos por pensar que ele estava cometendo um erro. Ou das noites que ele passaria insone, preocupado com a mesma coisa.
Todo mundo saberia que, quando ele desceu do trono após dez anos, o país elegeu outro príncipe, um de seus meios-irmãos que havia crescido no harém. Então os contadores teriam que narrar em voz baixa o que aconteceu em seguida: apesar de aquele homem ter o mesmo sangue do príncipe rebelde, não podia ser mais diferente. E não demorou muito para tentar controlar o poder e tirar a vida daqueles que não concordavam com ele. Logo declarou que governaria não só por uma década, mas durante toda a sua vida, como seu pai havia feito.
Mas a voz dos contadores de história se ergueria para relatar que uma noite, quando o príncipe usurpador se regozijava de sua vitória no palácio, alguém bateu na porta de seus aposentos. Quando ele a abriu, encontrou a bela general parada à sua frente. Ele ficou chocado, porque havia enviado um assassino para matá-la. Mas o homem havia falhado, e a general é que o havia assassinado. Quando ela descobrira o que estava acontecendo, marchara com seu exército e tomara a cidade de volta enquanto ele dormia. E fizera aquilo sem disparar um único tiro ou sequer desembainhar sua espada. Mas a desembainhava agora, para entrar em seus aposentos e pôr um fim à sua tirania.
Essa foi uma história que todas as garotas que se alistaram no exército mirajin certamente ouviram quando crianças.
Mas ninguém saberia que na véspera daquela batalha sem derramamento de sangue em Izman, oito pessoas tinham se reunido pela primeira vez em muitos anos. Lembraram-se de cada vez que haviam feito o mesmo antes, quando eram mais jovens. O príncipe estrangeiro perguntara: “Já não vencemos esta guerra?”. E seu irmão indagara em voz alta se eles sempre estariam lutando pela liberdade contra homens sedentos por poder. E então a bela general juntara suas mãos e dissera: “Muito bem, eis o nosso plano”. E a Bandida de Olhos Azuis rira, porque não ouvia aquilo fazia muito tempo.
As histórias só diriam que uma nova eleição aconteceu depois de o usurpador ser destronado. E que a bela general foi escolhida como a próxima governante do deserto. Ela se tornou a primeira sultana eleita de Miraji, e defendeu seu país por mais dez anos gloriosos.
Quando ela desceu do trono, o príncipe demdji foi escolhido para governar o povo. Ele era o filho adotivo do príncipe rebelde, apesar de ser descendente da abençoada sultima. Algumas histórias diriam que também era sangue do sangue da Bandida de Olhos Azuis. Mas a maioria delas diria que essa era uma invenção absurda. Todas concordariam que seu governo havia sido profetizado antes de ter nascido, e que sua linhagem significava que estava destinado a ser um grande governante.
Mas a Bandida de Olhos Azuis, que lembrava de onde ele e a abençoada sultima tinham vindo, sabia que o príncipe demdji não havia se tornado grande por sua linhagem. Ele era gentil porque o príncipe rebelde pegava seu filho e o consolava quando ele caía e ralava o joelho, em vez de castigá-lo por sua fraqueza. E que o príncipe estrangeiro ensinara a seu jovem sobrinho demdji que não precisava compartilhar laços de sangue com quem chamava de família. A própria Bandida de Olhos Azuis o ensinara a atirar, e quando pensar em vez de puxar o gatilho. O lendário comandante de Iliaz mostrara a ele como andar a cavalo e explicara que soldados mereciam respeito, não apenas ordens. A princesa demdji e os lendários gêmeos demdjis tinham sido os primeiros a ajudá-lo a entender, quando muito novo, os poderes que herdara do pai. A bela general o ensinara a traçar estratégias em vez de perder a calma pensando na resolução de um problema. E aqueles perto dele saberiam a verdade que as histórias não contariam: que ele era um grande governante por ser feito das melhores partes de todos os homens e mulheres que o criaram.
E nenhuma história jamais contaria que um dia, quando o príncipe demdji ainda era criança, a Bandida de Olhos Azuis viajara para longe, no sul. Sentada em uma pedra aquecida pelo sol, perto de um pai sagrado que só tinha uma perna, os dois viram o jovem príncipe brincar na mesma areia onde haviam crescido, com primos que compartilhavam seu sangue, mas que jamais entenderiam totalmente como era sua vida em um palácio distante. Que quando a avó do garoto o pegara no colo, o pai sagrado dissera que a abençoada sultima teria ficado feliz se pudesse ver a cena.
As histórias seriam imperfeitas, as lendas seriam incompletas. E cada um de nós de pé no jardim naquela noite levaria um universo inteiro de histórias conosco quando morrêssemos, os testemunhos de cada pequeno momento que não parecia grandioso o suficiente para os contadores de história, que desapareceria na fumaça quando nossos corpos fossem queimados.
Mas mesmo que o deserto esquecesse nossas mil e uma noites, saber que ele falaria sobre nós já era suficiente. Que muito tempo depois de nossa morte, homens e mulheres sentados em volta da fogueira ouviriam que uma vez, muito tempo atrás, antes de sermos somente histórias, nós vivemos.
Na nossa frente, no jardim, uma fogueira ganhava vida.
E o contador de histórias começou a falar.

2 comentários:

  1. Que show!!!!!! Uma ótima trilogia com um dos melhores finais que já li. Um final onde as cicatrizes fazem parte da felicidade. Rivaliza com Jogos Vorazes!!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!