26 de novembro de 2018

Capítulo 46

ÉRAMOS OS INIMIGOS NOS PORTÕES DA CIDADE.
Jin e eu surgimos sobre os muros do palácio e encontramos uma batalha real acontecendo lá embaixo. Nosso exército não estava mais na defensiva. Passáramos ao ataque.
A barreira de fogo sobrenatural do sultão havia sumido, e os antemuros da cidade estavam repletos de corpos de bronze – abdals caídos, sua centelha apagada com a libertação de Fereshteh. Os soldados de carne e osso do sultão corriam para entrar em posição, pegando suas armas. Mais deles avançavam pelas ruas vazias em direção ao palácio. Estávamos em números equivalentes, mas eles ainda tinham vantagem pela posição elevada.
Um grito vindo do alto nos fez erguer a cabeça. Izz voou sobre nós, soltando algo de suas garras: uma bomba, que acertou o muro explodindo ao aterrissar, levando pedras e soldados com ela, mas sem conseguir abrir os portões. A rebelião precisava de uma forma de entrar.
Eu chamei o deserto.
E não havia dor. Nenhum esforço. Meu poder fluía fácil, como se estivesse suspirando de alívio enquanto invadia meu corpo inteiro.
Involuntariamente, toquei a pele macia da barriga. Meu pai também havia curado aquela ferida, junto com a nova.
Era mais do que a ausência da dor. Pela primeira vez, eu sentia meu poder como se fosse parte de mim. Como se realmente estivesse na minha alma. Não uma arma na ponta dos dedos, e sim outra batida do coração.
Não precisei nem contrair os dedos para agarrar completamente o deserto. O meu deserto. Eu era o deserto. E ele ia me responder.
Puxei com toda a força que tinha, erguendo a areia como uma onda no mar. Ela estourou no portão leste, rachando as pedras, espalhando soldados e abrindo os portões.
Inundei a cidade com a rebelião.
As ruas se transformaram em um campo de batalha enquanto descíamos correndo dos muros do palácio. Estávamos desarmados, exceto pelo meu dom, e Jin ficou atrás de mim enquanto nos juntávamos à luta.
Um soldado nos viu quando viramos em uma esquina estreita, erguendo sua arma para nós. Reagi mais rápido do que ele, e a areia em volta dos seus pés se ergueu em uma onda de poeira, cegando-o, sufocando-o.
Jin passou por mim. Em um movimento rápido, ele acertou o soldado no rosto e tirou o rifle de suas mãos.
De repente, ouvimos um tiro atrás de nós. Viramos como se fôssemos um só. Mas não éramos o alvo. Um homem vestindo uniforme de soldado estava estirado na rua. Acima dele, em uma janela, havia uma garota com khalat dourado, com uma arma nas mãos e o cabelo preso para não cair no rosto. Ela estava tremendo, e seus olhos pareciam arregalados pelo choque do que tinha acabado de fazer. Tinha nos salvado.
Seus olhos arregalados encontraram os meus, e ela acenou discretamente. Senti uma onda de esperança. A rebelião não tinha se extinguido dentro da cidade enquanto estávamos fora.
Precisávamos voltar para os outros.
O plano de Shazad tinha sido separar os soldados do sultão, dividi-los entre as ruas e ruelas, onde números não fariam diferença e poderíamos obrigá-los a recuar até estarmos próximos do palácio.
Começamos a ver os primeiros sinais de luta na rua do Junco Vermelho, a via que cortava a cidade de oeste a leste.
Jin apoiou o rifle em seu braço, mirando enquanto eu trazia a areia para perto de mim, curvando-a para usá-la como lâmina contra eles.
Juntos, abrimos caminho pela batalha como uma faca atravessando a água.
Dezenas de vezes uma lâmina roçou meu pescoço, perto, mas não o suficiente. Vi uma arma apontada na minha direção enquanto fazia a força do deserto descer sobre a cabeça do soldado que a segurava. Eu já devia ter morrido uma centena de vezes. Mas estava viva. Sentia como se fosse intocável. Como se as balas não pudessem me atingir. Como se nenhuma espada pudesse me acertar enquanto atravessávamos o campo de batalha, voltando para o nosso próprio lado.
Então eu a vi no meio da luta, a trança escura balançando enquanto sua espada acertava um homem na garganta antes que ela caísse de joelhos, deslizando sua lâmina pela coxa de outro soldado e fazendo-o tombar antes de dar o golpe mortal com uma faca em seu pescoço.
Shazad sempre fora uma força poderosa, mas mal parecia humana naquele momento. Ela era uma tempestade de fogo, e queimaria os exércitos do sultão antes de cair diante deles.
Quando nos viu em um intervalo de calmaria na batalha, seu rosto mudou. Ela me agarrou, puxando-nos para junto de si enquanto entrávamos em um beco que servia de abrigo temporário.
— Vocês estão vivos — disse, me abraçando enquanto Jin ficava de guarda, observando as ruas ao nosso redor, com o rifle de prontidão.
— Sim — concordei. — Shazad, Sam não…
Jin posicionou o rifle de repente, me interrompendo com um tiro. Um grito ecoou da rua próxima enquanto a ameaça desabava.
— Podemos lamentar pelos mortos mais tarde. — Shazad sacudiu a cabeça, adivinhando o que eu não era capaz de dizer. Mas sua voz soava tensa. — Agora, preciso de uma barricada do outro lado da rua do palácio e da rua Dourada para impedir que os soldados recuem para além do rio. A subida começa aqui. Estaremos perdidos se forem para um terreno mais elevado. Consegue fazer isso?
— Sim. — Assenti, olhando rapidamente para cima. — Acho que consigo. Mas preste atenção, Shazad, acho que talvez você consiga reforços pelas ruas. Já conseguimos fazer o povo de Izman se rebelar uma vez. Se conseguir fazer com que venha para a rua em nome de Ahmed, então estaremos em maior número que os soldados. E poderemos acabar com isso.
— Não temos tempo de bater de porta em porta — disse Shazad, enquanto algo explodia por perto. Nenhuma de nós se abalou.
— O zungvox — eu disse. — Imagino que ainda esteja na grande casa de oração. — Eu lembrava de vê-lo, os fios da invenção de Leyla enroscados por dentro do domo como uma cobra, projetados para permitir que um homem falasse com a cidade inteira. Para o sultão nos ameaçar e nos controlar. Mas podíamos usá-lo de outra maneira. Podíamos fazer os abdals caídos falarem por nós.
Os olhos de Shazad se moveram rápido, como faziam quando ela arquitetava um plano mais rápido do que qualquer um de nós conseguiria.
— Muito bem, eis o que vamos fazer: Amani, consiga algumas barricadas para podermos continuar lutando. Sinalize para os gêmeos descerem e moverem o maior número possível de abdals para longe dos muros e para dentro da cidade.
— Sim, general! — Pela primeira vez, Shazad não me corrigiu ao chamá-la daquele modo.
— Jin — ela chamou. — O que acha de levarmos seu irmão para a grande casa de oração? Está mais do que na hora desta cidade saber que ele está vivo.
— Acho que damos conta disso. — Ele recuou para o abrigo do beco, recarregando sua arma. — Algum sinal do sultão?
— Está nas ameias. — Ela apertou os olhos na direção dos muros. — Mas ainda não sei onde. Caso alguém consiga colocar o sultão sob a mira, as ordens são para atirar.
Jin e Shazad saíram correndo do abrigo da ruela, voltando para a batalha, enquanto eu virava para a porta mais próxima. Bastou uma pancada de areia para estilhaçar a fechadura, então entrei. O piso térreo estava vazio, mas ao subir correndo pela escada, ouvi vozes, lamúrias e choramingos atrás das portas. Eu não estava lá para machucar ninguém, só precisava chegar a um ponto mais alto.
Corri para o telhado. De lá, podia ver o fim da rua Dourada. Shazad havia feito com que memorizássemos o mapa de Izman. Eu já podia sentir o deserto se erguendo sob minhas mãos. A areia rugiu ganhando vida, respondendo ao meu chamado enquanto subia do chão numa tempestade e se arrastava sobre a cidade como um grande enxame.
Eu a fiz cair no lugar onde a rua Dourada encontrava o rio, construindo uma imensa barricada que nenhum soldado conseguiria atravessar e bloqueando sua fuga.
Olhei para o leste. Não dava para ver a rua do palácio dali, o outro ponto de retirada. Eu precisava andar logo. Perderia um tempo precioso correndo de volta pelas ruas e lutando para abrir caminho. Mas era longe demais para pular de um telhado para outro.
Então tive uma ideia e imediatamente chamei uma porção de areia na minha direção. Comprimi os grãos formando uma ponte, conduzindo até o próximo edifício. Corri por ela sem hesitação ou medo de que se desfizesse sob meus pés. Nenhum grão de areia vacilou enquanto eu disparava para a próxima construção, e então para a seguinte.
Finalmente eu podia ver meu alvo, o final da rua onde o solo se erguia. Havia homens de uniforme dourado seguindo para lá em retirada. Bloqueei a passagem deles com uma parede de areia.
Um pouco mais adiante, Izz planou sobre a cidade. Meu coração saltou quando eu controlei a areia, enviando-a em uma explosão na direção dele para chamar sua atenção. Izz virou violentamente para evitá-la, mas me viu parada no teto, balançando os braços.
Ele desceu voando na minha direção, transformando-se em humano ao pousar na minha frente.
— Você está viva.
Ele sorriu, alegre.
— Por enquanto — eu disse. Não tinha tempo para comemorar. Expliquei do que precisávamos, e no momento seguinte ele tinha partido, lançando-se do telhado e mergulhando nas ruas ainda como menino.
Um momento depois, um enorme roc azul subiu, as garras segurando um dos abdals mortos, sua centelha de fogo djinni apagada com a libertação de Fereshteh. Mas o zungvox era tecnologia gamanix, e não magia mirajin. Eu tinha que torcer para que funcionasse.
Vi um dos abdals caído na rua embaixo de mim. Eu o peguei com uma onda de areia, carregando-o o mais longe que pude, como uma folha no vento, antes de perdê-lo de vista.
Izz voltou, agarrando outro abdal e evitando por pouco uma bala enquanto manobrava. Trabalhamos o mais rápido possível, Maz se juntou a nós assim que notou o que estávamos fazendo, dispersando os abdals o máximo que conseguia. Espalhando os alto-falantes do sultão pela cidade.
A cada momento que passava sem ouvirmos Ahmed falar, eu repetia a mesma coisa num sussurro, de novo e de novo:
— Jin está vivo. Shazad está viva. Ahmed está vivo. — Enquanto pudesse dizer aquelas palavras, eram verdade. Poder falar significava que eles ainda lutavam para atravessar a multidão e chegar à grande casa de oração.
E então eu a ouvi no ar. A voz de Ahmed.
— Povo de Izman!
Olhei para oeste, na direção da casa de oração, o alívio esmagando meu peito. Ele havia chegado à invenção de Leyla.
— Povo de Miraji! — A voz de Ahmed foi conduzida por milhares de abdals caídos. — Uma luta acontece em suas ruas. Mas não viemos como invasores, e sim como salvadores. Meu pai governou vocês com medo e com aço estrangeiro. Ele entregou todos vocês aos inimigos e enforcou suas filhas e suas irmãs. Matou seus inimigos a sangue-frio. Matou sua própria família, seu pai e também seus filhos. Tirou este país de vocês e os escravizou. Estamos aqui para devolvê-lo. Se quiserem lutar conosco, pela sua liberdade, pelo país, nós os receberemos de braços abertos.
Foi como se a cidade mudasse sob mim. Não como um abalo sísmico, igual Zaahir fizera nas montanhas, mas de um modo puramente humano. Os seres primordiais podiam ser todo-poderosos, mas haviam nos criado para cumprir o único propósito que não conseguiam: dar a vida por aquilo em que acreditávamos.
Foi o movimento de uma cidade inteira, lembrando seu propósito e se erguendo.
E nós nos erguemos e lutamos.


Perdi a noção do tempo enquanto a batalha de Izman se inflamava. Assim que me juntei à luta, deixei de ser uma garota e me misturei à rebelião, como se fosse parte de mim. Tirando obstáculos da frente, abrindo caminho até nosso inimigo. De tempos em tempos, ouvia a voz de Shazad falando pelo zungvox, dando ordens e orientações para uma cidade que, sem elas, seria engolida pelo caos.
A luta se estendeu por horas.
Os soldados do sultão foram para cima do povo.
Então, veio um grito do ar.
Foi um barulho horrendo. Quando olhei para cima, tive uma visão terrível.
Izz rodopiava, muito acima de nós, se debatendo em chamas. Uma flecha acesa tinha acertado sua asa esquerda. Queimava em uma mistura violenta de chamas azuis e vermelhas enquanto suas penas pegavam fogo.
Ele gritou e caiu em alta velocidade na direção da água para apagar as chamas, deixando uma trilha preta de fumaça atrás.
Ouvi mais gritos. De algum lugar, a ruas de distância, Maz mergulhou no ar atrás do irmão, mudando freneticamente de forma no caminho, de um falcão para um roc para um pardal, procurando o lugar onde Izz havia pousado. Procurando um jeito de ajudá-lo.
De repente, foi como se eu estivesse assistindo a tudo de muito longe. Como se apenas metade de mim estivesse de pé no campo de batalha e a outra metade estivesse em um jardim verde do palácio em um dia quente, com um lago cheio de pássaros na minha frente, mirando para derrubar um deles com uma flecha.
Só que não era eu quem segurava o arco.
Procurei-o. Eu era boa de tiro, conseguiria descobrir a origem da flecha. E lá estava ele.
Vi o sultão antes que ele me visse. Estava de pé em cima do muro, de armadura e uniforme. Saquei a arma e mirei. Sabia que era impossível ter escutado o clique da minha pistola, mas ele virou a cabeça na minha direção. Havia fogo em seu olhar e frieza em sua postura. Sua cabeça inclinou um mínimo para o lado conforme puxava o arco para trás, apontando-o para mim. Apenas uma fração de sua garganta estava exposta.
Eu poderia dar aquele tiro. Guardei a pistola, trazendo a areia para mim.
Engatilhei meu poder, como uma bala em uma arma. Como se eu ainda estivesse na arena de tiro nos confins do deserto com apenas uma bala sobrando e tudo dependesse dela.
Vi sua mão tensa para soltar a flecha enquanto a areia voava em sua direção, procurando a pele exposta, rasgando o ar na direção do alvo com toda a força do deserto atrás.
Eu era boa de tiro.
Não costumava errar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!