26 de novembro de 2018

Capítulo 45

O ESCURO DESAPARECEU COM UMA EXPLOSÃO repentina de fogo, e por um momento tudo o que eu via era luz.
Eu estava morta. Não era escuridão, poeira e vazio, como Jin pensava. Era uma luz que cegava.
Então percebi que podia ver uma silhueta através da luz, que me fazia lacrimejar. Meus pulmões queimavam, desejando ar. Eu podia sentir sangue e pedra dura embaixo da minha mão. Inspirei em pânico. Parecia minha primeira inspiração em muito tempo. Levantei num salto, tossindo, engasgando, com a garganta arranhada.
A luz não era a morte, percebi. Era o sol, entrando pelo poço dentro das catacumbas do palácio. E eu não era poeira no deserto. Estava exatamente onde havia morrido. Minhas mãos ainda estavam grudentas do meu próprio sangue, meu rosto continuava molhado de lágrimas. O que acontecia era algo muito mais ordinário do que a morte. Eu estava viva.
E então meus olhos se concentraram na única coisa que havia mudado. O lugar não estava mais vazio. Meu pai estava lá.
Bahadur estava agachado à minha frente, me observando com seus olhos azuis inescrutáveis, iguais aos meus. Como se fôssemos uma só pessoa. Como se eu realmente pertencesse a ele. Esperou pacientemente enquanto eu me reorientava no mundo dos vivos. Da mesma maneira que eu tinha assistido outros pais verem os filhos darem seus primeiros passos.
— Não estou morta — eu disse, e senti as palavras saírem com tanta facilidade que só podia ser verdade.
— Não — Bahadur concordou. — Não mais.
Em seguida veio um silêncio, enquanto ele me deixava absorver a informação. Enquanto me deixava respirar mais uma vez, percebendo que por pelo menos alguns momentos meus pulmões tinham ficado inertes. Que meus batimentos acelerados tinham diminuído até parar. Que por um momento eu havia partido.
Nós dois havíamos.
— Jin. — Olhei para os lados freneticamente, procurando-o. Ele ainda estava caído em uma poça de sangue. Sem se mexer. Sem sentar. Me arrastei apressada até ele, tentando tirar sua camisa ensopada de sangue.
Mas, enquanto passava a mão em sua pele, notei que estava intacta por baixo do sangue. Só então notei que a lateral do meu corpo não doía mais. Eu a toquei, procurando o ferimento, que não estava lá. A pele parecia perfeita. A cicatriz que tinha ganhado quando Rahim atirara em mim em Iliaz, de onde o último pedaço de metal fora retirado, de onde irradiava dor toda vez que usava meu poder, havia sumido.
Encostei a mão no peito de Jin. Ele subiu e desceu sob minha palma. Um mínimo, mas suficiente. O bastante para eu saber que não estava morto.
— Ele vai acordar em breve — meu pai disse atrás de mim. Observei-o por cima do ombro. Ainda estava agachado. Se eu não soubesse a verdade, diria que parecia um homem do deserto qualquer, perto da fogueira. Só que se mantinha parado demais. Como se seus músculos não sentissem o esforço de se manter naquela posição. Ele não era feito de carne e osso. Não era humano. — Precisa de um pouco mais de tempo que você. Não é feito da mesma matéria.
Eu também não era totalmente humana.
Ainda sentada, virei de frente para ele, com uma perna esticada à frente e a outra enfiada embaixo de mim. Mantive a mão sobre o coração de Jin, como se precisasse segurá-lo para que não desaparecesse.
— Você nos salvou — eu disse. Como? Só que essa era uma pergunta idiota. Meu pai era um dos seres que haviam nos criado. Criado a humanidade a partir do fogo e da poeira do deserto. Eu tinha visto Zaahir tirar a alma de Noorsham de seu próprio corpo. Não seria tão difícil para um djinni juntar alguns pedaços de humanidade, como remendar uma boneca de pano. — Por quê? — preferi perguntar.
Ele esfregou uma mão na outra. Foi a coisa mais próxima de um gesto humano que já tinha visto em um djinni. Um pequeno tique, para ganhar tempo para pensar.
— Você me perguntou uma vez se eu lembrava da sua mãe. Parecia acreditar que não. Que não me importava o bastante. Mas estava enganada. Eu lembro de tudo. Eu lembro do dia em que provei o medo enquanto via centenas de djinnis morrerem enfrentando a Destruidora de Mundos. Eu lembro da primeira mulher que amei, que me deu minha primeira filha. E lembro de ver essa filha morrer nos muros de Saramotai. Lembro que sua mãe tinha uma pequena cicatriz logo acima do lábio, que subia quando ela sorria. — Ele tocou a própria boca, no exato lugar onde ficava a cicatriz. Eu lembrava dela. Embora não lembrasse de minha mãe sorrindo muito. — Eu lembro de tudo, minha filha. Às vezes acho que sentimos as coisas de maneira mais profunda do que os mortais jamais sentirão.
Senti o peito de Jin subir e descer sob minha mão.
— Você não sabe como eu me sinto — eu disse.
Ele sorriu.
— Não — meu pai assumiu, inclinando a cabeça gentilmente. — Não sei. Mas também sinto. — Ficamos em silêncio por um momento, enquanto ele deixava a frase no ar. Eu só tinha vivido dezessete anos e, às vezes, não acreditava ser capaz de conter tudo o que tinha visto, vivido e pensado. Ninguém deveria ser criado para conter uma eternidade. — Também lembro do desejo que sua mãe fez para você. O que ela pediu quando soube que podia.
— E o que foi? — Não me aguentei. Eu vinha me perguntando o que minha mãe havia pedido desde aquele dia na prisão com Shira. Tinha medo de descobrir desde que Hala havia me contado o desejo egoísta de sua própria mãe, desde que Noorsham deixara seu corpo.
— Tive centenas de filhos antes de você, Amani. Cada mãe desejou coisas diferentes. Glória, riqueza, alegria. Mas sua mãe não pediu nada disso. Apesar de estar desesperada para sair da cidade que um dia ia matá-la, ela nunca pensou em pedir uma saída, ou riquezas para pavimentar com ouro seu caminho para longe de lá. O desejo dela foi simples: que você vivesse. — Ele sorriu com tristeza. — Que você, diferente dela, pudesse viver.
Que eu pudesse viver. Aquele parecia um desejo menor. Ela poderia ter pedido riqueza, poder ou um destino grandioso para mim. Mas com meu coração ainda batendo quando não deveria, entendi a importância de seu pedido.
— Foi um desejo que eu não ouvia fazia séculos. Desde minha primeira filha.
Ele se referia à princesa Hawa. Minha irmã. Estávamos separadas por séculos, mas era minha irmã mesmo assim. Era filha de outra mãe que havia desejado apenas que sua filha sobrevivesse em meio a uma guerra complicada.
— Mas Hawa morreu.
— Sim. — Ele baixou a cabeça. — Ela fez a mesma coisa que você. Se apaixonou por alguém que vivia muito próximo da morte. — Bahadur olhou para Jin e, por um segundo, me senti como uma filha comum, cujo pai não aprova o garoto com quem escolhera se casar. — Ela atou sua vida à dele, porque sabia que assim eu teria que proteger o rapaz. Porque, se ele morresse, ela morreria. E assim eu fiz. Eu o protegi em batalha mais de uma centena de vezes. No fim, acabei me descuidando dela. Estava tomando conta dele quando uma flecha se perdeu do campo de batalha. E atravessou o coração dela antes que eu pudesse fazer alguma coisa. — Ele parou. — Eu a salvei centenas de vezes, mas não pude fazer nada naquela última.
— Mas você me salvou. — De repente entendi por que havia sido ele a empunhar a faca. Uma flecha atravessada no coração havia matado Hawa na hora. Uma ferida no estômago, porém, era uma morte mais lenta. Lenta o suficiente para que ele pudesse voltar para me salvar sem que ninguém notasse. — Não precisava. — Pareci mais ingrata do que pretendia. — Quer dizer… — Foi difícil encontrar as palavras. — Minha mãe pediu para que eu vivesse… — Djinnis se aproveitavam de detalhes. De lacunas em desejos que podiam usar a seu favor, obedecendo as palavras, e não as intenções. — Sua promessa foi atendida quando respirei pela primeira vez. Você poderia ter me deixado morrer qualquer momento depois, se quisesse.
— Se quisesse — Bahadur repetiu, concordando. — Pais sempre farão o que puderem para proteger seus filhos. E eu posso fazer bastante coisa.
— Bem. — Pigarreei. Não tinha o direito de chorar agora que estava viva. — Imagino que me trazer de volta dos mortos compense um pouco os dezessete anos sem fazer nada.
Bahadur me surpreendeu com uma risada. Foi um som honesto e profundo, que me agradou. De repente, desejei que tivesse mais tempo para ouvi-la. Que tivesse um pai que sentasse comigo para conversar daquele jeito sempre que eu precisasse. E, por apenas um segundo, senti aquela vontade profunda que não sentia havia muito tempo. Desde que deixara a Vila da Poeira. Aquela vontade que surgia ao desejar algo que temia nunca ter. O preço que eu havia pagado por estar viva agora era que, a partir daquele dia, talvez nunca mais fosse chamada de “filha”. Djinnis não podiam ser pais comuns, no fim das contas.
— E o resto deles? — Desviei os olhos rápido, preocupada que ele pudesse ler meus pensamentos nos olhos que me traíam, como Jin tinha a misteriosa capacidade de fazer. — Quando descobrirem que não estamos mortos… — Vão punir você?
Bahadur deixou minhas palavras de lado, como se não fossem importantes.
— Meu povo faz o possível para não interagir com o seu. Esperamos não precisar voltar tão cedo. Desejo isso ainda mais desde a morte do seu irmão. — Seu olhar estava distante. Percebi que ele sabia o que Noorsham tinha feito. — Lutamos em guerras diferentes. E agora está quase na hora de você voltar para a sua.
Eu sabia que ele tinha razão. A sensação estranha de tempo suspenso que pairava ao nosso redor estava se dissipando. O mundo estava vazando pelas bordas.
Senti Jin estremecer ao respirar. Ele abriu os olhos de repente e me viu, cegado pela luz que vinha da entrada do poço.
— Não morremos — eu disse enquanto ele tentava se concentrar em mim. — Ainda estamos vivos. Nós dois.
Jin analisou meu rosto com os olhos arregalados, estendendo a mão para me tocar.
— Este seria um momento terrível para começar a mentir para mim, Bandida.
E então, de repente, eu estava rindo, chorando e beijando-o, enquanto o ajudava a sentar. Virei procurando meu pai. Querendo dizer mais alguma coisa, sem muita certeza do quê. Mas ele tinha sumido. Havia apenas grãos de poeira dançando na luz onde estivera agachado um momento antes.
Senti algo que pareciam mãos invisíveis puxando minhas roupas. E lembrei do que ele dissera. Era hora de voltar para a luta.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!