26 de novembro de 2018

Capítulo 43

EU ESTAVA SANGRANDO.
Minha camisa e minhas mãos estavam ensopadas. Meus dedos estavam manchados de vermelho-vivo. De alguma forma, eu tinha caído de joelhos.
Percebi tudo aquilo de certa distância, como se estivesse em um sonho, em que tudo fosse meio nebuloso.
Não estava só imaginando a dor. Vi de novo minhas mãos ensanguentadas quando as tirei da barriga.
Puxei a camisa para cima. Havia um corte no mesmo lugar onde a faca tinha entrado em Jin. Exatamente onde minha cicatriz da bala em Iliaz ficava. Como uma antiga ferida reaberta. Só que era novinha em folha.
Os djinnis nos observavam com curiosidade. Mesmo depois de todo aquele tempo, pareciam incapazes de tirar os olhos de nós. Da nossa dor. Da nossa agonia. De todas as coisas que não conheciam antes de a humanidade trazer para o mundo.
— Você se casou com ele — um dos djinnis declarou.
Não.
Só que não consegui negar em voz alta.
Tudo o que sou, entrego a você, e tudo o que tenho é seu.
Não nos ajoelhamos lado a lado na frente da fogueira com meu rosto coberto, mas tínhamos dito aquelas palavras. Não na frente de um pai sagrado, mas na noite anterior, enroscados na tenda de Jin.
Até o dia da nossa morte.
Eram as palavras que importavam. Eu tinha ligado nossas vidas quando as dissera. Quando as transformara em verdade. Estávamos conectados. Na vida e na morte.
— Suas filhas tendem a entregar o coração muito fácil, Bahadur — um dos djinnis disse, com um leve tom de zombaria na voz. — E a vida também.
Com aquelas palavras, ele desapareceu. Piscou para fora da existência. Já se esquecendo de nós conforme voltava ao deserto. Outro djinni piscou depois dele. E então meu pai, sem nem virar na nossa direção. E outro. Um por um, eles desapareceram das catacumbas que os haviam prendido.
Até estarmos sozinhos.
Sangue se acumulava ao meu redor, quente nos meus dedos. Minhas mãos tatearam pelo chão de pedra, sentindo às cegas. Alguma coisa sólida se enrolou nos meus dedos.
Jin tinha segurado minha mão. Segurei também.
Levantei o corpo, gritando de dor, me arrastando pelos últimos centímetros entre nós. Pressionei meu ferimento enquanto me movia, até a lateral do meu corpo estar encostada na dele, nossas mãos entrelaçadas entre nós.
Virei para ver seu rosto.
Era assim que a história terminaria. Ahmed, o príncipe ressuscitado, venceria a guerra. Quando tomasse o palácio, desceria para as catacumbas. Ia nos encontrar juntos, ensanguentados, no chão de pedra.
Eles iam nos queimar. Talvez até se lembrassem de nós. Mas de uma versão distante, falsa, obscura. A Bandida de Olhos Azuis e o príncipe estrangeiro. Não Amani e Jin.
As histórias talvez dissessem que nos amávamos. Mas nunca recuperariam a sensação. Eles nunca saberiam que quando dormimos juntos na tenda dele na noite anterior à nossa morte, Jin passara o dedo pela pequena cicatriz no meu ombro. Que quando ele me beijara, sorrira com a boca junto à minha. Ou como soava quando dizia meu nome. Nós contínhamos nossas próprias histórias. Milhares de pedacinhos dela morreriam conosco.
O mundo começava a se desmanchar a caminho da inconsciência. Não. A caminho da morte. Eu queria dizer a ele que sentia muito. Mas sentia e não sentia. Queria dizer a ele que não queria que morresse, que o amava. Mas Jin já sabia.
— O que acha que acontece? — perguntei. — Quando morremos? — Jin não acreditava em deuses. Não acreditava em paraíso, inferno ou outros mundos. Só naquele. Só no agora.
Ele passou a mão no meu rosto, como se tentasse gravá-lo na memória.
— Acho que eles queimam nossos corpos e viramos cinza e pó. — Jin passou um dedo pelo contorno dos meus lábios. — E acho que o pó que um dia fui vai passar a eternidade vagando pelo deserto, tentando chegar o mais perto possível do pó que você foi.
Soltei algo que não era nem um soluço nem uma risada. Jin entrelaçou os dedos nos meus.
Só tive tempo de apertá-los antes de a escuridão me envolver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!