26 de novembro de 2018

Capítulo 42

TALVEZ FOSSE MAIS FÁCIL para você se eu ainda fosse a garota egoísta que você conheceu na Vila da Poeira.
Eu tinha dito isso para Jin sobre outra escolha, num dia diferente. Ou talvez estivesse falando da mesma escolha. Porque tinha feito aquela escolha muitas vezes antes, sem me dar conta. Uma centena de pequenas escolhas na estrada que me levara à escolha final. Entre o que eu desejava e o que devia fazer. Entre mim e meu país.
Quando escolhi não fugir de Fahali para salvar minha própria pele. Quando escolhi não deixar Jin morrer no deserto depois da mordida do pesadelo. Quando escolhi enfrentar Noorsham. Quando escolhi deixar Shira morrer. E Hala. E Sam. Quando escolhi libertar Zaahir.
Tinham sido escolhas entre o que eu desejava e o que precisava fazer.
— Amani — Ahmed disse, olhando ao redor, confuso. — O que está acontecendo?
Jin não tirava os olhos de mim.
— É sua escolha, filha de Bahadur — um dos djinnis disse. — Qual morrerá hoje? Se não escolher, serão os dois.
Uma parte de mim sabia que eu deveria implorar, me rebelar contra o destino e o mundo por me deixarem naquela posição. Contra os djinnis, que tinham criado a humanidade e ficavam brincando conosco daquela maneira, com os acordos e truques que chamavam de justiça. Estavam tomando mais de mim do que eu jamais tirara deles.
Mas não fiz isso. Não tive um surto de fúria ou chorei enquanto observava a boca de Ahmed formar palavras que não conseguia escutar. Nem quando vi Jin de pé, absolutamente parado, com os olhos fechados diante da compreensão do que estava acontecendo, absorvendo a dolorosa situação. Eu estava de pé nas mesmas catacumbas, mas muito distante.
De repente, me vi de pé em um celeiro cheio de gente do outro lado do deserto. Só restava uma bala. Duas garrafas. Eu precisava que os dois vivessem. Mas não tinha como trapacear.
Era uma escolha fácil, na verdade. Mesmo se fosse a escolha mais difícil que já tivera que fazer. Porque eu não era mais aquela garota egoísta.
Ahmed estava gritando alguma coisa. Me obriguei a me concentrar nele, ouvi-lo de algum lugar muito além do rugido na minha mente. Ele estava dizendo para eu dar o fora com Jin.
Deixá-lo morrer.
Jin não dizia nada. Ele me conhecia. Não tirei os olhos dele quando falei. Embora minha voz fosse pouco mais que um sussurro, ouvi-a ecoar pelas catacumbas.
— Deixe Ahmed ir — falei.
Jin soltou a respiração. Como se estivesse aliviado.
— Não! — A voz de Ahmed saiu rasgada de sua garganta. — Amani. — De repente ele estava do meu lado, suas mãos segurando meus braços com força. — Não faça isso. Não vale a pena, deve haver outro jeito…
— Ahmed. — Seu nome saiu mais como uma prece do que um pedido. — Está feito. — As lágrimas vinham fortes e rápidas agora, escorrendo pelo meu rosto.
Ele pareceu chocado, suas mãos pressionando meus braços.
— Mas você o ama — disse delicadamente. — Tem que salvar Jin, porque o ama. É isso que as pessoas fazem com aqueles que amam, Amani. Elas os salvam.
Não, não era. Sam tinha me ensinado isso. Grandes histórias de amor terminavam em morte. Todas as histórias terminavam, mais cedo ou mais tarde. A nossa só terminaria mais cedo.
Eu podia sentir a onda de pesar batendo, como o mar contra um navio. Como a tempestade de areia destruindo as paredes do acampamento.
— Estou fazendo a escolha que ele teria feito. — As palavras não conseguiam mais sair. — A escolha que todos faríamos. Morrer por você.
— Ahmed. — Jin ainda não conseguia se mover, mas encontrou a voz. — Eu sempre escolheria morrer para te proteger. Sabe disso.
O peito do príncipe subiu e desceu como se tentasse recuperar o fôlego. Então ele foi até Jin, cambaleante, e segurou seu ombro.
— Eu teria morrido por você, irmão. Em um piscar de olhos.
— Eu sei — Jin respondeu. — Mas isso não vai acontecer. — E então Jin o abraçou. Eles se seguraram como se ainda fossem garotos, como se pudessem transmitir toda a força e vida que tinham um para o outro. — Vá fazer algo pelo qual minha morte valha a pena — Jin disse, soltando-o.
O djinni de olhos vermelhos levantou os braços.
Vi o pânico crescendo em Ahmed ao se apressar para dizer ao irmão tudo o que queria.
— Jin… — Ele deu um passo adiante, urgente, justo quando o djinni baixou os braços. E, de repente, Ahmed não estava mais lá, o ar preenchendo o espaço deixado por ele. Os ombros de Jin caíram, a força se esvaindo dele, tudo o que tinha segurado para o bem de Ahmed sendo colocado para fora.
Seus olhos pararam em mim.
Eu me aproximei. Jin me puxou para perto dele assim que entrei no seu alcance, até que cada parte de nós estivesse junta. Senti o pouco de força que me restava se esvair também.
— Desculpa. — As palavras saíram como um soluço na sua camisa enquanto ele me abraçava com força. — Sinto muito.
— Eu também — ele disse no meu cabelo, com a boca perto do meu ouvido. — Prometi ensinar você a nadar. Não gosto de quebrar minhas promessas.
O riso que saiu de mim foi curto e feio, entrecortado por soluços. Mas vi Jin sorrir quando puxou meu rosto para ele, enxugando minhas lágrimas com os polegares. Ele abriu um sorriso fraco. Eu sabia o que estava pensando. Que eu tinha alguma água salgada na minha alma, afinal de contas.
— Você deveria ir — ele disse. Você não precisa assistir isso.
— Não. Não vou deixar que morra sozinho.
Ele me puxou com força. Não havia gentileza naquele beijo. Apenas desespero, raiva e medo. Sabendo que seria nosso último.
— Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. — Eu não tinha certeza de quem estava dizendo o quê. Pressionando as palavras com força na boca um do outro no último momento que tínhamos. Senti as lágrimas escorrendo pelo rosto. Senti o gosto de sangue.
Fomos arrancados um do outro. Não por mãos, mas pelo ar. Por um poder maior do que nós. Fiquei encarando-o, agora bem longe de mim. Eu o observei com os olhos borrados de lágrimas. Uma lâmina apareceu do nada. Não era feita de ferro, percebi, mas de areia - uma lâmina afiada feita do próprio deserto. O djinni que a segurava era Bahadur.
Meu pai me observou com olhos antigos e impiedosos.
— Não precisa assistir isso, filha. Podemos enviá-la para longe.
— Vou ficar — eu disse, sem tirar os olhos de Jin, tentando aproveitá-lo até o último segundo. — Até o fim.
E então meu pai mergulhou a faca no estômago de Jin, enterrando-a até o cabo. E senti minhas próprias entranhas rasgarem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!