26 de novembro de 2018

Capítulo 41

EU ESTAVA SOZINHA.
Esparramada no piso do palácio, bati no mármore como se pudesse arrancá-lo e alcançar Sam. Para arrastá-lo até a segurança comigo. Mas era tarde demais. Eu estava por minha conta, e o mosaico da princesa Hawa me encarava da parede.
A primeira filha do meu pai. A primeira a se apaixonar. A primeira a morrer por isso.
Lembrei das palavras de Sam embaixo da montanha de Sazi, quando me disse pela primeira vez que todas as grandes histórias terminavam em morte. Senti um soluço engasgado na garganta, mas lutei contra ele. Não havia como voltar. Ele tinha feito sua escolha naqueles túneis. Eu também tinha feito a minha. Ia encontrá-lo na morte em breve.
Meu corpo doeu quando me arrastei para ficar de pé. Pressionei a mão contra a de Hawa, pedindo silenciosamente que minha irmã de mil gerações antes me ajudasse. A porta abriu, me levando para as catacumbas.
Na primeira vez que tinha ido ali, estava escuro demais para enxergar. Agora as catacumbas brilhavam com a luz da máquina, tão forte que mal conseguia ver qualquer outra coisa.
Protegi os olhos enquanto tateava pelo caminho escada abaixo. Achei que podia ouvir vozes me chamando – os outros djinnis que havia aprisionado ali. Mas não conseguia distingui-las com o zunido da máquina. Eu tinha que me aproximar o suficiente dela. Ao chegar ao fim da escada, não dava para enxergar nada – a luz era incandescente demais. Mesmo com os olhos fechados, parecia arder.
Puxei rapidamente meu sheema, que estava solto no pescoço. Ele saiu fácil nas minhas mãos. Eu o enrolei em torno da cabeça, cobrindo meus olhos duas vezes, até que a luz não queimasse minhas pálpebras. Estendi a mão à frente. Avançando devagar, com cuidado. Tentando achar meu caminho mesmo cega.
O zunido cresceu em volume conforme me aproximava, até eu estar próxima o suficiente para ouvir o assovio de uma das lâminas da grande máquina. Recuei, ajoelhando, tateando até encontrar o metal do círculo.
Pressionei os dedos no chão.
Senti o vidro quebrado do anel, ainda na minha mão, raspar o chão de pedra. Era inútil agora. Lembrei da onda de alívio, esperança e alegria que tinha me inundado na noite anterior, quando pensei que conseguiria sobreviver. Estava tão certa de que veria mais do que uma última alvorada quando fora até Jin. Ele ia me perdoar por morrer depois de ter dito o contrário?
Eu já deveria saber que seria assim. Nós dois deveríamos. Era uma guerra. Mesmo que não se morresse em determinada luta, sempre haveria outra. O presente de Zaahir tinha salvado minha vida e a de Sam só por tempo suficiente para chegarmos à luta seguinte. Para que Sam morresse ali, me salvando. Para que eu pudesse morrer na próxima.
Era o que fazíamos. Sobreviver a uma luta para chegar a outra. De novo e de novo, até morrer. Tudo o que você podia desejar era que outras pessoas não tivessem que participar de mais uma luta. Que finalmente, em algum momento, o país conseguiria encontrar a paz.
Eu não podia esperar. A cada segundo parada outros perdiam a luta contra os abdals. Precisava fazer aquilo o mais rápido possível. Disse as palavras depressa, antes que perdesse a coragem. As mesmas que tinha usado para libertar Zaahir. Eu as gritei por cima do zumbido da máquina, minha voz se levantando em um desafio furioso até chegar à última palavra, até o nome de Fereshteh.
E então o mundo inteiro virou luz.
Mesmo através da venda, podia ver o branco incandescente do fogo imortal, e senti a pressão em torno de todo o corpo. O calor na minha pele. Um grito no meu ouvido.
E então a luz desapareceu num piscar de olhos.
O calor se dissipando junto.
Restou um caleidoscópio de cores que eu podia enxergar mesmo através da venda. Me apressei para tirá-la. Para descobrir o que tinha impedido que a alma liberta de Fereshteh me incinerasse.
Conforme tirava o sheema, comecei a distinguir cores na luz. Pilares de azul, vermelho, dourado e uma dezena de outros tons em meio ao fogo violento que um dia tinha sido Fereshteh. Vi silhuetas de fogo amorfas cercando a máquina. De pé em torno dela. Aprisionando-a. Me protegendo dela. Protegendo a cidade inteira.
Abri os olhos e percebi que estava deitada. Não sentia mais a pulsação nos ouvidos. Acima de mim, poeira dançava no ar sob a luz do sol. Podia sentir o gosto de metal.
Tentei levantar, tremendo, me apoiando nos cotovelos. A luz nas catacumbas estava diferente agora: não era mais o branco cegante; tinha a cor amanteigada familiar do sol do início da manhã.
Percebi então que a poeira flutuando na luz da manhã era o que restava da máquina. Não tinha simplesmente se estilhaçado. Era como se o metal voltasse ao pó da montanha de onde tinha sido extraído.
Também não restava mais nada de Fereshteh. Sua alma tinha escapado da prisão que Leyla construíra. E talvez, naquela noite, ela habitaria o céu, junto com cada djinni morto na Primeira Guerra.
Os pilares de fogo colorido que haviam envolvido a máquina tinham desaparecido também. No lugar deles havia um círculo de djinnis em forma humana.
Eles tinham me salvado.
Estavam de pé com a cabeça curvada, em silêncio, meu pai Bahadur entre eles. O chão sob seus pés estava queimado e enegrecido. Eu esperava que desaparecessem, como Zaahir tinha feito em Sazi. Mas um deles virou a cabeça para mim, seus olhos dourados ardentes me prendendo em sua mira.
— Então — ele disse com uma voz anciã — Zaahir enviou uma assassina atrás de nós.
Todos se viraram para me encarar. De repente eu estava presa sob uma dúzia de olhares imortais.
— Não sou… — Falar era difícil; meus pulmões queimavam. — Não sou uma assassina.
— Ainda assim, traz armas para cá — um deles disse. O djinni não se moveu, mas senti o ar mexer sob minha mão, levantando-a como se alguém a conduzisse. Percebi que estavam todos encarando o anel que Zaahir tinha me dado.
— Criamos essa arma para Zaahir — meu pai falou. — Quando o prendemos embaixo da montanha. Prometemos a liberdade caso se arrependesse do que tinha feito.
— Mas demos outra opção também, se ele quisesse — outro djinni falou. — O anel possibilitaria que escolhesse a própria morte se assim desejasse. Se, em um momento de desespero, quisesse escapar, tudo o que precisava fazer era quebrar o vidro para ser libertado da vida.
Entendi tudo. Zaahir planejara aquilo desde o início. Queria me usar para se vingar daqueles que o haviam aprisionado. Para matá-los com a mesma arma que tinham criado para se matar. Ele tinha me munido com uma arma capaz de dar fim a um imortal e me enviado até eles.
Zaahir não havia mentido para mim. O anel teria me salvado. Teria absorvido a energia de Fereshteh com segurança, mas também apagaria o fogo de todos os outros djinnis presentes. Assim como tinha feito com os abdals. Assim como teria acontecido com ele, se escolhesse acabar com sua vida imortal.
Aquela tinha sido sua intenção desde o começo.
Ele tinha traçado um longo plano. Tinha me dado um jeito de salvar Ahmed, mas sabia que eu nunca mataria um príncipe com a faca. Tinha me dado um jeito de salvar Balir, mas sabia que eu chegaria tarde demais. E só então me dera o anel para me salvar. Ele tinha me deixado desesperada o suficiente, com uma salvação perdida depois da outra, para aceitar aquele último presente sem questionamento. Perto demais da batalha para duvidar de sua generosidade. Para perceber que estava me enviando contra seus inimigos, os djinnis que o aprisionaram.
— Ela precisa ser punida — o djinni com olhos de ouro derretido disse.
— Eu não sabia. — Eu estava arfando, e tudo em mim doía. Lentamente, tentei levantar.
— Mas você sabia que não deveria soltar aquele que seu povo chama de Criador de Pecados — outro disse, virando seus olhos azuis violentos para mim, uma cor que me lembrava as asas de Izz no sol. — E então permitiu que ele a enganasse.
— Deveríamos punir Zaahir — outro disse, discordando. Tinha cabelo roxo-escuro, quase preto. — A filha de Bahadur não precisa morrer.
Meu pai permaneceu calado, sem concordar ou discordar.
Eu tinha conseguido levantar, mas eles continuaram a me encarar, medindo-me com seus olhares sobrenaturais.
— Um meio-termo, então — um djinni de olhos vermelhos disse. — Ela não morre pelos crimes de Zaahir. Mas alguém morre.
Os seres imortais reunidos assentiram. Quando o djinni de olhos vermelhos olhou para Bahadur, ele inclinou a cabeça só um pouco.
— Somos justos, pelo menos — um djinni com olhos estranhamente brancos se pronunciou. — Você escolheu soltar Zaahir de sua prisão. Agora terá que fazer outra escolha.
— Outra escolha? — Eu não tinha certeza se era uma pergunta ou se estava apenas repetindo o que ele dissera. Mas as palavras saíram em um sibilado baixo, raivoso e sem fôlego. Ele podia arder com um número infinito das mesmas pequenas faíscas que ardiam em mim, mas naquele exato momento eu tinha certeza que havia fogo suficiente em mim para incendiar nós dois.
O djinni de olhos vermelhos não fez um gesto ou um pronunciamento como os artistas do mercado faziam antes de revelar o grand finale de seu truque grandioso. Mas senti a mudança no ar um momento antes dos dois aparecerem na minha frente.
Lado a lado, cambaleando, direto do campo de batalha. Dois irmãos. Dois príncipes.
Ahmed e Jin.
— Escolha qual deles vai morrer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!