26 de novembro de 2018

Capítulo 4

ELA PARECIA PEQUENA DE ONDE EU ESTAVA. COMO um rato olhando para um falcão, tolo demais para fugir.
Me inclinei em direção à cabeça de Izz, apontando na direção dela. Ele podia estar em forma animal, mas me entendia muito bem. Queria que descesse até ela.
Eu o senti hesitar por algumas batidas pesadas de suas asas enormes. Ele não queria entrar no harém. Não era parte do plano. Quase podia ouvir a voz de Shazad na minha cabeça. Claro, Amani, ótima ideia. Passamos meses tentando tirar você do harém. Mas vá em frente, volte direto para lá quando não estou aí sara te resgatar.
Ahmed ouviria o conselho dela, como sempre fazia. Seria cauteloso.
Mas os dois tinham sido capturados. Por causa de Leyla. O que me deixou no comando da rebelião, sem poder contar com bons conselhos.
Vocalizei meu comando.
— Izz, me leve lá para baixo.
Ele obedeceu. Segurei com mais força em suas costas enquanto ele mergulhava na direção dos jardins do harém.
Leyla só percebeu que era nosso alvo tarde demais. Já estávamos em cima dela quando tentou procurar proteção, e a força do ar propelido pelas asas de Izz a derrubou.
Enquanto ela se afastava desajeitadamente, pisei no harém pela primeira vez desde minha fuga.
Izz assumiu a forma de um enorme leão azul, saltando atrás dela antes que pudesse recuperar o equilíbrio, prendendo-a no chão com as patas dianteiras. Leyla não gritou, mesmo com os dentes afiados a centímetros do seu rosto. Apenas fechou os olhos, como se pensasse que estava pronta para morrer. Ela tentava ser valente, e era boa nisso. Havia passado vários dias conosco, seus inimigos, fingindo estar do nosso lado, sem dar o menor indício. Seria de admirar, se não fosse nossa inimiga.
— Izz — ordenei. — Deixe ela levantar.
Ele fez o que pedi. Recuou rosnando e removeu sua pata lentamente de cima dela.
Assim que possível, Leyla se arrastou para trás, mas seus ombros logo encontraram a parede. Ficamos em silêncio por um longo momento, Leyla respirando pesadamente enquanto me observava.
Puxei minha arma enquanto pensava o que faria com ela. Não havia pensado em todos os detalhes quando pedi para descer. Mas era melhor eu começar.
— Acho que devemos agradecer sua mente brilhante por toda... — Olhei para o domo de fogo no céu, procurando a palavra certa, ainda apontando a arma. — Toda essa bagunça.
Abri o tambor da pistola e verifiquei quantas balas eu tinha. Seis. Ótimo.
— Os guardas do meu pai... — Leyla começou, com um tremor sutil na voz.
— Imagino que os guardas do seu pai serão enviados primeiro para verificar a papelada dele, e só depois sua filha.
O harém inteiro estava estranhamente quieto ao nosso redor. Havia somente o som da respiração apavorada de Leyla e o dique alto do tambor da arma quando ele se encaixou no lugar. Ela estremeceu com o som. Ou talvez tenha sido por ouvir aquela verdade tão diretamente.
— Você não vai me matar — ela disse, mas seus olhos acompanharam a arma mesmo assim, como se não tivesse certeza. Eu só tinha um ou dois anos a mais que Leyla, mas ela me parecia tão jovem. Eu havia amadurecido mais rápido no deserto. Leyla era uma criança do palácio.
Tentei encontrar alguma simpatia em mim, mas não restara nenhuma para a menina que havia me traído. Que havia nos custado tanto porque eu acreditara que era tão inocente quanto parecia.
— Quer apostar sua vida nisso? — Apontei a arma para a cabeça dela. Leyla se encolheu, como se pudesse ficar pequena demais para ser acertada. Ela subestimava minha pontaria. Mas não atirei. — Escute o que vamos fazer. — Tentei soar segura, como se fosse um plano real, e não uma ideia idiota em que havia acabado de pensar. Como se eu não fosse apenas uma garota da Vila da Poeira com uma arma na mão, fingindo que podia arrancar informações da cabecinha brilhante de uma garota numa posição tão mais alta do que eu na sociedade que não seria capaz de me enxergar mesmo que se desse ao trabalho de olhar para baixo. — Vou fazer uma pergunta e puxar o gatilho. Se me responder com sinceridade, a bala vai acertar o muro atrás de você. Se mentir, vai tirar sangue. Fui clara?
Pelo medo súbito que vi em seu rosto, eu com certeza tinha sido clara. Eu era uma demdji. Só podia falar a verdade. Agora era ela, não eu, quem decidiria o destino da bala. De onde ele estava sentado, ainda na forma de um leão, pensei ter visto Izz se mover inquieto. Eu sabia o que ele estava pensando. Que eu estava me metendo em águas profundas demais. Mas era tarde para voltar atrás.
— Como nós a desativamos? Essa maldita barreira de fogo que você colocou em volta da cidade?
Leyla me olhou nos olhos.
— Vocês não têm como fazer isso.
Puxei o gatilho antes mesmo que ela tivesse terminado de falar. Antes que eu pudesse pensar duas vezes no que fazia. A bala acertou seu braço.
O grito dilacerante que saiu de dentro dela me bastou como confissão. Dei uma olhada rápida no jardim atrás de nós. Não havia como aquele som ter passado despercebido. Nem mesmo no harém, onde as mulheres tinham prática em ignorar as coisas terríveis que aconteciam ao seu redor.
— Pensa na dor antes de me responder de novo — eu disse, voltando a olhar para Leyla, que sangrava. Eu tentava esconder o nervosismo enquanto puxava o cão da arma, deixando a próxima bala no lugar. — Me diga como, ou essa bala vai acertar seu joelho, e se quiser andar de novo um dia, vai ter que conseguir uma perna de metal igual à que deu para Tamid. Você lembra dele, não? Meu amigo? Aquele de quem você fingiu que gostava para poder atrair seu pai até nós?
A dor estava estampada no rosto de Leyla, agora perturbada pela raiva. Levar um tiro costumava ter esse efeito.
— Você não pode desarmar a muralha — ela rebateu. Antes que eu pudesse atirar de novo, Leyla continuou balbuciando depressa. — Porque ainda não inventei um jeito. Por enquanto, a única maneira de se livrar do muro é desativar a máquina. — Ela se referia à engenhoca que havia construído embaixo do palácio, aquela que tinha matado e aprisionado o djinni Fereshteh, transformando-o em energia para alimentar suas criações profanas, como os abdals. Agora ela alimentava o grande domo de fogo que cercava a cidade. — E para isso você precisa das palavras certas.
Precisávamos das palavras que libertariam os djinnis da armadilha para a qual eu os havia atraído. Com elas, poderíamos libertar os djinnis vivos e a energia de Fereshteh, que alimentava a máquina que dava vida a todas as pequenas invenções de Leyla.
Tamid descobrira as palavras para conjurar e aprisionar os djinnis, que não significavam nada até serem ditas por uma demdji e se tornarem uma verdade poderosa. Fora assim que eu havia aprisionado todos eles no palácio, quando o sultão me forçara a conjurá-los quando eu era prisioneira.
Fazia um mês que Tamid vinha pesquisando as palavras que libertariam os djinnis.
Mas por enquanto não tínhamos nada.
Puxei o gatilho novamente.
Dessa vez a bala perfurou o muro atrás dela. Leyla estava dizendo a verdade.
— Você sabe as palavras para libertar um djinni? — perguntei.
Ela tinha dito que não sabia. Mas isso quando fingia ser uma princesinha perdida de olhos marejados. Eu confiava nela demais para questioná-la a respeito.
— Não. — A terceira bala acertou o muro, pulverizando a pedra violentamente e fazendo Leyla se encolher para sair do caminho. Pelo menos ela tinha sido honesta sobre alguma coisa.
Leyla começou a chorar, seus soluços ecoando alto pelas paredes do jardim. Aquele foi o terceiro tiro dentro do harém. Alguém já deveria ter chegado. Havia alguma coisa errada.
Fiquei atenta a qualquer som além do choro de Leyla. Ao longe, podia ouvir a agitação de pássaros. Provavelmente aqueles aprisionados no zoológico, assustados com os tiros, mas incapazes de fugir. Não havia nenhum outro grito para acompanhar, nenhuma mulher pedindo ajuda ou entrando em pânico. Só as fontes borbulhando e, bem distante, os ruídos da cidade.
— Por que está tudo tão quieto?
Aquela não era exatamente uma pergunta para Leyla, mas ela respondeu mesmo assim.
— Não tem mais ninguém aqui — ela disse em meio a um soluço. — Meu pai mandou todo mundo para bem longe, por motivos de segurança. — Ela não disse mais nada, mas eu quase ouvi o “viu só?” que Leyla desejava acrescentar. Como se quisesse que eu pensasse estar enganada ao julgar que o pai dela era o vilão da história. Que ele era um homem que se importava com suas esposas e seus filhos.
Mas eu não me importava com o que ela queria que eu pensasse do sultão. Só me importava com a maneira como Leyla havia dito aquilo. Ele mandou todo mundo para bem longe. Me dei conta de que havia feito a pergunta errada. Precisávamos sair da cidade, mas não precisávamos encontrar uma forma de desarmar a barreira mágica que nos cercava. Só precisávamos contorná-la.
— Então está me dizendo que existe um jeito de sair da cidade?
A expressão já atormentada de Leyla mudou quando ela percebeu o que havia revelado.
— Não.
Levantei a arma e apontei para ela.
— Sim — Leyla admitiu rapidamente, corrigindo a mentira antes que eu disparasse de novo. — Sim.
A bala aceitou o muro atrás dela, lançando estilhaços de pedra em seu rosto. Se não fosse verdade, teria aceitado seu ombro.
Foi como se o peso que pressionava meu peito desde que percebemos que estávamos presos tivesse sido aliviado e eu pudesse respirar de novo.
Havia uma saída.
E eu tinha uma arma apontada para alguém que sabia qual era. Estávamos quase livres.
— Como podemos sair da cidade?
Leyla havia parado de chorar. Ela me analisou por um momento com aqueles olhos escuros de cílios longos, vermelhos por causa das lágrimas. Fungando como uma garotinha, Leyla limpou o nariz na manga. Não havia praticamente nada de seu irmão Rahim nela. Ou do sultão. Havia mais da pálida mãe gamanix naquele rosto — a filha de um inventor da mesma terra ao norte que tinha produzido as bússolas de Jin e Ahmed.
Seus traços eram mais delicados que os de seu irmão e seu pai; apesar de ter a pele escura como qualquer outra garota de Miraji, era evidente que não tinha visto tanto sol, aprisionada dentro daqueles muros. O harém a fizera parecer mais suave e infantil, enquanto Rahim parecia endurecido pelos anos nas montanhas. Mas isso não significava que eles eram um filho endurecido e uma filha gentil. Rahim pareceu arrasado com a traição da irmã para favorecer o pai, o homem que havia custado a vida da mãe dela. Já Leyla parecia mais cortante graças à lealdade ao pai, aqueles traços finos se tornando cruéis. Naquele momento, eu via sua maldade na curvatura dos lábios, enquanto olhava para o cano da minha arma e respondia.
— Existe uma fresta na barreira, perto do portão mais ao norte, grande o suficiente para uma pessoa atravessar.
Eu atirei, e a bala a acertou na perna. Ela gritou novamente, dobrando-se de dor e sangrando como consequência da mentira.
Senti uma nova onda de raiva ao pensar que ela começaria a tentar me enganar agora que estávamos tão peito.
— Por que achou que sua mentira funcionaria? — perguntei a ela.
— Porque está quase sem balas.
Ela estava certa. Cinco tiros. Eu tinha dado cinco tiros nela. O que significava que aquela era minha última bala. E então eu vi sobre mim a forma de um roc gigante disparando pelo ar, saído das ruínas do domo do palácio. Jin e Maz fugindo. O que significava que não tínhamos mais tempo.
Foi quando ouvi passos se aproximando e gritos no fundo do harém. Os guardas finalmente vinham atrás da filha favorita do sultão. Era hora de ir embora.
Apontei a arma para ela.
— Leyla, como saímos desta cidade? Me diga a verdade e essa bala vai errar a mira. Se mentir, essa bala vai direto para a sua cabeça.
Leyla tremia um pouco quando me encarou. Estava assustada. Para nós ela era a traidora, mas para ela eu era sua inimiga. No fim das contas, era uma guerra.
— Por que eu deveria contar se você vai me matar de qualquer jeito? — ela respondeu. — Essa bala pode até errar, mas você tem outras maneiras de acabar comigo. Pode quebrar meu pescoço ou me sufocar. — Uma memória me veio à mente: Leyla inspecionando gentilmente as marcas no meu pescoço depois de o embaixador gallan quase espremer a vida de mim. — Por que me deixaria viva? — O argumento era bom: viva, ela era um perigo para nós. Se me desse aquela informação, não teria mais nenhuma utilidade. — Eu preferiria morrer a trair meu pai e meu governante. Não vou contar jamais. — Eu mantive o dedo no gatilho, mas não apertei. Não vou contar jamais. Não queria saber se aquilo era verdade. Não queria meter uma bala na cabeça dela se fosse mentira, porque ela não teria serventia para mim morta. Maldita garota.
— Você tem razão. — Puxei o cão da arma, fazendo com que ela se retraísse. Não estava tão pronta para morrer quanto queria que eu acreditasse. — Não posso correr o risco de deixar você viva aqui. — Embainhei a pistola rápido, soltando o gatilho e deixando a bala no tambor. Em seguida, agarrei-a para colocá-la de pé. — Vamos.

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