26 de novembro de 2018

Capítulo 38

ALGUMA COISA ESTAVA ERRADA.
Acordei de repente com aquela certeza.
Só que, acordada, não estava mais tão segura disso quanto dormindo. Por apenas alguns instantes, não parecia que havia nada de estranho. Eu estava deitada aninhada nos braços de Jin, como se fôssemos duas peças desenhadas para se encaixar. Havia um cobertor pesado entre mim e o ar da manhã, e lembrei que Jin nos cobrira na noite anterior. Minha cabeça descansava na tatuagem sobre seu coração, ouvindo seu batimento regular, enquanto ele traçava padrões lentos com seus dedos sobre a pele das minhas costas.
E então lembrei que era o dia em que iríamos todos à guerra.
Jin notou que eu acordara.
— O que foi? — ele resmungou cansado no meu cabelo. Levantei a cabeça só o suficiente para conseguir enxergá-lo. Suas pálpebras pesavam de sono, seu cabelo estava bagunçado, mas seus olhos se mantinham aguçados e prontos como sempre, me observando. Me perguntei quanto tempo fazia que ele estava acordado.
— Não tenho certeza — eu disse. Ainda não conseguia me livrar daquela sensação. Lá no fundo, um sentimento de perturbação nas minhas entranhas. Como se existisse algum perigo a caminho que eu ainda não conseguia enxergar. Levantei abruptamente e bati com a cabeça na lâmpada, a mesma da noite anterior.
Praguejei, esfregando a cabeça. Jin riu, esparramado preguiçosamente no chão.
— Você tem uma nova inimiga. O sultão e seu exército terão que esperar até que você derrote aquela lâmpada.
Botei a língua para fora enquanto puxava o cobertor de cima dele, enrolando-o em mim como se tivesse acabado de sair dos banhos de Izman antes de dar um passo para fora da tenda. A alvorada acabava de dar as caras, o rosa-claro do céu acendendo Izman a leste. Mesmo à meia-luz, eu podia ver que tinha alguma outra coisa entre nós e a cidade.
Apertei os olhos, tentando obter uma visão melhor do borrão em movimento no horizonte. Parecia com…
De repente entendi tudo. Aquela sensação de algo errado não era só medo  ela vinha do meu lado demdji.
Eu me apressei de volta para a tenda de Jin. Ele ergueu a cabeça, já se vestindo.
— É uma tempestade de areia — eu disse, sem fôlego. Comecei a procurar minhas próprias roupas. — O sultão sabe que estamos aqui. — Encontrei minha calça e a vesti rapidamente. — Está usando os abdals para… está fazendo isso para me manter aqui. — Peguei minha camisa com as mãos tremendo. Já dava para prever a dor de tentar segurar uma tempestade de areia por tempo suficiente para tornar a luta justa. Eu sabia que não conseguiria mantê-la sob controle e chegar à cidade. Vesti com força a camisa.
Jin me puxou para perto dele.
— Calma. — Sua estabilidade me fez parar. — Temos exércitos e outros demdji. Você não está sozinha nesta luta. Por outro lado — ele disse, passando as mãos sob a bainha da camisa que eu tinha acabado de vestir —, vou precisar da minha camisa de volta, porque não acho que caiba na sua. — Só tive tempo de perceber que ele estava certo, que eu tinha colocado sua camisa sem perceber e parecia perdida dentro dela, antes que roubasse um beijo rápido e puxasse a camisa de volta, por cima da minha cabeça, me jogando a minha.
Era muito mais difícil de acreditar que você podia perder uma guerra quando conseguia rir na manhã da última batalha.
Saí da tenda de Jin no momento em que a tempestade nos alcançou. Respirei fundo ao ver a areia se aproximar, cercando o acampamento, correndo em direção às tendas. Levantei os braços, mantendo as mãos firmes enquanto a tempestade chegava tão perto que podia sentir os grãos arranhando minha pele.
Eu a empurrei de volta com toda a minha força.
A tempestade interrompeu sua invasão de imediato. A areia lutava contra mim nas fronteiras do acampamento. O deserto que normalmente me obedecia fazia força contra mim. Eu não conseguia dispersá-la, não podia enviar a tempestade para as dunas de onde viera com um gesto. A tempestade de areia serpenteava em torno do acampamento como um ciclone, um animal selvagem espreitando as fronteiras de sua jaula, mordiscando as pontas das tendas, fazendo-as tremer no ar.
Era um impasse.
— Aí está você! — Abri os olhos ao som da voz de Shazad, que corria na minha direção com Ahmed, Rahim e Sam, todos preocupados com a tempestade que rugia à nossa volta. — Estou te procurando desde que vi a tempestade de areia chegando. — Os olhos de Shazad deslizaram para Jin, de pé na abertura de sua tenda, logo atrás de mim. Não devia parecer que acordávamos depois de apenas uma noite de sono. O olhar maroto no rosto de Shazad indicava que ela havia entendido que tinha procurado na tenda errada. Mas sua mente logo voltou ao presente. — Por quanto tempo consegue segurar isso?
— Não sei. — Não por tanto tempo quanto os abdals conseguiriam, com certeza. Já podia sentir o cansaço, o risco de que a tempestade selvagem escapasse da coleira e entrasse rasgando pelo acampamento. E o poder controlando aquilo vinha de máquinas. Eu era feita apenas de carne e osso. — O que podemos fazer? — perguntei, sem fôlego. Precisava chegar até o palácio, esse era o plano. Tinha que desativar a máquina. Se não conseguisse, estaríamos indefesos contra os soldados de metal do sultão. Mas, se eu fosse embora, a areia invadiria o acampamento e afogaria todos. Então tudo estaria perdido.
— Não sei — Shazad disse, observando a areia nos cercar. Todos olhamos para ela. Eu já sentia meus joelhos ameaçando ceder.
Sam foi o primeiro a se pronunciar.
— Ela acabou de dizer que não sabe ou estou alucinando?
— Estou pensando. — A voz de Shazad se mantinha calma. Eu podia ver as ideias passando pela sua cabeça, analisando o custo-benefício, considerando em qual opção menos pessoas morreriam. Não deveria ser uma decisão dela. E não era. Era de Ahmed.
— Amani precisa ir ao palácio — ele disse, tirando de Shazad o peso da decisão. — Meu pai obviamente está fazendo isso para manter você aqui, o que significa que tem medo do que pode acontecer se chegar à máquina.
— Pessoas vão morrer. — Um dos meus joelhos falhou. De repente Jin estava atrás de mim, me apoiando. Meus braços tremiam. Talvez não importasse o que decidíssemos, porque o cansaço decidiria por nós. Mas eu não desistiria tão fácil. — Vocês não podem lutar em uma tempestade de areia. — Eu sentia sua força me pressionando, ameaçando engolir o acampamento inteiro.
— Não vamos conseguir lutar enquanto o sultão tiver esse tipo de poder contra nós — Ahmed disse. — O plano permanece. Agora, se todo mundo puder…
A sensação me atingiu tão de repente que me curvei em direção ao chão. Não era a dor que em geral sentia ao usar meu poder, foi mais como um golpe abrupto. Poder de repente em choque contra o meu, arrancando a tempestade das minhas mãos.
Perdi o controle. O que quer que Ahmed estivesse prestes a dizer se perdeu na ventania.
Eu me apoiei em Jin, meu corpo irradiando dor, esperando que a areia nos atropelasse, consumisse todos nós.
Mas isso não aconteceu.
A areia só levantou, espiralando e subindo em direção às nuvens. Por um momento, pairou sobre nós como uma enorme nuvem escura, bloqueando o céu, uma massa rodopiante que poderia facilmente desabar e nos soterrar. Tentei fazer com que meu poder a alcançasse, embora soubesse que era inútil.
E então, de repente, a areia se dispersou pelo ar, caindo inofensiva como chuva em torno de nós.
— O que está acontecendo? — perguntei, arfando, enquanto puxava o sheema para proteger os olhos. Os outros faziam o mesmo. Todos menos Sam.
— Acho que… — Seus olhos estavam voltados para o oeste. Os outros seguiram a direção do seu olhar. Lá, no horizonte, havia uma fileira de uniformes verdes. — É o exército albish.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!