26 de novembro de 2018

Capítulo 36

NÃO DEMOROU MUITO PARA EU ENCONTRAR JIN. Ele estava na beirada do acampamento, onde tinha montado sua tenda, o mais longe que conseguia ficar de Ahmed sem se entregar completamente ao deserto.
Seus olhos estavam fechados e uma garrafa pendia de seus dedos. Ele não me escutou, ou não se importou. Nem se mexeu quando agachei do seu lado. Sua cabeça estava inclinada para trás, apoiada na lateral da tenda.
— Planeja beber a garrafa toda ou vai dividir?
Seus olhos abriram de repente. Um longo silêncio se fez enquanto eu virava a cabeça para encará-lo. Até que ele finalmente me ofereceu a bebida. Tomei um gole e fiz uma careta.
— Não conseguiu achar nada melhor?
— Duas semanas em Iliaz e você já se tornou uma especialista em vinhos finos? — Seu tom era leve, mas seus olhos nunca me deixavam, buscando respostas para o motivo de eu estar ali.
— Só estou dizendo — eu disse, tomando outro gole — que sei que temos coisa melhor do que isso por aqui.
— É, bem… A bebida boa está sendo guardada para comemorar a vitória amanhã. — Jin puxou a garrafa das minhas mãos e tomou um gole. Consegui ler muito do que havia naquele silêncio. Que não haveria um amanhã para muitas pessoas. Mas estavam todos agindo como se aquela não fosse necessariamente nossa última noite. Incluindo eu. — Então, Bandida de Olhos Azuis. — Ele não olhou para mim quando falou novamente. — Veio só me torturar, ou tem algum outro motivo para estar aqui?
— Por quê? — eu o desafiei, observando-o com cuidado, sentindo a pulsação acelerada nos ouvidos. Eu sabia por que estava lá. Só não sabia se estava pronta para contar. — Não me quer aqui?
— Você sabe o que quero, Amani. — A voz de Jin saiu baixa, rouca e intensa ao esculpir meu nome, estilhaçando minhas últimas defesas, acertando um gancho no meu peito e me puxando até ele.
Tínhamos nos beijado uma centena de vezes antes. Mas aquela pareceu diferente. O beijo parecia de novo o primeiro, quando ele tinha me prensado contra a lateral do vagão que chacoalhava como se pudesse se despedaçar a qualquer instante, enquanto nos segurávamos à única coisa do mundo que parecia sólida, nós dois naquele trem acelerando em direção a algo que não entendíamos por completo. Quando tudo em mim pareceu ter despertado sob suas mãos. Quando ele transformou minha faísca em fogo, sem que eu entendesse como alguém tinha poder suficiente para fazer isso comigo.
Meus lábios roçaram os dele de leve, como um fósforo, vendo se ia acender. Seu gosto era de bebida barata, pólvora e poeira do deserto, e de alguma forma ainda tinha um pouco de mar. Aquele primeiro beijo e todos os outros pairavam entre nós. Os desesperados, os raivosos, os alegres. E agora esse, um sussurro da minha boca na dele, uma pergunta. Poderíamos todos estar mortos no dia seguinte. Mas talvez não. E, naquele momento, estávamos vivos.
— Eu decidi — eu disse, com a boca encostada na dele — que não vou morrer amanhã. Achei que você poderia se interessar em saber.
Era um fragmento de uma história. Do que tinha acontecido entre mim e Zaahir no deserto. Mas foi suficiente. Por enquanto. Eu o senti respirar de alívio, como se um grande peso lhe tivesse sido tirado, um segundo antes de seus braços me envolverem. Eles me cercaram completamente, me esmagando contra seu corpo enquanto sua boca reivindicava a minha.
O fósforo acendeu entre nós, e de lenha nos transformamos em fogueira.
A garrafa caiu das minhas mãos, derramando vinho na areia. Eu me perdi nele. Não sabia como poderia ter feito qualquer outra escolha que não fosse ele. Seria impossível. Deslizei as mãos por baixo de sua camisa, sobre suas costas, subindo por sua coluna. Eu o ancorei contra mim, meus dedos apertando sua pele. Não era que simplesmente o desejasse. Eu precisava dele.
Jin levantou de repente, mal rompendo o beijo, nossos corpos entrelaçados, seu abraço apertado o suficiente para me levantar junto. Às vezes eu esquecia como ele era forte. Dei alguns passos cambaleantes, mas meus pés mal tocavam o chão enquanto nos movíamos. Tive a vaga ideia de que estávamos na entrada da tenda quando a lona bateu nas minhas costas. Meus pés encontraram o chão por tempo suficiente para tropeçar para dentro.
Minha cabeça bateu em algo — uma lâmpada pendurada. Nos separamos enquanto eu praguejava. Jin riu, esfregando minha cabeça.
— Você está bem?
— Ótima. — Minha respiração estava acelerada. Tinha plena consciência de que estávamos sozinhos em um espaço tão apertado.
— Você é muito graciosa. Essa é uma das coisas que adoro em você, Bandida. — Sua mão passou por mim, estabilizando a lâmpada que eu havia acertado, me soltando por apenas um instante. Só o suficiente para acender a pequena quantidade de óleo que restava na lamparina. A tenda foi preenchida por um brilho caloroso. Eu podia vê-lo agora, mais claramente do que no escuro do deserto, a leve barba por fazer, o jeito como seu cabelo escuro caía sobre seus olhos também escuros, o modo como seus ombros largos subiam e desciam com a camisa branca quando respirava, revelando sua tatuagem. Nos conhecíamos fazia tempo suficiente para eu estar acostumada com ele, mas naquele momento foi como se o visse pela primeira vez, fascinada sem saber exatamente por quê. Quando suas mãos retornaram para mim, foram mais gentis, tirando o cabelo do meu rosto para que ele pudesse me olhar.
— Deus do céu, você é linda — ele sussurrou.
— Você não acredita em Deus — eu o lembrei em voz baixa.
— Neste exato momento, talvez acredite.
Eu precisava de mais dele. Peguei a bainha de sua camisa, puxando-a para cima. Ele ajeitou o corpo e tentou tirá-la, mas o teto da tenda era baixo demais. Jin caiu de joelhos, me puxando com ele. A camisa saiu em um gesto suave, e ele a jogou longe.
Eu já o tinha visto desse jeito uma centena de vezes. Mas tudo parecia diferente naquele momento. Pela primeira vez desde o dia na loja na Vila da Poeira, eu sentia quanto havia dele. Jin era um reino inteiro de pele e tinta em minhas mãos. Cheguei mais perto, traçando os contornos do sol sobre seu coração.
Senti a respiração entrecortada no meu cabelo quando fiz isso. Ele levantou meu rosto e me beijou de novo, enrolando os dedos no tecido da minha camisa. Nenhum de nós disse nada enquanto suas mãos percorriam as laterais do meu corpo, puxando a roupa para cima. Minha barriga subia e descia sob seus polegares calejados; seus dedos roçavam minhas costelas uma por uma. Minha respiração acelerou enquanto seus polegares subiam. Em um gesto rápido, em uma pausa no beijo, a camisa estava sobre minha cabeça, longe da minha pele, aterrissando em cima da dele em uma pilha bagunçada. E não havia nada entre a minha pele e suas mãos.
Me senti tímida de repente, intimidada pela certeza daquele movimento.
— Você já fez isso antes. — Tentei manter meu tom leve, brincalhão. Mas era tarde demais. Sua barriga estava pressionada contra a minha enquanto respirávamos. Não havia mais nada entre nós. Nenhuma mentira, fingimento ou segredo.
— Sim — ele disse, sério. Jin percorreu a cicatriz no meu ombro com o polegar, um dos lugares que minha tia tinha cortado para tirar o ferro. Ele estava sendo cuidadoso, para não cruzar fronteiras que eu não quisesse que fossem atravessadas. Seus olhos se fixaram nos meus. Como ele fazia quando estávamos na tenda de Ahmed planejando algo, ou em uma luta, verificando o que o outro estava fazendo. Seu olhar escuro parecia sério. — Isso te incomoda?
Eu não tinha certeza se incomodava. O fato de terem existido outras garotas antes de mim, que eram melhores naquilo do que eu. Jin tinha aparado minhas arestas no ano que se passou desde que nos conhecemos. Mas agora eu as sentia ali, sob a pele, me mantendo afastada dele por apenas mais um instante.
— Incomoda você que seja minha primeira vez?
Ele bufou de leve, numa risada de alívio que bagunçou meu cabelo.
— Não. — Seu polegar tinha se afastado da cicatriz no meu ombro agora, percorrendo a extensão da minha mandíbula, mapeando-a como se fosse território inexplorado. — Mas se você não… — Ele se interrompeu, como se estivesse escolhendo as palavras certas. — Eu estava falando sério sobre economizar a bebida boa. Estou planejando sobreviver. — Ele beijou a curva do meu pescoço. — E agora estou planejando que você sobreviva também. Não precisamos fazer nada hoje à noite. Esta não é nossa última noite. Teremos amanhã, depois de amanhã, e mil noites depois. Por enquanto, pode ser suficiente que eu seja seu. — Ele me beijou gentilmente. — Tudo o que sou, entrego a você, e tudo o que tenho é seu. Porque o dia da nossa morte não será amanhã.
Ele falou com a certeza de um demdji pronunciando a verdade, embora fosse inteiramente humano. Sua calma sempre tinha sido meu porto seguro –  como se estivesse me segurando no meio de uma tempestade de areia. Jin tinha certeza, percebi. Tinha certeza de que me desejava. E eu tinha certeza de que o desejava. Era mais do que um desejo.
Me inclinei para a frente, lutando para me conter dentro da minha própria pele, sentindo que poderia rompê-la se encostasse nele de novo. Mas simplesmente quebraria se não encostasse. Beijei sua boca suavemente e o senti sorrir.
— Sou sua — ofereci de volta. Tracei a linha de sua mandíbula com a boca. — Tudo o que sou, entrego a você. — Inclinei a cabeça, explorando seu pescoço e a linha esguia e musculosa de seu ombro com a boca. — E tudo o que tenho é seu. — Senti Jin fechar a mão em um punho contra minhas costas. Como se estivesse tentando se segurar em alguma coisa, ancorar-se. Mas tudo o que ele conseguia encontrar era pele. Finalmente, inclinei minha boca contra a tatuagem sobre seu coração. — Até o dia da nossa morte.
Quaisquer barreiras finas que ainda restavam entre nós se dissolveram. Eu estava plenamente consciente de tudo enquanto acontecia, mas depois, voltou apenas em lampejos. Como se houvesse me embriagado dele. De nós dois juntos. Lembrei alguns conselhos que uma vez ouvi uma mãe dizer para sua filha no dia de seu casamento, na Vila da Poeira: deitar, fechar os olhos e aguentar firme até que tivesse terminado. Mas eu não queria fechar os olhos. Queria ver tudo.
Juntos nos despimos até sermos apenas pele. Suas mãos perguntavam quando ele não tinha certeza. Enquanto se movia sobre mim, notei a tinta em seu quadril, a tatuagem de que só tinha visto uma ponta, acima da linha do cinto.
Percebi que era uma estrela. Com luz fluindo de todos os lados, como se estivesse explodindo. Tracei seu contorno com o dedo. Jin soltou um som que eu nunca ouvira antes, voltando então a atrair minha atenção com sua boca na minha. Ele me beijou profundamente, até que me ouvi dizendo seu nome de novo e de novo, em respirações curtas, como um pedido ou uma prece. Ele sussurrou meu nome de volta contra meus lábios, como se fosse um segredo que pertencesse a ele. Minha respiração saiu em arfadas curtas e entrecortadas, e pressionei meus dedos contra suas costas. Ardíamos juntos como uma única chama, tão forte que poderíamos desafiar a noite.
Até que o último espaço entre nossos corpos desapareceu.
Eu me desfiz em suas mãos, e ele nas minhas. Ambos se dissolvendo em areia, poeira e faíscas, até sermos apenas estrelas infinitas entrelaçadas na noite.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!