26 de novembro de 2018

Capítulo 35

JIN FEZ O QUE FAZIA MELHOR quando contei a ele: me deixou antes que eu pudesse deixá-lo, juntando-se a Sam e Delila no grupo que ia para Izman. Ele disse para Ahmed que alguém precisava cuidar da irmã mais nova. Me senti grata por não ter contado a verdade ao príncipe. Se Ahmed soubesse que estava me mandando para a morte, ia tentar me salvar. Era o que ele fazia, afinal de contas. Tentava salvar as pessoas.
E era o que eu estava fazendo também.
Jin já tinha partido fazia três dias quando um vigia reportou que havia um exército chegando pelo lado ocidental da montanha. Não de Izman. Do nosso lado do deserto.
Rahim entrou em ação imediatamente, preparando seus homens para lutar. Eles estavam acostumados com as escaramuças nas montanhas, embora nenhum de nós tivesse imaginado que precisaríamos nos defender antes de chegar a Izman.
Enquanto observávamos das muralhas de Iliaz no início da manhã, um estandarte surgiu no nosso campo de visão, sobre o topo de uma colina adiante. Não estava costurado com as cores do sultão. Tinha o sol dourado de Ahmed. Alguns instantes depois, a primeira pessoa apareceu ao longe, e percebi que a conhecia.
Era Samira, a filha do emir de Saramotai. Ou assim tinha sido, até que derrubassem seu pai e o matassem. Nós a tínhamos deixado governando sua cidade. Estava claro que havia se adequado bem à função.
— Esperem! — gritei para Rahim e seus homens, que estavam preparados na muralha. — Não atirem.
Corri para o pátio e disparei pelos portões, saindo antes que alguém pudesse me impedir, com Ahmed e Shazad logo atrás.
Quando estava próxima o suficiente para ser ouvida, Samira abaixou a cabeça em um gesto rápido para Ahmed, aproximando-se da muralha.
— Vossa Alteza, ouvimos dizer que precisa de homens para lutar. E mulheres. Tenho uma centena comigo, que não querem esperar sentados atrás das muralhas por nossos inimigos.
— Uma centena — Shazad repetiu em voz baixa, de pé do meu lado. — É um bom começo. — Então ela perguntou mais alto: — Como sabia que estávamos aqui?
— Pelo general Hamad — Samira retrucou.
Senti Shazad ficar tensa ao meu lado.
— Meu pai? — ela disse, e por um instante parecia uma garotinha de novo.
Samira assentiu.
— Notícias de que o príncipe rebelde não pode ser morto porque é protegido pelos djinnis chegaram a nós no oeste. Então o general espalhou a notícia de que, se alguém realmente quisesse defender seu país, esta seria a última chance. — Ela sorriu diante de nossos rostos surpresos. — Agora vão nos deixar entrar, ou precisamos atacar suas muralhas? Devo dizer que não parecem muito boas perto das nossas.
Saramotai não foi a última cidade a se juntar a nós. Um grupo ainda maior chegou de Fahali dois dias depois, também mobilizado pelo general. A cidade portuária de Ghasab mandou suas forças um dia depois. E mais uns punhados foram chegando de cidades pequenas do deserto e das montanhas, por onde a notícia tinha se espalhado. Ahmed estava vivo. O príncipe rebelde tinha retornado dos mortos para libertar o país do jugo estrangeiro. Às vezes as pessoas chegavam em grandes grupos, outras vezes uma por uma, para jurar lealdade à nossa causa. Até que não podíamos mais esperar. Não tínhamos mais tempo de treinar novos recrutas. Ou de conseguir mais armas. Precisávamos marchar. Antes que o sultão marchasse sobre Iliaz e perdêssemos o elemento surpresa.
— Quantos no total? — Ahmed perguntou naquela noite, antes de descermos a montanha.
Shazad e Rahim trocaram um olhar.
— O suficiente — Shazad disse.
— Suficiente para quê? — perguntei.
— Uma luta justa — Rahim respondeu.
— Mas nosso pai não vai nos dar uma luta justa, não é? — Ahmed disse.
— Não — Rahim retrucou. — Duvido que faça isso.
Tínhamos subido a montanha com três centenas de homens e mulheres. Descemos com algo próximo a mil. Descemos de Iliaz para as planícies do deserto em torno da grande cidade de Izman. Marchamos juntos para a guerra.
O sol estava começando a se pôr quando chegamos ao acampamento onde Sam, Jin, Delila e a multidão que haviam conseguido tirar da cidade esperavam por nós, pouco além do campo de visão de Izman, cobertos pela ilusão da princesa. Havia algumas centenas deles. Reconheci nossos rebeldes e alguns aliados, mas muitos outros eram desconhecidos. E tinha consciência de quantas pessoas ainda havia na cidade, caso tudo fosse pelos ares.
Montamos acampamento ao lado deles.
Não vi Jin em meio à multidão. Queria desesperadamente ir procurá-lo, mas seria egoísta, considerando que estávamos tentando abrir mão um do outro. Quando na verdade só ele precisava abrir mão de mim. Eu tinha passado muito tempo aprendendo a não ser tão egoísta.
Ele tampouco me procurou.
Conforme a noite caía, fui chamada para falar com Ahmed e Shazad, para receber as últimas instruções antes da batalha.
Tudo terminaria no dia seguinte.
O pensamento pairava sobre nosso exército. No próximo pôr do sol, estaríamos todos mortos ou Ahmed estaria sentado no trono.
Antes que pudesse entrar na tenda de Ahmed, a aba do seu pavilhão foi aberta violentamente, cegando-me por um instante quando um clarão de luz iluminou a escuridão. Protegi os olhos instintivamente, mas ainda consegui enxergar pelas frestas entre os dedos.
Eu sabia que era Jin só pela silhueta. Por sua forma em contraste com a luz que fluía da tenda de Ahmed. Ele congelou, segurando a aba da tenda aberta. A luminosidade escondia sua expressão. Só via sua mão livre esticada hesitante na minha direção. Como se quisesse me agarrar e me parar. Me impedir de fazer o que precisava ser feito.
E então seus dedos se recolheram. Ele lutou contra o desejo. Lutou contra a necessidade de me parar. A mão esticada virou um punho cerrado, que caiu ao seu lado. Ele deixou a aba da tenda cair, mergulhando nós dois na escuridão, e passou por mim sem me tocar.
Não virei enquanto escutava seus passos se afastando na areia. Esperei até não conseguir senti-lo atrás de mim antes de abrir a aba da tenda de Ahmed.
Os preparativos ecoavam pela areia quando saí. Rahim treinava seus soldados e os outros. Ninguém conseguiria dormir muito com uma batalha no horizonte, e Izman impunha sua silhueta imponente, preta como tinta, contrastando com as estrelas lá longe. Ela pairava enorme em comparação às nossas pequenas tendas pontilhando a areia, como um colosso enfrentando um punhado de escaravelhos. Como o enorme monstro da Destruidora de Mundos das histórias antigas, a grande serpente derrotada pela primeira heroína. Nelas, o monstro sempre perdia. Mas eu sabia melhor do que qualquer um que histórias e realidade não eram a mesma coisa. Shazad podia falar de números até ficar rouca, mas era muita audácia acharmos que poderíamos vencer — um bando de rebeldes pouco treinados e mal armados, contra o poderio do sultão e seu exército invencível de abdals.
A cidade parecia ficar maior conforme o céu escurecia, como se estivesse crescendo para virar a própria noite, as bordas sombreadas se fundindo ao céu até bloquear as estrelas, me sugando com sua sombra comprida.
— Vai ter muita morte aqui amanhã.
A voz surgiu inesperadamente da escuridão, me fazendo virar de repente. Havia um homem de pé alguns passos atrás de mim. Só conseguia enxergar seu contorno, mas dava para ver que vestia um uniforme de Iliaz. Era um dos nossos, então. Relaxei.
Eu não tinha percebido o quanto tinha me afastado até olhar para trás. Estava no meio do caminho entre meu grupo e a cidade inimiga, quase perambulando além dos limites da ilusão de Delila. Agora eu via espalhadas lá embaixo tendas coloridas pontilhando a areia, iluminadas por fogueiras e lâmpadas a óleo. Dali pareciam milhares de lanternas espalhadas pelo deserto, como se desafiassem o avanço da noite.
— Rahim mandou virem me buscar? — perguntei ao soldado. Não havia outro motivo para ele estar tão afastado do acampamento.
Sua silhueta permaneceu estranhamente imóvel.
— Não. Nenhum homem manda em mim.
Era uma resposta estranha, com um sotaque estranho. Também era estranho que ele tivesse conseguido se aproximar despercebido. Recuei com cautela lançando um olhar atrás dele para ver se conseguiria contorná-lo, chegando primeiro às tendas. Foi então que percebi que ele não tinha deixado pegadas na areia. Soltei o ar. Não era um estranho. Só não era humano.
— Zaahir — cumprimentei o djinni.
— Filha de Bahadur. — Eu ainda não conseguia enxergar seu rosto na escuridão. Era perturbador. — Parece que jogou fora outro presente meu.
— De jeito nenhum. Só dei para uma pessoa diferente. — Se o presente do Criador de Pecados era verdadeiro, Shazad permaneceria intocável durante toda a batalha. — Para alguém que precisava dele.
O djinni balançou a cabeça, aparentemente tentando imitar a expressão humana de decepção. Um gesto de pesar sem qualquer lamento verdadeiro.
— Você não quis matar um príncipe. Não quis beijar um príncipe. O que faço com você, filha de Bahadur?
— Acho que já fez o suficiente.
Ele me ignorou.
— Por sorte, tenho mais um presente para você.
— Não quero seus presentes, Zaahir. — Eu estava cansada. Cansada demais para discutir, para tentar ser mais esperta do que ele em qualquer que fosse seu jogo.
— Acredite, este você vai querer, filha de Bahadur. — Ele tirou um anel do dedo e o ofereceu para mim. Não estendi a mão para pegá-lo. Era um truque, mesmo que ainda não soubesse de que tipo. — Pegue — Zaahir insistiu. — Fiz uma promessa que sou forçado a manter: dar a você o que deseja.
— E o que eu desejo? — perguntei.
— Você deseja viver — Zaahir disse. Senti o abismo de medo que estivera evitando todas aquelas semanas se abrir dentro de mim. Mesmo na escuridão eu podia sentir que ele estava sorrindo. Porque ambos sabíamos que o djinni estava certo. Mais do que tudo, era isso que eu queria. Ele girou o anel para reluzir na luminosidade do acampamento, atraindo meu olhar. Era um círculo de bronze com um único enfeite. Quando olhei mais de perto, vi que não era uma gema ou uma pérola. Parecia vidro, e dentro havia uma luz dinâmica, sem cor. — Você quer libertar a alma de Fereshteh e sobreviver. O fogo eterno dele precisa ir para algum lugar. Mas você não precisa queimar. Ele pode ser contido neste anel. Tudo o que precisa fazer quando estiver próxima o suficiente da máquina é esmagar o vidro. Então toda a energia imortal não vai explodir e aniquilar você como um inseto no meio de um incêndio. O anel vai puxar o fogo. Vai absorvê-lo, como água na areia. Em vez de deixá-lo se acumular e te afogar. Então, pequena demdji, você poderá viver.
Ainda parecia um truque. Eu conhecia histórias suficientes de djinnis para saber que se algo parecia bom demais para ser verdade, provavelmente era mentira. Mas era tarde demais para impedir o salto de esperança no meu peito. Enquanto encarava o anel, podia sentir a esperança me seduzindo.
Pensei em como fora estar em Eremot com Zaahir. No modo como tinha simplesmente encostado nos abdals e feito a luz deles se apagar. Tinha sido como ver a faísca de vida deles ser absorvida por uma fogueira maior. Lembrei de como ele tinha estendido a mão e feito a Muralha de Ashra se estilhaçar. Zaahir tinha algum poder sobre o fogo djinni que eu não compreendia.
E ele estava certo. Eu não queria morrer. Independente de quão longe tivesse chegado no deserto. Uma parte de mim seria sempre aquela garota egoísta da Vila da Poeira, tentando sobreviver.
Minha mão se fechou em torno do anel. E então, de repente, como uma sombra na noite, Zaahir tinha sumido.
E eu segurava minha salvação.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!