26 de novembro de 2018

Capítulo 34


Os jovens príncipes

ERA UMA VEZ DOIS PRÍNCIPES que não viviam como tais. Em vez de um palácio, moravam em uma casinha de três cômodos, em uma cidade muito distante de seu pai. Em vez de roupas refinadas, usavam roupas de segunda mão, que sua mãe ajustava para que coubessem neles. Em vez de carnes finas com especiarias, comiam pão com sopa.
Em vez de comida farta, passavam fome. Sua mãe não tinha dinheiro, e logo não conseguiria alimentar as crianças mais do que uma vez por dia.
Os dois príncipes estavam particularmente famintos um dia. Mal tinham conseguido dormir por causa da irmã pequena chorando durante a noite. Eles sentaram à mesa para jantar. O primeiro príncipe observava a mãe cozinhar, e a viu pegar apenas duas tigelas em vez de três, já que sabia que não havia suficiente para duas crianças e uma mãe famintas.
Aquilo o deixou com raiva, porque ela era sua mãe – sua mãe de verdade. A mãe de seu irmão tinha morrido fazia tempo, em outro país. Quando o primeiro príncipe olhou para o outro lado da mesa, onde estava a tigela do irmão, viu que ele tinha recebido uma colherada a mais de arroz.
O primeiro príncipe achou que era uma grande injustiça, e disse coisas que nenhum irmão deveria dizer. Que não era justo que recebesse mais comida às custas dos outros. Que ele nem era filho de sua mãe ou seu irmão de verdade. Que se alguém deveria passar fome, deveria ser ele. Que era culpa do outro príncipe que estivessem passando necessidade. Que eles deveriam mandá-lo embora em um dos muitos barcos do porto, de volta para o deserto de onde viera, deixando a responsabilidade de alimentá-lo para outra pessoa.
O príncipe nunca tinha visto sua mãe ficar tão furiosa. Ela disse que nunca mais queria ouvi-lo falar daquele jeito. Que eles eram uma família, e que não deveria olhar para o prato do irmão para ver se ele tinha mais, e sim para garantir que tinha o suficiente. Como punição, mandou o filho para cama sem comida.
O jovem príncipe se enfureceu. Decidiu que já tinha aguentado demais. Se o irmão não ia embora, ele ia. Estava empacotando sua pífia reunião de pertences quando seu irmão retornou para o quartinho que compartilhavam. Ele esvaziou seus bolsos na cama, revelando que estavam cheios de arroz.
O segundo príncipe, sentindo pena de seu irmão por não ter jantado, escondera cada bocado da própria comida nos bolsos para levar para ele. O primeiro príncipe ficou chocado ao ver que seu irmão estava disposto a passar fome e dar tudo o que tinha para outra pessoa, ainda mais alguém que tinha desejado que fosse embora instantes atrás.
Foi naquele momento que o primeiro príncipe entendeu a bondade do seu irmão. Entendeu que ele tinha um coração mais gentil e altruísta do que jamais poderia ter. E jurou que faria tudo ao seu alcance para protegê-lo, mesmo sabendo que nunca seria tão bom quanto ele.
Muitos anos depois, a garota conhecida como Bandida de Olhos Azuis chegou até ele, longe da mesa na casinha onde tinham crescido. E perguntou o que acreditava que existia depois da morte.
Então ele entendeu o que ela planejava fazer.
Quis ficar furioso. Porque seu irmão ganharia o sacrifício da vida dela, enquanto ele mesmo ia perdê-la.
Mas tinha feito aquele juramento muito tempo antes.
E manteria sua palavra.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!