26 de novembro de 2018

Capítulo 33

ENCONTREI LEYLA NOS APOSENTOS DE BALIR.
Não esperava por isso. Não precisava me envolver nas repercussões da morte dele; Rahim, Ahmed, Jin e Shazad tomariam conta de tudo. Então tinha ido para seus aposentos, atrás de seus livros, na expectativa de que tivesse mais informações sobre o homem na montanha. Talvez assim encontrasse respostas sobre o Criador de Pecados.
Tinha sido fácil pensar em me livrar do beijo de Zaahir passando-o para Balir. Mas se eu ia realmente dá-lo a alguém com quem me importava, precisava ter certeza que não era um truque. O Criador de Pecados tinha prometido que a pessoa viveria até a velhice. Mas eu conhecia a malícia dos djinnis. Aquilo podia significar que quem recebesse o presente envelheceria uma centena de anos no instante em que o beijasse. Poderia significar que teria uma velhice terrível, em que a pessoa seria obrigada a assistir todos que a cercavam morrerem. Não podia fazer isso com Ahmed. Ou com Jin.
Estava desesperada por informações.
Então encontrei uma princesa enrolada como uma garotinha na cama de Balir, enquanto a fumaça da pira funerária entrava pela janela aberta.
Parei na entrada, olhando para sua silhueta minúscula no escuro, os joelhos apertados contra o peito, os pés nus enterrados na manta pesada coberta de cenas de caça que estava esparramada na cama. Eu sabia que Leyla estava ciente da minha presença, mas não virou.
— Foi você, não foi? — perguntei. — Envenenou a cabeça dele com a ideia de assassinar todos aqueles soldados só para que não os tivéssemos. Para que seu irmão não pudesse ir à guerra contra seu pai. Como fez isso?
Os ombros de Leyla balançaram silenciosamente, como se risse. Foi o primeiro sinal de vida dela.
— Você me viu enganar e manipular você e outras pessoas dezenas de vezes. Você viu onde cresci, dentro daquelas paredes, com mulheres que usavam seus corpos e mentes como armas. — Lentamente, ela virou para me encarar. Parecia diferente da garota que tínhamos deixado. A raiva ardente e indignada tinha se transformado em uma fúria distorcida e cruel. — Depois de tudo isso, ainda acha que sou inocente demais para este jogo?
Seus olhos estavam vermelhos. Eu não sabia se era de chorar ou da fumaça. Atravessei o quarto a passos largos. Da janela, podia ver a pira de Balir. Estava cercada de soldados. Cumprindo seu dever, apesar de não ter sido honrado com eles.
— Acho que a rebelião me fez ser mais otimista em relação às pessoas do que eu costumava ser — eu disse. Fechei a janela e me virei para Leyla.
— Você veio me matar? — ela perguntou.
— Não. Seu irmão provavelmente vai procurar você em breve. A culpada seria óbvia demais. — Era uma piada. Mais ou menos.
Pensei a respeito de Leyla. Eu tinha ido ali procurar informações.
Tínhamos um plano em Izman. Antes de Ahmed ser capturado e Imin executada. Conseguir um exército, desativar a máquina do sultão, tomar a cidade.
Tínhamos o exército.
Tínhamos as palavras para libertar a alma de Fereshteh da máquina e derrubar o muro e os abdals.
Agora só precisávamos da cidade. E, para tanto, precisávamos desativar a máquina.
Não custava nada perguntar.
— Se eu libertar a energia de Fereshteh, a máquina não vai simplesmente desligar calmamente, vai?
— Quem sabe? — Leyla deslizou na cama, como se estivesse subitamente exausta, apoiando a cabeça em um braço. — Ela nunca foi testada antes. Tudo não passa de teoria. Foi o que minha mãe me ensinou. Rahim acha que não lembro dela. Mas acho que provei ter mais da minha mãe e do meu pai do que ele jamais vai ter.
— Mas se tivesse que chutar? — insisti, antes que ela enveredasse por alguma linha de raciocínio da qual não conseguiria trazê-la de volta.
— Se tivesse que chutar — ela disse, fechando os olhos —, eu diria que não. Não acho que isso vai acontecer.
Tamid e Leyla eram ambos inteligentes. E, como tinham me dito a mesma coisa, era seguro apostar que estavam certos. Até aquele momento, tinha parecido algo distante. Mas de repente pareceu muito próximo.
Me senti tentando buscar alguma coisa em que me segurar, enquanto o mundo à minha volta parecia girar. Minha mão se fechou em torno de uma jarra de cerâmica próxima da cama. Não me ajudou nem um pouco a me manter de pé. Fui inundada pela raiva. Uma fúria súbita, violenta e irracional tomou conta de mim. Sem pensar, arremessei a jarra, estilhaçando-a na parede antes de sair impetuosamente.
Não tinha certeza de quem estava procurando quando voltei para o pátio, do lado oposto da pira funerária. Jin, talvez.
Em vez disso, tropecei em Sam. Ele me pegou pelos braços.
— Isso é algo bem Leofric e Elfleda, não? — comentou. A história de amor sobre a qual tinha tagarelado em Sazi. Aquela que terminava com ambos mortos. — A gente se encontrando em segredo na escuridão… — Ele parou de falar quando viu meu rosto, percebendo que eu não estava no clima para piadas. — Você está bem?
Olhei de relance por cima de seu ombro. Os gêmeos me observavam ansiosos. Eu não devia estar com uma cara boa.
— O que vocês três estão fazendo aqui? — perguntei, em vez de responder.
— Ah, bem. — Sam se afastou de mim, soltando meus braços. — Rahim recebeu a notícia de um dos seus soldados. Depois que fomos embora daqui, minha antiga rainha, que seu reinado seja longo, fez uma aliança com o rei gallan, que ele morra de forma dolorosa e apodreça em uma vala. — Dessa vez Sam soava sério.
Então a aliança tinha realmente acontecido. Como não tínhamos aceitado o acordo do capitão, eles procuraram outro aliado. Declararam Miraji o inimigo. Os gallans nos odiavam, porque odiavam tudo que não fosse totalmente humano. Sam talvez fosse um traidor, mas sua rainha também tinha traído seu povo ao forjar aquela aliança.
— O capitão Westcroft e todos aqueles caras legais que queriam me ver morto se juntaram ao cerco três dias atrás.
— Então nós três vamos dar uma olhada em como estão as coisas — Izz interveio, animado como sempre. Ele estava claramente feliz de fazer alguma coisa; os gêmeos odiavam ficar no mesmo lugar por muito tempo.
— Shazad disse que precisamos usar todas as nossas vantagens agora — Maz acrescentou.
— Como pode vocês dois serem Bandidos de Olhos Azuis e nós sermos reduzidos a “vantagens”? — Izz perguntou.
— Exigimos um apelido melhor — Maz concordou.
Forcei um sorriso e tive a satisfação de ver os dois retribuírem, satisfeitos por terem me divertido.
Olhei de relance para Sam.
— Você vai com eles? — Os gêmeos não precisavam de escolta para fazer um relatório. Talvez Sam achasse que impressionaria Shazad se agisse como um soldado de verdade. Então vi o olhar de preocupação em seu rosto. Podia ser um de nós agora, mas tinha nascido em Albis. Era o povo dele fazendo o cerco à cidade. Sam precisava ver aquilo de perto.
— Está bem. Vamos lá — eu disse, indo até Izz.
Eles não precisavam de mim, mas tampouco precisavam de Sam. Não questionaram meu desejo de ir junto. Os gêmeos se transformaram em rocs enquanto Sam e eu enrolávamos nossos sheemas na cabeça para nos proteger do vento. Eu precisava ver o que nos esperava na cidade.
A noite tinha caído completamente quando chegamos a Izman, mas ainda assim dava para ver tudo do ar. A luz do domo de fogo produzia um brilho indistinto na escuridão. Mais do que isso: o chão em torno da cidade ardia como brasa.
O acampamento do cerco tinha sido destruído. As tendas gallans, que haviam formado fileiras militares perfeitas quando partíramos apenas algumas semanas antes, agora eram cinzas em brasa. Os corpos dos albish que tinham unido forças com eles deveriam estar ali no meio também. Milhares de homens que tinham se organizado em torno das muralhas haviam sido aniquilados, o chão ainda ardendo com a força que os havia destruído: a força plena dos abdals virada contra nossos inimigos.
Eu não podia enxergar a expressão de Sam no escuro, mas sem dúvida devia estar lamentando por seu povo. De um modo que eu não conseguia. O sultão podia ser nosso inimigo, mas tinha se livrado dos inimigos de Miraji.
Talvez fosse certo que terminasse assim. Era uma guerra entre as pessoas do deserto. Não entre as pessoas que queriam tomá-lo.
Resolveríamos entre nós mesmos – sem mais ninguém.
Só conseguia ouvir as batidas de asa de Izz conforme sobrevoávamos a cidade. Fui lembrada da destruição que Noorsham costumava causar. Fogo. Aniquilação. Uma força sobrenatural, que vinha dos djinnis, varrendo exércitos e destruindo tudo em seu caminho.
Eles tinham ousado tentar tirar o poder do sultão. Então ele havia mostrado seu verdadeiro poder.
Era o que aconteceria conosco se tentássemos confrontá-lo enquanto ainda controlava os abdals. Se enfrentássemos exércitos de metal com meros homens.
Queimaríamos também. Todos queimariam: Jin, Ahmed, Shazad, Delila, Sam, Rahim, os refugiados de Sazi, os soldados de Iliaz, os homens e mulheres esperançosos que tinham se juntado a nós em vários vilarejos.
A menos que eu dissipasse o poder de Fereshteh. A menos que usasse as palavras que Tamid me dera. O idioma primordial, em uma voz que não podia contar mentiras. A mesma que o havia prendido ali, usada para libertá-lo.
Eu morreria, ou todos morreríamos.


— Está bem, eis o que vamos fazer. — Um mapa de Izman estava esticado na frente de Shazad. Rahim tinha assumido os aposentos de Balir, mas não houve tempo de esvaziá-los. Então o quarto de Shazad era nossa sala de guerra. — Podemos marchar daqui até ali em um dia. — Ela apontou para um lugar que tinha marcado no mapa, no deserto a oeste de Izman. — Isso nos deixaria fora do campo de visão e de alcance da cidade quando a noite cair. Esperamos aqui pela manhã. No alvorecer, vocês dois voam para o leste. — Ela apontou para mim e para Sam com a ponta da faca. — Vão para os túneis e chegam até a máquina. Enquanto isso, nosso exército marcha sob a cobertura de uma ilusão de Delila em direção à cidade. Quando o fogo baixar, o sultão não estará preparado para o ataque repentino aos muros. Queremos irromper pelo portão de Ikket primeiro, para obter acesso à rua Cambaxirra antes que o exército esteja totalmente mobilizado. — Ela apontou para as ruas da cidade onde tinha crescido. — De lá, podemos tomar os antemuros ocidentais e obter uma posição vantajosa. Os soldados treinados devem ficar nas linhas de frente; os novatos devem ficar para trás, com a artilharia.
— Não — Rahim discordou. — Deveríamos misturar o maior número de novatos entre os meus soldados.
— Seria arriscado. Os novatos vão ter mais dificuldade de defender uma posição. Os soldados do sultão vão conseguir romper a linha mais rápido.
— É melhor do que romperem a primeira linha e não haver nenhuma segunda linha de defesa — Rahim argumentou. — Nossos homens seriam ceifados como trigo.
— Então você quer misturar pessoas sem treinamento aos soldados para que possam atrair fogo para longe dos seus homens? — Shazad não levantou a voz. Sua raiva era controlada.
— Eu não disse isso.
— Mas sabe que eles têm uma chance muito maior de morrer.
— Eles não estão treinados, é claro que têm mais chance de morrer — Rahim disse, encarnando o oficial superior.
— Chega. — Ahmed ergueu a mão, interrompendo os dois. Então olhou para mim. Queria ouvir o que eu pensava. Eu tinha visto a cidade. A destruição. Sabia o que estávamos enfrentando.
Ainda tinha o presente de Zaahir. Poderia decidir a batalha ali, naquele momento, se o desse para Ahmed. Não importaria o que fizéssemos, porque ele sobreviveria. Mesmo se fosse um massacre. Mas, se o desse para ele, não poderia guardá-lo para Jin.
— Acho que você deveria escutar Shazad — eu disse. — Não jogue corpos no caminho para atrasar seu pai. — Não eram apenas corpos. Eram ávidos filhos e filhas de camponeses, que tinham rido quando Shazad os jogara na poeira, como se a guerra fosse um jogo. Eram pessoas do deserto que haviam ido até nós porque oferecíamos algo melhor do que tinham. Em troca, pedíamos que arriscassem a vida.
— Ainda precisamos de mais gente. — Rahim balançou a cabeça. — Talvez possamos vencer esta luta se formos espertos e contarmos com a sorte. Mas não gosto disso.
— Bem, para nossa sorte, sou muito esperta — Shazad o interrompeu. A sombra de um sorriso passou pelo rosto de Sam. Ele tinha permanecido quieto desde que testemunháramos a destruição do lado de fora das muralhas de Izman, mas estava claramente se divertindo com a discussão entre Shazad e Rahim.
— E quanto às pessoas na cidade? — perguntei. Estava pensando na máquina. O que desativá-la significaria se realmente se consumisse em chamas? Se a energia de um djinni morrendo realmente tinha arrasado cidades e exércitos no passado?
— Amani está certa — Shazad disse. — Ainda há rebeldes na cidade, e outros que são leais a nós. — Não era isso que eu estava dizendo, mas o resultado era o mesmo.
— Não podemos espalhar pela cidade a notícia de que estamos chegando — Rahim disse. — Se perdermos o elemento surpresa, meu pai vai nos aniquilar antes mesmo de chegarmos às muralhas.
— Mas se conseguirmos tirar essas pessoas de lá, elas poderão lutar — Jin falou, entendendo o que Shazad estava dizendo, ao contrário de Rahim.
— Está bem. — Ahmed assentiu. — Sam e Delila — ele se virou para os dois — levem um pequeno grupo para a cidade e comecem a evacuação. — Eu sabia por que o príncipe tinha escolhido os dois: porque Sam conseguiria levar as pessoas pelos túneis e Delila poderia esconder o que estavam fazendo. — Tirem quantas pessoas conseguirem. Agora.
Percebi de repente que aquela podia ser a última vez em que estávamos todos juntos. Alguns de nós certamente não sobreviveriam à batalha que estava por vir. Já tínhamos perdido muitos para a guerra.
Quando desviei o olhar deles para Ahmed, Jin, e todos os outros ao redor da mesa, subitamente soube quem tinha a maior chance de morrer: aquele entre nós que tinha menos medo. Aquele que mais precisava ser salvo.
Quando terminamos, todos se dispersaram, deixando apenas Shazad e eu para trás.
— Você devia contar a ele, sabia? — ela disse, quando estávamos sozinhas. Eu não precisava perguntar o que queria dizer. Ela achava que eu precisava falar para Jin que provavelmente ia morrer naquela cidade.
Tínhamos adquirido o hábito de salvar uma à outra, Shazad e eu, de nos protegermos. Só que eu não podia protegê-la no campo de batalha daquela vez. E ela não podia me salvar do meu destino.
— É — eu disse, passando o braço em torno dos seus ombros e dando um rápido beijo em sua bochecha. Como um gesto entre irmãs quando uma delas vai viajar para longe de casa por um tempo.
Só que não éramos irmãs. Tínhamos escolhido uma à outra. E, agora que tinha dado a ela o beijo de Zaahir e a promessa de uma vida mais longa do que a batalha, Shazad não iria a lugar nenhum comigo.
— Eu deveria mesmo.

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