26 de novembro de 2018

Capítulo 32

MONTAMOS ACAMPAMENTO NA METADE DO CAMINHO subindo a montanha, no último vilarejo antes da fortaleza de Iliaz. Balir certamente sabia que estávamos a caminho, mas não tínhamos deparado com nenhuma resistência ainda. O povo conhecia Rahim da época em que servira sob o comando do pai de Balir e, enquanto subíamos, muitos saíram às ruas para acompanhar. Quando paramos à noite, os locais deram as boas-vindas a ele, como se fosse o filho pródigo retornando. O vilarejo inteiro apareceu, carregando travessas de comida e jarras do vinho que tinha feito a fortuna de Iliaz. Não recebiam notícias da fortaleza havia semanas. Alguns diziam que Balir já tinha morrido.
— Ele não está morto — eu disse, erguendo a cabeça para observar a fortaleza. Podia ver torres de pedra através das escarpas, espalhando suas sombras pelas vinhas verdes que dominavam a colina. Estaríamos lá antes do meio-dia. Balir ainda estava vivo. E eu poderia mantê-lo assim. Não precisaríamos virar seu exército contra ele.
Não tinha contado a ninguém sobre o presente de Zaahir. Nem mesmo a Shazad. Não sabia bem o motivo. Mas precisava falar alguma coisa agora, enquanto Rahim preparava o plano para o dia seguinte e decidia como chegar à fortaleza. Enquanto calculava quantos de seus soldados achava que iam abaixar as armas imediatamente, a voz de uma garota veio do lado de fora.
— Não! — ela gritou. — Preciso falar com ele!
Em instantes, estávamos todos do lado de fora. A garotinha estava perto da entrada da casa que havíamos ocupado. Devia ter uns oito anos, com o cabelo preto preso em uma trança enrolada firme na cabeça. Ela esperneava e gritava enquanto nossos guardas a seguravam.
— Preciso falar com o comandante! Por favor!
— Mara. — Rahim abriu caminho até a pequena praça da cidade, onde pudesse enxergar direito a garotinha. Ela virou a cabeça ao ouvir seu nome.
— Comandante Rahim! — Apesar de um dos nossos rebeldes ainda a segurar, Mara o empurrou para cumprimentar Rahim. — Me solta! — Ela virou e pisou com tudo com seu calcanhar minúsculo no pé dele, forçando-o a soltá-la, lançando uma série de palavrões que não eram nem um pouco adequados aos ouvidos de uma garotinha. Não que Mara estivesse prestando atenção. Ela já corria na nossa direção.
— Gostei dela — disse Shazad. — Vamos torcer para que esteja do nosso lado.
— Eu que ensinei isso a ela — Rahim disse, com um discreto tom de orgulho na voz. Eu conseguia imaginar. Separado de Leyla, por quem teria feito qualquer coisa, ele tinha encontrado uma garotinha para substituir sua irmã mais nova. Rahim ajoelhou para encarar Mara no olho enquanto ela acelerava em sua direção.
— Você precisa ajudar! — Ela respirava com dificuldade, seu rostinho ruborizado. — Eu corri até aqui. Ele vai matar todo mundo! Todo mundo!
Rahim olhou para ela com o cenho franzido.
— Quem?
— Lorde Balir. — Ela engoliu em seco, tentando falar rápido o suficiente. — Ele sabe que estão chegando. Sabe que não tem nenhuma chance. E tem uma garota, uma princesa, dizem, que tem sussurrado coisas terríveis no ouvido dele por semanas. — Maldita Leyla. Nós a tínhamos tirado de Izman para evitar que causasse problemas, mas tinha conseguido mesmo assim. — Ele vai envenenar a tropa inteira para que você não possa tomar o exército.
Encaramos a garotinha enquanto absorvíamos aquelas palavras, o horror do que estava dizendo. E então partimos.
Obtivemos mais informações no caminho.
Mara trabalhava nas cozinhas de lorde Balir. Era a irmã mais nova de um jovem soldado da tropa de Iliaz. Tínhamos sido vistos ao chegar. Usar um navio como aríete não era exatamente discreto. Lorde Balir tinha anunciado para os soldados que haveria um banquete naquela noite em nossa homenagem.
Mara tinha trabalhado duro nas cozinhas com outra serviçal. A garota era nova. Não sabia que não podia provar o vinho. Ou simplesmente não se importava. Mara a viu cair morta bem na sua frente.
Parecia que Balir tinha decidido que, se não estávamos dispostos a oferecer uma demdji que salvasse sua própria vida, não ia nos deixar levar seu exército. Estava disposto a matar centenas por puro rancor.
Não conseguiríamos chegar lá a tempo indo a pé. Jin, Sam, Shazad e eu disparamos em direções opostas, procurando por Izz e Maz, enquanto Ahmed dava instruções sobre o que fazer enquanto não voltássemos. Rahim ficou com Mara. Encontramos os gêmeos logo, e bastou um punhado de palavras para que se transformassem em rocs gigantes. Quando voltamos, Shazad tinha separado as armas de que precisaríamos. Peguei a arma que ela arremessou para mim sem olhar, enquanto Jin me puxava para as costas de Maz.
Rahim também subiu, levando Mara conosco. Ela soltou um grito quando alçamos voo.
Numa questão de instantes, passamos voando sobre as muralhas da fortaleza, com os últimos raios de sol tocando o horizonte.
O pátio estava estranhamente silencioso quando aterrissamos; e as muralhas que sobrevoamos estavam vazias. Mas a fortaleza não estava deserta. Mais adiante, as portas que levavam ao salão principal estavam escancaradas. Luz, barulho e comemorações se derramavam convidativos pela penumbra enquanto descíamos das costas dos gêmeos.
— Sou só eu ou isso parece uma armadilha? — Sam disse, manifestando o que todos estávamos pensando.
— Não é só você — Shazad retrucou.
— Bem, esperar não vai mudar nada — Ahmed disse, tomando uma decisão. — Vamos.
Entramos em formação naturalmente: Rahim e Ahmed na frente, a pequenina Mara ainda agarrada à manga do comandante, Shazad e eu uma de cada lado, Sam e Jin na retaguarda, com os gêmeos entre nós, na forma de gatos.
Passamos por um enorme arco feito da mesma pedra vermelha do restante da fortaleza. Duas portas altas de madeira estavam abertas, levando-nos para um imenso salão de pedra. Ele se estendia por dois andares, com vigas de madeira pintada servindo de suporte para o telhado. À luz das lanternas a óleo penduradas, eu podia ver rostos de animais esculpidos nas vigas, observando a cena abaixo. Duas dúzias de mesas tinham sido organizadas no formato de uma ferradura. Estavam repletas de soldados, comida e jarras de vinho. Eu não tinha visto aquele salão em nossa visita anterior, quando fora convidada aos aposentos particulares de Balir. Agora ele estava em público, numa plataforma no fundo do salão, sentado em uma cadeira que mais parecia um trono, com um assento enorme e retorcido de madeira pintada para parecer ouro, repleta de almofadas.
Levou um momento até que nos vissem.
— Comandante Rahim, senhor! — um jovem soldado na ponta da mesa exclamou, derrubando sua cadeira ao levantar. Ela desabou no chão de azulejos com um ruído alto o suficiente para fazer várias outras cabeças virarem na nossa direção. A mão de Shazad foi para sua cintura, ao mesmo tempo que encostei no gatilho da minha arma para me sentir segura. O soldado avançou a passos largos para abraçar Rahim, soltando uma risada de alívio, então pareceu lembrar de quem era, soltou-o e fez uma continência desproporcional. — Achávamos que tinha morrido, comandante.
O salão estava se aquietando, com quase todos os olhares voltados para nós. Inclusive o de Balir.
Seus olhos estavam tão afundados que tudo o que eu conseguia enxergar eram poços de sombras. A aparência oca de seu rosto o fazia parecer mais cruel do que nunca. Balir estava desvanecendo rápido. Tão magro que parecia um garoto sentado no assento grande demais de seu pai, tentando protegê-lo de um príncipe que detinha muito mais poder do que jamais teria.
Por um instante, senti uma pontada de pena. Quando olhei em volta, vi as taças de vinho cheias, mas ainda intocadas. Eles tinham sido bem treinados, a maioria por Rahim. E Balir estava pronto para matá-los.
— Não é tão fácil se livrar de mim — Rahim disse, dando um tapinha nas costas do soldado. Suas palavras soaram relaxadas, mas seus olhos, fixos em Balir, não. — O que está acontecendo aqui?
A julgar por seu corpo em ruínas, eu não tinha tanta certeza de que Balir conseguiria ficar de pé, mas ele levantou lentamente.
— Uma comemoração adiantada pela sua chegada — ele declarou, sua voz ecoando pelo salão apesar da enfermidade. — E pela aniquilação da ameaça estrangeira. — Ele sinalizou para um dos criados, que se adiantou rápido com uma bandeja de taças de vinho para nós.
— Engraçado. — Rahim pegou a taça cheia sem hesitação. — Eu tinha ouvido rumores de que estava fazendo alianças com estrangeiros. Tenho certeza de que seu pai teria ficado impressionado.
Os olhos de Balir passaram por mim, Jin e Sam. Senti a memória da ardência do beijo de Zaahir em minha boca. Se eu queria dizer algo, fazer algo, aquele era o momento. Eu poderia salvá-lo; poderia acabar com aquilo sem que ninguém morresse. Olhei para baixo, para a taça de vinho que estava sendo oferecida a mim, e mantive a boca fechada.
— Bem, sim — Balir disse, depois de ter deixado a acusação de Rahim pairar no ar por bastante tempo. — Estou em boa companhia, fazendo alianças que nossos pais não aprovariam.
Rahim começou a avançar em direção à plataforma, caminhando de forma lenta e deliberada.
— Um brinde, então — ele disse.
Observamos centenas de homens levantarem seus copos obedientemente.
— Um brinde — Balir concordou. — Ao nosso estimado comandante Rahim, à sua vitória e ao seu retorno.
— Ao comandante! — a multidão ecoou, levantando seus copos. Eu estava prestes a gritar, a interromper, a avisá-los. Mas Rahim agiu primeiro.
— Esperem. — Ele levantou a mão. Era uma ordem gritada em um aposento cheio de soldados, emitida pelo seu líder. Seu verdadeiro líder. Todos pararam de imediato.
Ao redor de lorde Balir havia uma sala inteira de homens lembrando-o onde estava sua verdadeira lealdade. Lembrando-o que eram do exército de Rahim. O comandante estendeu sua taça para o lorde.
— Você não tem vinho, meu lorde. Não pode brindar à minha saúde sem uma taça. Além disso, seria rude que seus homens bebessem antes de você.
Rahim subiu na plataforma, ficando no mesmo nível de seu lorde. O comandante era pelo menos uma cabeça mais alto. Ele continuou encarando Balir enquanto oferecia sua própria taça para aquele que um dia considerara seu amigo.
Finalmente, lorde Balir estendeu a mão. Quando ambos estavam segurando a taça, Rahim se inclinou para perto de Balir. Eu vi seus lábios se moverem, dizendo algo para ele em voz baixa. Um sorriso triste se espalhou sobre o rosto do lorde, mas ele não disse nada. Só se inclinou para trás, retirando a taça dos dedos de Rahim.
Então a levantou.
— À sua vitória — ele repetiu. — E vida longa.
E então bebeu, em grandes goles. Não tinha terminado quando desabou. Estava morto antes de atingir o chão.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!