26 de novembro de 2018

Capítulo 31

O SOL NASCEU BRILHANTE E RELUZENTE na face leste do navio. O vento vindo do norte batia nas velas.
— É um bom clima para navegar. — Jin amarrou uma corda em torno da minha cintura. Estava tão próximo, com o sol tão forte atrás dele, que tive que apertar os olhos quando levantei a cabeça em sua direção.
Estávamos todos amarrados ao navio. Caso eu perdesse o controle da areia e o navio tombasse, ninguém seria arremessado para fora. Jin apertou a corda com mais força.
Esperamos até a primeira luz surgir antes de Ahmed, amarrado ao mastro, assentir para nós.
Jin começou a gritar ordens, como tínhamos planejado – instruções que eu não entendia, sobre velas simples e de estai. Começamos a nos mover, as velas inflando, as ondas lambendo o casco embaixo de nós, enquanto Jin manobrava em direção à costa.
Respirei bem fundo e senti a areia no fundo do mar oscilar lentamente em resposta, tentando lutar contra a água pesada em cima. Fechei os olhos e abaixei as mãos, concentrando meu foco ali enquanto acelerávamos sobre a água.
Senti a areia relutante enquanto a dor na lateral do corpo ficava mais forte, quase me derrubando enquanto eu me esforçava para controlar meu poder.
— Agora! — Jin gritou.
Puxei meu poder ao mesmo tempo que os marujos puxaram os nós. Velas inflaram ao vento e a areia se levantou para nos encontrar, chicoteando o fundo do navio.
Houve um balanço instável sob nós, fazendo a embarcação inclinar para a esquerda. Alguns gritos ecoaram pelo convés, e eu segurei com força, lutando para recuperar tanto meu equilíbrio quanto o do navio, deixando a areia embaixo de nós cair por um momento. Deixando a água voltar mesmo enquanto o deserto surgia à nossa frente.
Estávamos prestes a encalhar o navio. Eu torcia para conseguir mantê-lo em movimento.
— Agora, Amani. — Ouvi a voz de Jin novamente e soube que nosso tempo estava acabando. Precisávamos acertar, ou teríamos problemas bem maiores que águas turbulentas. Joguei as mãos para cima e para a frente, arrastando cada grão de areia que conseguia encontrar ao nosso redor como uma tempestade ganhando força, fazendo com que chegássemos à margem.
Atingimos a areia com uma força que chacoalhou todo mundo contra as muretas e o mastro. Eles se prepararam para o impacto, preocupados que desabássemos ao atingir a areia do deserto e caíssemos por terra, restando apenas corpos entre os destroços do navio.
Mas seguimos em frente. A areia não nos parou. Ela ondulou em torno de nós, carregando o navio por cima da costa e para dentro do deserto.
Estávamos velejando em um mar de areia.
O choque veio tão rápido que quase perdi o controle. Recuperei a concentração observando os bancos de areia se formando de cada lado, altos o suficiente para manter o navio estável. Impulsionando-nos para a frente como uma corrente, com a força do vento do nosso lado. Acelerávamos adiante.
Uma euforia frenética borbulhou dentro de mim, apesar da dor. Aquilo era impossível. Mas eu estava conseguindo.
Desloquei o navio, corrigindo o ângulo, quando Jin gritou instruções que não ouvi muito bem. Estávamos voando sobre o deserto implacável. Deslizávamos sobre o mar de areia.
Em um segundo, entendi por que Jin sentia saudades daquilo. A liberdade de planar pelo mundo, esquecendo por um instante de onde veio, sem se preocupar para onde ia. Estar em lugar nenhum por apenas um momento.
Não consegui me conter. Soltei um grito de comemoração. Shazad fez o mesmo em resposta. Ela estava de cara para o vento, com um sorriso que não tinha visto nela desde o resgate de Eremot. O resto do navio rapidamente nos acompanhou, comemorando ao soltar as mãos que tinham ficado com as articulações brancas de tanto se segurar. Ao se darem conta de que estávamos realizando o impossível.
O acampamento gallan surgiu no nosso campo de visão sobre a areia levantada, fileira após fileira de tendas aparecendo em nosso caminho como ilhas no mar de areia. Mas eu não tinha qualquer intenção de parar.
Enquanto nos aproximávamos, podia ver homens em uniformes estrangeiros saindo correndo de suas tendas, acelerando desesperados para sair do nosso caminho. A areia embaixo de nós ondulava conforme chegávamos cada vez mais perto.
— Preparem-se! — Shazad gritou, enquanto eu virava o navio para ficar bem na direção das tendas. — Levantem a bandeira!
Vi algo amassado nas mãos de uma jovem rebelde. Ela prendeu a bandeira em uma corda no mastro principal e começou a puxar, levantando-a bem alto. Shazad e Rahim começaram a gritar ordens de sacar armas, enquanto Jin dava instruções de manobra.
Não ouvi muita coisa. Porque ali, desenrolando-se acima de nós, no topo do mastro, estava a bandeira azul-escura com um sol dourado bordado. O símbolo de Ahmed. Uma declaração da rebelião.
Um sinal para os gallans de quem estava indo atrás deles, de que o país não estava disponível para ser tomado. Porque era nosso.
À minha volta, os rebeldes apontavam armas sobre a beirada do navio, usando a balaustrada como apoio. Vi canhões aparecerem em escotilhas espalhadas pelo casco. Perdi o foco, e o navio balançou um pouco. Mas nos mantive em movimento. Em direção ao caos súbito explodindo no acampamento.
— Todo mundo se segura! — Jin gritou, quando a frente do navio atingiu a primeira tenda.
Senti que ela se despedaçava embaixo do casco, como lenha sob uma bota.
— Fogo! — Shazad gritou enquanto investíamos, destruindo tendas no caminho. De repente, o ar se encheu de tiros e do estrondo dos canhões. Estilhaços voaram, destruindo tudo em seu caminho. O vento levantou uma tenda do chão, arremessando-a para o lado. O sol bateu nela enquanto voava acima de nós, filtrado por uma centena de minúsculos furos no tecido azul-escuro. Por um instante, foi como se uma centena de estrelas brilhasse sobre nós. E então a lona foi levada embora.
À esquerda, uma bala acertou um depósito de pólvora, provocando uma explosão de chamas que se espalhou pelo acampamento, como se ele fosse um papel queimando.
A areia arrastou um soldado, puxando-o na nossa direção, fazendo-o desaparecer sob a proa da embarcação. Pensei em um soldado parecido marchando pela Vila da Poeira quando eu era apenas uma garotinha, as botas levantando poeira enquanto arrastava um homem para fora de sua casa e o executava em nome dos gallans. Então não senti nem um pouco de pena.
Lutei contra a dor na lateral do corpo. Mesmo se afrouxasse um pouco o controle do deserto, o vento ia nos carregar até eu recuperá-lo. Forcei a areia ao nosso redor a empurrar com mais força, atropelando os gallans como uma onda. E então olhei para a frente. Diante de nós, a areia terminava, dando lugar à pedra. O deserto se transformava em montanhas. Entrei em pânico.
— Jin! — eu gritei.
— Eu sei — ele gritou em resposta, já gesticulando para os marujos baixarem as velas, tentando desacelerar o navio.
— Tem uma montanha ali! — gritei.
— Estou vendo — ele disse.
Eu precisava fazer alguma coisa. Observei os outros começarem a se mover freneticamente.
— Segurem-se! — gritei, mas minha voz se perdeu em meio ao ruído de tiros. Chamei a atenção de Shazad levantando levemente as mãos. Ela repetiu minha ordem, mas seu grito foi abafado também. Eu a observei tomar a decisão. Então sacou uma faca e cortou a corda na sua cintura. Praguejei em voz baixa.
Livre, Shazad foi andando pela linha de atiradores repetindo a ordem. Eles embainhavam as armas e passavam os braços pela balaustrada ou pelos mastros, segurando-se.
Esperei. Shazad precisava chegar mais perto. Precisava estar em segurança. Esperei. Esperei. Até não poder mais.
Usei meu poder com toda a força, jogando a areia para o lado em uma torção violenta, para mudar o trajeto do navio em um ângulo reto, puxando o deserto dos dois lados para nos apoiar. Tentei esticar a mão para Shazad quando o navio virou com força para a direita.
Ela estava longe demais. Já dava para perceber quando o navio começou a virar, preparado para catapultar para fora qualquer pessoa que não estivesse presa.
Jin chegou primeiro.
Largando o leme inútil, confiando em sua corda, ele correu pelo convés que se transformava em um declive íngreme. Enquanto eu lutava para manter o navio em pé.
Chegou a Shazad um instante antes de o navio inclinar demais, segurando-a contra si enquanto o chão virava, tensionando a corda em sua cintura.
Respirei de alívio ao ver que a tinha ancorado. Os dois balançaram como um pêndulo enquanto o caos se transformou em calmaria em torno de nós e o navio acomodou-se de lado na areia. Todos continuavam a bordo graças aos nós bem dados.
Eu mal conseguia respirar de tanta agonia, mas ouvi Rahim gritar:
— Está todo mundo vivo?
— Grite se você estiver morto — Sam adicionou. Shazad riu. E então eu estava rindo também. Não conseguia parar.
Porque o que tínhamos acabado de fazer era ridículo e impossível. Mas havíamos conseguido. Ainda estávamos vivos.
E quase na reta final.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!