26 de novembro de 2018

Capítulo 30

EU ODIAVA O MAR.
Içamos a vela na manhã seguinte, com Haytham nos fornecendo um dos navios da sua cidade recuperada e uma tripulação para conduzi-lo.
Da última vez que eu tinha estado no mar, fora drogada e transformada em prisioneira a caminho do palácio. Mas não estar acorrentada acabou não sendo muito melhor. O convés nunca parava de mexer, e depois que perdi a terra de vista um pânico estranho me acometeu. Ahmed me encontrou no interior do navio na primeira noite com a cabeça em um balde. Ele sentou pacientemente ao meu lado, passando a mão com gentileza nas minhas costas enquanto eu vomitava.
Esperei até ter certeza de que não restava mais nada no estômago antes de falar com ele, mesmo sem conseguir reunir coragem de levantar a cabeça da segurança do balde.
— Como você me encontrou? — Sentia gosto de bile na boca.
— Sam — ele disse, enquanto eu levantava devagar o rosto. Ahmed me passou um cantil de água. Aceitei com as mãos tremendo e fiz bochecho para lavar a boca, cuspindo no balde. — Ele disse que não viu você comer nada hoje.
— Deveria me sentir lisonjeada que ele conseguiu tirar os olhos de Shazad por tempo suficiente para notar o que eu estava fazendo. — Afastei um fio de cabelo curto demais para ficar atrás da orelha.
— Aqui. — Ahmed me passou uma folha verde achatada. — Mastigue isso. Vai acalmar seu estômago. Peguei um pouco com o pai sagrado em Tiamat. Achei que poderíamos precisar. Também levei um tempo para me acostumar ao mar, quando eu e Jin embarcamos em nossas aventuras.
Hesitante, enfiei aquilo na boca. Não tinha gosto ruim – era doce e frio na língua. Mastiguei devagar. Ahmed observou enquanto eu tentava me colocar de pé.
— Amani, preciso te perguntar uma coisa — ele disse, depois de uma pausa. Se Ahmed tivesse mais malícia, eu teria achado que fora atrás de mim no momento em que eu estava mais vulnerável de propósito. Mas ele não faria nada do tipo. — Depois que tudo isso acabar, não vou tomar o trono.
Aquilo conseguiu minha atenção.
— O quê?
— Pelo menos não do mesmo jeito que meu pai — ele prosseguiu logo, antes que eu pudesse começar um sermão. — Não pela força, sem dar ao povo uma escolha. Você estava certa: preciso prestar atenção nas pessoas que conhecem o deserto. Vou realizar uma eleição. Deixar as pessoas escolherem seu governante, como acontece nas repúblicas ionianas. Qualquer homem ou mulher que achar que pode ser um governante melhor do que eu poderá se candidatar. Se as pessoas concordarem, poderão optar por outra pessoa que não eu.
Eu o encarei de volta, tentando absorver tudo.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque… — Ahmed esfregou a cicatriz na testa. Era um hábito de quando estava refletindo. — Quero saber o que acha disso.
— Por quê?
Percebi que não estava elaborando muito minhas perguntas. Eu não soava inteligente o bastante nem para amarrar minhas próprias botas, muito menos aconselhar um governante naquele tipo de assunto. Mas, em Sazi, tinha dito que ele não sabia de nada. Que devia me escutar.
— Amani, você conhece este país melhor do que qualquer outro membro da rebelião. Acha que vai funcionar?
Pensei a respeito.
— O que você faria quanto aos jogos do sultim? Eles têm sido usados para determinar o próximo governante desde os primórdios. É uma tradição difícil de quebrar.
— Sei disso. Acha que consigo?
O sultão tinha dito algo para mim na noite de Auranzeb, com o sangue do filho ainda em suas mãos. Que o mundo estava mudando. Que a época dos imortais e da magia estava no fim. Que eles não deveriam poder reger mais nossas vidas – nós é que governaríamos a deles. O sultão era um homem cruel e egoísta. Mas talvez não estivesse errado ao dizer aquilo. Talvez fosse hora de mudar. Talvez o deserto estivesse pronto para escolher seu próprio governante.
— Sim. — Assenti devagar, ainda um pouco zonza. — Acho que pode funcionar.
Os ombros de Ahmed caíram de alívio, e percebi que ele estava nervoso, esperando minha opinião. Ele pressionou a articulação do dedo contra o ponto na testa.
Estiquei a mão até seu cabelo, afastando um dos cachos escuros da frente.
— Onde conseguiu isso? — perguntei, antes que pudesse me conter. Eu conhecia a maioria das cicatrizes no corpo de Jin. Ahmed não tinha tantas. Mas tinha algumas.
— Ah. — Ele riu. — Isso foi minha culpa. Foi no nosso primeiro ano a bordo do Gaivota Negra. Eu aprendia a traçar percursos enquanto Jin passava a maior parte do tempo subindo e descendo pelo cordame. Cometi um erro um dia. Velejamos para dentro de uma tempestade que deveríamos ter evitado. Poderia ter causado um naufrágio. Mas tive sorte, só rachei a cabeça no convés quando o navio quase virou. Achei que ia morrer naquele dia…
— Você tem medo? — perguntei, deixando a mão cair. — De morrer? — Senti a memória do beijo de Zaahir pinicando nos meus lábios.
— Não sei. — Ele parou para refletir. Se alguém me tivesse feito a mesma pergunta, minha resposta seria imediata: “Sim, muito”. Será que isso me tornava uma pessoa egoísta e covarde? — Já vi muito do mundo, entrei em contato com o que diferentes pessoas pensam sobre a morte, e não sei exatamente no que acredito que nos espera depois dela. Mas temo algumas coisas nessa vida. Talvez não morrer, mas perder. Ser aquele que nos levou para a boca do monstro, prometendo que era uma caverna de tesouros. Que outros morram, e que aqueles que já o fizeram por mim tenham se sacrificado à toa. Que tudo o que aconteceu e tudo o que eu fiz seja insignificante e acabe esquecido.
Éramos todos mais egoístas que Ahmed. Por isso ele nos liderava. E estava certo. Não estávamos na rebelião por nós mesmos. Por aquela vida. Mas pelo que poderíamos fazer pelo futuro. O resto de nós podia morrer pela causa. Mas Ahmed precisava viver.
Se eu usasse o beijo de Zaahir em Balir, Ahmed talvez caísse nos últimos momentos. Ele poderia morrer nos levando à vitória. Mas eu tinha medo de que, se não o usasse em Balir, ficaria tentada demais a dá-lo a Jin.
Porque eu sempre seria mais egoísta que Ahmed.


Levamos três dias para chegar ao extremo norte de Miraji, e mais dois até nos aproximarmos de um porto novamente. No percurso para Ghasab, navegamos tão próximos da costa que a sombra das montanhas centrais caiu sobre o navio. Todos subiram para o convés para observar enquanto passávamos por elas, cruzando a fronteira da Miraji oriental para a ocidental, bem longe de onde tínhamos cruzado antes.
Estávamos chegando perto.
Perto de levar Rahim até seu exército, de tirar os homens de Balir e marchar com eles para Izman.
Eu só havia passado pela cidade portuária de Ghasab uma vez – duas se contasse quando fui arrastada inconsciente pela minha tia. Mas não tivera exatamente a oportunidade de conhecê-la.
Ahmed enviou os gêmeos para fazer um relatório um dia antes de aportarmos. Podiam ser alguns dias até Iliaz a pé, mas eram apenas algumas horas para dois falcões. Eles retornaram antes do sol se pôr. Maz aterrissou no cesto de gávea e desceu até o convés na forma de um macaco, enquanto Izz calculou mal o pouso e saiu rolando. Só não quebrou o pescoço porque se transformou em uma serpente antes de voltar a ser um garoto pelado aos nossos pés.
Izz chegou até nós primeiro.
— Tem um exército — ele disse, sem fôlego, mas sem conseguir esconder a alegria de ganhar de Maz.
— Vocês estavam apostando corrida? — Shazad perguntou, jogando uma camisa para Izz.
Ele a amarrou na cintura, em respeito a nós, e sorriu orgulhoso.
— Eu ganhei.
— Dá para notar — Shazad disse, passando uma calça para Maz, que chegava rabugento ao pé do mastro e se transformava em garoto de novo. — Como assim um exército?
— Iliaz — Maz disse, vestindo a calça. — Tem um exército acampado na base ocidental das montanhas.
— Eles usam bandeiras azuis — Izz adicionou.
— Gallans — eu disse, sentindo o sangue gelar. — O que estão fazendo aqui?
Eu tinha descoberto que meu enjoo era bem mais tolerável se ficasse no convés, onde o ar era menos viciado. E as folhas que Ahmed tinha me dado ajudavam um pouco. Estava dormindo no convés, sob as estrelas. Jin costumava ficar por lá também, ajudando a operar aquele navio monstruoso que eu não entendia nem apreciava.
Eu o vinha evitando desde que Zaahir tinha me beijado, já que qualquer vontade de beijá-lo envolveria uma decisão muito maior do que eu estava pronta para fazer.
— Provavelmente estão mantendo uma rota de suprimentos para Izman pelas montanhas. — Rahim cruzou os braços, apoiando as costas contra um dos enormes mastros. — É o que eu faria se estivesse montando um cerco. Era querer muito esperar que tivessem a decência de ficar fora do nosso país enquanto lutamos entre nós mesmos, não?
— Quantos? — Shazad perguntou, em tom mais sério. Ela olhou em volta rápido, garantindo que ninguém mais estivesse perto o suficiente para ouvir.
Os gêmeos trocaram olhares encabulados. Izz coçou o cabeço azul, que ficou espetado, antes de nos encarar.
— Muitos? — ele chutou.
— Diria que pelo menos duas vezes isso — Maz assentiu, solene.
— Um número grande demais para enfrentar diretamente — Jin interpretou para o resto de nós.
— Tem algum jeito de passar por eles ocultos sob uma ilusão? — Shazad perguntou para a princesa demdji.
— Acho que não consigo esconder tantas pessoas. — Delila mordeu o lábio enquanto olhava em volta. — Somos quase trezentos agora.
O vento marinho ficou mais forte, passando seus dedos flutuantes por nossos cabelos, jogando alguns fios soltos sobre o rosto da general, perdida em reflexão.
— Poderíamos voar sobre eles — disse Ahmed, pressionando o ponto na testa.
— Mas apenas carregando poucos de cada vez — Jin apontou, inclinado sobre o leme enquanto nos movíamos gentilmente pela água. Olhei para além da faixa estreita de oceano azul reluzente. Tínhamos acabado de passar pela montanha. A costa não era mais feita de campos verdes e pomares de frutas doces. Era areia dourada e quente. Deserto. Meu deserto.
— Levaria tempo demais — Rahim concordou com Jin, o que era raro. — E é um risco nos dividir.
— Você conhece essas montanhas; existe algum caminho alternativo? — Shazad perguntou a Rahim.
Eu me vi buscando a areia mesmo sem notar. Minhas costelas doeram em resposta, mas o deserto respondeu, deslocando-se enquanto eu tamborilava os dedos no ponto dolorido. Tive o início de uma ideia. Só não dava para dizer se era do tipo que ia matar todos nós.
— A montanha é bem defendida — Rahim disse. — Sem estradas, só trilhas. Podemos tentar um caminho, mas perderíamos pelo menos uma semana, e…
— E se atravessarmos direto? — perguntei, interrompendo-o. — Não pelo lado ou por cima, mas pelo meio — eu disse, fazendo um pequeno gesto para a frente, como uma faca cortando a seda. Mesmo daquela distância, senti a areia se deslocar, como uma corrente de água. As engrenagens na minha cabeça ainda estavam girando. Eu me perguntava se realmente poderíamos fazer aquilo ou se eu estava enlouquecendo.
— Não — Ahmed já estava balançando a cabeça. — Vocês ouviram Shazad: uma luta seria suicídio. Não podemos arriscar.
Mas Shazad me conhecia bem o suficiente para saber que nem eu era imprudente o bastante para sugerir passar lutando. Ela estava me observando, sua mente trabalhando rápido, tentando descobrir qual era minha ideia.
— Você não está falando de uma luta, está?
— Não uma luta justa, pelo menos. — Podia sentir o entusiasmo borbulhando. — E se passássemos de navio?
Houve alguns instantes de silêncio completo, com todo mundo me encarando como se eu fosse maluca. Todos exceto Shazad, que entendeu de imediato. Jin a alcançou logo em seguida.
— Então, só para deixar claro… — Jin se inclinou para frente, com seu olhar fixo em mim, falando devagar. Se o conhecesse um pouco menos, acharia que estava prestes a me dar uma bronca. Mas ele estava com aquele sorriso no rosto. Íamos nos meter em uma grande enrascada, e Jin estava adorando. — Você está sugerindo navegar pela areia usando seu dom?
— Acha que funcionaria? — Shazad perguntou.
— A areia é funda o suficiente — eu disse. Quanto mais pensava, mais animada ficava. Era a adrenalina de estar de volta ao deserto. — Acho que posso tentar.
— Você sabe que um navio não é achatado, certo? — Jin disse, mas a faísca continuava lá. — Você vai ter que manter o casco equilibrado.
— Sem seus poderes em força total? — Ahmed perguntou. — Amani, é arriscado.
Eles não confiavam em mim. Não inteiramente. Podia ver a dúvida pairando em cada um dos rostos que me olhavam. Achavam que eu não era forte o suficiente. Que tinha autoconfiança demais. Mas se meu poder estava se esvaindo e meus dias estavam contados, então podia muito bem usar o que restava para fazer algo grandioso. Deixá-lo fluir todo para fora de mim antes de morrer.
— Tudo o que fazemos é arriscado — eu disse. — E temos lutas mais difíceis do que essa esperando por nós em Izman. Não quero perder mais tempo.
— Tem certeza de que está pronta para isso, Bandida? — Jin segurou o leme com mais força.
Dei de ombros.
— O que pode acontecer?
— Podemos todos morrer — Rahim respondeu.
— E qual é a novidade? — perguntei.
Observei as pessoas à minha volta lentamente absorverem a ideia de que talvez puséssemos aquele plano em prática. E o que aquilo podia significar. Talvez fosse possível.
— Seria um aríete e tanto — Shazad admitiu.
— Se Amani pode fazer isso… — Rahim começou a dizer.
— Ela pode — Jin disse, olhando para mim. Ele estava do meu lado, assim como Shazad. Só precisávamos de mais uma pessoa. Todos olharam para Ahmed. Ele era inescrutável. Um traço que compartilhava com seu pai. Inclinou a cabeça para frente, pensativo, por um longo momento.
Eu estava prestes a dizer alguma coisa, a lutar pela minha ideia, argumentar que era capaz, quando ele levantou a cabeça. O príncipe rebelde tinha desaparecido. Ele não parecia mais com seu pai; finalmente parecia com um sultão.
E então assentiu.

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