26 de novembro de 2018

Capítulo 29

A CIDADE DE TIAMAT NEM TEVE CHANCE.
Levamos quase duas semanas de caminhada para chegar ao mar. Teria sido duas vezes mais rápido se não tivéssemos parado com tanta frequência.
Quando a rebelião estava quase completamente recuperada de Eremot, finalmente nos preparamos para viajar. Empacotamos o que podíamos carregar, o que Sazi podia oferecer, usando os gêmeos e pessoas a pé.
Finalmente estávamos tão prontos para partir quanto possível.
Mas nem todos iriam conosco.
Tamid decidiu ficar. Eu já tinha imaginado que ele não ia nos acompanhar, mas ainda assim era um pouco perturbador partir sem ele.
— Você poderia ir conosco, sabia? — eu disse, na manhã em que nos preparamos para partir. — Seria bom ter alguém para curar os feridos. — Ele era bom no que fazia. Eu o vira fazer um curativo no nariz sangrando de Rahim alguns dias antes, quando Jin o acertara no rosto em uma demonstração para nossos novos recrutas. Dez dias em Sazi e o relacionamento daqueles dois não havia melhorado nem um pouco.
— Meu lugar é aqui, Amani. — Tamid se apoiava com força na perna postiça no chão irregular da montanha. — Sempre foi. — Dava para ver que sua mente estava em outro lugar. — Você não precisa fazer isso, sabia? — ele disse, finalmente. — Voltar lá e… — Morrer. Ele não conseguia dizer a palavra. — Se ficasse…
— Tenho que ir, Tamid — eu disse, interrompendo-o. — Meu lugar é com eles. — Ofereci um sorriso fraco para aplacar a dureza das palavras. — Sempre foi.
Ele assentiu. Eu sabia que entendia, mesmo sem realmente entender. Assim como eu entendia que ele precisava ficar ali, mesmo sem jamais ter entendido como poderia querer aquilo. Então só ficamos em silêncio na montanha. Esperando o momento em que nossos caminhos nos levariam para bem longe um do outro. Provavelmente para sempre. Era de manhã cedo e estava mais frio lá no alto. Um leve arrepio me percorreu. Para minha surpresa, Tamid estendeu os braços e colocou-os ao meu redor, sem jeito. Meu antigo amigo. Se fosse morrer em Izman, era bom saber que pelo menos tínhamos perdoado um ao outro.
Todos se despediram. Alguns olhos se encheram de lágrimas, conforme famílias diziam adeus para os homens e mulheres que tinham se juntado a nós. Havia cerca de três dúzias deles no final das contas, somados aos cerca de cem que salváramos das minas. Algumas das pessoas que tinham saído de Eremot decidiram não seguir com a rebelião. A prisão os tinha deixado quebrados demais para continuar a lutar.
— Amani. — Tia Farrah me parou quando estávamos virando para descer a montanha. Fiquei tensa. O que quer que tivesse para me dizer, tinha esperado até o último segundo. O que significava que não era algo bom. Shazad notou e parou do meu lado, como se estivesse de guarda. Fiquei grata pelo apoio, mas o rosto de tia Farrah não estava tomado pelo veneno dessa vez. — Shira… — Ouvi a dor em pronunciar o nome da filha morta. — Ela teve um filho?
— Sim. — Ajustei nervosa a alça do pacote de suprimentos que carregava. Tia Farrah era mais família para Fadi do que a rebelião; era sua avó. Tinha mais direito a criá-lo do que nós. Mas ele também era um demdji. Eu não podia simplesmente entregá-lo para ser criado como eu fui, sem saber quem era. Como Noorsham, uma bomba de puro poder esperando para explodir. Se ela me pedisse seu único neto e eu tivesse que dizer não… bem, talvez a estivesse deixando para trás em termos muito piores do que da última vez. Ainda assim, não me contive. — Ela deu a ele o nome de Fadi. Uma homenagem ao avô. Nosso avô. Seu pai.
— Se você… — tia Farrah começou a dizer, então mordeu o lábio, como se tivesse dificuldade de colocar as palavras para fora. — Eu gostaria de conhecer meu neto um dia… se for possível.
Esperei, mas dessa vez não houve ameaça, exigência, menosprezo em sua tentativa de obter o que queria. Hesitei antes de responder.
— Eu não sei… — Não sei se posso confiar em deixá-lo com você. — Eu não sei como as coisas vão terminar aqui. Estamos em guerra. — E existe uma boa chance de eu não estar viva para trazê-lo até você.
Tia Farrah assentiu duramente.
— Eu sei. Mas vai tentar?
Isso eu podia oferecer a ela. Era uma promessa que eu poderia manter.
— Vou.
Então dei as costas a ela, antes de ver a esperança surgir em seu rosto, sabendo que tentar talvez não fosse o suficiente.


Descemos pela montanha em direção ao túnel ferroviário que ligava Miraji ocidental ao oriente, passando pelas montanhas centrais. Haytham Al-Fawzi estava ansioso para recuperar sua cidade. Todos estávamos ansiosos para terminar aquela guerra.
No caminho, passamos por Juniper e Massil, o lugar onde Jin e eu tínhamos nos juntado a uma caravana na época em que eu mal era a Bandida de Olhos Azuis e ele não passava de um estrangeiro. Não éramos uma demdji e um príncipe. Eu não sabia que o djinni que contavam que inundara o mar com areia em Massil era meu pai.
Lá, de pé no mesmo poço no meio da cidade onde Jin certa vez lutou para provar sua destreza para a caravana Joelho de Camelo, Delila contou a história do príncipe Ahmed novamente, como tinha feito em Sazi, com imagens que correspondiam às suas palavras fluindo de seus dedos. Quando terminou, tínhamos mais meia dúzia de recrutas. A maioria era de jovens da cidade em ruínas, mas alguns deixaram suas caravanas para nos acompanhar. Deixar o clã geralmente não era bem-visto, mas assumiram o risco e colocaram suas vidas em nossas mãos.
Um dia depois de passar por Massil, cruzamos o túnel ferroviário que levava do deserto para Miraji oriental. Partimos ao nascer do sol, andando o mais rápido possível. Todos sabiam que não era uma boa ideia estar sob a montanha quando escurecesse. Conseguimos chegar ao outro lado antes da noite cair.
Por pouco. O sol estava se pondo quando saímos.
Meses haviam se passado desde que perdêramos o acampamento rebelde no ataque, mas, por um momento, quando chegamos ao outro lado da montanha, pensei que não estava saindo de um túnel, e sim de uma porta secreta.
O vale que se estendia abaixo de nós era esmeralda, com colinas cobertas de grama. Nada de areia do deserto. Aquela era outra Miraji, parecendo estar a mil quilômetros de distância daquela na qual eu crescera. Árvores pesadas com as últimas frutas do verão pontilhavam a paisagem entre os campos, e o ar cheirava a chuva. Abruptamente, os gêmeos partiram, assumindo a forma de dois falcões para mergulhar vale abaixo, seus guinchos altos preenchendo o ar.
O sudeste de Miraji era cheio de vilarejos agrícolas, e paramos em cada um que havia em nosso caminho. Delila contava a história de Ahmed e mais gente se juntava a nós, preparando seus suprimentos para acompanhar o herói de Miraji, o príncipe rebelde trazido de volta à vida. Em pouco tempo, a história tinha se espalhado à nossa frente, mudando de forma ao longo do caminho.
Diziam que Ahmed tinha sido escolhido pelos djinnis para salvar Miraji. Que tinha sido trazido de volta dos mortos, refeito pelas mãos das próprias criaturas que haviam nos criado. Para alguns, ele não era totalmente humano. Quando passávamos pelas cidades, as pessoas saíam de casa para rezar para ele, para chamá-lo, só para vê-lo. E alguém sempre se juntava a nós.
Se a pessoa soubesse lutar ou pudesse ser treinada, Shazad permitia que viesse conosco. Ahmed pedia aos mais jovens e aos mais velhos que ficassem para trás, que não oferecessem suas vidas, prometendo lutar por eles.
E havia também as histórias de que ele era invencível. Que tinha sido ressuscitado por um djinni e não podia ser derrotado. Senti minha mão deslizar para a faca de Zaahir inconscientemente enquanto aquela história era repetida.
Quando finalmente chegamos a Tiamat, éramos três vezes mais numerosos do que quando havíamos deixado as montanhas. Não éramos apenas uma turba. Tínhamos constituído um exército.
Ao meio-dia, estávamos na encosta que dava para a baía de Tiamat. Shazad estudava a cidade de braços cruzados, como se estivesse disposta a desmontá-la tijolo por tijolo. Tiamat tinha muros, mas podíamos atravessá-los facilmente. E tínhamos Delila, se precisássemos nos esconder. E os gêmeos, se precisássemos passar por cima.
— Não tem como o emir não saber que estamos a caminho — Shazad disse, pensando em voz alta, seu cabelo voando no ar quente que vinha do mar enquanto observava nosso alvo. Ela quase parecia com seu antigo eu, depois de semanas de caminhada, ar fresco e sol. — E não tem como acharem que podem resistir ao nosso ataque. Ele nem tentou barrar os portões.
— Não — concordei, apertando os olhos em direção à cidade lá embaixo. Estávamos quase lá, e senti um surto súbito de impaciência ao ver nosso alvo. Os navios de que precisávamos estavam aportados logo depois daqueles muros. Prontos para nos levar para o norte. — Então que tal simplesmente entrar?
Imaginei que Shazad fosse discordar de mim. Mas não.
Entramos na cidade como se tivéssemos sido convidados. Haytham e Ahmed lideraram o avanço, seguidos por Shazad e eu, com Jin protegendo a retaguarda. Os gêmeos mantinham sua vigília lá em cima como beija-flores, zunindo de um lado para o outro, prontos para mudar para uma forma mais ameaçadora se precisássemos. Rahim foi deixado com o exército perto da entrada da cidade. Caso precisássemos de reforços.
Ninguém nos parou nos portões de Tiamat, embora muitas pessoas tenham se aproximado para observar, curiosas: o príncipe rebelde, de volta dos mortos, caminhando lado a lado com seu emir por direito, que tinha sido levado meses antes. Eu nunca estivera em uma cidade daquelas. Marchamos por ruas limpas, largas e bem pavimentadas, canteiros de flores e plantas enfeitando paredes pintadas com cores vibrantes.
A grande casa do emir ficava no ponto mais ao leste da cidade, uma grande estrutura quadrada pintada de azul-claro dando para a água. Tão perto, na verdade, que a brisa do mar levantou a bandeira branca que tinha sido hasteada sobre seu telhado, agitando-a conforme nos aproximamos.
Então o irmão de Haytham tinha nos visto chegar. E estava se rendendo.
— Se alguém se rende, não se pode matar a pessoa? — Haytham perguntou, apertando os olhos em direção à bandeira sobre sua casa. Ele era cerca de uma década mais velho que nós, embora parecesse ainda mais depois do tempo que passara em Eremot. Seu cabelo encaracolado cobria a sobrancelha. Ele tinha ficado preso lá mais tempo que Ahmed e os outros, e carregava marcas que eu sabia que nunca seriam apagadas. Mas havia uma nova leveza nele agora que estava de volta à sua cidade.
— Tradicionalmente não — Shazad aconselhou.
— Por outro lado, somos bons em quebrar tradições — Jin comentou. Eu podia senti-lo logo atrás de mim enquanto subíamos os degraus brancos e limpos. Quando virei para trás para olhá-lo, seus olhos não estavam em mim. Estavam fixos nos navios no porto logo abaixo. Ele e Ahmed tinham passado a maior parte da vida no mar. Havia uma expressão de contentamento em seu rosto que eu não via fazia muito tempo, agora que nos encontrávamos tão próximos da água.
Entramos cautelosos na casa, apesar da bandeira branca. Mas não havia uma emboscada. Avançamos com cuidado. Corredores de mármore se estendiam ao nosso redor, vazios, assim como cada aposento, exceto pela brisa marinha balançando as cortinas. Não haveria ninguém ali de quem se vingar, mesmo que Haytham quisesse.
— Ele fugiu — o emir declarou, empurrando uma porta aberta que dava para um conjunto de quartos que imaginei que pertencessem ao emir. O interior estava revirado, como se alguém tivesse pego seus pertences correndo. — Covarde.
Ele devia ter ouvido que estávamos chegando. Mas eu sentia que não eram notícias de nosso exército ou de nossas armas que o fizeram fugir. Era a notícia de que o príncipe rebelde tinha voltado dos mortos. Nem precisamos lutar, com a história de Ahmed nos antecedendo.
Aquele era o poder de uma lenda.


Nos dividimos, começando uma rápida busca. O irmão de Haytham não podia ter chegado muito longe. Shazad e eu nos ocupamos do térreo, enquanto Haytham saía em busca dos criados que costumavam trabalhar ali. Se alguém tivesse respostas, seriam eles.
Shazad fez uma careta ao empurrar uma porta.
— O que foi? — perguntei, já estendendo a mão para sacar a arma.
— Não, não — ela me interrompeu. A porta dava para um pequeno pátio, com uma fonte na parede. Acima dela havia um mosaico inacabado e multicolorido. Parecia mostrar o rosto de um homem. — Se algum dia eu pensar que é uma boa ideia colocar um retrato de dois metros de altura de mim mesma em casa, você promete me dar um tabefe?
Dei risada, relaxando a mão na arma.
— Você sabe que é perigoso demdjis fazerem promessas — brinquei.
Ela estava prestes a dizer alguma coisa quando ouvimos o ruído. Parecia um choro de criança. Vinha de algum ponto logo atrás de uma porta de madeira no pátio. A leveza desapareceu do rosto de Shazad imediatamente, e ela pôs a mão na espada.
Shazad não disse nada. Nem precisava. Tínhamos lutado bastante juntas. Eu sabia do que ela precisava. Assenti discretamente enquanto se movia em direção à porta, sacando minha arma. Respiramos fundo.
Shazad empurrou a porta abruptamente, com a espada empunhada, enquanto eu oferecia cobertura com minha arma.
E então paramos.
Além da porta ficava outro jardinzinho, cheio de pessoas encolhidas. Contei cerca de duas dúzias de mulheres e pelo menos duas vezes mais crianças, desde bebês de colo até algumas de treze anos.
Shazad abaixou a lâmina, mas as crianças já estavam chorando. As mulheres puxaram os bebês para mais perto do peito.
— Está tudo bem! — ela disse, levantando as mãos agora vazias. — Não estamos aqui para machucar vocês.
Eu sabia quem eles eram. O nome do garoto escondido atrás da mãe ali perto era Bassam. Eu o vira certa vez, de pé na beira de um lago, com o arco na mão, passando pelo rito da maturidade. A mão de seu pai estivera em seu ombro.
Eram as esposas e os filhos do sultão.
Leyla dissera que o restante do harém tinha sido mandado embora quando o cerco se aproximara. Para um lugar seguro.
Tiamat era aquele lugar. Pelo menos até chegarmos.
— Não vamos ferir vocês — Shazad repetiu, enquanto eu tocava a faca que Zaahir tinha me dado.
Use para tirar a vida de outro príncipe, e prometo que este sobreviverá à batalha para tomar o trono.
A vida de um príncipe pela de outro.
Achei que ele tinha dito aquilo como uma provocação brutal, que eu deveria matar Jin ou Rahim, quando sabia que nunca poderia fazê-lo. Uma oferta de ajuda que eu nunca usaria.
Só que eu havia mantido a faca. E agora estava diante de dezenas de príncipes.
Não estamos aqui para machucar vocês, Shazad tinha dito a eles.
De repente, perdi o fôlego. Fugi do jardim, ignorando os chamados de Shazad. Achei meu caminho rapidamente de volta para a rua. Encontrei a estrada para o mar com facilidade, e logo estava de pé nas docas, observando os navios e a extensão de água interminável e aterrorizante. Arranquei a faca da bainha e a arremessei. Tinha boa mira — ela fez um arco e aterrissou no meio das ondas, afundando bem longe do meu alcance. Tirando de mim a chance de fazer algo tolo e desesperado.
— Não me admira que quisesse salvá-lo. — Levantei a cabeça, assustada pela voz. Havia um homem atrás de mim, com as costas contra a parede e uma pequena coleção de moedas diante de seus pés sujos e descalços. — Tem medo de fazer as escolhas erradas, não é?
Olhei em volta, confusa, mas todas as outras pessoas nas docas estavam cuidando da própria vida, sem olhar nem de relance em nossa direção. O homem não podia estar falando com outra pessoa além de mim.
— Quer saber o que eu acho? — Ele parou e estendeu a mão na minha direção, como se estivesse implorando por uma moeda. Encontrei uma moeda no bolso e a entreguei. — Acho que você é egoísta. — Ele a embolsou rápido. — Todos aqueles príncipes para escolher, que não significam nada para você, e não consegue matar um deles para salvar milhares de pessoas, quando lhe dei essa oportunidade.
Foi então que ele me encarou diretamente, e vi que seus olhos eram da cor de brasas.
— Zaahir. — Eu o reconheci, mesmo disfarçado de humano. — O que você quer?
— Queria saber o que você faria. — Ele levantou, deslizando as costas pela parede de pedra atrás dele. — Mas também estou aqui para cumprir minhas promessas. — Enquanto falava, seu corpo mudou, transformando-se no de um jovem perturbadoramente parecido com Ahmed. — Você queria um jeito de colocar seu príncipe no trono, e prometi dar um a você. Mas acabou de jogá-lo fora.
Jin me dissera uma vez que a coincidência não tinha o mesmo senso de humor cruel do destino. Os djinnis tinham o mesmo senso de humor cruel – e poder o suficiente para abrir uma montanha. Para transformar um garoto numa muralha de chamas. Para me levar até ali, do outro lado do deserto, e me dar exatamente o que tinha pedido: um jeito de manter Ahmed vivo.
— São crianças.
— Você também é — ele disse. — Importa mesmo se uma vida dura um punhado de anos, dois ou três? — Percebi que ele realmente esperava uma resposta. Havia passado toda a sua existência fora do mundo mortal. Não nos entendia nem um pouco. Não compreendia a diferença entre ter dez, vinte e cem anos. Éramos todos jovens para ele. — Seria mais fácil matar se fosse um homem? — ele perguntou. — Não, não deve ser isso, porque então você teria matado os outros dois príncipes com quem viaja. Ah, mas você precisa deles. De cada um de um jeito diferente. — Quando sorriu, seu rosto se transformou novamente, ficando parecido com o de Jin. — Você já matou antes, filha de Bahadur. Não negue.
— Matar pessoas para salvar… — Eu me interrompi quando um sorriso dissimulado se espalhou pelo rosto perturbadoramente parecido com o de Jin. — Matar pessoas em combate é diferente.
— Isso é uma guerra. Mas, se insiste, eis outro presente que posso dar a você.
Ele se moveu rápido demais para meus olhos acompanharem. Desapareceu de onde estava e reapareceu bem na minha frente. Não tive nem tempo de evitar antes que me segurasse, com mais força do que qualquer mortal poderia. Era mais como estar presa nas rochas de uma montanha do que ser segurada por braços feitos de carne e osso.
— Esse é meu novo presente, filha de Bahadur.
Então ele me beijou, antes que eu pudesse me afastar. Não como um homem mortal. Sua boca era de fogo, e a minha ardia sob ela. E então, com a mesma rapidez, se afastou.
Por um instante, algo mudou em seu rosto. A certeza se transformou na mesma insanidade perplexa que tinha visto em sua expressão na montanha. Lembrei algo que ele tinha dito. Que eu parecia com ela. A primeira heroína. Ele tinha convivido com a mortalidade tanto tempo quanto os outros djinnis, mas longe do mundo. Não tinha sido amolecido pelo tempo ou pela morte de milhares como eles tinham.
— O que foi isso? — Levei a mão à boca, mas meus lábios estavam na mesma temperatura de sempre.
— Um presente de vida. — Seu toque não parecia pele quente: parecia ar, pedra e fogo. — Você não pode mantê-lo. Mas pode passá-lo adiante, e prometo que a pessoa que o receber viverá até a velhice.
Primeiro ele tinha me dado a chance de matar alguém, agora estava me dando a chance de salvar alguém. Ahmed, se quisesse.
Ou Jin. O pensamento egoísta surgiu mais rápido do que pude evitar.
E então tive outra ideia. Balir. Se usasse nele, poderíamos tomar Iliaz sem derramamento de sangue, como tínhamos tomado aquela cidade. Eu poderia oferecer a ele um jeito de escapar da morte.

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