26 de novembro de 2018

Capítulo 28

O DIA SEGUINTE CHEGOU COM UMA NOVA ALVORADA.
Não conversamos sobre o que havia sido dito no escuro da noite anterior. Tínhamos uma guerra para vencer.
Shazad e Rahim fizeram um inventário das armas entregues ao entrar no acampamento. Havia o suficiente para todos, se nos organizássemos. Jin, Sam e eu recuperamos nossas próprias armas. Ninguém pareceu notar que eu tinha uma nova faca na cintura.
— Quem sabe atirar? — Shazad perguntou aos novos recrutas, agrupados à frente dela. A maioria levantou as mãos. Aquilo não era surpreendente; estávamos no Último Condado. Quando você fabrica armas, tende a saber como usá-las. — E quanto à luta corpo a corpo?
As mãos caíram, e eu vi Samir se inclinar em direção ao homem do lado dele e dizer algo em voz baixa, com um sorriso no canto da boca.
— Tem algo a dizer? — Shazad perguntou, sempre atenta.
Tive a sensação de que ele se perguntava por que estava escutando uma mulher quando tinha declarado sua lealdade a um príncipe. Podia ver a mesma pergunta em alguns rostos à nossa volta.
— Estava dizendo que não adianta muito ter uma faca quando uma arma é apontada para você.
— Você já viu as ruas de Izman? — Shazad não esperou a resposta. — Elas são tão estreitas que metade do tempo não dá para caminhar com outra pessoa do lado, quanto mais virar rápido o suficiente para atirar antes que o oponente esteja em cima de você. É aí que você precisa ser capaz de lutar homem contra homem.
— E como uma mulher saberia lutar homem contra homem? — outro garoto disse, dando uma risadinha.
Shazad levantou as sobrancelhas. Dei um passo para trás.
— Sabe de uma coisa? — ela disse, virando na direção dele. — Por que não vem até aqui me enfrentar? Quem conseguir me acertar pode assumir o comando do treinamento.
Um pequeno público estava se juntando agora. Todos que já tinham visto Shazad lutar sabiam exatamente o que aconteceria. Os rebeldes se cutucavam enquanto o garoto dava um passo à frente, parecendo confiante demais.
— Não parece uma luta justa — o garoto disse, em um tom despreocupado. Tinha quase duas vezes o peso de Shazad, largo onde ela era magra, mais magra ainda depois do seu tempo em Eremot.
— Está longe de uma luta justa — Jin comentou da lateral. Todos formavam um círculo agora, aguardando.
— Ah, meu amigo. — Sam deu uma batidinha nas costas do garoto. — Sinto muito por sua perda.
— Minha perda? — o jovem idiota disse.
— Da sua dignidade.
Ele sorriu com pesar antes de dar um passo para trás e ficar ao meu lado.
O desafiante avançou em direção à general, com seus punhos desajeitados e sua força bruta. Shazad se movia como uma lâmina na água, concentrando-se nas pernas desajeitadas dele. Ela dançou facilmente sob seus punhos, pegando-o no tornozelo com o pé. E rápido assim ele estava no chão e ela mantinha uma faca na sua garganta. A luta tinha durado menos de três segundos.
— E agora você está morto — Shazad disse.
— Isso não é justo — ele disse, sem fôlego, lutando para respirar com o joelho dela pressionando seu peito. Tive a sensação de que Shazad estava pressionando um pouco mais forte do que era estritamente necessário, para fortalecer seu argumento.
— Foi você quem disse que não era uma luta justa. — Shazad levantou, embainhando a faca.
O garoto cambaleou para ficar de pé também. Percebi que ia tentar golpeá-la de novo tarde demais para gritar um aviso. Mas Shazad não precisava de ajuda. Segurou a mão dele quando agarrou seu ombro, agachando-se e desequilibrando-o no processo. A própria raiva trabalhou contra ele, que tropeçou nela e caiu de costas, atingindo o chão com força novamente.
— Além do mais, a guerra não é justa. — Shazad virou, deixando-o tossindo na poeira. — Mas se vocês querem ver uma luta um pouco mais justa… — Ela olhou em volta no círculo, finalmente parando em Jin. Chamou-o com um aceno.
Ele deu um passo à frente, entrando na arena improvisada e tirando a camisa no caminho. Na minha frente, entre os novos recrutas, vi uma das poucas garotas que tinha levantado para lutar por Ahmed baixar os olhos, envergonhada, antes de levantá-los de novo, com as sobrancelhas arqueadas. Jin parecia impressionante o suficiente de camisa, mas sem ela era puro músculo e tatuagens, em contraste com a estrutura mais delgada de Shazad. Ele alongou os braços, fazendo a tatuagem de bússola se movimentar.
Coloquei os dedos na boca, soltando um assovio alto. Jin riu, piscando para mim por cima do ombro. Não conseguia lembrar da última vez que as coisas tinham sido tão fáceis entre todos nós, a última vez em que estivéramos juntos daquele jeito. Não lutando para sobreviver, só vivendo.
— Se eles se matarem — Sam disse, deslizando para perto — que tal eu e você deixarmos os joguinhos pra lá e ficarmos juntos?
Nem Shazad nem Jin se moveram de imediato, ambos estudando um ao outro de uma distância segura. Eu já tinha visto os dois lutarem, mas nunca um contra o outro. Eles tinham treinado Ahmed juntos, recordei. Antes dos jogos do sultim, quando ele havia enfrentado Kadir. Conheciam o estilo de luta um do outro. Não atacariam rápido demais.
Shazad moveu-se primeiro, um golpe direto atravessando as defesas de Jin. Ele bateu forte nela, o antebraço defletindo o ataque e mirando um golpe na lateral de seu corpo, enquanto Shazad desviava. Eles se separaram antes de se chocarem de novo. Sem esperar para recuperar o fôlego, Shazad mirou a mandíbula de Jin, que agachou para se esquivar, ganhando uma breve vantagem ao desviar para a esquerda enquanto ela rolava para longe do golpe que vinha na sua direção.
Eles lutavam como um borrão. Ela era mais rápida. Ele era mais forte.
No final, aconteceu tão rápido que quase não vi. Shazad se aproximou de Jin por trás como uma serpente, abaixando-se enquanto ele golpeava, a faca dele subitamente na própria garganta. Retirada do cinto sem ele nem perceber.
Sem pensar, minha mão dançou para a faca de Zaahir, a leveza de antes subitamente perdida.
Jin riu enquanto Shazad o soltava, jogando sua lâmina de volta para ele.
— Mais alguém? — ela perguntou, abrindo bem os braços. Ninguém se voluntariou. Eu não sabia o que mais seria necessário para treinar nossos recrutas, mas não achava que Shazad teria que se preocupar com recusas a seguir sua liderança.
— Bandida de Olhos Azuis — Samir me chamou, com os olhos brilhantes de alguém que ainda não entendia que lutar implicava sangue. Significava morte, não aventura. — Não vai lutar com ela?
— Essa não seria uma luta justa — Shazad disse.
— Não — concordei, e quando Shazad virou, estava encarando o cano da minha arma. Pisquei para ela. — Não seria.
Shazad tirou alguma coisa do bolso: uma laranja, colhida naquela manhã de um baú enterrado na montanha. Ela a arremessou no ar, num arco alto. Acompanhei o alvo com o cano da arma até seu ponto mais alto. E, logo antes de começar a cair, atirei.
A laranja caiu no chão numa confusão de polpa e casca dilacerada.
— Agora — Shazad disse, voltando-se mais uma vez para os recrutas —, vamos começar de novo. Quem acha que pode atirar como Amani?


— Eles estarão prontos quando chegarmos a Izman? — Ahmed perguntou aquela noite. Shazad tinha deixado todo mundo exausto de tanto treinar antes de liberá-los para ir às preces que Tamid conduzia ao pôr do sol.
Tamid estava de pé onde, poucos dias antes, eu tinha visto meu irmão abençoar os homens e mulheres reunidos. Conduziu todos em uma prece pela alma de Noorsham, pedindo que ele nos protegesse por muito tempo. Também rezou pela segurança daqueles que tinham se levantado para lutar ao lado de Ahmed.
Era estranho observá-lo; Tamid parecia à vontade. Como se estivesse destinado a ficar de pé diante de nosso povo, nossas famílias. Costumava pensar que nunca íamos nos encaixar naquele lugar. Mas ele se sentia bem ali, de um jeito que eu nunca conseguira. Ou nunca quisera.
Eu pertencia à rebelião.
Em vez de ir às preces, nos reunimos em uma pequena tenda apoiada contra uma das paredes do que costumava ser Sazi. Os últimos raios da luz ficavam vermelhos ao serem filtrados pela tenda, jogando um brilho parecido com uma chama em nossos rostos.
Nossa reunião ali era como um eco distante de algo familiar. Do nosso acampamento antigo e de todas as vezes em que estivéramos juntos para bolar um plano. Só que, agora, todos pareciam sombras de si mesmos. Ahmed, Shazad e Delila estavam exauridos. Marcados pela dor, pelo cansaço e por algo mais: a vivência do sofrimento que o sultão impunha ao país. Do que um homem no alto da hierarquia podia fazer com o resto. Do que significaria para aqueles que sobrevivessem se perdêssemos a guerra, para aqueles que deixaríamos para trás, sob o governo de um homem que tinha enviado hordas de pessoas para Eremot.
Éramos como uma imagem desbotada em um livro que tinha perdido muito do seu brilho.
— Acha que devemos levar os novos recrutas conosco? — Ahmed perguntou.
— Não acho que podemos nos dar ao luxo de recusar ajuda — disse Shazad.
— Mesmo com o consumo extra de suprimentos? — Eu podia ouvir a pergunta que Ahmed estava realmente fazendo. Mesmo se os estivermos levando para a morte?
A general olhou rapidamente para mim antes de prosseguir.
— Assumindo que a gente consiga desligar aquela máquina, é uma luta que pode ser vencida numericamente.
— Talvez precisemos deles antes de chegar a Iliaz. Considerando os novos amigos estrangeiros que Balir tem conquistado. — O comentário pareceu irritado, embora não fosse minha intenção. Rahim e Ahmed me olharam sem compreender. Não tinham passado tanto tempo longe, mas Miraji tinha mudado bastante. Eu vinha liderando a rebelião, mas agora tinha que devolver a autoridade a Ahmed. Achei que seria um alívio. Pelo visto havia me acostumado um pouco ao peso enquanto ele esteve fora. — As coisas mudaram enquanto vocês estavam em Eremot. E, sabe, não vai cair pedaço se de vez em quando você perguntar as coisas a alguém que de fato conhece o deserto. — As palavras saíam em uma torrente agora, meu sotaque ficando cada vez mais carregado. — Por exemplo, acho que teria sido interessante você saber como as pessoas reagiriam à ausência de Noorsham na nossa volta. Delila não precisaria salvar nossa pele. E outra coisa que posso dizer é que Iliaz está entupida de albish. Eles estão tentando forjar uma aliança com os gallans e avançar contra Izman juntos. Na minha opinião, se dois inimigos se virarem contra nós ao mesmo tempo, estamos perdidos. Mesmo que conquistássemos o trono, não seria por muito tempo. — Ahmed continuou a me escutar, pressionando um ponto da testa enquanto eu os atualizava. Que para chegar a Izman teríamos que passar pelas invenções de Leyla e por nossos inimigos estrangeiros. Que Iliaz estava ocupada. Então apontei para Rahim. — Seu lorde Balir também está ajudando, oferecendo passagem pelas montanhas para eles. Se não fizermos isso direito, vamos enfrentar mais inimigos do que podemos antes mesmo de chegar à cidade.
— Meus homens estão seguindo ordens — Rahim disse, na defensiva. — Não são traidores.
— Somos todos traidores — Jin apontou. Ele estava sentado com um joelho dobrado, o braço pendurado preguiçosamente nele, mas seu foco era claro. Ele não confiava em Rahim. Nem mesmo com Ahmed e Delila tratando-o como se fosse um irmão. Apesar de ser seu irmão também. — Precisamos que sejam traidores em nosso favor. O que faremos se não forem tão leais a você quanto pensa?
— Que tal nos preocuparmos com isso quando chegarmos lá? — interrompi, tentando separar a briga antes que começasse. — Aliás, como vamos chegar lá?
— Usando um dos nossos novos amigos de Eremot — Shazad disse, sem hesitar. — Haytham Al-Fawzi. Ele é, ou era, o emir de Tiamat antes de ser preso por abrigar simpatizantes rebeldes. Seu irmão governa Tiamat agora, mas a cidade pertence a ele por direito. Acredito que podemos retomar o poder lá.
— E é um porto marítimo — Jin completou, compreendendo. — Você quer viajar de Tiamat para Iliaz pelo mar.
— Seria mais fácil do que ir para o norte a pé — Ahmed disse, tentando pacificar as coisas. — Podemos atracar em Ghasab e chegar a Iliaz de lá.
— Não tenho tanta certeza de que quero retornar a Iliaz — Sam comentou, garantindo que Shazad ouvisse o que estava dizendo. E não tinha mesmo como ela não escutar, já que estávamos todos tão próximos um do outro que nossos joelhos se tocavam. — Considerando que quase morri naquele lugar. — Ele estufou o peito um pouco.
— Metade das pessoas aqui quase morreu em Iliaz — Rahim informou, tenso.
— No caso de Amani, só porque você atirou nela — Jin interveio, e Sam deu uma risadinha baixa. Olhei em volta no círculo e vi Shazad revirar os olhos. Mas eu estava procurando outra pessoa. Percebi que era Hala. Esperava que ela interviesse, dissesse algo que colocaria os valentões em seu devido lugar.
— As únicas pessoas que não vão para Iliaz são as que se comportarem como crianças — Shazad retrucou, ríspida. — Porque não quero crianças no meu exército. — Um rápido silêncio recaiu sobre a tenda. Shazad assumiu o controle. — Agora, eis o que vamos fazer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!