26 de novembro de 2018

Capítulo 27

QUANDO ACORDEI, SENTINDO UM MOVIMENTO SOB MIM, o sol estava se pondo. Pisquei cansada, como se estivesse voltando à vida.
— Ela acordou — uma voz familiar e pesarosa disse bem baixo no meu ouvido. Inclinei a cabeça para trás. Jin estava atrás de mim. Eu estava apoiada em seu peito, seu braço em torno da minha cintura para me equilibrar. Percebi que estávamos em um cavalo. Um cavalo azul. Izz. O resto do grupo estava ao nosso redor, caminhando em um ritmo vagaroso, mas constante. Pelo visto, descíamos a montanha. — Você desmaiou — Jin explicou atrás de mim. Senti sua mão deslizar para longe por um instante, e então voltar com um cantil de água. Bebi, grata.
Tudo depois de libertar Zaahir não passava de um borrão.
Nas histórias, djinnis apareciam e desapareciam em meio a fumaça e grandes estrondos. Mas quando libertei Zaahir, ele simplesmente sumiu. Tinha sido como despertar de um sonho. E tudo o que sobrara fora destruição.
A última coisa da qual me lembrava era de Jin me encontrando, agachando no meio das cinzas e me puxando para perto.
— Tamid disse que você deve ter batido a cabeça quando caiu. — Senti a vibração no peito de Jin nas minhas costas enquanto falava. — Por isso apagou. Mas precisávamos seguir em frente, então te carregamos.
Ele falara no plural, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Mas não era. Realmente éramos “nós” naquele momento. Porque tínhamos conseguido. Havíamos resgatado os outros.
Compreendi o que tinha acontecido ao olhar em volta e ver os rostos à luz do dia. Shazad caminhava alguns passos à frente, com Sam ao lado dela, matraqueando na velocidade de um trem desgovernado. Não conseguia ouvir o que ele dizia, mas de vez em quando um sorrisinho iluminava o rosto dela. Ao nosso lado, Tamid mancava dolorosamente montanha abaixo, com os olhos atentos ao caminho para não tropeçar, às vezes se apoiando em Delila. Ou talvez ela estivesse se apoiando nele, era difícil dizer. Ahmed liderava o caminho, com Rahim ao seu lado, e a multidão de ex-prisioneiros se arrastava atrás deles em direção à segurança. Éramos um bando de dar pena: feridos, queimados, mortos de fome, enlameados, exaustos.
Mas livres. Tínhamos conseguido o impossível. Saíramos vivos de Eremot.
— Onde estamos? — perguntei com a voz rouca.
— Quase em Sazi — Jin disse. Ele indicou o céu com a cabeça, e notei um pequeno pássaro voando em círculos sobre nós. Maz, nosso batedor.
Um súbito pânico tomou conta de mim. Precisávamos desacelerar. Precisávamos ser cuidadosos.
— Posso caminhar — eu disse rápido. — Izz, pare, por favor. — O demdji obedeceu e eu passei uma perna por cima dele, deslizando de suas costas. Jin me seguiu, me ajudando a me equilibrar quando cheguei ao chão, zonza.
Abri caminho pela massa cansada de rebeldes e ex-prisioneiros. Precisava falar com Ahmed. Não podíamos simplesmente entrar em Sazi. Mas era tarde demais. Quando cheguei à frente do grupo, vi os arredores da cidade. Pessoas já se reuniam no fundo da encosta, encarando-nos ansiosas. Mas eu sabia que não estavam nos esperando. Estavam esperando Noorsham.
— Onde ele está? — alguém na multidão gritou conforme nos aproximávamos. — O que fizeram com ele?
Ahmed franziu a testa ao se voltar para mim.
— Do que estão falando?
Não respondi. Em vez disso, gritei para a multidão:
— Ele está… — “Morto” ficou preso na minha língua, ao pararmos a alguns passos de distância. Não era verdade. Ele não estava morto. Tampouco estava vivo. — Noorsham não vai voltar.
Um murmúrio passou pela multidão em torno de nós conforme a notícia era digerida. Me remexi nervosa. Não levaria muito tempo para aquilo virar raiva.
— Você o matou. — A acusação veio de uma mulher magricela na frente da multidão.
— Não — protestei, sacudindo a cabeça, procurando frenética pelas palavras certas. Shazad abriu caminho para ficar ao meu lado. Dava para sentir a tensão se acumulando nela, como costumava acontecer antes de uma luta.
— Mentirosa! — alguém gritou do fundo, com raiva. O restante da multidão se remexia, incerto, mas eu não achava que demoraria muito para se voltarem contra nós.
— Ela não está mentindo — Tamid disse, mas sua voz foi abafada pelos gritos.
Sam chegou por trás de mim.
— Isso não parece bom.
Encorajado pela turba se formando atrás dele, um homem avançou em minha direção. Shazad podia estar fraca, mas ainda se movia mais rápido do que muitos, e em um segundo se colocou entre nós.
— Tente — ela desafiou.
O homem deu outro passo, parecendo realmente pretender nos enfrentar. Eu me sentia drenada. Exaurida demais para lutar. Mas não tínhamos escolha. Ahmed tinha nos levado de volta para lá, quando devíamos ter passado longe. E agora tínhamos uma turba para enfrentar. Eu tinha visto do que eram capazes quando haviam nos forçado a confrontar o Olho. Podíamos estar em número igual, mas éramos um bando maltrapilho de prisioneiros cansados, e eles eram uma massa furiosa de devotos.
Atrás do homem beligerante, uma mulher pegou uma pedra do chão e se preparou para arremessá-la.
E então, justo quando os últimos raios do sol começavam a se apagar, uma luz surgiu da face da montanha. Bem entre Shazad e o primeiro homem que tinha nos desafiado, o ar pareceu se revirar, mudando a escuridão para dezenas de cores. E então se espalhou no espaço aberto entre os habitantes raivosos de Sazi e nosso grupo, formando uma coleção de soldados de bronze encarando uma muralha ardente. Uma ilusão em miniatura do que tinha nos aguardado do lado de fora de Eremot.
A mulher cambaleou para trás, derrubando a pedra enquanto minúsculos abdals surgiam em torno de seus pés como flores. Delila deu um passo à frente, destacando-se.
— Ela não está mentindo. — Falava suavemente, mas isso não a impedia de ser ouvida. Não quando estava conjurando imagens no ar. — Ele não está morto. Caminhou para os braços da morte como um herói. — Enquanto Delila contava, uma imagem pequena de Noorsham se materializava, avançando.
A voz dela era gentil e melódica. Sempre fora. Era o que fazia todo mundo achar que era frágil, que precisava ser protegida. Mas também era uma boa voz para histórias. Ela prendia a atenção da multidão facilmente, conforme suas palavras e ilusões trabalhavam juntas para narrar. Delila escolhia suas palavras com cuidado, parando nos momentos certos. Ela, que tinha sido assunto de tantas histórias, sobre a esposa infiel do sultão e o retorno do príncipe rebelde, naquele momento contava outra. Sua voz falhou quando chegou no final, quando a alma de Noorsham se esvaiu do corpo, assumindo o lugar da Muralha de Ashra.
— Como podem ver — as ilusões de Delila sumiram no ar — ele não vai retornar. Mas nós viemos aqui.
Escuridão e silêncio se seguiram, conforme a magia das palavras lentamente se dissipava.
E então um homem caiu de joelhos. Outro caiu atrás dele, e então outro e outro, até que, no espaço de alguns instantes, todo o povo de Noorsham estava ajoelhado diante de Delila.
Ela tinha conseguido. Havia nos salvado. E sem uma única arma. Eu tinha me esquecido da força que uma história podia ter.
De repente, do meio da multidão, um garoto se levantou abruptamente. Percebi que o conhecia. Ele era da Vila da Poeira. Chamava Samir e era cerca de um ano mais novo do que eu. Minha mão procurou uma arma que não estava lá. Mas ele não fez menção de atacar.
— Você é realmente o príncipe rebelde? — Samir perguntou.
Todos os olhos se voltaram para Ahmed.
— Sou.
— Eu poderia lutar por você — o garoto declarou em altos brados. — Contra o sultão. Ele matou nosso líder. Nos expulsou de casa. — Um murmúrio de concordância passou pela multidão. — Eu lutaria por você.
— Eu também. — Outro homem, mais velho, se levantou. — Se nosso líder estava disposto a morrer por você, eu também estou.
— E eu. — Era uma garota que se levantava agora, com o cabelo escuro e curto atrás das orelhas, a voz um pouco mais baixa que a dos homens.
— Eu também. — Eu conhecia aquela voz. Era Olia, minha prima mais próxima em idade, depois que Shira tinha partido. Nunca imaginara que alguém como ela podia se importar com alguma coisa a ponto de lutar por ela. Mas Hala tinha sido assim muito tempo antes. Eu também. Notei a mãe de Olia, a segunda esposa do meu tio, segurar o braço dela, como se fosse puxá-la. Mas Olia se soltou, mantendo-se altiva enquanto outros levantavam em volta dela, declarando sua lealdade.
Delila tinha feito muito mais do que nos salvar. Havia mobilizado as pessoas.
Todos os olhos estavam em Ahmed quando percebi Shazad se afastar devagar da frente do grupo, escapando sorrateira.
Sam também a viu. Ele ergueu uma sobrancelha para mim quando nossos olhares se encontraram. Sacudi a cabeça em negativa, querendo dizer: Fique aqui. Saí discretamente atrás dela.
Pelo menos dessa vez ele obedeceu.
— Shazad. — Eu não a chamei até estarmos longe do alcance dos ouvidos dos outros. À minha frente, na encosta da montanha, ela se sobressaltou, quase perdendo o equilíbrio. Eu nunca tinha visto algo rápido ou silencioso o suficiente para surpreendê-la.
— Desculpa — Shazad disse, quando percebeu que era eu. — Eu tinha que sair. Não conseguia respirar. — Ela se agachou para sentar na encosta da montanha. — Precisava… — Ela deixou a frase no ar, incerta sobre do que precisava. Eu tampouco sabia.
— Quer que eu vá embora?
— Não — ela disse. — Não quero ser… — Ela se interrompeu, rindo com pesar. — Eu não tinha medo do escuro quando era nova.
— Ainda somos novas — eu disse, agachando ao lado dela. Shazad tinha ficado sozinha no escuro por três dias. Seria suficiente para deixar muitas pessoas mais do que assustadas.
— Eles também — ela disse. Seu rosto entrava e saía das trevas no início da noite, como se estivesse sendo levada pela correnteza e eu tivesse que lutar para segurá-la. — E alguns vão morrer por nossa causa, você sabe.
Eu sabia. Mas dizer isso em voz alta tornaria tudo verdade, o que eu não queria.
— Mandei Imin para a morte — ela disse, depois de um longo momento de silêncio. Fiquei calada. Já imaginava que tinha sido Shazad a autora do plano para que Imin morresse no lugar de Ahmed. Ela era a estrategista. Era ela quem fazia as escolhas difíceis por nós. — O que significa que matei Navid também. — Aquilo me pegou de surpresa. Percebi de repente que não o vira na fuga de Eremot. Mas não tinha visto muitos rebeldes. — Ele simplesmente caiu morto na prisão sob o palácio. Parou de respirar quando o sol se pôs.
— Quando Imin foi decapitada — percebi. Eles tinham feito um voto quando se casaram: Compartilho minha vida com você. Até o dia da nossa morte. Um voto feito por um demdji era algo perigoso. Lorde Balir havia contado com isso para salvar sua vida. Mas também era o que havia extinguido a de Navid.
— Achei que ia morrer lá embaixo. Vi os dois de novo e de novo. Esperando por mim.
Eu não achava que Shazad estivera sozinha no escuro. Não achava que aquelas imagens fossem apenas culpa. Mas naquele momento achei que contar minha teoria não ajudaria.
— Eu matei Hala — eu disse, com a voz falhando. Shazad levantou a cabeça de imediato ao absorver minhas palavras. Não era como se a tivesse deixado morrer ou a enviado para a morte. Eu tinha tomado sua vida.
— O que aconteceu? — ela perguntou, depois de um instante. Soava mais ponderada, mais como ela mesma. Como uma general estudando cada detalhe da última fatalidade.
— O sultão ia controlar Hala se eu não a matasse… — A frase ficou no ar. — Fiz o que precisava ser feito. O que você teria feito.
Ficamos em silêncio, sentadas lado a lado na montanha, os ruídos do acampamento lá embaixo flutuando até nós, lamentando por aqueles que havíamos perdido: Hala, Navid, Imin, Shira, Bahi e tantos outros que nem conseguíamos contar. Lamentando que nem todos conosco em Sazi viveriam para ver Ahmed sentar no trono, se aquilo fosse acontecer.
Incluindo eu mesma.
— Tamid disse… — Hesitei, mas precisava contar para alguém. Ninguém sabia o que ele havia me contado na Casa Oculta. Não importara até aquele dia. Até Tamid ler as palavras pintadas acima do portal que levava a Zaahir. As mesmas que tinha procurado em todos os cantos, aquelas que poderiam libertar o que restava de Fereshteh das entranhas da máquina e permitir que ele morresse, nos dando uma chance na luta contra o sultão. — Tamid acha que tem uma boa chance de que eu morra se libertar Fereshteh. — Shazad levantou a cabeça de novo. — Mas se ninguém desativar a máquina, teremos que enfrentar os abdals. E não importa quantas pessoas se unam a nós, não acho que vamos ter muita chance contra eles.
Shazad levou a mão à boca enquanto refletia.
— Já contou isso a ele?
Ela estava falando de Jin, não Ahmed. Nós duas sabíamos, mesmo sem dizer uma palavra, que eu não poderia contar ao príncipe rebelde. Ele tentaria achar um jeito de me salvar. Mas eu tampouco sabia se conseguiria contar para Jin. Estava contando para Shazad porque sabia que ela entenderia. Lutaria por mim enquanto pudesse e lamentaria minha perda se não conseguisse me salvar. Mas não tentaria me impedir. Porque faria o mesmo no meu lugar.
Lembrei lá do início, quando estávamos no trem fugindo e eu a segurei, evitando que caísse nos trilhos e morresse. Shazad me dissera para soltá-la, assim como Hala nas mãos do sultão. Pelo bem maior. Ela nunca teve medo. Pensei no que Sam tinha dito no Peixe Branco: que quem não tinha medo de morrer era burro ou mentiroso. Eu sabia que não podia ser a segunda, mas não gostava de pensar que fosse a primeira. E o que eu seria se pedisse que outros morressem pela causa, mas não estivesse disposta a fazer o mesmo?
— Mas digo uma coisa a você: se for para morrer, acho bom vencermos essa porcaria de guerra.
Shazad deixou escapar uma risadinha enquanto dava impulso para levantar.
— Bem, então é melhor fazermos alguma coisa a respeito dos nossos novos recrutas — ela disse, oferecendo a mão para me ajudar.
Enquanto me puxava para cima, senti alguma coisa se chocando contra minha cintura. Quando olhei, soube o que era, mesmo com apenas um breve reflexo de luz no metal. A faca que Zaahir tinha me dado. De alguma forma, ela tinha sobrevivido a Eremot, aninhada no meu cinto.
Então percebi, com uma sensação gradual de pavor, que o jeito de vencer aquela guerra estava pendurado na minha cintura. Um jeito simples de garantir que minha morte valesse a pena.
Tudo o que eu precisava fazer era matar um príncipe.

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