26 de novembro de 2018

Capítulo 26

EU ME JOGUEI DE VOLTA AO ABRIGO DO TÚNEL no momento em que uma onda de calor e fogo era disparada pelos abdals, inundando o espaço atrás de mim. As pessoas gritavam e recuavam em direção à montanha.
Shazad me puxou enquanto eu focava meu poder demdji, invocando qualquer grão de areia que encontrasse para tentar bloquear a boca do túnel. Mas minhas forças haviam se esgotado salvando Shazad, e meu poder pareceu escapar do meu alcance, me abandonando.
Pelo canto do olho, vi uma pessoa queimar, virando pó antes de o fogo apagar tão rápido quanto tinha acendido. Minha pele estava irritada pelo calor, meus pulmões ardiam.
— Devíamos bater em retirada — Shazad disse, sem fôlego. Atrás de nós, Rahim e Ahmed tentavam controlar o pânico no túnel. Os rebeldes que já tinham visto abdals antes estavam mais calmos, mas era a primeira vez que os outros prisioneiros enfrentavam algo parecido. Eles corriam em direção a qualquer lugar que pudesse servir de abrigo, voltando para Eremot.
Minha mente acelerou, tentando encontrar um jeito de resolver a situação. Tínhamos algumas centenas de prisioneiros sem qualquer condição de lutar, um djinni que tinha virado nosso joguinho de cabeça para baixo e duas demdjis exauridas.
Lá fora, eu podia ouvir os passos metálicos dos abdals se aproximando da boca do túnel. Pretendiam terminar o serviço, forçando-nos a voltar para a escuridão de Eremot, onde poderiam nos eliminar facilmente.
Troquei um olhar com Shazad e vi o mesmo medo exposto em seu rosto. Foi então que soube que estávamos realmente em apuros. Eu nunca a tinha visto sem ideias. Estávamos perdidos. Tínhamos chegado tão longe para então morrer na fronteira da liberdade.
E, de repente, os passos metálicos pararam.
Congelei, sentindo as batidas do meu coração em pânico. Dava quase para ouvi-lo no silêncio súbito. E então uma voz veio lá de fora, distante demais para que eu pudesse entender as palavras. Uma voz que eu conhecia, embora tivesse levado um instante para identificá-la.
Noorsham.
Entrei em movimento antes que Shazad pudesse me parar, correndo de volta para a boca do túnel. Quando cheguei à área aberta, Zaahir tinha desaparecido. Lá, de pé atrás dos abdals e dos soldados do sultão, estava Noorsham. Mais para trás podia enxergar Jin, Sam, Tamid e os gêmeos.
Como eles tinham me encontrado?
A bússola de Ahmed. Coloquei a mão no bolso, sentindo seu peso. Tinha esquecido dela, mas ainda estava ali. Eu já devia saber que Jin não ia esperar pacientemente que eu voltasse. Ele tinha me rastreado uma vez a partir de Sazi, muito tempo antes. E agora o conseguira de novo. Alívio e medo lutavam dentro de mim. Mesmo se fosse o fim, pelo menos estávamos juntos de novo. Sobreviveríamos todos ou morreríamos todos ali.
Noorsham parecia terrivelmente vulnerável em comparação com o exército de abdals. Ele não vestia uma armadura de bronze como eles. Não portava nada além das roupas simples do deserto. Estava de pé, com as mãos estendidas, como estivera no dia anterior, diante do povo em Sazi. Mas as correntes de ferro que eu tinha colocado nele haviam sido retiradas. Seu poder estava livre.
Entendi o que ele estava prestes a fazer um segundo antes de os abdals se virarem para encará-lo, conjurando seu próprio fogo contra o dele.
— Não! — O grito saiu rasgando a minha garganta, mas era tarde demais. O poder de Noorsham enfrentou o dos abdals enquanto eles inundavam a montanha. Fogo feito pelo homem, roubado dos djinnis, correndo para encontrar o dom destrutivo demdji do meu irmão. Corri na direção dele, sabendo que não havia nada que pudesse fazer. Nenhum jeito de impedir o que estava prestes a acontecer.
Foi como se um novo sol estivesse nascendo.
A explosão floresceu reluzente e violenta, invadindo tudo em torno dela. Me atingiu como uma lança de calor e luz, me derrubando e me cegando. Mas eu ainda podia sentir o cheiro de queimado. Podia sentir o gosto de sangue.
E, então, de cinzas.


Despertei violentamente da inconsciência. Não podia ter passado muito tempo. Meus ouvidos ainda zumbiam com o choque da explosão, meus pulmões ainda ardiam. Sentei, agonizando. Mas a dor não era nada comparada ao calor que fazia minha pele arder. Até meu lado demdji estava lutando para lidar com ele. Encontrei um jeito de levantar mesmo assim.
O campo de batalha de fogo estava agora frio e escuro.
Os soldados de carne e osso eram apenas cinzas. Não havia qualquer sinal de suas tendas ou do acampamento que tinham construído ali. Tudo tinha sido arrasado. Mas havia pedaços de abdals em meio à destruição. O bronze tinha se fundido às pedras, como cicatrizes brilhantes na montanha. Vi um rosto de bronze, algumas de suas feições ainda inteiras, seu nariz sobressaindo da pedra, sua boca distorcida pelo calor em um grito grotesco.
Corri cambaleando pelos restos de uma luta breve e sem sangue até o único corpo que não era feito de metal ou cinzas. Noorsham estava desabado em meio à devastação que tinha causado.
Me ajoelhei ao seu lado. Seu peito subia e descia com a respiração rasa. Ele tinha queimaduras feias, metade do seu rosto estava preto e irreconhecível. Éramos demdjis, não devíamos queimar tão fácil. Mas aquele era fogo djinni, e éramos apenas metade djinni. Nossa outra metade era terrivelmente mortal.
Ele não parecia em nada com a arma com a qual eu tinha deparado naquele trem. Ou com o homem que liderara todo um povo em direção à retidão. Parecia apenas um garoto do deserto, jovem, indefeso e morrendo. Olhos como o céu me encararam, arregalados e amedrontados, como se ele não conseguisse entender o que estava acontecendo. Como se quisesse que eu explicasse, que o reconfortasse. Como se precisasse de sua irmã.
— O que está fazendo aqui? — Meus lábios estavam machucados, e as pontas dos meus dedos ardiam ao segurá-lo. Eu devia estar gritando. Lembro que, depois que Imin morreu, todo o pesar de Hala saiu em um grito estrangulado que preencheu a Casa Oculta. Então ela ficara em silêncio por dias.
— Viemos salvar você — ele disse com a voz rouca, tentando me procurar com o olho bom.
Mesmo depois que o tinha traído. Mesmo depois de ter sido acorrentado. Depois que Jin, sem dúvida alguma, o arrastara montanha acima como um prisioneiro para me procurar. Mesmo depois de tudo aquilo, Noorsham tinha escolhido nos salvar.
— Bem, foi idiotice. — Eu queria colocar a mão no coração dele, para mantê-lo batendo por pura força de vontade, mas estava lento demais.
Não conseguia lidar com aquilo. Outro demdji cuja chama se apagava tão cedo, como Hala, Imin, Hawa e Ashra. Meu irmão caído por causa de uma luta que nem era dele, quando tinha sobrevivido a tanta coisa.
Uma sombra caiu sobre seu rosto. Olhei para cima, esperando encontrar Jin, Shazad, ou alguém que pudesse me ajudar. Mas era Zaahir quem estava de pé ali, me observando impassível e cruel. Eu queria gritar que não era justo. Mas djinnis não se importavam com justiça. Eles negociavam acordos, desejos e vontades. E o Criador de Pecados queria uma só coisa.
— Salve Noorsham — eu disse. — Você prometeu que faria o que eu quisesse, e o que eu quero é salvar meu irmão. Faça isso e libertarei você. Por favor.
Zaahir observou Noorsham lutar por mais um instante, sua respiração saindo rasgada dos pulmões queimados, em contagem regressiva.
— Seu corpo está quebrado demais — ele disse. — Não consigo.
— Não me importo. — Um soluço veio da parte mais antiga do meu ser, a parte da minha alma que era imortal e não estava acostumada à morte. A parte que entendia o que os seres primordiais tinham sentido quando haviam assistido ao primeiro deles morrer e se tornar estrela, encontrando seu próprio fim, quando o pesar e o desespero, a fúria e a impotência, tinham nascido. — Quero salvar meu irmão. Se fizer isso, estará livre. Terminaremos aqui. Por favor. Estou implorando. Salve Noorsham e libertarei você.
Zaahir inclinou a cabeça quase imperceptivelmente. Ele não parecia tão impiedoso como um instante atrás. Sabia o que era perder alguém quando não se estava pronto.
— Temos um acordo, filha de Bahadur.
O sol ardia sobre nós. Zaahir me empurrou para trás sem encostar em mim. Foi como se o ar me pegasse gentilmente pelos ombros, levando-me para longe. Como um parente gentil me puxando do leito de um doente para que um pai sagrado pudesse trabalhar. Para que eu não tivesse que assistir a algo terrível.
Ele levantou Noorsham também sem encostar nele. Tive medo de que o machucasse, de que estivesse fraco demais para ser movido, mas engoli o protesto que surgiu na minha garganta.
E então… foi como se o corpo desaparecesse no ar, como areia espalhada pelo vento, deixando Noorsham ali, mas em vez de carne, osso e sangue, ele era feito de luz. Como a Muralha de Ashra.
A multidão de prisioneiros se abriu conforme Zaahir avançava, com Noorsham flutuando diante dele.
Eu queria salvá-lo. Queria que ele vivesse. Tinha pedido aquilo a Zaahir. Mas ele não tinha me dito que tipo de vida Noorsham teria.
E havia outro poder presente ali. A mãe de Noorsham tinha desejado que seu filho demdji fizesse algo grandioso. Nosso pai tinha concedido o desejo. Meu irmão tinha acreditado nisso, em nome de Deus.
Eu nem sabia se Deus existia. Mas sabia que monstros, sim. E que deles meu irmão podia nos proteger.
Todos os olhos se voltaram para a forma fulgurante de Noorsham quando chegou ao mesmo lugar onde a alma de Ashra estivera como muralha por milhares de anos. Seu vulto mudava, parecendo crescer. Foi como se Noorsham se voltasse em direção à montanha e a abraçasse antes de todo traço de corpo desaparecer, transformando-se em uma muralha incandescente de luz.
Ele estava de guarda onde Ashra tinha estado, liberando-a de seu dever depois de milhares de anos. Nos protegendo do mal que morava lá dentro. Ali Noorsham conseguiria o que tinha desejado. Salvaria muito mais pessoas do que tinha matado.
E sua mãe também conseguiria o que havia desejado. Grandiosidade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!