26 de novembro de 2018

Capítulo 25


A FENDA NO CHÃO ENGOLIA VORAZMENTE A LUZ enquanto tentávamos espiar ali dentro. O lugar onde Shazad tinha caído. Parecia descer infinitamente. Só que eu sabia que não era verdade, porque…
— Ela está viva. — Pude respirar melhor depois de saber disso. Depois de dizer em voz alta. Talvez estivesse ferida lá embaixo. Provavelmente passava fome, porque fazia três dias, pelas estimativas de Ahmed, que não tinha alvoradas e crepúsculos para medir o tempo.
Mas pelo menos estava viva.
Olhei de relance para Zaahir.
— Quero tirar Shazad daí.
Mas o djinni só encarava incrédulo a escuridão lá embaixo. Finalmente, ele abriu a boca:
— Então sugiro que comece a descer, filha de Bahadur. — Ele jogou algo para mim, que peguei no ar sem pensar. Era uma minúscula faísca de fogo. Quase a deixei cair antes de perceber que não estava quente. Não queimava, só produzia luz.
Meu primeiro pensamento foi de que era algum outro joguinho cruel, que era um truque ou uma negociação. E então Zaahir deu um passo cambaleante para trás, para longe do buraco no chão. Era um gesto surpreendentemente mortal. Um tropeço desengonçado, como se seu corpo fosse de carne e sangue, não de fogo. Como se conhecesse o medo.
Medo do que quer que estivesse lá embaixo.
E eu tinha a sensação de que dessa vez não haveria negociação. Nenhum jeito de conseguir que Zaahir entrasse mais fundo na montanha para salvar Shazad.
Então comecei a descer.
Enrolei uma corda em torno da cintura, como lembrava de Jin ter feito uma vez. Mas não tinha jeito para a coisa ou prática. Ahmed deu um passo à frente.
— Pode deixar — ele disse gentilmente, como se pudesse ler o que eu estava pensando: que eu queria que Jin estivesse ali; que desejava não tê-lo deixado para trás.
— Obrigada — eu disse, deixando que desse um nó complexo. Quando terminou, passou a corda por um gancho pendurado no teto, segurando a outra ponta. Rahim foi segurar também.
Então eu desci em direção ao desconhecido.
A escuridão era diferente do outro lado. Nas minas, havia ruído e calor, mas ali o ar ficava parado. Como se tentasse engolir a luz na minha mão.
Desci devagar. Quanto mais fundo chegava, mais sentia que algo me observava. Como se respirasse no meu pescoço. Girei, jogando a luz em meu entorno. Mas não havia nada além de rocha.
Então senti um tremor na corda.
Estiquei a mão para me apoiar na parede, mas não adiantou. Eles continuavam me dando mais corda. Eu estava prestes a dizer algo, gritar para Ahmed e Rahim pararem.
Mas, subitamente, foi como se uma mão cobrisse minha boca. Senti o ar roçando meu pescoço. E então, sem aviso, eu estava caindo.
A queda não era longa, mas atingi o chão com violência. A luz na minha mão não se apagou com a colisão. Puxei a corda para mim até achar a ponta. Parecia um corte limpo, como se feito com faca. Como Ahmed dissera que tinha acontecido com Shazad. A corda não havia se rompido. Era algo diferente.
Um som, como se viesse de muito longe, subia do chão.
Eu estava ouvindo coisas. Tinha que ser. Ou era uma goteira. Um eco da minha própria respiração. Só que não parecia nada disso.
Soava como alguém rindo.
E aquilo me deu medo como jamais havia sentido.
Então a luz na minha mão passou por uma silhueta encolhida, o cabelo escuro caindo sobre o rosto, e esqueci todo o resto. Mesmo parecendo que ela não estava totalmente ali. Só dava para enxergar o branco sujo da camisa e o cabelo.
— Shazad. — Agachei ao lado dela, tomada pelo alívio. Ouvi o soluço na minha própria voz. Parecia mais magra, desgastada. Seus olhos estavam fechados. Mas ela respirava. Eu tinha que acordá-la. — Desculpa — eu disse, me inclinando sobre ela, então dei um tapa forte na sua cara. Ela despertou pronta para lutar, mas sem nenhuma condição de fazê-lo. Então recuou amedrontada diante da luz. Eu nunca a tinha visto recuar.
— Você não é real. — Ela fechou os olhos. — Você não é real. Você não é real. — Ela repetia sem parar.
— Por favor. — Tentei imprimir certa leveza na voz. — Você sabe que eu não mentiria para você.
— Prove. — Sua voz saiu rouca. Ela escondeu a cabeça atrás do cotovelo.
— Se eu conseguir tirar nós duas daqui, acreditaria que sou real?
Finalmente ela abriu os olhos, mas eles pareciam incapazes de se fixar em mim, dançando sem foco sobre meu rosto.
— Seria um bom começo.
Olhei para cima, para a abertura. Não dava para enxergá-la através da escuridão viscosa, mas eu sabia que não podia estar tão longe. Não tinha certeza se eles conseguiriam me ouvir se eu gritasse. E, se ouvissem e jogassem mais corda, de que adiantaria?
Eu só tinha uma ideia. E era impossível. Mesmo que fosse nossa única esperança. Rezei silenciosamente para ainda ter o suficiente do meu dom.
— Segura em mim. — Fechei os olhos, me concentrando totalmente no entorno. Não havia muito naquela montanha, e eu já sabia. Ali, a poeira era composta principalmente de ferro. O deserto estava bem longe.
Mas areia entrava em qualquer lugar. Viera comigo do deserto, pela montanha, presa na minha pele e nas minhas roupas. Nos cabelos dos outros prisioneiros e nas solas dos abdals. Não havia como escapar dela.
Respirei fundo e devagar, lutando contra a dor na lateral do corpo. E então a chamei. Toda ela. Cada grãozinho de areia que conseguia alcançar. Senti a areia começar a se mover acima de nós, remexendo-se e então rastejando na minha direção como centenas de milhares de insetos minúsculos se movendo pelo chão da caverna.
Começou a chover areia. Devagar no início, e então cada vez mais rápido. De repente, ela começou a se derramar ao nosso redor. Não parei. Eu estava com medo demais para sequer respirar para aliviar a dor; com medo demais de soltar e perder o controle.
Reuni a areia sob nós. Tentei pensar em água, em como Sam e Jin nadavam, no jeito como pareciam capazes de fazê-la erguê-los quando parecia querer afogá-los. Reuni a areia, levantando-a à nossa volta com todas as minhas forças.
Senti-a se mover e me dobrei de dor, arfando. Mas sabia que não podia soltar, porque se soltasse íamos nos afogar. Eu tinha que continuar. Precisava. A areia jorrava à nossa volta, levantando-nos cada vez mais. Eu podia ver um fiapo de luz. Estendi a mão, tentando segurar a borda, tentando encontrar um jeito de escapar daquele lugar mesmo enquanto sentia a areia começando a ceder sob meus pés.
Mãos seguraram meus pulsos e os braços de Shazad, nos puxando para fora, então desabamos no chão. Sólido.
Eu a vi caída, respirando com dificuldade, e Rahim a levantando enquanto Ahmed fazia o mesmo por mim. Mas Shazad não desviou o olhar, mantendo os olhos fixos em mim, piscando cansada sob a luz.
— Está bem — ela admitiu. — Você é real.
Comecei a rir, mas caí em prantos. Abracei-a, e de repente estávamos ambas falando ao mesmo tempo. Derramando semanas de palavras que estivemos guardando uma para a outra.
Eu estava tão perto de conseguir libertá-los. Havia apenas duas coisas nos impedindo agora: a Muralha de Ashra e, de acordo com Ahmed, os soldados do outro lado.
Shazad me explicou enquanto mostrava o caminho para fora dos túneis.
— Tem um pequeno acampamento do Exército logo depois da muralha — ela me contou enquanto caminhávamos sobre o chão irregular. — É de lá que controlam os abdals e ficam de olho nas coisas. — Ela andava devagar e respirava com dificuldade, como se já estivesse cansada com a curta caminhada. — Teoricamente, deveríamos limpar os detritos da nossa escavação e esvaziá-los à beira da muralha, onde os soldados podem nos ver. Eles vão suspeitar quando ninguém aparecer.
— Acho que ficariam ainda mais desconfiados se todo mundo aparecesse sem correntes — eu disse, olhando em volta em busca de Delila. Ela caminhava com Ahmed e Rahim. — Delila pode mascarar nossa fuga?
— Não sei. — Shazad sempre era sincera. Ela seguiu pelo declive suave se segurando na parede. — Está todo mundo meio quebrado. — Então olhou de relance por cima do ombro. Zaahir vinha ao fim da fila. — Seu… amigo. Ele pode nos ajudar, não?
Poderia, se sentisse vontade. Mas era mais fácil falar do que fazê-lo cooperar, não importava o que tivesse prometido. Desacelerei o ritmo, deixando os outros prisioneiros se adiantarem à frente, até ficar ao lado de Zaahir.
— Tem soldados esperando do outro lado daquela muralha. Quando passarmos, preciso… — Parei, me interrompendo para escolher as palavras com mais cuidado. — Quero que você nos ajude a passar por eles.
Zaahir me observava com seus olhos inumanos e perturbadores.
— Achei que tínhamos um acordo, filha de Bahadur. Seu grupo livre de Eremot em troca da minha própria liberdade. Uma vez que todos atravessarem a Muralha de Ashra, meu trabalho estará encerrado.
— Planejo manter meu lado da barganha, mas o acordo não termina até que estejam todos seguros. — Eu podia ver uma luz à frente. Era a luz do dia. Devíamos estar quase fora das montanhas. Ou talvez fosse apenas a luz da Muralha de Ashra. De qualquer modo, estávamos chegando perto. — Ainda falta um pouco.
— Ah — Zaahir disse, inclinando a cabeça daquele jeito curioso para me observar. — Entendo. E, mesmo depois que tivermos passado aqueles soldados, nosso acordo ainda não estará terminado, não é? — Eu não disse nada. Ele não estava errado. Depois daqueles soldados na montanha, haveria outras lutas. Outras chances de perder tudo o que tínhamos acabado de salvar. Ter um djinni do nosso lado… Eu não tinha certeza se conseguiria abrir mão disso. — Você deseja mais. — Zaahir assentiu em compreensão. — Acredito que chamem isso de cobiça, não? É a perdição de muitos, ouvi dizer. Nunca desejamos nada antes que seu tipo viesse ao mundo, sabia? Simplesmente tínhamos. Mas você toma e ainda quer mais. Quer que seu príncipe assuma o trono, não?
Sim. E eu o tinha feito jurar que faria o que eu queria. Precisava da ajuda dele. Precisava que Ahmed se sentasse naquele trono. Tinha sacrificado coisas demais para perder agora. Todos tínhamos.
— Você ainda tem uma grande batalha pela frente, não é? — disse Zaahir. — Uma bala perdida, um golpe, e seu príncipe pode sucumbir. Então tudo teria sido em vão. Cada morte. Em vão. — Ele estava dizendo tudo o que eu mais temia. Suas palavras fizeram eu me sentir subitamente desesperada. Tínhamos lutado tanto, mas ainda poderíamos perder Ahmed. Toda a rebelião dependia de um homem muito mortal. — Você quer salvá-lo. É por isso que quer me manter aprisionado. Bem, posso dar a você o que deseja.
Zaahir sacou uma faca da manga, me fazendo recuar de imediato. Mas ele não se moveu como se fosse me matar. Só girou a faca, estendendo o cabo para mim.
— Pegue — instruiu.
— Já tenho uma faca — eu disse, cuidadosa. Estávamos nos aproximando da luz, chegando perto dos soldados. Eu precisava terminar aquela conversa antes de chegarmos, embora ainda não o entendesse direito.
— Ah, mas esta é uma faca capaz de salvar a vida do seu príncipe. — De repente o próprio ar pareceu se fechar em torno da minha mão, levando meus dedos até o cabo. — Use para tirar a vida de outro príncipe, e prometo que este sobreviverá à batalha para tomar o trono.
Eu teria deixado a faca cair na mesma hora, só que o ar ainda pressionava minha mão, forçando-a a segurar a lâmina.
— A vida de um príncipe pela de outro. — Zaahir não riu, mas dava para ver que estava zombando de mim. A vida de um príncipe. Só podia estar falando de Rahim ou Jin. Eles eram os únicos outros príncipes ali. — Ou você pode jogar a faca no chão. — O ar finalmente parou de pressionar meus dedos. — E talvez ele viva, talvez não. Estará nas mãos do destino — Zaahir disse. — Mas nunca ouvi falar que o destino é gentil. E você?
Tampouco, mas não respondi.
Em uma fração de segundo, ele estava diante de mim, e não mais ao meu lado, como uma chama saltando de um telhado para outro em uma cidade pegando fogo. Parei cambaleando. Ele estava tão perto que eu podia ver a cor violenta dos seus olhos quando sibilou as próximas palavras.
— É um erro tentar ser mais esperta do que eu, filha de Bahadur. Ajudei você até agora, mas posso tornar as coisas muito difíceis se não me libertar agora mesmo, não importa o que me fez prometer. Você tem um coração confuso, como todos os humanos. Quer coisas demais. Posso voltar essas coisas umas contra as outras, como animais. Posso destruir você no fundo da sua alma.
Ele se afastou tão rápido quanto tinha se aproximado.
Percebi que todos à nossa frente tinham parado. Havíamos chegado à boca do túnel. Shazad testava na entrada, mantendo todos ali. Mas Zaahir não parou de avançar. Os ex-prisioneiros saíram de seu caminho conforme andava a passos largos, e eu fui atrás. Ela olhou para mim em tom de indagação quando me aproximei. Eu não tinha uma resposta fácil para dar. Não sabia qual era a intenção de Zaahir. Ele passou por Shazad, chegando à parte aberta. Então o segui.
A Muralha de Ashra ficava a uns trinta metros da boca do túnel. Logo depois disso, através da luz instável, pude ver os soldados. Havia fileiras de tendas militares acompanhando a encosta, com suprimentos empilhados entre elas e soldados perambulando. Mais importante: vi o brilho da luz do sol refletindo nas cabeças metálicas.
Abdals. Havia mais deles do lado de fora da muralha. Soldados poderíamos enganar. Tínhamos gente suficiente talvez até para lutar contra eles. Mas não contra abdals.
— Zaahir, espere. — Eu podia sentir minha respiração ficando entrecortada.
Ele parou, bem diante da Muralha de Ashra.
— Liberdade por liberdade, filha de Bahadur. Você fez uma promessa.
Então ele golpeou a Muralha de Ashra violentamente com o braço, que não queimou.
A barreira de luz se estilhaçou.
Lembrei do domo de vidro sobre os aposentos do sultão, fragmentando-se em estrelas. Só que aquelas não caíram no chão. Mais uma vez, Zaahir pareceu puxar a luz para si, como uma fogueira faminta engolindo lenha. Era como assistir ao que ele tinha feito com os abdals, só que mil vezes maior.
E então, de repente, a Muralha de Ashra tinha desaparecido. Não, mais do que isso. Ashra estava morta. Foi assim que ele nos libertou de Eremot. Tinha destruído a alma que protegia o mundo inteiro do que quer que estivesse dentro daquela montanha.
E agora estávamos expostos. Do outro lado de onde existira uma muralha, uma dúzia de rostos surpresos de soldados se voltou na nossa direção. E outra dúzia de rostos impassíveis de abdals nos encarou.
Então eles levantaram as mãos.

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