26 de novembro de 2018

Capítulo 24

— POIS BEM, FILHA DE BAHADUR. — Uma nova luz surgiu, só o suficiente para enxergá-lo livre de sua prisão, subitamente perto demais de mim. O fogo não cintilava mais em seu rosto. Vinha de dentro, um brilho fraco revelando que não era humano. — O que você deseja agora?
A sensação de poder se alastrou por mim, como se fosse me consumir. Eu desejava tantas coisas. Queria que o sultão morresse pelo que tinha feito com Shira, Imin e Hala. Queria vencer aquela guerra por elas, e por todos os outros que tinham morrido. Queria que Ahmed ocupasse o trono e governasse em nome de seu próprio povo em vez de alguma potência estrangeira. Mas eu sabia que não deveria pedir nada tão grande e impreciso. Não era tola. Já tinha ouvido histórias demais de djinnis trapaceiros.
— Quero que me leve para Eremot.
O Criador de Pecados não respondeu. Apenas sorriu.
E então a montanha começou a mexer. Ele não levantou as mãos como eu precisava fazer quando movia o deserto. Não pareceu se esforçar e nem mesmo piscou enquanto rocha e terra que tinham permanecido imóveis por séculos se deslocavam, como um colosso despertando de um longo repouso e alongando seu corpo descomunal.
Uma abertura na rocha apareceu, um túnel. Não levando de volta para as ruínas de Sazi e a caverna onde os outros aguardavam, e sim para as profundezas da montanha. O djinni tinha acabado de rachar uma montanha sem esforço.
Só então eu realmente entendi.
Aquele era um ser imortal, um criador de humanos. Seu poder era cósmico, indo além da minha compreensão. Ele podia mover montanhas e sacudir a terra. Não se importava com as guerras dos homens. Nunca tinha vivido em nosso mundo. Era das lendas, não da realidade.
E eu tinha acabado de libertá-lo.
O Criador de Pecados estendeu a mão diretamente para o túnel.
— Você primeiro.
Lancei um olhar para a parede que levava aos outros.
— Você quer salvar pessoas com as quais se importa. — Ele repetiu minhas próprias palavras. — Mas não existe ninguém com quem se importa mais do que o garoto que espera por você do outro lado da caverna, não é mesmo? — Eu não entendia como ele sabia sobre Jin, mas não gostava nada disso. — Você prefere morrer por eles do que fazer eles arriscarem a vida por você. Então pretende fazer isso sozinha, para que fiquem em segurança.
Era inútil dizer a ele que estava errado. Então desamarrei a corda na minha cintura, deixando-a cair no chão, inútil. E entrei no túnel. Zaahir veio logo atrás de mim e a entrada se fechou, trancando-nos lá dentro. Quando Sam voltasse para me buscar, não teria ideia de onde me procurar, nem meios para tal. Torci para que os outros o perdoassem.
Caminhamos em silêncio por muito tempo. O brilho do corpo do Criador de Pecados era a única luz afugentando a escuridão.
Finalmente, outra luz apareceu à frente. Bem distante, no final do túnel, como uma estrela na noite mais escura.
Eu sempre tinha imaginado a Muralha de Ashra como as de Saramotai: enorme, impenetrável e impossível, seu fogo protegendo contra os carniçais e a noite. Mas aquela muralha não tinha sido feita apenas para manter os carniçais afastados. Fora feita para prender alguma coisa lá dentro. E não parecia em nada com o fogo caótico e violento que o sultão tinha erguido como um domo em torno da cidade. Ela me lembrava da luz que viera da máquina quando Fereshteh morrera, só que mais clara, mais brilhante. Mais delicada que a luz de um djinni. A alma de uma garota fora do seu corpo, ardendo. Conforme nos aproximamos da luz da Muralha de Ashra, podia jurar que via padrões, como a trama de um tapete.
Muito tempo antes, aquele fogo tinha sido uma garota. Nascida num deserto em guerra, assim como eu. Seu corpo havia desaparecido fazia muito tempo, e tudo o que restava era o fogo eterno de sua alma.
— Ela era humana? — perguntei a Zaahir quando paramos a um braço de distância da muralha. — Ashra.
— Acho que você já sabe a resposta, filha de Bahadur — o Criador de Pecados disse, seus olhos vermelhos como brasas dançando à luz da muralha.
Eu sabia.
Eu soube assim que vira a muralha, um pontinho de luz no fim do túnel. Ashra era outra demdji que tinha se sacrificado pelas guerras de nossos pais. E então as histórias se esqueceram de quem ela realmente era, coroando-a como uma simples heroína. Assim como tinham feito com a princesa Hawa, e provavelmente centenas de outros demdjis.
Eu me perguntava se, quando estivesse morta, reduzida a cinzas por liberar o fogo de Fereshteh, e contassem a história da rebelião, iam esquecer que eu era uma demdji também, recordando somente da Bandida de Olhos Azuis.
Estávamos quase em Eremot. Em algum lugar além daquela muralha estava o que restava da nossa rebelião.
— Como atravesso? — perguntei.
— Ah, não é difícil entrar. — Zaahir se ajoelhou, seus movimentos estranhos e anormais, como se estivesse apenas fingindo usar músculos humanos, quando na verdade se curvava como uma chama ao vento. Ele retirou uma pedra do chão do túnel como se fosse grama e a arremessou. O pedregulho passou facilmente pela Muralha de Ashra, quicando até parar do outro lado. Não parecia ter deixado marca. — Essa muralha não foi feita para impedir a entrada.
Uma onda de vento anormal surgiu ao nosso redor, pegando a pedra do outro lado da barreira e atirando-a na direção da minha cabeça com toda a velocidade. Só que, quando atingiu a barreira, em vez de passar direto, foi incinerada e virou pó.
— Ela é feita para impedir a saída.
Então era isso que o sultão tinha feito. Havia enviado seus prisioneiros para cá para nunca saírem novamente. Porque não se importava que morressem lá embaixo. Ele mesmo teria matado todos se não precisasse de corpos descartáveis.
Tinha se feito de piedoso ao deixar os rebeldes serem presos em vez de executados. E então os enviara para morrer silenciosamente em um lugar do qual nada podia escapar. Acabando com qualquer problema que prisioneiros rebeldes pudessem apresentar.
— Se entrarmos — perguntei, cética —, você consegue nos tirar de lá vivos?
— Sim — Zaahir disse, parecendo enigmático. — Eu posso. — Eu não confiava nem um pouco nele, mas não podia estar mentindo. Então repeti suas palavras:
— Você primeiro.
Nossos olhares se encontraram por um longo instante, numa batalha silenciosa. Zaahir finalmente assentiu.
— Como desejar. — Ele avançou, passando pela muralha como se fosse ar. Logo estava de pé do outro lado, aguardando.
Era uma má ideia. Eu sabia que sim. Mas já tinha feito várias coisas que eram. Normalmente, no fim, dava tudo certo. Daquela vez talvez fosse diferente. Era uma má ideia de proporções míticas. Mas o que eu podia fazer? Respirei fundo e tentei não pensar muito no que estava fazendo ao atravessar uma muralha feita de luz.
Foi como passar por um feixe de sol entre a sombra das árvores, agradável e quente na minha pele. Saí cambaleando do outro lado, junto do meu aliado pouco confiável.
Além da Muralha de Ashra, a montanha não parecia diferente do túnel que Zaahir tinha criado para nós, mas pude sentir uma mudança de imediato. O ar fedia a ferro, mais que em Sazi. Provavelmente não o suficiente para tirar meu poder, mas sentia minha pele irritada. Percebi que estava prendendo a respiração por medo do que aconteceria com meus pulmões. Podia ver até Zaahir incomodado enquanto prosseguíamos pelo túnel escuro para dentro da montanha.
Não demorou muito para perdermos de vista a luz da Muralha de Ashra atrás de nós. A escuridão me deixava nervosa. Sentia que éramos carniçais na noite, espreitando onde não deveríamos estar. Ou como se nos espreitassem.
O chão fazia uma curva íngreme rumo às entranhas da montanha. Aceleramos o passo na descida. Mantive os olhos nos pés de início, tentando evitar qualquer pedra que pudesse me fazer tropeçar, mas o chão era liso. Primeiro pensei que tinha sido varrido, mas então, conforme o caminho estreitava, minha mão roçou contra a parede, que também era lisa. Como se tivesse sido desgastada. Subitamente, minha mente foi inundada por todas as imagens que tinha visto nos Livros Sagrados da enorme serpente monstruosa da Destruidora de Mundos, solta nos primeiros dias da guerra. E a imaginei ali embaixo, percorrendo as montanhas, impaciente para escapar, desgastando as paredes até que ficassem lisas e redondas… Interrompi aquele pensamento antes que fosse longe demais. O monstro estava morto. A primeira heroína o matara.
Mas não significava que não havia mais nada ali embaixo.
Pela primeira vez na minha vida, eu estava realmente sozinha.
Não estava em uma casa abarrotada com meus primos. Não estava com Jin em uma caravana atravessando o deserto. Não estava em uma tenda no acampamento rebelde, com Shazad ali para me ajudar caso precisasse. Não estava cercada de mulheres no harém. Não estava sobre os resquícios da rebelião na Casa Oculta.
Eu quis mantê-los seguros, mas agora não tinha Jin para me proteger. Não tinha os gêmeos para me tirar dali voando se tudo desse errado. Não tinha Sam para quebrar o silêncio que arrastava minha mente para lugares terríveis com uma piada.
Eu estava no inferno e tinha ido até lá de livre e espontânea vontade.
Comecei a sentir o peso da exaustão. Não dormia desde Juniper e, ali no escuro, não dava para dizer quanto tempo se passara desde que deixara Sazi, embora tivesse a sensação de que a alvorada já viera e se fora. O que significava que estava acordada havia mais de um dia. Parei, abaixando e me apoiando contra a parede. Só precisava de um momento para descansar. Zaahir parou também, me observando com um olhar curioso. Teria se esquecido, depois de todo aquele tempo, que nós, mortais, éramos frágeis?
Encostada ali, percebi algo no chão, graças à luz da pele dele. Estendi a mão para pegar. Era um botão. Meu botão. Verifiquei o colarinho da camisa e constatei que havia um fio solto ali.
— Já passamos por aqui — balbuciei, tentando concentrar minha mente cansada.
— Sim — Zaahir concordou, alegre. — Você tem caminhado em círculos por algum tempo já.
Olhei para ele abruptamente, me livrando da névoa do sono.
— Estamos perdidos?
— Você está. — Zaahir abriu um sorriso de canto de boca. — Eu sei exatamente onde me encontro.
A raiva me ajudou a levantar, de modo a encará-lo em vez de rastejar no chão diante dele.
— Quero que me leve aos prisioneiros dentro desta montanha — eu disse, ríspida. — Você concordou em fazer o que eu queria.
Zaahir assentiu, sem se abalar.
— Você quer isso, não quer? — ele disse. — Mas também tem medo do que vai encontrar. Não deseja realmente descobrir quem está vivo e quem está morto. Tem medo da resposta. Senão já poderia ter descoberto, pequena contadora de verdades. — Ele estava certo. Todas aquelas noites no deserto, eu tinha me contido, para não descobrir como os outros estavam. Não queria testar se podia falar em voz alta “Ahmed está vivo” ou “Shazad está viva”. — Você não quer realmente descobrir que eles não teriam morrido se você não tivesse levado tanto tempo para chegar. Quer que estejam todos vivos, mas podem não estar. Veja, filha de Bahadur, você quer tantas coisas conflitantes que eu poderia conduzi-la em círculos por esta montanha para sempre. Em direção a eles, e então para longe, e então de volta para seus companheiros. Eternamente. — Ele girou o dedo no ar. — Até cair morta. — Zaahir de repente pareceu muito perigoso. O modo como a luz saía dele parecia mostrar um lampejo de insanidade em seu rosto imortal. — Eu poderia deixar você perdida sob esta montanha para morrer de fome. Não seria uma boa maneira de me vingar do meu carrasco Bahadur? Encontrar seu corpo esperando por ele quando fosse me visitar?
Então me ocorreu, não pela primeira vez, que soltar Zaahir e acreditar nele fora um ato incrivelmente tolo. Mas estava feito. Eu teria que fazer o jogo dele. Não ia morrer ali embaixo. Não sem salvar os outros. Se tinha uma coisa que eu sabia, era que não queria morrer.
— Boa sorte com isso. — Tentei soar petulante, como se não estivesse apostando minha própria vida. — Bahadur está preso neste exato momento, então provavelmente levaria um bom tempo até ele me encontrar. Décadas. Aí eu já não seria nada além de ossos. Talvez ele nem me reconhecesse. — E ele provavelmente não ia se importar, de qualquer modo, pensei, mas não disse.
Zaahir nem mesmo tentava passar seu olhar por humano piscando enquanto absorvia o que eu tinha dito. Eu esperava frustração diante de sua vingança impossível.
— Está bem — ele disse finalmente, e seu rosto subitamente se abriu em um sorriso cordial que de alguma forma era mais perturbador do que seu olhar fixo. — É melhor eu fazer o que você quer, então. — Zaahir levantou a mão, iluminando outra ramificação do túnel que eu não tinha visto antes. — Por aqui, filha de Bahadur.


Havíamos caminhado por mais algumas horas quando finalmente ouvi alguma coisa à frente. Tentei separar minha mente do meu corpo dolorido e exausto para prestar atenção. Soava como centenas de sinos minúsculos sendo tocados. Do tipo que tia Farrah usava para chamar para o jantar.
Acelerei o passo. Estávamos próximos de algo. Eu não sabia o que era, mas não se tratava de mais escuridão e rocha. Conforme nos aproximamos, percebi uma claridade crescente. Não a luz brilhante que vinha da Muralha de Ashra — uma mais natural. Como a chama de tochas ou lâmpadas a óleo. Estava praticamente correndo agora. Em direção ao tinido de metal e à centelha fraca, até que finalmente o túnel se abriu em uma caverna imensa, e eu cambaleei até parar.
Se estávamos sendo engolidos pela montanha, tínhamos finalmente alcançado o estômago. O túnel tinha nos despejado em um penhasco tão abrupto que eu quase havia despencado. A caverna em que emergimos era tão vasta que desaparecia na escuridão muito acima de nós. E lá embaixo, sob a luz fraca das tochas presas na parede, vi os prisioneiros.
Estavam acorrentados juntos, como gado. Presos por ferro, as mãos e os pés conectados uns aos outros. Cada um deles tinha uma picareta, que batia na rocha aos seus pés. De novo e de novo, metal batendo ruidosamente contra pedra.
Lembrei do que Leyla tinha contado. O sultão os havia mandado para lá porque estava à procura da Destruidora de Mundos.
A escuridão dentro da montanha era diferente. Não era escuro como em uma noite solitária no deserto ou dentro de uma cela. O ar era mais espesso, a escuridão era mais viscosa. Uma escuridão com propósito, que parecia se enrolar em mim, espreitando não apenas meu corpo, mas também minha mente e minha alma.
Em algum lugar lá embaixo, dormia a Destruidora de Mundos.
Estudei a multidão, procurando freneticamente por um rosto familiar. A quantidade de pessoas ali era muito maior do que a levada de nós naquela noite. Outros prisioneiros, imaginei, poupados da execução apenas para serem enviados para cá. Procurei Ahmed, Shazad, alguém que conhecesse. Mas os rostos estavam tão maculados por sujeira e poeira que eu não tinha certeza de que os reconheceria mesmo se estivessem bem na minha frente.
E então, logo abaixo de mim, vi um rosto suave com aparência de criança, cabelo pintado sujo colado na bochecha. Ela tremia ao tentar levantar a picareta.
Delila.
Meu coração saltou. Era ela. Eu os tinha encontrado. Pelo menos alguém ainda estava vivo. Olhei rapidamente para baixo. Não era um salto fácil, mas eu conseguiria. Iria até lá e soltaria meus companheiros, então poderíamos tentar fugir e…
Meus pensamentos foram interrompidos pelo som de passos. Eu me afastei da beirada quando outro prisioneiro adentrou a caverna, carregando um balde de madeira imenso em uma mão e uma tocha na outra. Enquanto passava pela fila de prisioneiros, a luz de fogo que ele carregava reluziu contra o que parecia bronze.
— Você quer ver claramente. — Zaahir disse, dando um passo para ficar do meu lado. Antes que pudesse impedi-lo, a luz de sua pele brilhou mais forte, iluminando o que acontecia lá embaixo. Logo além da fileira de tochas que iluminava os prisioneiros trabalhando, havia centenas e centenas de silhuetas de bronze e barro de pé em vigília silenciosa.
Abdals.
Vê-los acabou com qualquer ideia que eu tinha de saltar. Eu sabia o que podiam fazer comigo se me pegassem. E todos os outros prisioneiros também, a julgar pelo modo como trabalhavam, com os olhos baixos, os braços tremendo a cada golpe na terra. Nenhum deles nem mesmo pensando em fugir.
Enquanto observava, um dos trabalhadores desabou de joelhos, respirando com dificuldade. Parecia magro e definhando, como se seu corpo tivesse chegado ao fim de suas capacidades.
Ele não conseguiu levantar. Um dos abdals deu um passo à frente.
Não. Eu não podia deixar aquilo acontecer. Olhei para Zaahir, que estava inclinado para a frente, assistindo à cena. Quando seu olhar cruzou com o meu, ele levantou as sobrancelhas em zombaria.
— Quer que eu impeça?
— Sim — sibilei desesperada.
Lá embaixo, o abdal repousou sua palma metálica no topo da cabeça do prisioneiro. O homem nem tentou lutar ou levantar mais uma vez. Ali, de joelhos, ele se inclinou para frente até encostar a testa na parede. E rezou.
Zaahir fez uma careta.
— Mas você também sabe que interferir pode atrapalhar o resgate dos outros. E quer isso ainda mais, não? Dilemas, dilemas.
Tive vontade de matá-lo.
A mão do abdal começou a brilhar com um vermelho feroz. A reza do homem se transformou em gritos.
— Bom — Zaahir disse —, agora é tarde demais.
De repente, o homem se transformou em cinzas.
— Isso é novidade. — A voz do Criador de Pecados tinha perdido o tom de zombaria. Ele continuou observando, interessado, enquanto eu recuava, horrorizada com a visão.
Eu o odiei naquele momento. Mas já sabia que não havia um jeito fácil de escapar dali. Se tivesse, Shazad já teria encontrado, e eles estariam livres. Havia tantos abdals, e somente uma de mim.
— Então esses são os mortais que você deseja libertar — Zaahir falou antes que eu abrisse a boca. — Muito bem.
Eu senti o ar mudar à nossa volta, como se estivesse se solidificando. O que quer que Zaahir estivesse fazendo, eu não conseguiria pará-lo. Observando os prisioneiros lá embaixo, vi que alguns deles notaram que algo estava acontecendo, embora não soubessem o quê. Continuaram a trabalhar, mas estremeceram, como se estivessem esperando que algo terrível os atacasse e se curvassem antes do golpe.
Foi como se o ar assumisse a forma de mãos invisíveis. Eu podia vê-las mexendo nas minhas roupas. Podia ver as correntes se movendo lá embaixo. E então romperam as correntes, como se fossem feitas de tecido.
Elas atingiram o chão com um clamor impossível, que preencheu as entranhas da montanha. Tão alto que temi que acordasse a Destruidora de Mundos.
Centenas de prisioneiros pararam o que estavam fazendo e olharam em volta, o choque se transformando em medo. Eles encararam os pulsos nus, e alguns soltaram a picareta.
— Pronto — Zaahir disse. — Eles estão livres. Como você queria. Eu sugeriria, contudo, que começassem a correr se você quiser que continuem vivos.
Os abdals tinham assistido a tudo aquilo mudos. Eram pálidas imitações de nós, inteligentes apenas o suficiente para cumprir simples tarefas mecânicas. Eles ainda não haviam compreendido que os humanos estavam soltos. Só que tinham parado de trabalhar. E sabiam o que fazer quando aquilo acontecia.
Centenas de mãos metálicas se levantaram em direção aos prisioneiros, prontas para obliterá-los.
Senti meu coração acelerar.
— Impeça! — gritei para Zaahir, sem me importar em ser ouvida pelos outros.
Ele só continuou observando, impassível.
— Você disse que os queria livres, e eu obedeci. A morte também é um tipo de liberdade. Foi isso que meus irmãos disseram quando enviaram a primeira heroína para a morte e me trancafiaram.
— Você sabe que não é isso que quero — eu disse desesperada. Alguns dos prisioneiros tentavam voltar ao trabalho. Outros pareciam que iam correr, com uma expressão beirando o pânico no rosto. Alguns empunhavam a picareta como uma arma, prontos para lutar e certamente morrer. — Quero que sejam salvos.
— Sei o que essas criações de metal são — Zaahir disse. — Reconheço a alma de Fereshteh neles. O que faz você pensar que eu seria poderoso o suficiente para vencer um dos djinnis que me aprisionou? — Era como se estivesse me desafiando a ver quem piscaria primeiro. Mas ele não era mortal, não precisava piscar. Ao contrário de mim.
Ele não era mortal… mas eu era. Me perguntei se poderia ter um último desejo antes de morrer.
Os abdals estavam chegando mais perto agora, erguendo as mãos, o calor se acumulando. Eu não podia mais esperar. Podia sentir que estava prestes a fazer algo idiota.
— Se eu morrer lá embaixo, meu desejo é que fique aprisionado em Eremot até se arrepender de sua traição ou até o final dos tempos. E acho que ambos sabemos o que vai vir primeiro.
Pulei, chegando ao chão com um impacto doloroso. Rostos viraram na minha direção. Aterrissei atrás dos abdals, me perguntando o que viam. Peguei uma picareta abandonada no chão. Golpeei um abdal com ela, acertando com força no calcanhar de novo e de novo, até parar de se mover. Exausta, notei que outro abdal me encarava, pronto para me aniquilar com suas mãos. Eu não tinha como enfrentar todos. Sabia disso. Mas levantei minha arma mesmo assim. E então, subitamente, como um fósforo acendendo no escuro, Zaahir apareceu atrás do abdal.
E colocou a mão no topo de sua cabeça metálica.
O abdal caiu em um piscar de olhos. Foi como observar a fagulha da vida sair de dentro dele e ser absorvida pelo djinni, uma pequena chama juntando-se a uma grande labareda. Ele sorriu de soslaio para mim. E então desapareceu de novo, num piscar de olhos.
Aconteceu rápido demais para ver. Um por um, em rápida sucessão, os abdals caíram no chão, até que, onde antes havia uma parede de soldados, não restara nada além de cadáveres de metal espalhados pelo chão. Os prisioneiros observavam em choque, tentando entender o que estava acontecendo.
— Amani?
A voz era tão abençoadamente familiar que quase ajoelhei de alívio só de escutá-la. Como se o fardo da rebelião fosse tirado dos meus ombros e devolvido aos dele.
Virei para deparar com Ahmed de pé atrás de mim. Não parecia em nada com um príncipe. Vestia roupas encardidas de tamanho errado, e algemas de ferro com as correntes quebradas pendiam de seus pulsos. Seu rosto estava manchado de fuligem, e ele parecia não ver uma navalha em semanas. Ninguém poderia distingui-lo de um pedinte.
Deixei a picareta cair e, sem pensar, joguei meus braços em torno dele, esquecendo que era meu soberano. Um príncipe, enquanto eu era apenas uma bandida. Ele estava vivo. E me abraçava de volta. Seus braços pareciam magros e fracos. Mas estavam lá. Ele estava vivo.
Quando me soltou, Delila apareceu, chorando, as lágrimas abrindo trilhas por seu rosto escurecido pela poeira, enquanto balbuciava incoerente. Rahim apareceu atrás dela, olhando para mim como se eu tivesse me materializado no ar, o que de certo modo era verdade. Havia outros também. Tantos rostos de rebeldes que eu conhecia bem e de prisioneiros que nunca vira antes. Mas alguns estavam ausentes.
Olhei em volta procurando Navid, marido de Imin. Procurei Lubna, a rebelde que perdera ambos os filhos para os gallans e costumava fazer o melhor pão do acampamento. Procurei Shazad.
— Onde ela está? — Temi pela resposta antes mesmo de terminar de perguntar.
O rosto de Ahmed murchou, e senti meu estômago se contorcer. Ele não precisava perguntar de quem eu estava falando.
— Eles a mandaram… — O príncipe parou, organizando os pensamentos enquanto meu coração acelerava. — Houve um leve terremoto, três dias atrás. Um buraco se abriu no chão, uma fenda pequena, mal dava para uma garota passar. Há soldados acampados lá fora, na montanha. São eles que dão ordens aos abdals e trazem nossas rações. Ameaçaram suspender a comida se não disséssemos o que tinha acontecido. Era… — Ele olhou aflito para a irmã, que mantinha os olhos no chão. — Era Delila que tinha ido buscar as provisões naquele dia. Teve que contar a verdade. Eles ordenaram que os abdals descessem Delila pelo buraco, para investigar. Mas Shazad tomou seu lugar. Os abdals a desceram até lá embaixo. E então… — meu coração acelerou ainda mais — a corda cedeu. Quando puxaram de volta, parecia ter sido cortada. E Shazad… — Ele hesitou. — Ela não voltou.

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