26 de novembro de 2018

Capítulo 23

PUXEI O AR TÃO RÁPIDO QUE O FÓSFORO APAGOU. A risada do Criador de Pecados preencheu a escuridão que voltava para nos cercar, ecoando pelas paredes enquanto eu me atrapalhava procurando outro fósforo.
Havia histórias de djinnis usando centenas de nomes diferentes. Bahadur também era conhecido como Antigo Rei de Massil, Criador do Mar de Areia e Destruidor de Abbadon. Mas o Criador de Pecados não era apenas outra história de fogueira de acampamento. Sua lenda não era de um mortal ganancioso enganado por um ser primordial, ou de um desejo concedido a um pedinte merecedor, ou mesmo de um djinni apaixonado por uma princesa.
O Criador de Pecados era dos Livros Sagrados.
Depois que a Destruidora de Mundos levara morte para um reino até então imortal, um djinni havia criado o pecado. Ele traíra os outros e toda a humanidade. Embora estivesse com os djinnis quando haviam criado o primeiro herói, não comemorou o sucesso em criar mortais para desafiar a inimiga. Enquanto os outros se refestelavam com sua vitória, o Criador de Pecados saiu furtivamente e tentou matar o primeiro herói antes que pudesse desafiar a Destruidora de Mundos. Se tivesse conseguido, teria acabado com a única esperança do mundo. Mas os outros djinnis o capturaram antes que fosse bem-sucedido. Então souberam que um dos seus devia ter feito um acordo escondido com a Destruidora de Mundos, para desafiá-los daquela maneira.
Ele era um traidor de seu próprio povo. O primeiro do mundo.
Finalmente encontrei outro fósforo. Acendi, tentando manter minhas mãos estáveis, mas a chama tremeluzia.
— Dizem… — Eu hesitei, incerta sobre o que perguntar primeiro. Diziam que ele havia sido banido e preso entre as estrelas. Mas eu podia ver que aquilo não era verdade. — Dizem que você traiu o primeiro herói. — As palavras saíram em um tom de acusação.
— Dizem isso, de fato. — Ele inclinou a cabeça, passando aqueles olhos fulgurantes e ardentes sobre mim. — Você parece um pouco com a primeira heroína, sabia? — ele disse. — Deve pensar que depois de milhares de anos eu teria esquecido o rosto dela. Mas a vejo o tempo todo, sentado aqui no escuro. É uma punição pior do que essas correntes.
Ele tinha acabado de falar “heroína”? Pensei em todas as imagens que já tinha visto do primeiro herói, nas gravuras dos manuscritos, pintado em azulejos nas casas de oração. Todas mostrando um homem de armadura e cabelo escuro, portando uma espada. Mas o Criador de Pecados tinha de fato estado lá.
— O primeiro mortal era uma mulher?
— É claro. Milhares de meus irmãos imortais perderam a vida quando enfrentamos a Destruidora de Mundos. Sabíamos que não éramos páreo para ela. Então não criamos um soldado à nossa imagem, mas à imagem dela. — Seus olhos de brasa pareciam se voltar para o passado. — Seu cabelo era como a noite, sua pele era como a areia, e roubamos a cor do próprio céu para seus olhos. E eu não a traí. Eu a amei.
Ele voltou ao presente.
— Eu a amei antes que qualquer um dos meus irmãos soubesse o que era amor. Então tentei manter a primeira heroína longe da morte. Ela era corajosa demais para seu próprio bem. Eu temia que acabasse morrendo ao enfrentar a Destruidora de Mundos. Mas, se meus irmãos não sabiam o que era amor, sabiam menos ainda como era amar alguém que morreria. — Seus olhos passaram por mim. — E agora o mundo inteiro está marcado pela hipocrisia deles. — Ele me desprezava, percebi. Pelo que eu era. Prova de que um dos djinnis que o punira por amar uma mortal tinha encontrado outra para amar também. — Imagino que agora eles saibam o que é temer pela vida de alguém. Mas naquela época só conheciam o medo egoísta. Medo da própria morte, não da morte de outro. E ela era um escudo. Feita para ser usada, não salva.
A chama tinha chegado até meus dedos. O calor súbito me fez derrubar o fósforo, que apagou ao cair no chão.
O Criador de Pecados não parou de falar enquanto eu procurava ansiosamente outro.
— Meus irmãos me trancaram aqui para evitar que arriscasse a vida deles protegendo a primeira heroína. — Sua voz ecoava pela escuridão. — Eles colocaram um guarda mortal do lado de fora, com um suprimento eterno de comida e bebida, para que nunca precisasse deixar seu posto. — Era o baú que Noorsham tinha encontrado. — Ele devia me visitar uma vez por ano e me perguntar se eu me arrependia de ter traído meu próprio povo. — Eu conhecia a história. O Criador de Pecados fora amaldiçoado a ficar separado da terra até o dia em que expiasse seu pecado. — Eu só seria libertado quando dissesse que estava arrependido.
Acendi um novo fósforo.
— Não me arrependi no curto tempo de vida do meu primeiro guarda. Especialmente depois que me contou que ela tinha morrido. Ele me disse que meu filho estava lutando em seu lugar agora, usando o mesmo título de primeiro herói. Tampouco me arrependi no tempo de vida do próximo guarda, ou daquele que veio depois. Eles pararam de aparecer com tanta frequência, e então de todo. Se esqueceram de mim. Agora são apenas meus supostos irmãos que vêm me visitar, quando lembram. Eles me trazem notícias. Bahadur foi o último. — Seu olhar áspero passou sobre mim. — Nunca muda. Tenta esconder suas crias desde que a primeira morreu. A princesa com o sol nas mãos, que caiu das muralhas. Ele dá a todos vocês olhos iguais aos dela… — O djinni deixou aquilo no ar. Eu não sabia se estava falando da princesa Hawa ou da primeira heroína. — Mas nunca consegue ocultar vocês, porque lhes dá poder demais. Ele acha que manterá seus filhos seguros. Mas o resultado é que vocês ardem forte e rápido demais, então a chama apaga. — A chama nos meus dedos tremeluziu; estava fraca, mas ainda tinha alguma vida. — É tão desesperado para proteger vocês que os conduz à morte.
— O Bahadur de quem está falando soa bem diferente daquele que eu conheço — eu disse, tentando não soar amarga. Lembrei do meu pai me observando impiedosamente enquanto a faca se dirigia à minha barriga, pronto para me deixar morrer. Lembrei de quando o censurei por deixar minha mãe morrer e não encontrei qualquer remorso ali. Lembrei das histórias da princesa Hawa, sua primeira filha, que tinha morrido muito tempo antes, lutando numa guerra em que os djinnis tinham sido covardes demais para lutar eles mesmos. Ela não tinha recebido qualquer ajuda dele.
Eu quisera saber por que ele não podia salvá-los. Agora tinha minha resposta. Djinnis que tentavam salvar humanos acabavam indo parar ali. Daquele jeito.
O Criador de Pecados sorriu, como se pudesse ler parte do que eu estava pensando nos olhos que me traíam.
— Seu pai veio me perguntar se eu estava arrependido. Isso foi quase duas décadas atrás — ele disse, como se estivesse tentando calcular minha idade. — Quase. — Quase. Mas não exatamente. Eu podia imaginar o número certo. Eu tinha dezessete anos. Noorsham também. Nosso pai tinha ido verificar a expiação do Criador de Pecados, e em vez disso encontrara nossas mães.
— Você me deve gratidão, filha de Bahadur.
Um pequeno riso, quase histérico, surgiu em meu peito.
— Porque seu aprisionamento me criou?
Ele fez questão de que eu o visse chacoalhar as correntes antes que a luz apagasse novamente, sobrando apenas sua voz no escuro.
— Talvez eu saiba um jeito como pode me agradecer.
O silêncio na caverna era palpável. Os fósforos na caixa chacoalhavam. Acendi um deles para poder enxergá-lo novamente.
A verdade é que eu queria libertá-lo. Tínhamos uma barreira impossível para penetrar. Precisávamos de um aliado como ele. Mas eu tinha que perguntar.
— Você está arrependido?
O Criador de Pecados levantou lentamente, atingindo sua altura máxima ao me encarar.
— Você já se apaixonou, filha de Bahadur? — Senti a corda em torno da minha cintura, esticando-se através da rocha sólida até a mão de Jin. Não respondi. — Existe alguma coisa que você não faria para salvar quem ama?
Permaneci calada. Dessa vez eu realmente não sabia a resposta. Levaria um tiro por Jin; já havia feito isso e tinha a cicatriz para provar. Mas o Criador de Pecados teria condenado o mundo inteiro pela primeira heroína. Eu não sabia se era egoísta o suficiente para fazer o mesmo por Jin. Não sabia se era altruísta o suficiente para não fazer.
— Não — ele disse finalmente, observando minha luta interna. — Eu não estou arrependido.
— O que acha de ser libertado mesmo assim?
Tive a satisfação de pegá-lo de surpresa. O Criador de Pecados inclinou a cabeça um pouco para o lado.
— E por que a filha de Bahadur, o Nobre, faria isso? — ele perguntou, cauteloso.
Passei a língua pelos lábios ressecados antes de decidir qual parte da verdade queria contar.
— Existe uma boa chance de que algumas pessoas com as quais me importo morram se eu não conseguir chegar até elas logo. Preciso impedir isso.
O não dito pairou no ar: como você quis impedir a morte dela.
— Então é uma troca que você quer? Minha ajuda pela minha liberdade?
— Algo assim.
Eu já podia vê-lo ardendo um pouco mais forte. Mas, dessa vez, estava numa posição de vantagem. Talvez não tivesse vivido tanto quanto ele, mas tinha passado muito mais tempo em meio à mortalidade. E conhecia séculos de histórias sobre acordos com djinnis. Apenas os presentes concedidos livremente rendiam algo de bom. Os outros — conquistados com trapaça ou barganha — levavam à ruína. Uma palavra errada conduzia ao desastre em vez da fortuna. Uma expressão enganosa ou incerta criava a brecha de que os djinnis precisavam para que nós, mortais, mais lentos e tolos, caíssemos no precipício.
O Criador de Pecados me odiava. Eu podia ver isso estampado em seu rosto. Ele me odiava porque era mortal, porque eu existia graças ao sacrifício de uma heroína que ele tinha amado muito, muito tempo antes. Eu era cria de alguém que o acorrentara. Ele não ia me dar nada livremente. Nem mesmo em troca da liberdade depois de séculos. Se ele tentasse, eu não teria como vencer. Não conseguiria ser mais esperta que ele.
— Você está pensando que pode me enganar — eu disse, interrompendo os pensamentos dele. — Que vou tentar controlar você, dar ordens. Mas não quero fazer isso.
— O que você quer então, filha de Bahadur?
— Não quero lutar com você. — Eu queria descansar. Eu estava exausta. Aquela guerra tinha me drenado completamente. A liderança. Tudo. — Não quero joguinhos em que meço cada palavra que digo para ocultar meus pontos fracos, enquanto você os procura. Então esta é a minha oferta: quero que concorde em fazer o que eu desejo.
O que eu desejava era diferente do que pedia. Eu podia pedir que meus amigos fossem libertados, mas o que eu queria era vê-los vivos e inteiros, não libertados através da morte. Eu podia querer um caminho através da Muralha de Ashra, mas não queria libertar a Destruidora de Mundos, se ela realmente estivesse presa atrás dela. Eu estava pedindo que ele concordasse não com as minhas ordens, mas com a intenção por trás delas.
— Preciso de ajuda — disse, finalmente.
— Ajuda? — O Criador de Pecados parecia interessado.
— Sim. Concorde com meus termos e posso libertar você dessa caverna agora, e da servidão a mim quando tiver terminado.
— É uma barganha difícil. — Ele estava observando o fósforo nos meus dedos queimar. — Esse é seu último fósforo.
— É — eu disse. — E será minha última oferta também. Posso partir daqui sem você. Mas você não pode sair sem mim.
— Então eu concordo — o Criador de Pecados disse, simplesmente.
— Diga.
— Amani Al-Bahadur. — Seu tom tinha um quê de sarcasmo, mas eram suas palavras que importavam. — Seu desejo será minha ordem. Honrarei o que deseja se me libertar daqui e, mais tarde, me libertar das suas ordens.
Refleti sobre o que ele tinha dito. Mas ele estava certo, nosso tempo estava acabando. Era meu último fósforo.
— Me diga seu nome.
— Meu nome. — Era meu primeiro desejo, meu primeiro comando. Eu vi sua mandíbula se mexer como se estivesse desacostumado à palavra que sairia. — Ele me foi dado muito tempo atrás. É Zaahir.
— Zaahir, o Criador de Pecados — repeti. E então vi o restante das palavras, aquelas entalhadas no arco acima da porta, que Tamid tinha lido em voz alta para mim. Eu as disse em voz alta, com cuidado e aos poucos, terminando com seu nome.
Estava quase sem fôlego quando concluí. Esperava que alguma coisa acontecesse. Que o círculo em torno dele se rompesse, talvez. Ou que suas correntes estilhaçassem. Um lampejo de luz ou fogo. Ou um estrondo de trovão que sacudisse a montanha.
Mas tudo o que aconteceu foi que Zaahir sorriu para mim quando a chama do fósforo alcançou meus dedos, quase apagando. A última coisa que vi foi o djinni dando um passo para fora do círculo antes que o fósforo apagasse, mergulhando nós dois na escuridão.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!