26 de novembro de 2018

Capítulo 22

— ESSE SEMPRE FOI SEU PLANO, NÉ? — Sam me abraçava, me pressionando contra o peito para que eu não pudesse escapar da conversa. — Me atrair até o fim do mundo com promessas de feitos heroicos, só para poder ficar perto de mim.
— Parece um plano incrivelmente complexo. — Eu estava tentando encontrar um lugar confortável para apoiar os braços que não fosse os ombros dele, mas não havia tantas opções. — Se fosse me aproveitar de você, teria feito isso no harém.
Estávamos de pé, nos esforçando ao máximo para ficar colados. Pareceria romântico se não fosse por Jin passando uma corda à nossa volta, como se fôssemos a âncora de um navio prestes a ser arremessada ao mar.
Isso sem falar do meu irmão no canto, inconsciente e preso com as algemas que tínhamos tirado de Sam depois de seu breve encontro com o pelotão de fuzilamento. Precisávamos resolver aquilo antes que a alvorada chegasse e os discípulos de Noorsham acordassem, perguntando-se onde ele estava. Eles acabariam por encontrá-lo e libertá-lo, mas minha intenção era que estivéssemos bem longe quando acontecesse.
Tamid estava nervoso na boca do túnel. Meu antigo amigo talvez tivesse achado que se livrara de nós quando chegamos, mas ele era a única pessoa que eu confiava para drogar meu irmão com segurança. E eu precisava dele para ler as palavras no idioma primordial, rabiscadas sobre a porta.
— Não é muito mais romântico assim? — Sam prosseguiu, melancólico. — Com a morte quase certa adiante? — A corda apertou até meu ouvido ficar pressionado contra o ombro dele. Não podia ver seu rosto, mas tinha certeza de que estava rindo de mim. — Que nem Cynbel e Sorcha, ou Leofric e Elfleda.
— Não tenho ideia de quem são essas pessoas — falei, com a boca em sua camisa.
— Os albish adoram histórias — ele disse. — Você gostaria de Leofric e Elfleda. Ele é um ladrão, ela é uma feiticeira poderosa. Ambos morrem tragicamente no final. Como em todas as grandes histórias de amor.
— Ainda bem que não estamos apaixonados. — Os flertes de Sam foram ficando bem menos escandalosos durante nossa viagem para o sul. Parte de mim achava que era porque estava se dando bem com Jin. Até melhor do que Jin convivia com Ahmed, aliás. Sam só estava flertando comigo naquele momento para aliviar a tensão.
Estávamos prestes a atravessar a rocha sólida para um território desconhecido.
Eu havia pedido que Tamid lesse as palavras entalhadas acima da porta.
— Estão no idioma primordial — ele dissera, franzindo a testa à luz da tocha. — É algo sobre… um prisioneiro? — Todos havíamos sentido o peso daquela simples palavra.
O homem da montanha. Monstro ou talvez mortal. Definitivamente mais que um mito.
Bem, estávamos em busca de ajuda, e talvez a tivéssemos encontrado.
— Vamos precisar de um nome para abrir a porta — Jin tinha dito. — Que nem em… que nem no vale de Dev. — Ele tinha se interrompido antes de dizer “casa”, mas eu entendi.
— Não tem um nome aqui. — Tamid apertara os olhos, tentando decifrar as palavras. — Mas há alguma outra coisa, acho que… — Eu vi a compreensão em seu rosto antes de ele dizer em um tom baixo e reverente: — Acho que servem para libertar um djinni.
E lá estava. Aquilo que Tamid tinha procurado nos livros. Nossa salvação. Não registrada em papel em uma biblioteca do norte, e sim enterrada nas montanhas, ali no sul. Além disso, era uma resposta. O que esperar além daquela porta. Não um homem, mas um djinni.
Não importava se não tínhamos as palavras certas para abrir a porta. Havia outro jeito de entrar.
Ninguém tinha perguntado quem iria com Sam. Ninguém precisou.
Agora, amarrada a ele, pedi que Tamid lesse as palavras acima da porta novamente. Então as repeti com cuidado.
— Muito bom — ele disse, como um professor paciente. Teria mesmo dado um bom pai sagrado. — No final, você diz o nome verdadeiro do djinni…
— Eu sei, já invoquei um antes. — Tamid desviou o olhar, envergonhado, aquele breve momento quebrado quando o lembrei de que era pelo menos parcialmente responsável pelos djinnis atualmente presos sob o palácio.
Jin puxou o nó, deixando Sam e eu um pouco mais próximos.
— É o melhor que posso fazer com a corda que temos — ele disse. A última coisa que eu queria era me separar de Sam no meio do caminho através da montanha. E a corda serviria como guia no caminho de volta. Jin passou a mão pela mandíbula, nervoso.
— Eu estava prestes a dizer: “Imagine que é como mergulhar em águas profundas”. — Ele sorriu com pesar para mim. — E então lembrei que você veio…
— Daqui?
— Vou te ensinar a nadar um dia — ele prometeu. — Só fique viva tempo suficiente para isso.
Era hora de partir.
— Respire fundo — Sam disse, falando sério pela primeira vez desde que tínhamos chegado. — E não importa o que aconteça, não pare de andar. — Obedeci, puxando o máximo de ar que meus pulmões conseguiam aguentar. Ele fez o mesmo. Então deu um passo largo, e estávamos submergidos na rocha.
A escuridão de estar dentro de uma montanha era algo que ia muito além da mera ausência de luz.
Eu sentia a pressão da pedra de todos os lados enquanto nos movíamos, lutando contra a rocha antiga que tentava voltar ao lugar ocupado por ela por milhares de anos, enquanto nos apertávamos para passar. Parecia que havia mãos de pedra me apertando, tentando me esmagar. Demos outro passo, então outro. Quanto mais longe íamos, pior ficava. Podia sentir meus cílios pressionados contra minha bochecha. Parecia que meus pulmões iam explodir com a falta de ar. Que eu ia morrer sepultada naquela montanha.
E então senti o ar batendo no meu corpo, primeiro no braço esquerdo e então no resto, enquanto meio que cambaleamos para fora, caindo no chão, libertando-nos da pedra. Sam desabou em cima de mim, arfando. Ainda estávamos no escuro, mas pelo menos tinha ar ali, embora parecesse mofado, como se estivesse preso naquela câmara havia uma eternidade.
Por um instante, tudo o que eu podia ouvir era nossa respiração pesada ecoando nas paredes da caverna. A câmara onde estávamos era grande, a julgar pelo som. Ouvi Sam puxar o ar, como se estivesse prestes a dizer algo. Provavelmente perguntar se eu estava bem ou fazer alguma piada.
Mas a voz que deslizou para fora da escuridão não era dele.
— Você está bem atrasada.
Lutei para manter as batidas do coração normais enquanto procurava o nó que me prendia a Sam. Meus dedos tremendo finalmente o encontraram, e lutei para desatá-lo. Precisava encarar o que quer que fosse aquilo de pé.
— Devo dizer que seus antecessores preferiam usar a porta — disse a voz, ecoando de forma perturbadora pela câmara enquanto meus dedos trabalhavam frenéticos.
Finalmente, a corda se soltou e Sam saiu de cima de mim. Seu calor e sua solidez desapareceram, e subitamente eu estava sozinha no escuro. Procurei os fósforos no bolso enquanto levantava.
Acendi um, criando um pequeno lampejo de luz no breu total. Foi suficiente para conseguir enxergar. Vi Sam a alguns metros de distância, desabado no chão, exausto por ter me conduzido pela rocha. E, logo além dele, um homem.
Dei um passo instintivo para trás, com o coração saltando de medo enquanto o desconhecido sorria do outro lado da caverna. Soube instantaneamente que não era um mortal. Era um djinni. Eu tinha conjurado uma tropa de imortais sob o palácio. Sabia como reconhecê-los. Sua forma humana era esculpida demais, perfeita demais, como se fossem feitos de bronze polido em vez de carne. Pareciam de alguma forma velhos e jovens ao mesmo tempo, como se tivessem testemunhado muita coisa, mas ainda assim tivessem se esquecido de dar ao corpo as marcas de desgaste que faziam os mortais parecerem humanos. E aquele djinni vestia roupas de outra época, tão antiga que tinha sido esquecida.
Ele tinha olhos vermelhos ardentes, com um aspecto levemente selvagem. Como um fogo se alastrando depressa, capaz de consumir tudo em volta a qualquer momento.
Ergui o fósforo. Grilhões de ferro estavam apertados em torno de seus braços e pernas, escurecidos pela idade, mas ainda fortes. Em torno dele, havia um círculo de ferro, para contê-lo. Parecia idêntico àqueles onde eu tinha aprisionado os djinnis sob o palácio. Como se tivesse sido criado pelas mesmas mãos.
— Quem é você? — perguntei. Minha voz soou rouca e hesitante até para mim mesma ao ecoar pela câmara.
— Quem sou eu? — ele respondeu, áspero, em uma imitação maldosa, arregalando aqueles olhos vermelhos ardentes. E então eles se estreitaram, me olhando com atenção e suspeita. — Quem é você, que vem aqui sem me conhecer? — Não respondi. Havia algo nele que me fazia não querer dizer meu nome. Eu não sabia o que o djinni poderia fazer com ele. — E o que é aquilo? — Ele assentiu na direção de Sam, que estava um passo para trás, como se prestes a voltar correndo pela parede. — Não é um dos nossos. — O djinni deu uma fungada, como se estivesse tentando identificá-lo. — Ele cheira a terra molhada. Só pode ser cria dos nossos irmãos covardes das terras verdejantes. — O djinni falava como nos Livros Sagrados, em uma linguagem antiga e labiríntica pensada para ludibriar o ouvinte. — Não pertence a este lugar. Não confio nele.
— Muito obrigado — Sam murmurou.
O silêncio caiu. E perdurou.
Aquele djinni não teria qualquer utilidade para nós se estivesse reticente em relação a Sam. Talvez falasse comigo. Virei para meu amigo. Sem precisar dizer nada, ele começou a balançar a cabeça, só ao ver minha expressão à luz tremeluzente do fósforo.
— Não, não vou embora. Você ficou maluca.
— Você ainda me deve uma por salvar sua vida, não? — Tentei um tom mais leve. Como se a ideia de ficar presa naquela caverna sozinha com uma criatura imortal não fosse aterrorizante.
— Ah, claro, entendi. Se eu for embora agora, isso nos deixa quites. Porque Jin ia me matar quando chegasse sem você, o que compensaria o fato de ter me salvado. — Sam contou as vidas e mortes nos dedos como se fosse uma questão de aritmética.
Eu me aproximei dele, com o fósforo cintilando entre nós.
— E outras pessoas podem morrer se não conseguirmos ajuda. — A chama alcançou meus dedos, quase me queimando antes de eu soltar o fósforo, que se apagou no chão da caverna. — Sam — eu disse, no escuro, já pegando um novo fósforo. — Por favor.
Quando consegui acendê-lo, ele parecia resignado.
— Volto para te pegar depois de duas “Jenny Assoviando”.
— Como assim? — perguntei.
— É uma… Deixa para lá. — Ele parecia frustrado, embora não fosse eu que estivesse falando bobagens. — É uma canção de trabalho que usamos para medir o tempo nos campos. Dez “Jenny Assoviando” dá uma hora.
— Preciso de sete.
— Três — Sam barganhou.
— Cinco, e não conto a Jin e Shazad sobre quando tentou me beijar.
— Negócio fechado. — Sam segurou a minha mão, apertando-a firme. Ele pegou a ponta solta de corda que ia até o outro lado da rocha sólida, ancorada a Jin. Então fez rapidamente um laço em torno da minha cintura, em um nó improvisado. — Para eu encontrar meu caminho de volta até você. — Ele sorriu para mim. Antes de me soltar, a seriedade recaiu sobre ele. — É bom que ainda esteja inteira.
Sam virou as costas, saindo da pequena área de luz do fósforo ainda segurando a corda, e sumiu depois de uma rápida olhada para trás. Fiquei sozinha. Sozinha no escuro com um djinni.
Ele me observava com seus olhos grandes, sem nunca piscar.
— Quem é seu pai, pequena demdji? — ele perguntou.
— Por que isso é importante? — perguntei.
— Você me perguntou quem eu era. — Seus olhos continuavam arregalados, o que era perturbador. — As memórias mortais são curtas, mas não tanto a ponto de ter esquecido. Diga quem você é e direi quem eu sou. — Então ele queria uma troca. Só que eu sabia que havia algo por trás. Djinnis recorriam a truques em suas negociações. Se eu desse algo para ele, talvez tivesse uma vantagem sobre mim. Mas, se não desse nada, talvez não recebesse nada. Não tinha muito tempo para gastar refletindo sobre isso. Do outro lado daquela parede, Sam contava os minutos.
— Bahadur. Meu pai é Bahadur. — Um sorriso malicioso surgiu em seu rosto, como se finalmente tivesse resolvido um quebra-cabeça no qual trabalhava fazia muito tempo. — Sua vez — eu disse rápido.
— Bem, filha de Bahadur — ele pronunciou o nome do meu pai lentamente —, é verdade que eu costumava ter um nome. Muito tempo atrás. Antes de você nascer. Antes até do seu ancestral mais antigo ser criado. Mas ele foi tomado de mim algum tempo atrás. Não tenho um nome agora. Sou chamado apenas de Criador de Pecados.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!