26 de novembro de 2018

Capítulo 20

POR UM SEGUNDO, NOSSOS OLHARES SE ENCONTRARAM, por cima do terreno rochoso, a surpresa evidente no seu rosto, como devia estar no meu. Senti Jin tentar pegar, por instinto, a arma que não havia entregado. Segurei sua mão rápido, entrelaçando nossos dedos, impedindo-o com cuidado. Não, disse com os olhos.
Noorsham avançou em nossa direção.
Ele havia destruído cidades inteiras. Queimado pessoas de dentro para fora. Tudo isso com a maior facilidade. Não sabíamos o que poderia acontecer se déssemos um movimento em falso.
Mas eu já havia ficado diante dele antes, quando se recusou a me machucar.
Mas Jin não estivera lá.
E ele era meu irmão. Não ia me machucar. Eu tinha que acreditar nisso.
Enquanto Noorsham atravessava a multidão vagaroso, todos em volta se curvaram como a grama ao vento forte.
— Ajoelhe — minha tia sibilou alto, para tentar me envergonhar. Ela estava se divertindo com aquilo, percebi.
Mas eu a ignorei. Dei um passo na direção dele.
Minha tia prendeu a respiração. Eu sabia que ela estava pensando que seria meu fim. Pensando que eu não sabia do que Noorsham era capaz. Mas eu sabia melhor do que ninguém. Soltei a mão de Jin e me afastei dele, atravessando o caminho aberto pelas pessoas, até que estivéssemos a poucos passos de distância.
Meu irmão parecia diferente da última vez em que havíamos nos encontrado. Seu cabelo estava mais comprido, e não com o corte rente que ficava embaixo do elmo de bronze que o sultão o forçava a usar. E havia uma pequena cicatriz em seu queixo. Ele estendeu a mão. Por um segundo, apesar de vestir farrapos, e não uma armadura de metal, ele pareceu igual a quando estava prestes a queimar Bahi vivo, reluzindo de poder e integridade. Havia queimado cidades inteiras com aquela mão.
E então tocou meu rosto, a palma apenas com o calor de carne e osso, não do fogo imortal.
— Amani. — O sorriso de Noorsham poderia alegrar o mundo. — Você encontrou seu caminho de volta para casa e para mim, minha irmã.
Então ele me abraçou.
Eu mentiria se dissesse que o olhar estupefato de tia Farrah não me divertiu um pouco.
— O Olho! — alguém gritou da multidão. — Como podemos confiar neles sem que o encarem?
— Todos tivemos que passar pelo Olho — outra pessoa gritou, raivosa.
— O Olho — mais alguém entoou de longe.
Aquilo se espalhou como um cântico entre as pessoas ali reunidas. O Olho. O Olho. O Olho. Logo todos estavam gritando.
O Olho!
O Olho!
O Olho!
Noorsham observou ao seu redor lentamente. As palavras pareciam fazer a montanha ao nosso redor tremer enquanto ele analisava seu povo. Por fim, Noorsham se moveu, erguendo a mão discretamente. Foi como se tivesse apertado um interruptor. A montanha inteira silenciou ao seu comando.
Todos aguardaram que ele falasse, com a respiração suspensa.
— Para o Olho então — meu irmão declarou.
Uma comemoração barulhenta se espalhou pela montanha. De repente, todos estavam andando juntos, nos cercando, empurrando-nos adiante, como se fôssemos poeira pega em uma corrente poderosa. Senti unhas afundando no meu braço. Era tia Farrah, me segurando como se fosse minha carcereira, me conduzindo adiante. Garantindo que eu não escaparia do Olho, independente do que fosse.
Não precisamos andar muito.
Noorsham nos levou para um pequeno recorte na montanha, onde havia um declive no chão. Estava cercado por lenços de oração, tornando-o mais brilhante do que a terra do deserto deveria ser. A encosta estava coberta por tecidos brilhantes e flores secas, do tipo que eu tinha visto nos jardins do sultão, mas que nunca crescia ali na montanha.
E no meio de tudo isso havia um pequeno espelho irregular, um fragmento com a forma grosseira de um olho. Todos pararam na beira do declive, formando em círculo para nos observar, mas ninguém atravessou a linha de lenços que demarcava a fronteira, exceto Noorsham, que desceu confiante.
Ele pegou o fragmento de vidro de forma reverente, erguendo-o para refletir o sol do fim da tarde.
O vidro brilhou azul, e ouvi Jin inspirar fundo perto de mim. Olhei para ele, curiosa.
— Parece um nachseen — ele disse em voz baixa.
— Um o quê? — Aquilo não parecia nenhum idioma em que ele já havia falado.
— Uma invenção gamanix. — Como as bússolas sincronizadas ou a horda de abominações de Leyla. Uma sinergia entre máquina e magia. — Dá para ler coisas nos olhos de outras pessoas com ele. Exércitos usam para interrogar espiões.
Os olhos azuis de Noorsham, tão parecidos com os meus, viraram para mim.
— Qual de vocês vai vir enfrentar o Olho para que eu possa enxergar suas verdadeiras intenções?
Eu e meus companheiros nos entreolhamos. Um de nós teria de revelar todos os seus segredos pelo bem do grupo. Eu deveria mandar um dos gêmeos. Eles eram mais inocentes do que eu ou Jin. Mas podia ver o puro medo estampado na cara deles. E sentia o olhar de Noorsham fixo na minha nuca. Eu tinha me voluntariado para liderar a rebelião. A responsabilidade era minha.
— Eu vou. — Virei para Noorsham. Atravessei a barreira de tecidos e desci até parar diante do meu irmão. De perto, pude ver melhor o Olho. Era claramente mágico, como Jin havia dito. Na borda de seu contorno irregular, havia algo como uma crepitação de energia, a mesma centelha que alimentava as máquinas de Leyla.
— Onde conseguiu isso? — perguntei ao meu irmão, mantendo uma distância segura do objeto em suas mãos.
— Você não é a primeira pessoa a vir aqui procurando alguma coisa — Noorsham respondeu vagamente. — No início eu precisava adivinhar o que havia em suas almas. Mais tarde soldados estrangeiros vieram e trouxeram isto com eles, um presente de Deus entregue a mim por suas mãos. Eu o uso para descobrir quem realmente está procurando um santuário e quem veio atrás de outra coisa. Então decido quem fica e quem queima.
Um arrepio me percorreu ao som de suas palavras. Pensei nos homens que Balir tinha enviado ao sul procurando a criatura poderosa que poderia conceder seu desejo de enganar a morte. Prestando mais atenção, meia dúzia do que antes tinha me parecido lenços de oração agora se revelavam como tiras arrancadas dos uniformes do regimento de Iliaz.
Seja uma boa menina ou o monstro da montanha vai te pegar.
Noorsham esticou o fragmento de nachseen na minha direção.
— Encare o Olho, Amani. Deixe que o veja.
Da multidão começou a irromper um som ritmado: mãos batendo na rocha. Primeiro algumas, em seguida mais e mais, gradualmente se juntando à cadência.
— Olho — alguém falou, com mais tranquilidade dessa vez, as mãos batendo no chão como se fosse um tambor. — Olho, olho, olho. — Logo o cântico tinha se espalhado novamente, suave, as vozes se unindo em um ritmo forte com o bater das mãos.
Estávamos cercados. Eu havia nos levado para uma bomba-relógio, e precisava desarmá-la antes que morrêssemos todos.
Se Noorsham visse tudo o que eu tinha feito… Não sei como poderia ser considerada livre de pecados. Tampouco via outra escolha além de expor minha alma para ele. Então obedeci. Olhei para o espelho.
Foi como se minha mente despejasse um turbilhão de imagens em sua superfície. De repente eu estava assistindo a tudo passando rápido. Areias do deserto se movendo e muros de fogo. Execução depois de execução. Morte depois de morte. O djinni aprisionado sob o palácio. O sultão na minha mira. E então uma imagem final evidente, o motivo de realmente estarmos lá: o homem da montanha.
Ergui a cabeça, respirando com dificuldade. Sentia como se estivesse voltando à superfície para respirar depois de escapar do Peixe Branco, só que daquela vez quem precisava de ar era minha mente. Jin estava do meu lado, embora eu não o tivesse visto se aproximar, me estabilizando com seus braços fortes na minha cintura. Eu me apoiei contra ele agradecida, enquanto Noorsham segurava cuidadosamente o fragmento de espelho nas mãos, inspecionando o conteúdo da minha mente refletido nele por um momento.
— Se precisarmos correr — Jin falou no meu ouvido.
— Você se esquiva para a esquerda e eu vou para a direita — concordei. Dividi-los era a única chance que teríamos de sair dali inteiros.
Sem nenhuma pressa, Noorsham colocou o Olho de volta no altar improvisado antes de virar para a multidão.
Percebi o olhar de Izz. Ele assentiu discretamente para mim, demonstrando que entendia. Se corrêssemos, ele e Maz estavam prontos para se transformar em algo que pudesse voar rápido, escapando do povo de Sazi.
— Vi seus pecados — meu irmão finalmente falou — e fiz meu julgamento. — Ele abriu os braços enquanto encarava seus discípulos, todos ansiosos por cada palavra, inclinando-se para frente com olhos arregalados e fervorosos. — Eles não precisam queimar! — Noorsham declarou em voz alta. De repente, a multidão estava gritando de novo. Daquela vez, de alegria.
O engraçado é que não achei o coro menos perturbador do que quando queriam meu sangue.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!