26 de novembro de 2018

Capítulo 2

A sultima imortal

HÁ MUITO TEMPO, havia um deserto sob cerco e um sultão sem um herdeiro para defendê-lo. O deserto tinha muitos inimigos. Vinham do leste, do oeste e do norte para ocupar as cidades, escravizar o povo e roubar suas armas para lutar outras guerras em terras distantes. O sultão viu que seu deserto estava cercado por vários lados, e que suas forças estavam em menor número. Então convocou os reis, rainhas e príncipes inimigos ao seu palácio. Chamou de trégua.
Seus inimigos viram como rendição. Mas era uma armadilha. Ele lançou soldados feitos de metal e magia sobre seus inimigos, reduzindo-os a pó. Muitos recuaram, mas o grande império espalhado pelo norte ouviu a declaração de guerra e resolveu revidar. Estavam furiosos com a morte de seu rei e dos seus soldados. Então, o jovem príncipe impulsivo, assumindo o lugar do pai, ordenou que suas forças marchassem para a grande cidade do deserto e a destruíssem.
O sultão soube da ameaça que se aproximava. Tinha uma quantidade considerável de filhos, que poderiam ser enviados para a batalha. Mas não tinha um herdeiro. Seu primogênito morrera nas mãos do príncipe rebelde, que tinha sido consumido pelo ciúme e buscara o trono para si mesmo.
Ou pelo menos era o que alguns diziam.
Outras pessoas diziam que o príncipe rebelde não era um traidor, e sim um herói. Elas defendiam que o príncipe rebelde deveria defender o deserto. Não um dos filhos do sultão criados no palácio, mas seu herdeiro pródigo.
Justo quando o exército inimigo se aproximava, o príncipe rebelde foi capturado. Mesmo que o povo gritasse pedindo que o príncipe os salvasse, ninguém pôde salvá-lo do bloco do carrasco.
As pessoas do deserto sabiam que não importava se ele era um rebelde, um traidor ou um herói — todos os homens eram apenas mortais. E mesmo assim, quando o machado desceu, algumas pessoas que assistiam juraram que ele parecia mais do que um mero mortal, e testemunharam que sua alma deixou seu corpo em um grande feixe de luz, transformando-se em um escudo de fogo protegendo a cidade. Sussurravam que o príncipe rebelde havia atendido seu pedido de socorro mesmo na morte. Assim como Ashra, a Abençoada, tinha respondido ao chamado do deserto milhares de anos antes.
Quando os invasores chegaram, encontraram a grande barreira de fogo protegendo a cidade. Não puderam atacar, e o povo do deserto louvou o príncipe rebelde por sua proteção.
Os estrangeiros não podiam fazer nada além de cercar a cidade e esperar que a muralha de fogo cedesse ou que o sultão enviasse um campeão — um príncipe herdeiro — para liderar seus exércitos contra eles.
No primeiro dia do cerco, o filho vivo mais velho do sultão, um grande espadachim, foi até o pai e perguntou se poderia ter a honra de liderar seus exércitos em uma batalha contra os inimigos em seus portões. Mas o sultão se recusou. Não sabia se o príncipe era merecedor. No segundo dia, o segundo filho mais velho do sultão, um grande arqueiro, foi até ele e perguntou se poderia ter a honra de liderar seus homens e fazer chover flechas sobre os inimigos que os cercavam. Mais uma vez o sultão recusou, sem saber se ele era merecedor. No terceiro dia, o terceiro filho do sultão se voluntariou. E também foi recusado.
Dias se passaram, então semanas, sem que um herdeiro fosse escolhido para combater os inimigos. O povo ficava cada vez mais inquieto. Tendo rejeitado cada um dos seus filhos com idade para lutar, o sultão declarou que um novo herdeiro seria escolhido por meio de um combate, seguindo a tradição do deserto, que remontava à época do primeiro sultão.
O povo se reuniu no palácio para ver os jogos, aglomerando-se nos degraus para vislumbrar os homens que poderiam se tornar seu governante. O sultão apareceu e disse que, embora ainda estivesse de luto pelo primogênito, via que um novo herdeiro precisava ser escolhido, para o bem de seu país e de seu povo.
Mas ele mal tinha começado a falar quando se ouviu outra voz. Ele mente. Era a voz de uma mulher. Ela não gritava — sussurrava. Mesmo assim, todos a ouviram com clareza, como se tivesse falado em seus ouvidos.
Ou em suas mentes.
As pessoas reunidas olharam em volta estupefatas, procurando a mulher corajosa o bastante para falar algo assim do aclamado governante. Então viram algo em que mal puderam acreditar.
A mulher que havia falado não estava ao lado deles, mas diante deles, segurando a própria cabeça nas mãos, pressionada contra o peito. Seu pescoço terminava em um toco sangrento. Aqueles que a reconheceram passaram a informação adiante. Logo corria entre todos os presentes que diante deles se encontrava a abençoada sultima. A esposa traidora do sultim morto, executada por ordem do marido. De volta dos mortos.
Embora seus lábios não se movessem, todos a ouviam falar.
Ele mente, ela repetiu, com o cabelo esvoaçando entre os dedos enquanto encarava a multidão de modo acusador. E mentir é pecado.
Quando acabou de falar, o céu escureceu. O povo de Izman olhou para cima e viu que uma grande tempestade de areia tinha encoberto o sol, mergulhando o palácio nas sombras, enquanto a abençoada sultima brilhava ainda mais resplandecente.
Todos se encolheram sob a tempestade colérica, que agora pairava sobre suas cabeças como o machado que tirou a vida da sultima enquanto todos assistiam. Agora quem assistia era ela. Todos caíram de joelhos, orando por perdão, sem saber se para Deus ou para a sultima morta.
Mas ela não estava interessada em perdão. Apenas na verdade.
Não foi o príncipe rebelde que matou o sultim. Sua voz soou ainda mais clara, mesmo com o vento crescente que mantinha a areia sobre suas cabeças. Foi seu próprio pai.
A mão sangrenta da sultima se ergueu, apontando na direção do sultão em sua sacada, acima do povo. A cabeça dela escorregou das mãos e caiu no chão para que seus olhos o encarassem com raiva. A voz dela não vacilou. Ele matou seu filho a sangue-frio, assim como fez com os irmãos e o pai. E agora vem diante de vocês fingindo estar de luto enquanto se prepara para enviar mais filhos para a morte, lutando contra os invasores que ele mesmo trouxe.
Os cidadãos de Izman, de joelhos diante da aparição miraculosa, acreditaram nela. Por que mentiria?
Então a sultima pegou sua cabeça do chão e a virou para encarar os príncipes atrás de si. Um caiu de joelhos. Outro sacou um arco, disparando uma flecha na direção do peito já ensopado de sangue da sultima. A flecha passou direto, como se atravessasse água. A sultima olhou para a flecha fincada no chão com desdém antes de virar novamente para os príncipes, indefesos diante de suas palavras.
O sultim não será escolhido dessa prole de príncipes indignos. A escolha já foi feita, e eu venho aqui com um aviso.
Mais tarde, os presentes contariam como ela embalou a própria cabeça tal qual a criança que havia sido tirado dela, a criança que alguns diziam que não havia nascido de seu marido, mas de um djinni. É claro que eles tinham escolhido a mãe de um de seus filhos como mensageira de seu mundo.
O príncipe rebelde é o verdadeiro herdeiro. Ele deve governar Miraji, ou nenhum outro sultão reinará. O país será destruído pela guerra e pela conquista, consumido pelos exércitos à espreita em nossos portões. Será dividido e sangrará até a morte nas mãos de nossos inimigos. Este sultão só pode trazer escuridão e morte. Apenas o verdadeiro herdeiro de Miraji pode trazer paz e prosperidade.
Então, um grito aflorou na multidão. Mesmo assim, todos ouviram as palavras que se seguiram.
O príncipe rebelde renascerá. Trazendo uma nova alvorada. Um novo deserto.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!