26 de novembro de 2018

Capítulo 18

EU PODIA SENTIR O TEMPO ESCAPANDO a cada momento que não subíamos a montanha, procurando Eremot.
Juniper estava com dificuldades de governar a si mesma sem os rebeldes ou o sultão. As vizinhanças se despedaçavam. Homens com armas de fogo cobravam de pessoas inocentes para oferecer proteção contra homens com facas. Quando passava por ali, o exército do sultão não se importava; seu objetivo era transportar prisioneiros. Tampouco se importavam os outros soldados, estrangeiros ou mirajins, que seguiam para as montanhas para nunca mais voltar, de acordo com os boatos.
Jin quebrou a mão de um homem que tentou nos roubar na pousada onde passamos a noite. Aquilo serviu de aviso para os outros, apesar de ainda precisarmos nos alternar na vigília ao longo da noite. Como se estivéssemos de volta ao deserto, e não protegidos por paredes.
De manhã, fomos acordados por um grupo rezando alto nas ruas, alegando que o fim do mundo havia chegado. Que a morte estava vindo das montanhas buscar todo mundo. E que qualquer um sem um coração puro que se aventurasse além da cidade ia encontrá-la.
Eu não sabia se nossos corações eram puros, mas tínhamos que sair da cidade de um jeito ou de outro. Precisávamos encontrar o que havia restado da rebelião, e depressa. Cada dia que passava era mais um em que Ahmed, Delila, Shazad ou Rahim poderiam morrer.
Só que precisávamos parar em um lugar primeiro. Eu havia feito uma promessa, afinal.


Viajando com um metamorfo, a Vila da Poeira ficava a menos de um dia de Juniper. Menos de um dia entre o lugar onde Tamid e eu havíamos nascido e a cidade que tinha parecido impossivelmente distante minha vida inteira. Era bom sair de Juniper, finalmente estar em movimento, mas eu poderia viver cem anos sem ver a Vila da Poeira e ficaria feliz. Só que havíamos prometido levar Tamid de volta para casa, se possível. E demdjis mantinham suas promessas. Eu também podia sentir a bússola de Ahmed pesando no meu bolso, me lembrando de que, de qualquer maneira, não tínhamos uma direção específica a seguir.
Senti quando estávamos nos aproximando da Vila da Poeira, embora a paisagem não tivesse mudado. Além de Juniper, a região inteira era um deserto estéril. Eu não sabia explicar exatamente o que identificava. Uma mudança no ar, como se me envolvesse, me puxasse de volta. O brilho acusatório do sol no meu pescoço, como se eu tivesse feito algo errado ao ir embora. E então lá estava ela, ao longe, contrastando com o céu do deserto perfeitamente azul, como uma sombra: o lugar abandonado por Deus onde eu havia crescido.
Me inclinei no pescoço de Maz e gritei sobre o vento para que descesse. Eu não precisava chegar mais perto do que aquilo.
— Acho melhor você ir andando daqui — eu disse para Tamid, enquanto ele descia das costas de Izz. — Tem menos chance de tomar um tiro se não chegar nas costas de um pássaro gigante.
Tamid olhou para mim enquanto tentava se equilibrar na perna ruim.
— Você não vem comigo?
— É você quem quer voltar, não eu.
Ele baixou o rosto e assentiu.
— Então acho que é uma despedida.
— Acho que sim.
Não saí das costas de Maz. Ainda tínhamos uma longa distância para viajar e queríamos aproveitar ao máximo a luz do dia.
Tamid parecia prestes a dizer algo, mas Jin falou primeiro.
— Tem algo errado.
Virei e olhei para Jin, sentado atrás de mim no pescoço de Maz. Seus olhos estavam fixos na Vila da Poeira.
Apertei os olhos contra a luz brilhante do deserto, tentando ver a cidade. Parecia do mesmo jeito de quando parti. Mesmo daquela distância eu podia ver o telhado de madeira da casa de oração um pouco mais alto do que os outros em volta. Um pouco mais adiante na rua ficava a casa do meu tio. A de Tamid ficava na outra direção e era a única na cidade inteira com dois andares. Eu costumava pensar que a família dele era a mais rica que conheceria. Depois acabei passando um tempo num palácio.
Então percebi o que Jin queria dizer. Não havia qualquer sinal de vida. Mesmo em um dia quente deveria existir algum movimento, um rosto olhando por uma janela na fronteira da cidade, qualquer coisa.
A Vila da Poeira parecia deserta.
Xinguei em voz baixa enquanto descia das costas de Maz. Podia sentir o tempo se esgotando. Apesar de não querer botar os pés naquele lugar enquanto vivesse, não podia deixar Tamid sozinho ali. Ele morreria de fome ou seria morto por um carniçal ou um animal selvagem antes de encontrar civilização. A gente precisava descobrir o que estava acontecendo na Vila da Poeira.
— Parece que vamos com você, no fim das contas.
Foi uma caminhada lenta através das dunas ondulantes, voltando para o lugar que havia me tornado quem eu era. Ou uma parte de quem eu era, pelo menos: a parte perigosa, raivosa, incansável, egoísta. Aquela que eu vinha tentando abandonar aos poucos. Apesar da perna ruim, Tamid seguiu na frente, ansioso para chegar em casa. Eu ficava cada vez mais para trás. Jin percebeu e desacelerou, esperando até que eu o alcançasse.
— Conhece a história de Ihaf, o Viajante? — perguntei. Estávamos cada vez mais próximos, não importava quão devagar eu caminhasse. Minha respiração saía curta. — Ele era um fazendeiro, que deixou sua casa e derrotou o carniçal que vinha aterrorizando seu povo. Foi celebrado em Izman por cem dias pelo feito. E no fim de tudo…
— Retornou para casa e voltou a cultivar seus campos e a levar sua vida pacífica — Jin completou, puxando seu sheema para se cobrir do sol. — Minha mãe costumava contar essa história.
— A minha também. — Por reflexo, olhei para o lugar onde a casa da minha mãe costumava ficar. Antes de ser queimada. Me perguntei se alguma noite, do outro lado do deserto e do mar, Jin e eu ouvimos nossas mães contarem a mesma história sob as mesmas estrelas. — Sempre odiei o final. Como alguém podia voltar para casa depois daquilo tudo? Depois de matar monstros, salvar princesas e jantar na casa de seres imortais…
Jin respondeu ainda olhando para frente:
— Quando tudo isso começou, eu costumava pensar que não havia nada que eu não faria para voltar para casa.
Era raro Jin falar de Xicha. Ele não havia me contado muito. Só que sua casa era pequena, tinha vista para o mar e sempre cheirava a sal. Que ele e Ahmed dividiam um quarto, enquanto Delila dividia outro com a mãe de Jin. Que o chão estava sempre manchado de tinta escura por causa das tentativas de Delila de esconder seu cabelo roxo. O telhado estava podre e vazava tanto que, quando Jin tinha seis anos, ele e Ahmed roubaram madeira das docas e o consertaram. Havia uma cicatriz na palma de sua mão, onde havia se cortado em um prego enferrujado. Eu sabia que aquele lugar era sua referência de lar enquanto ele e Ahmed navegavam, indo de uma doca a outra. Tinha sido um lar até Ahmed abandoná-lo pelo deserto, a mãe de Jin morrer e Jin partir com Delila, de volta para sua terra natal. Para um lugar onde teriam que construir um novo lar.
Pensei no vale de Dev, na tenda colorida que eu tinha dividido com Shazad por meio ano. Nas noites quentes cheias de estrelas. Eu também daria quase tudo para voltar para aquele lar. Só que havia sido tomado de nós. E depois de novo, na noite em que o sultão nos emboscou em Izman.
Nenhum de nós tinha mais um lar desse tipo.
Quanto mais nos aproximávamos, mais óbvio ficava que a Vila da Poeira estava tão quieta quanto um homem morto. Esperei ver uma cortina sendo puxada, um sinal de que estávamos sendo observados, ou o som de uma voz. Senti uma coceira começando na nuca, uma inquietação. Havia perigo ali.
Jin e eu alcançamos os outros, sacando as armas ao mesmo tempo nos arredores da cidade. Quando olhei para a direita, Sam havia feito o mesmo, enquanto os gêmeos haviam se transformado em cães enormes com dentes afiados. Tirei o dedo do metal por um momento, afastando-o o suficiente da minha pele para ter certeza de que conseguia sentir a areia na ponta dos dedos. Que meu poder não havia me abandonado.
E então entramos na cidade como se fôssemos um só.
As ruas estavam vazias como o copo de um bêbado. A porta da casa que pertencera a Amjad Al-Hiyamat balançava com o vento, quebrando o silêncio com suas batidas. A areia a havia invadido, impedindo que fechasse de vez. Eu a abri com o pé, espiando a escuridão do lado de dentro. A casa estava vazia, mas não completamente. Ainda havia uma mesa baixa no centro, e eu podia ver uma cama grande no quarto lateral. Todo o resto havia sumido: roupas, comida, utensílios. Tudo o que alguém poderia carregar ao fugir. Mas não com pressa.
Voltei para o sol do deserto no mesmo instante em que Jin saía da casa de oração do outro lado da rua.
— Nenhum sinal de luta ou pilhagem — ele disse.
— Nenhum corpo — falei. — Parece que as pessoas simplesmente pegaram suas coisas e partiram.
Tamid passou por nós, andando tão rápido quanto conseguia com a perna ruim. Ele não respondeu quando chamei seu nome. Eu o segui de perto enquanto corria para casa, o pavor já instalado nele.
Entrar em sua casa foi como entrar em um sonho incompleto. Era exatamente como eu lembrava, mas completamente diferente. O azul da parede da sala de jantar, a tábua do piso estalando, que sempre fazia a mãe dele me olhar de um jeito desagradável quando eu chegava, como se eu fosse a culpada por fazer sua casa reclamar, aquelas coisas todas eram familiares. Mas a casa estava vazia, como a de Amjad. Só coisas grandes demais para ser carregadas foram deixadas para trás.
— Mãe! — Tamid berrou a plenos pulmões, ao pé da escada. Era difícil para ele subir escadas com a prótese. Seria um esforço considerável só para se decepcionar ao chegar lá em cima.
— Eles não estão aqui — eu disse, mas ele também sabia.
Tamid não olhou para trás ao falar comigo. Manteve os olhos fixos no alto da escada, como se pudesse fazê-los aparecer.
— Então onde estão?
— Não sei — eu disse.
— Estão mortos?
Tentei dizer que sim, porque parecia mais provável. Mas a palavra não saiu.
— Não — consegui dizer com um suspiro de alívio. — Eles não estão mortos.
Voltei para a rua, deixando Tamid ter algum tempo na casa onde havia crescido. Era perturbador ficar na rua silenciosa. Afastei o sheema do rosto enquanto vagava pela longa fileira de casas que compunham a rua principal da Vila da Poeira. O sol recaía sobre minha cabeça sem perdão, como o olhar de um pai irritado, querendo saber por que eu havia chegado tão tarde em casa.
Passei pela loja. Me perguntei se o sangue de Jin ainda estava nas tábuas do piso, onde eu o havia costurado.
Me apaixonei por você quando eu estava sangrando embaixo de um balcão nos confins do deserto e você salvou minha vida, Jin dissera em Iliaz, talvez pensando que eu dormia. Numa época em que nós dois éramos diferentes de quem somos hoje.
Tínhamos começado ali, eu e ele.
A casa da minha tia era a última. Ficava exatamente a duzentos e cinquenta passos da loja. Eu sabia porque havia contado em centenas de viagens entre as duas. Algo nela parecia diferente. Pra começar, a porta estava fechada. Eu disse a mim mesma que estava imaginando coisas. Só parecia diferente porque eu a conhecia em detalhes. Mesmo assim, empurrei a porta com cuidado, o coração batendo em ritmo frenético enquanto as dobradiças rangiam ao se abrir para mim, deixando a luz do sol se derramar sobre a escuridão da casa.
Estava vazia como a de Tamid.
Aquele lugar sempre tinha sido uma confusão de pessoas, esposas e crianças, mas agora não havia nada. Não sabia se me sentia aliviada ou decepcionada. Andei pela casa, as tábuas do assoalho rangendo sob meus pés enquanto seguia para o quarto onde dormira muito tempo atrás. Estava claro por causa da luz que entrava pela única janela. Uma grande o bastante para que eu entrasse e saísse na calada da noite.
O quarto estava completamente vazio. Mas, à luz clara do dia, tive certeza de que parecia diferente. Não parecia abandonado. O chão estava limpo, enquanto o das outras casas tinha sido coberto pela poeira e pela areia. O vidro da janela tinha sido lavado. Alguém vinha mantendo aquele lugar em ordem. Alguém estivera ali, e pouco tempo antes.
Foi quando ouvi uma espingarda sendo engatilhada atrás de mim.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!