26 de novembro de 2018

Capítulo 16


VOAR FICOU ENTEDIANTE DEPOIS DE UM TEMPO.
A adrenalina inicial, ver o deserto se encolher lá embaixo, ouvir o vento assobiar uma melodia entusiasmada em nossos ouvidos enquanto subíamos mais do que as criaturas sem asas deveriam ser capazes... Tudo isso passou, restando somente a espera. O sol quente acompanhando cada quilômetro, braços com câimbras de segurar nas costas de Maz, o vento extinguindo qualquer chance de conversar enquanto viajávamos para o sul, seguindo a bússola de Jin. Voamos mais a oeste do que a bússola indicava para poder nos manter perto das montanhas que percorriam a fronteira de Miraji. Era melhor do que seguir pelo deserto, arriscando-nos a ficar sem água antes de encontrar Eremot.
Seguíamos para o sul sem um exército, um plano ou qualquer ideia do que íamos enfrentar. Mas, do meu ponto de vista, não havia muito mais a fazer além de seguir a bússola de Jin e ver o que encontraríamos no final. Cada dia desperdiçado era mais um dia com nossos amigos prisioneiros. Talvez em perigo. Talvez morrendo.
No fim do primeiro dia de viagem, notamos que a paisagem começava a parecer familiar. Uma pausa no trecho árduo do deserto, uma quebra na vista infinita de areia dourada e dos céus azuis, uma falha irregular no chão. O vale de Dev.
Meu coração palpitou quando me inclinei nas costas de Maz para espiar. Vínhamos tangenciando sua fronteira norte, no mesmo caminho que faríamos para voltar para casa depois de uma missão para Ahmed. Com Shazad a meu lado. Em algum lugar lá embaixo, escondido nas curvas dos desfiladeiros, estava o que costumava ser o nosso lar: os destroços do acampamento rebelde.
Fui tomada por uma vontade urgente e imprudente de pedir a Maz para descer. Se ele pousasse no vale, talvez pudéssemos voltar para casa. Eu retiraria toda a areia com a qual havia soterrado o acampamento quando precisamos escapar, como se desenterrasse uma relíquia antiga. Estaríamos seguros de novo, por um breve momento. Mas era tolice. Estávamos muito longe daquele lar agora.
Paramos perto da cidade de Fahali quando o sol começava a se pôr. O mais perto que ousamos chegar da civilização. Um efeito colateral de escapar por um triz foi deixar mais do que Leyla para trás: comida, armas, odres... Um monte de coisas de que precisaríamos em nossa jornada para o sul.
— Vou com Sam — disse Jin, contando a pequena reserva de dinheiro que tínhamos. — Não é seguro para demdjis.
— E acha que estrangeiros atrairiam menos suspeita? — Estiquei as pernas, doloridas de um dia inteiro agarrada às costas de Maz.
— Sim. — Sam coçou a cabeça. — Acho que pareço menos suspeito que alguém de pele e cabelo azul.
— Ei! — disse Izz. Maz também conseguiu se fazer de ofendido, mesmo na forma de um lagarto gigante.
— É melhor eu ir — argumentei, olhando para a cidade no horizonte. — É só não olhar nos olhos de ninguém e vou ficar bem.
— Certo — disse Jin, girando uma moeda de dois louzis nas juntas dos dedos. — Afinal, quando foi que você se meteu em encrenca por resolver algo sozinha? — Jin jogou a moeda na minha direção mesmo assim. Eu a peguei no ar enquanto ele entregava o restante do dinheiro. Ele sabia que eu tinha razão. Estrangeiros durante uma guerra levantariam suspeitas.
Parei para arrumar meu sheema.
Tamid estava desafivelando a perna postiça, sentado no chão.
— Nenhum de nós sabe para onde a bússola está nos levando. — Dava para ver que Tamid sabia que eu estava falando com ele, apesar de não me olhar. — Talvez este lugar seja o mais próximo da civilização que visitaremos por um tempo. Você pode ficar aqui se quiser. Quando tudo isso acabar, os trens vão voltar a circular, e você vai poder ir para a Vila da Poeira...
— Não. — Tamid não levantou o olhar. — Estamos indo para o sul, no caminho da Vila da Poeira. Fico com vocês o quanto precisar para chegar em casa.
Casa. Se a Vila da Poeira era minha casa, e não o vale de Dev, não fazia a menor questão de voltar.


Fahali não era uma cidade qualquer. Foi a primeira a se submeter a Ahmed, depois de impedirmos que fosse aniquilada por Noorsham. Era uma das nossas cidades, ou costumava ser. Antes disso, fora ocupada pelos gallans por quase duas décadas. Com a notícia de que Ahmed estava morto, vivia na incerteza. Eu podia sentir a inquietação enquanto andava pelas ruas. As notícias de uma guerra e de uma invasão iminentes deviam ter chegado. Todos olhavam para baixo, andando com pressa, como se tivessem medo de ficar fora muito tempo.
Mantive meus próprios olhos baixos ao atravessar a cidade, com o sheema puxado sobre o rosto. Havia pessoas ali que podiam me reconhecer, ainda que não me destacasse tanto quanto Jin e os gêmeos.
Aquela cidade me conhecia. E eu já a havia conhecido também. Mas mudara desde que estivéramos ali pela última vez. As ruas estavam tomadas por mulheres em farrapos, mendigando, e crianças correndo descalças. No lugar onde deveria haver um mercado, as ruas estavam vazias, e as portas das lojas tinham sido fechadas com tábuas.
Senti um puxão nas minhas roupas. Virei rapidamente, agarrando a mãozinha que tentara chegar aos meus bolsos. Era uma menina, de olhos arregalados e rosto esquelético.
— Eu não estava fazendo nada! — A ousadia da mentira foi prejudicada pelo pânico em seu rosto.
— Tudo bem. — Ajoelhei, mas sem soltá-la, caso pensasse em sair correndo. — Pode me contar o que está acontecendo aqui?
A menina magricela olhou cautelosa, como se não acreditasse que eu não sabia.
— Não estão mandando mais comida — ela disse, por fim. — Meu pai diz que é a nossa punição por ter ficado contra o sultão.
Então ele estava matando o povo de fome por se aliarem a nós. Tinha os meios para isso. A maior parte do comércio do deserto vinha das caravanas e dos trens de Miraji oriental. Se cortasse o que vinha pelas montanhas, não haveria suficiente para todos.
— Bem, diga ao seu pai que existe uma diferença entre punição e vingança. — Eu a soltei, afastando o sheema e me apoiando na parede, enquanto amaldiçoava mentalmente o nome do sultão. Ahmed jamais deixaria aquilo acontecer se ainda estivesse aqui. Se fosse o sultão então... Eu já o vira mais de uma vez dar sua própria comida para pessoas com mais fome que ele.
Eu teria que ir embora daquela cidade faminta sem suprimentos. Izz ou Maz provavelmente conseguiriam capturar um coelho para assarmos aquela noite. E depois teríamos que dar um jeito de sobreviver. Éramos bons nisso. Por isso ainda estávamos de pé.
Eu a soltei, mas a menina não correu para longe como eu havia imaginado. Ela olhava para mim com curiosidade agora que estávamos na mesma altura.
— Você é a Bandida de Olhos Azuis? — perguntou, corajosa. Antes que eu pudesse responder, prosseguiu: — Você veio nos salvar? O homem de uniforme disse que viria.
— Que homem de uniforme?
— Ele passou pela cidade alguns dias atrás, um general. Disse que os rebeldes iam nos ajudar. E que sabia disso porque a própria filha estava entre eles.
O general Hamad, pai de Shazad, havia passado por ali. Virei a cabeça de repente, sem pensar, como se fosse encontrá-lo naquelas ruas. Como se não tivesse partido muito tempo antes.
— Ele falou a verdade? — ela insistiu. — Está aqui para nos salvar?
Eu queria mentir, dizer a ela que sim. Que poderia salvá-los. Mas eu era só uma garota da Vila da Poeira.
— Não. — Levantei. — Não vim aqui salvar vocês. — Mas vou tentar salvar outra pessoa que vai poder ajudar.
Eles precisavam de mais do que uma garota da Vila da Poeira. Precisavam do príncipe. Precisavam da general. O melhor que eu podia fazer era tentar libertar os verdadeiros salvadores.


Era os sexto dia do voo quando a direção da bússola de Jin mudou abruptamente. Vinha apontado para o sul desde que saíramos de Iliaz, levando-nos pelo deserto em uma linha tão reta quanto a de um tiro. De repente, voltou para o norte. Havíamos passado pelo alvo. Jin rapidamente se inclinou sobre o pescoço de Maz, passando novas instruções. Ele seguiu as ordens, levando-nos em direção à areia com Izz em seu encalço.
Estreitei os olhos para enxergar além do mormaço da tarde durante a descida. Não muito longe havia uma cidade, a primeira que avistávamos em dias. Eu nem a tinha notado quando passamos sobre ela, mas a reconheci no mesmo instante: Juniper. Onde pegara o trem para Izman um ano antes, onde Jin me encontrara enquanto tentava seguir para o norte com sua bússola. Na época, era a maior cidade que eu já tinha visto. Mas então eu conhecera Izman, e Juniper já não parecia muita coisa em comparação.
A bússola de Jin apontava diretamente para ela.
Algo estava errado. Eu deveria ficar feliz. Me encher de esperança. Sentir que estávamos próximos. Que havíamos encontrado nossos amigos. Mas aquele lugar não era Eremot, a prisão das lendas. Era apenas uma cidade grande do deserto. E eu podia não confiar em Leyla, mas sabia que não havia mentido para mim. Um novo medo nasceu no meu peito. De que aquela fosse uma bússola ilusória. De que estávamos seguindo na direção errada. Que Ahmed e os outros não estariam ali.
Mas só havia uma maneira de ter certeza.
Caminhamos em silêncio, seguindo a bússola de Jin até a cidade. Izz se transformou num pássaro pequeno, voando animado à nossa frente e voltando, enquanto Maz se acomodou no meu ombro como um pequeno lagarto de cabeça azul tomando um banho de sol.
O ritmo de Tamid era lento devido à perna ruim, e eu o vi olhando por cima do ombro mais de uma vez. Na direção de Vila da Poeira. Tinha prometido levá-lo o mais próximo possível de casa. Aquele lugar era consideravelmente perto.
Na manhã seguinte ele poderia estar em casa. E eu poderia dizer a mim mesma o quanto quisesse que a Vila da Poeira não era mais o meu lar, mas a única coisa que tornou possível sobreviver ao último ano em que vivi lá, depois de minha mãe ser enforcada, foi Tamid. E, mesmo que ele me odiasse, eu não sabia se conseguiria odiá-lo também. Só odiava o fato de ele querer voltar para lá.
E de que eu perderia mais alguém. Não para a morte, mas para um lugar que também significava que nunca mais ia vê-lo.
Estava mais perto da noite do que da tarde quando passamos pelos portões da cidade. Jin e Sam usavam seus sheemas apertados para ocultar seu aspecto estrangeiro ao máximo da multidão nas ruas.
A guerra ainda não tinha chegado por completo tão ao sul, mas já havia alguns sinais dela. Parecia haver uma quantidade menor de suprimentos de qualquer lugar além do deserto ou das cercanias das montanhas nas barracas dos mercados. E mais homens carregavam armas nas ruas do que eu lembrava de ter visto antes.
Seguimos a bússola de Jin, passando por tendas coloridas no souq, cruzando ruas limpas e largas se comparadas ao velho labirinto de Izman. Aquela era uma cidade nova. Seu nome era um mirajin, e não no idioma antigo. Passamos sob toldos e por prédios de tinta brilhante, por mulheres arrastando crianças resmunguentas para longe das barracas de doces.
Finalmente, viramos na esquina de uma casa azul e vimos um menino agachado em uma porta, com algo brilhante nas mãos.
Paramos para observá-lo. Não devia ter mais de seis anos e sussurrava sozinho, virando a bússola de novo e de novo, parecendo brincar de faz de conta. Tecendo um mundo onde era mais do que apenas um menino sujo brincando com uma bússola, ou uma garota magricela nos fundos de casa com uma arma e latas. Fingindo ser um grande explorador em uma aventura, ou a Bandida de Olhos Azuis.
Precisávamos falar com ele.
Jin se moveu primeiro. Observamos do beco enquanto ele se abaixava, apoiando os braços nos joelhos.
O menino levantou o rosto, encarando Jin com olhos escuros grandes e cautelosos, mas sem medo.
— Oi — Jin o cumprimentou, baixando seu sheema para mostrar o rosto inteiro. — Qual é o seu nome?
— Oman. — Claro. Metade dos garotos no páis de chamavam Oman, por causa do sultão.
— É mesmo? — disse Jin, ficando de joelhos. — É o mesmo nome do meu pai. — Em todos aqueles meses de convivência, eu nunca o tinha ouvido chamar o sultão de pai. — Sabe me dizer onde conseguiu essa bússola, Oman?
— Eu encontrei — ele disse, segurando-a mais firme contra o peito. — Não roubei.
— Acredito em você — disse Jin, paciente. Dava para notar que estava preocupado pelo jeito como seu polegar desenhava círculos na outra mão. Se Ahmed não estava com a bússola, não tínhamos mais como encontrá-lo. — Mas onde estava?
— Na estação de trem — o garoto disse, finalmente.
— Achei que não houvesse mais trens — disse Jin, olhando na minha direção. Dei de ombros, sem saber o que dizer. Os trens de Izman tinham parado meses antes, até onde eu sabia, depois de declararmos nossa a parte ocidental do deserto.
— Não saem trens — disse o menino, revirando os olhos como Jin fosse burro. — Mas às vezes chegam. Trazendo pessoas.
— Pessoas como soldados e prisioneiros? — Jin perguntou. O menino deu de ombros. — E para onde elas vão?
Ele deu de ombros outra vez.
— Pra fora da cidade. Na direção das montanhas.
O sultão estava transportando prisioneiros, e Juniper era o lugar mais ao sul a que alguém conseguia chegar de trem. De lá eram levados para Eremot, onde quer que ficasse. Se fosse real.
Estávamos perto e poderíamos encontrá-los, mas enquanto procurávamos eles permaneciam presos lá.
— Escute, Oman — Jin disse com uma cara séria. — Essa bússola pertence ao meu irmão. — Ele enfiou a mão no bolso e tirou a sua, que, embora maltratada, era idêntica.
— Ela é minha agora — o menino teimou.
— Vou fazer uma proposta — disse Jin. — Posso pagar por ela. — Os dez louzis que Jin tirou do bolso eram uma pequena fortuna para um menino. Oman pegou o dinheiro ansioso, largando a bússola no chão.
Jin voltou até nós, segurado ambas as bússolas. As juntas dos seus dedos ficavam brancas por causa da força com que as apertava. Estendi a mão, pousando-a sobre a dele. Não podia dizer que tudo ficaria bem, porque não conseguia mentir.
Ele movimentou a mão e imaginei que era para se soltar, mas só me passou a bússola de Ahmed.
— Precisamos de um novo plano — ele disse.

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