26 de novembro de 2018

Capítulo 15

A LUZ AZUL DO AMANHECER NAS MONTANHAS fez Sam parecer ainda mais pálido do que de costume enquanto dava seus últimos passos até o alto do muro que dava para a queda inescapável do penhasco. Suas mãos estavam acorrentadas, seu cabelo dourado, despenteado, e ele tinha olheiras escuras como hematomas. Soldados o conduziam, um de cada lado.
No muro havia uma fileira de homens do exército que tinham ido assistir ao espetáculo: o desertor covarde demais para lutar por seu próprio país, conduzido para a execução.
Abracei meu corpo. Fazia mais frio nas montanhas do que eu estava acostumada. Sam olhou na minha direção, depois além de mim, procurando pelo outros. Não ia encontrá-los. Só havia eu ali, entre os soldados de uniforme verde contrastando com o céu e as pedras ao redor.
Ele deu um sorrisinho abatido ao perceber que apenas eu estava presente.
— Imagino que seja uma hora ruim para uma execução — disse ele, enquanto o empurravam perto de mim. — Não dá para esperar que todo mundo tenha saído da cama.
Antes que eu pudesse responder, ele já estava fora do alcance das minhas palavras.
Os soldados o levaram para a beirada, posicionando-o a uma dúzia de passos do pelotão de fuzilamento. Um albish vestindo túnicas claras e compridas colocou a mão no ombro dele e disse algo em voz baixa.
— Ele está perguntando se quer que transmitam algum recado à família. — O capitão Westcroft estava de pé ao meu lado, com as mãos atrás das costas. Com a invasão da noite anterior, parecia tão cansado quanto Sam. — Para lhes dar conforto quando souberem o que aconteceu.
Sam pensou por um momento, então inclinou a cabeça e respondeu. O homem franziu a testa antes de retomar a expressão complacente, assentindo enquanto tocava nosso bandido impostor no coração. Ele se afastou e outro soldado foi colocar uma venda nos olhos de Sam. Deu o nó atrás de sua cabeça no momento em que o sol começou a nascer, transformando a luz azul em um âmbar incandescente.
— Sei que você não vai ter muitos motivos para confiar em mim depois de hoje, capitão, mas vou lhe dar um conselho que gostaria que tivessem me dado. Não subestime o sultão. Se em algum momento pensar que está sendo mais esperto do que ele, provavelmente logo vai descobrir que está errado, e da maneira mais mortal possível.
O capitão Westcroft ergueu as sobrancelhas vermelhas com um ar curioso, mas continuou olhando para frente. Eles eram estrangeiros, não era meu dever protegê-los. Mas Sam também era. E lá estava eu.
O homem de túnica que falara com Sam cruzou o curto espaço até nós. Ele olhou para mim e então disse algo rápido em albish para o capitão, que traduziu para mim:
— Seu jovem amigo disse que gostaria de apontar que estava certo: agir heroicamente só leva à morte.
O sorriso que surgiu em meu rosto não se demorou lá. Enquanto o soldado se afastava e um grupo de homens com rifles se adiantava, Sam pareceu terrivelmente sozinho. E assustado.
Senti minha respiração ficar curta enquanto o sol alcançava o topo da montanha. O capitão gritou uma ordem em albish. Em sincronia, os seis soldados de uniforme prepararam seus rifles dourados.
Sam estremeceu ao ouvir o barulho.
Então veio o silêncio, como se todos os soldados ali tivessem prendido a respiração ao mesmo instante. Acima de mim, ouvi um silvo de um pássaro, três sons curtos. Um monte de coisas poderia dar errado, mas pelo menos estávamos preparados.
Outra ordem foi dada. Armas foram apontadas.
Eu me preparei para me mover, as pernas tensas em expectativa.
— Preparar — veio o grito.
Me apoiei na ponta dos pés, me inclinando só um pouco para a frente.
— Apontar.
Sam inclinou a cabeça para trás para sentir os primeiros raios do sol, como se quisesse vê-lo uma última vez, ainda que estivesse vendado. Como se desejasse ter sabido que a última alvorada que ia presenciar era a do dia anterior. Naquele caso, talvez tivesse parado para vê-la, em vez de passar a manhã na escuridão dos túneis de Izman, esperando para salvar minha vida. Talvez nem estivesse ali.
Naquele segundo, seu cabelo claro se transformou em puro ouro sob a luz do sol.
— Fogo!
Seis dedos apertaram os gatilhos no mesmo instante em que me movi, correndo para frente enquanto a algazarra de tiros soava, preenchendo o ar com o cheiro familiar de pólvora.
Pólvora sem nenhuma bala.
Atravessei facilmente a fumaça, passando pelos homens que desviavam os olhos do som, do barulho e da visão da morte. Mergulhei onde Sam estava parado, esperando as balas que nunca viriam.
Colidi contra ele a toda velocidade, empurrando-o na direção do penhasco. Sam cambaleou e nos lançamos pelo ar.
Por apenas um segundo, estávamos caindo. Mergulhando na direção das rochas.
Então atingimos não as pedras dentadas, mas um pano esticado, que cedeu de leve sob o nosso peso. Eram os lençóis e as cobertas que havíamos tirado às escondidas do quarto de Jin, presos entre Izz e Maz, que voavam na forma de dois rocs gigantes, atravessando a fumaça do tiroteio. Ouvi os gritos de surpresa onde estava; as asas enormes batiam violentamente sobre a multidão reunida, enquanto voavam mais alto, até que estivéssemos fora do alcance das armas e de qualquer tipo de magia que o exército albish pudesse lançar contra nós.
Eu ainda tentava recuperar o fôlego. Sam, ainda vendado e em pânico, se debatia perto de mim.
— Para de se contorcer! — gritei em seu ouvido, sobre o som do vento durante o voo.
— Eu morri? — ele perguntou alto demais em seu próprio idioma, ainda se revirando.
Puxei sua venda para baixo. Ele piscou os olhos azuis assustados para mim, prestando atenção em meu rosto, nas asas acima da minha cabeça que nos levavam para um lugar seguro e no céu aberto infinito acima de nós. Sam virou a cabeça de um lado para o outro, vendo Jin nas costas de Maz à nossa direita e Tamid nas costas de Izz à esquerda.
— Você não está morto — gritei sobre o vento, a enorme rede balançando precariamente. — Agora para de se mexer antes que acabe matando nós dois.
Ele obedeceu, deitando perfeitamente imóvel enquanto sobrevoávamos as montanhas, subindo, atravessando e descendo até voltar ao deserto. Senti a areia por perto antes de pôr os pés no chão. Os gêmeos pousaram, descendo a rede com delicadeza.
Jin desceu das costas de Maz e me ajudou a levantar, enquanto Tamid permanecia teimosamente sentado em Izz. Jin me analisou rápido, procurando ferimentos. Não encontrou nenhum. Eu não havia crescido à sombra de uma fábrica de armas sem aprender um truque ou outro, como transformar uma bala normal em uma bala de festim.
Botamos Sam em pé. Assim que o soltamos, ele caiu sentado no chão.
— Acho melhor não. — As palavras saíram calmas, mas sua voz estava trêmula. — Ficar em pé parece ambicioso demais no momento.
Jin se agachou à frente dele.
— Você está bem? — perguntou, enquanto trabalhava para soltar as algemas de Sam. Havia tensão em sua voz, mas nada que o outro notaria. Ele não precisava saber da minha conversa com Jin na noite anterior sobre salvar a vida dele.
— Bem... — Sam pareceu fazer um inventário de si mesmo. — Minhas pernas não parecem muito firmes. E eu jurei lealdade a tantos deuses diferentes que não vou ter como cumprir. — Ele balbuciava em um ritmo frenético. — Imagino que ser infiel a um deus deve dar o dobro de azar de ser infiel a uma mulher. E ainda não tenho certeza de que não estou alucinando. — Ele virou os olhos semicerrados na minha direção. — Por outro lado, já tive dias piores.
— Acabou de amanhecer — Jin disse quando as algemas se abriram com um clique satisfatório, caindo na areia. — Ainda pode piorar. — Ele deu um tapinha amigável nas costas de Sam e levantou.
— Só para deixar claro, por que exatamente eu não morri? — Sam perguntou, esfregando os punhos.
— Porque você é um de nós. — Ofereci a mão para ajudá-lo a levantar. Ele parecia recuperado. — O que significa que nós temos o direito de te executar por traição, não eles.
Sam apertou os olhos por um momento. E então abriu um sorriso sincero.
— Nem vem — alertei, sabendo que diria algo espertinho em seguida.
— Sempre soube que você tinha uma queda por mim. — Ele segurou meus dedos, deixando que eu o puxasse.
— Só por causa do seu talento para tirar a gente de enrascadas. — Soltei a mão dele. — Vamos, temos que continuar.
Sam ainda estava se reorientando, mas deu uma olhada rápida em volta, de mim para Jin e dele para Tamid, que ainda se recusava a olhar para nós de onde estava sentado.
— Cadê a princesa? — ele perguntou.
Leyla.
O que fazer com a traidora foi o único tópico em que eu e Jin concordamos. Na melhor das hipóteses, ela seria um fardo em nossa missão de resgate. Na pior, deixava-nos em desvantagem.
Então a abandonamos. Escrevi um bilhete e pedi que um dos soldados entregasse a Balir: Cuide bem dela. Pode ser a última linha de defesa se o sultão bater à sua porta.
Leyla podia ser um problema para nós, mas funcionaria como um belo escudo para Iliaz. Tê-la como refém podia impedir que a montanha fosse apagada do mapa antes de voltarmos.
— Ela era um peso extra — foi tudo o que respondi a Sam.
— E, se existe uma vantagem em viajar sem um exército — disse Jin, passando a bússola de uma mão para outra, cujo ponteiro ainda apontava para o sul — é ser capaz de se mover bem rápido.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!