26 de novembro de 2018

Capítulo 14

EU HAVIA QUASE TERMINADO QUANDO PERCEBI que o som das armas tinha cessado. Ouvi vozes e passos de soldados. Xingando baixo, coloquei tudo rapidamente em seu devido lugar.
Depois da tentativa de invasão dos andarilhos, o pátio da fortaleza estaria repleto de soldados. Eu precisava de cobertura para voltar ao quarto sem perguntas. Respirei fundo e ergui a mão só o suficiente para formar uma pequena nuvem de areia, no nível do solo. Não era nada com que nós, habitantes do deserto, não estivéssemos acostumados. Por isso vestíamos sheemas. Mas, se os albish não sabiam nem que precisavam queimar seus mortos, eu duvidava que fossem espertos o bastante para manter o rosto coberto e protegido da areia do deserto.
Eu podia sentir meu poder resistindo, se contorcendo para longe de mim enquanto tentava evocá-lo pela terceira vez no mesmo dia.
Ajeitei meu próprio sheema e me enfiei na nuvem de poeira. Precisei de esforço para controlá-la. Mas não precisava continuar muito tempo, só o bastante para conseguir entrar de volta na fortaleza. A dor nas costelas me incomodava enquanto eu me movia devagar, desviando das silhuetas na poeira.
Ela piorava a cada passo que eu dava. Eu não aguentaria o esforço excessivo por muito mais tempo.
Então senti uma resistência ao meu poder, primeiro como um cutucão, depois mais insistente. Sem aviso, senti algo tentar arrancar a areia de mim, como um furacão, querendo juntar a poeira e arremessá-la para um lado. Me agarrei a ela mais firme.
Era um demdji albish, ou seja lá como se intitulassem, manipulando o ar contra minha areia.
Olhei em volta, procurando uma saída enquanto me encostava na parede em busca de apoio.
Havia uma janela aberta bem em cima de mim.
Teria força o bastante para alcançá-la? Não estava certa. No fundo, temia ter usado todas as minhas forças erguendo a cobertura de que precisara para chegar até ali. Rezei em silêncio para não haver ninguém do outro lado da janela.
Meus movimentos eram instáveis, trêmulos, e meu poder escapou ao meu controle por um momento antes de conseguir controlá-lo. A areia correu embaixo de mim, uma onda repentina que me ergueu, puxando meu cabelo, minha pele e minha roupa, levantando-me no ar.
A ponta dos meus dedos tocou a borda da janela. A dor na lateral do meu corpo me perfurava como uma flecha. O tênue controle do meu poder vacilou, e o senti escorrer pelos dedos como um punhado de areia. Quanto mais tentava segurá-lo, mais rápido caía. E então, de uma vez só, ele se foi, a areia desabou embaixo de mim, e então era eu quem caía. Meu coração palpitava, mas meus dedos encontraram o parapeito da janela. Tentei fazer a areia voltar, mas não deu certo. Lutei para desacelerar a respiração em pânico. Vinha tendo dificuldades de usar meu poder demdji desde que o havia recuperado, mas nunca tinha me abandonado completamente, como naquele momento. E se eu só possuísse aquela quantidade de poder e a tivesse esgotado? E se o tivesse perdido para sempre?
Senti meus dedos começarem a deslizar...
E então mãos conhecidas seguraram meus braços, me puxando para cima.
— É uma entrada e tanto, até para você — Jin falou, mantendo a firmeza com que me puxava pela janela.
Desabei sob a janela, o quadril latejando onde eu havia batido no parapeito em minha travessia atrapalhada. Recuperei o fôlego e esperei a visão clarear lentamente. Senti a mão de Jin no meu rosto. Estava vermelha quando se afastou.
— Sabia que está sangrando, Bandida?
Me concentrei nele. Estava agachado à minha frente, com as sobrancelhas franzidas de preocupação. Vestia apenas calças de amarrar folgadas do deserto. Meus pensamentos anteriores de cruzar o corredor para vê-lo voltaram, deixando meu corpo inteiro vermelho de calor.
— Sabia que está sem camisa? — retruquei.
— Eu estava dormindo. — Ele passou a mão no rosto, cansado. Atrás dele, vi os lençóis e travesseiros bagunçados. O sono ainda o envolvia, evidente nas pálpebras pesadas e no cabelo escuro despenteado. Eu me estiquei, passando a mão em sua nuca. Jin respirou fundo enquanto eu passava os dedos ali. Senti a minha pele arrepiar. Meu coração ainda estava acelerado por causa da fuga, e agora que a dor cedia, me senti acordada e viva, como se cada sensação fosse ampliada milhares de vezes.
Eu precisava falar com ele, dizer o que havia decidido. O que tinha feito. O que faltava fazer. Mas me movi de forma inconsequente, levando os lábios até o canto de sua boca, que ele tinha o hábito de erguer um sorriso irônico só para mim. Jin soltou um ruído no fundo da garganta enquanto sua mão encontrava seu caminho, subindo pelo meu pescoço até o meu cabelo. Me aproximei até o meu corpo encontrar o dele, me perguntado o quanto estava pronta para entrar em águas turbulentas.
Ele segurou minha mão; nossos dedos e entrelaçaram, nossas palmas pressionadas forte. E então se afastou igualmente rápido, segurando minha mão sob a luz que entrava pela janela.
— Suas mãos estão cobertas de pólvora. — Ele soava diferente, se afastando mais enquanto eu olhava para baixo. Havia mesmo um pó preto nos vincos das minhas palmas. Uma parte de mim queria puxá-lo para perto de novo, prometendo que explicaria mais tarde. Queria colocar a rebelião de lado por uma noite. Mas Jin já estava de pé, acendendo a lamparina ao lado da cama para poder me ver com clareza.
— Tem alguma coisa a ver com os tiros que ouvi? — ele perguntou enquanto sentava na beirada da cama, deixando uma distância segura entre nós e nos devolvendo à terra firme, onde uma guerra estava acontecendo. Eu ia ter que me explicar.
Resumi as coisas para ele o mais rápido que pude, explicando a oferta que o capitão tinha feito. O preço. O que eu havia decidido. E meu plano.
Quando terminei, Jin me olhava muito sério.
— Amani... — Ele hesitou, demorando-se no meu nome como se não soubesse por onde começar. Então esfregou a mandíbula, num gesto de ansiedade. — Está mesmo considerando recusar um exército?
— Não estou considerando — eu disse, com os joelhos próximos ao peito. Estava apoiada na parede sob a janela aberta. O ar frio da noite entrava por ali, arrepiando meu pescoço. — Já decidi.
— Viemos aqui para isso, e de repente você acha que não é tão importante assim?
— Não acho que valha a pena trocar nosso país por um exército — argumentei. — Ou a vida de Sam.
— Nem temos um país a oferecer. — Jin se inclinou para frente. — Não acha que deveríamos conquistar o trono antes de decidir que está ameaçado, Bandida?
— Mas ele está. — Eu não pretendia elevar o tom de voz, mas não tinha gostado de seu tom racional e persuasivo. Passei para um sussurro, lembrando que havia soldados do lado de fora. — E foi fazendo alianças com estrangeiros que seu pai armou esta confusão, para começo de conversa.
Jin apertou os lábios. Odiava ser lembrado de que era filho do sultão. Eu sabia disso porque o conhecia. Tinha falado de propósito, para provocá-lo.
— Você não teve nenhum problema em deixar Hala morrer pela rebelião — ele disse. Isso sim era uma provocação. — Por que Sam é diferente?
— Sam não tem que morrer. — Apertei a mandíbula com raiva. Eu não gostava do que Jin estava implicando: que eu era regida pelos meus sentimentos, e não pela razão. Que não me importava com Hala.
— Hala também não tinha.
— Não — rebati, o mais calmamente que consegui. — Você tem razão. Eu podia ter deixado que fosse torturada e manipulada pelo sultão. Nesse caso você estaria questionando meus motivos para querer salvar um dos nossos?
— Você sabe que não foi isso que eu... — ele começou a dizer, mas eu já o tinha deixado falar demais.
— Talvez fosse mais fácil para você se eu ainda fosse a garota egoísta que você conheceu na Vila da Poeira, a que deixava as pessoas para morrer em benefício próprio. Mas você só está vivo agora porque não sou mais aquela garota. E você... — E você está apaixonado por mim porque eu não sou mais aquela garota, era o que eu ia dizer, mas as palavras se embolaram na minha garganta. — Estamos aqui, juntos, porque não sou mais aquela garota. — Tentei passar batido pela hesitação, embora a leve erguida de sobrancelha dele indicasse que havia me entendido. — E se Sam não precisa morrer, não vou deixar que aconteça só porque é mais fácil. Não posso ser responsável por outro cadáver nesta guerra antes de sequer chegarmos à batalha de fato. Não se puder evitar.
Nós nos sentamos nos extremos opostos da sala, ambos imóveis, com o olhar fixo, os músculos tensos como se estivéssemos prontos para a luta.
Normalmente, aquele seria o momento em que um de nós sairia pelo deserto até esfriar a cabeça. Mas havia um guarda do outro lado da porta. Mesmo que tivesse me deixado sair, seria complicado explicar como eu havia voltado, ainda por cima para o quarto de outra pessoa.
Estávamos presos juntos. E talvez eu não fosse mais tão egoísta, mas continuava teimosa. Não daria o braço a torcer.
Após um período excruciante de silêncio, Jin finalmente falou:
— É a minha família, Amani. — Ele estava mais tranquilo agora. — Meu irmão. Minha irmã. É com a vida deles que você está jogando.
Eu conseguia ouvir a dor em sua voz. Jin se importava com sua família mais do que tudo no mundo. Morreria para salvá-los num piscar de olhos.
— É o meu país — argumentei. Jin havia crescido no mar, no país da sua mãe. Podia ser metade mirajin, mas também era metade estrangeiro. — A decisão é minha. — Permaneci firme. — Não estou pedindo sua ajuda — eu disse. — Estou dizendo o que vamos fazer. — Aquele pensamento me invadiu novamente. Quem eu pensava que era para dar ordens a um príncipe? Para alguém que estava na rebelião havia mais tempo do que eu? Para Jin, cujas ordens eu nunca obedeceria? Quem era eu para nos liderar por um caminho incerto e agir como se tivesse certeza do que fazia?
— Então é melhor você dormir — Jin disse finalmente, quebrando o silencio. — Tem muita coisa para fazer amanhã.
Ele estava certo, mas não havia como voltar para o meu quarto, considerando o soldado no corredor. Imaginei que poderia dormir bem o suficiente no chão. Mas Jin abriu espaço para mim na cama, apesar do seu olhar fixo no teto.
Pensei em argumentar, mas estava cansada. E como. Cansada de lutar, de fugir, de discutir. Aquela cama macia pareceu tentadora. Me acomodei com cuidado, como se ela fosse feita de vidro, me posicionando de costas para Jin, virada para a janela, esperando o sol nascer, com a discussão alojada firmemente entre nós.
Eu flutuava entre o sono e a vigília quando senti a mão de Jin no meu rosto. Ouvi-o falar, tão baixo que não sabia se era para eu ouvir.
— Você está errada. Não estou com você pelo que se tornou. Me apaixonei por você quando eu estava sangrando embaixo de um balcão nos confins do deserto e você salvou minha vida. Numa época em que nós dois éramos diferentes de quem somos hoje.
Acordei com a cabeça apoiada entre seu queixo e sua tatuagem, com um de seus braços à minha volta, a mão segurando o tecido da minha camisa.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!