26 de novembro de 2018

Capítulo 13

EU NÃO SABIA SE ÉRAMOS PRISIONEIROS OU NÃO.
Fomos separados rapidamente, antes que eu pudesse contar a Jin sobre a oferta do capitão. Eles não trancaram as portas dos nossos aposentos, mas colocaram soldados de guarda do lado de fora.
O quarto para onde fui levada não parecia uma cela. Tinha quase o tamanho da casa da minha tia na Vila da Poeira, dominado por uma cama imensa com almofadas coloridas e uma tapeçaria que se estendia de uma parede até a outra, mostrando um homem caçando um bando de pássaros com flechas. Minha janela dava para o pátio, para os muros da fortaleza e, além deles, estava a montanha, que mergulhava em ondas de vinhas verdes até uma aldeia menor logo abaixo.
Enquanto eu espiava, alguém bateu a porta. Dois serviçais entraram de cabeça baixa. Um carregava uma jarra de água e o outro uma bandeja de prata imensa e pesada com comida. Eles a deixaram sobre a mesa antes de saírem apressados, fechando a porta.
Os privilégios concedidos a nós não se estendiam a Sam.
Hala havia morrido pela manhã. Estava quase anoitecendo agora, e estávamos perto de perdê-lo também. Um terço dos rebeldes restantes mortos em um dia. Perder pessoas tão rápido era um feito impressionante para qualquer líder.
Por outro lado, poderíamos adicionar centenas de pessoas a nossas tropas e impedir que dois inimigos se aliassem contra nós.
Um exército inteiro em troca da vida de um garoto que só dava trabalho. Mas ele era meu amigo e nosso aliado. Havia salvado minha vida tantas vezes quanto eu salvara a dele, e tinha trazido ajuda quando eu precisara no harém. Daria minha vida por Sam. Não sabia se ele faria o mesmo por mim, mas certamente não tinha me dado permissão de ceder sua vida.
E, se eu cedesse, mesmo se aquilo nos rendesse uma aliança, eu estaria colocando meu país em mãos estrangeiras, como o sultão havia feito quando usurpara o trono de seu próprio pai. Os albish eram melhores que os gallans, mas ainda assim eram estrangeiros. Estavam ali para ocupar nosso deserto.
Quem eu pensava que era para tomar aquela decisão? Não deveria ser responsabilidade minha – a vida de Sam, o trono, o destino de nossos companheiros e o do país. Outra pessoa devia decidir aquelas coisas, Ahmed, Shazad ou até mesmo Rahim. Alguém que entendesse algo sobre alguma coisa.
Olhei para a porta. Jin tinha sido levado para o quarto em frente. Mesmo com as paredes e portas entre nós, eu sentia sua presença como jamais tinha sentido.
Se eu tentasse sair, o soldado ia me impedir? Se não me impedisse e eu desse alguns passos e batesse na porta de seu quarto, o que faria depois? Não sabia ao certo o que diria. O que faria. Nem mesmo o que queria. Conversar? Para que Jin me dissesse que eu devia deixar Sam morrer pelo bem da rebelião? Para me ajudar a bolar um plano para tirá-lo dali com vida? Ou alguma outra coisa? Eu podia sentir sua ausência como uma coceira na pele.
Antes que pudesse pensar melhor, estava abrindo a porta. O soldado de pé ao lado de fora era mirajin, um dos homens de Balir, muito bem treinado por Rahim para se assustar com barulhos repentinos. Ele me olhou calmamente de onde estava, de guarda entre as duas portas.
— Você tem ordens de me parar? — perguntei.
O soldado me observou por um longo momento.
— Há um rumor circulando, de que você pretende salvar o comandante. — Ele estava falando de Rahin, o homem a quem os soldados continuavam leais. Anwar, o soldado mais novo que fazia a tradução para Balir, devia ter contado ao restante dos homens o que eu dissera.
— Vou tentar.
Ele assentiu pensativo.
— Nesse caso, no que me diz respeito, pode ir aonde quiser. — Ele se afastou para me deixar passar. Saí do quarto e olhei para a porta fechada de Jin. A ideia de dar outro passo na direção dela, de cruzar a distância entre nós, disparou um leve arrepio pelas minhas costas que parecia ser metade medo e metade ansiedade.
Mas o medo levou a melhor.
Eu me virei, descendo o corredor e me afastando rápido.


Encontrei o capitão nos muros da fortaleza, examinando seis soldados enfileirados dando tiros em um fardo de feno com rifles desnecessariamente decorados. Eram feitos à mão, como todas as armas que não eram de Miraji. Aquele era o motivo por que precisavam de nós tão desesperadamente. Podíamos armar em um dia a mesma quantidade de pessoas que conseguiriam em um mês.
O último raio de sol atingiu os rifles, fazendo com que as gravuras douradas brilhassem no crepúsculo. Tinham a forma de vinhas retorcidas de um jeito elaborado, descendo pelos punhos de madeira. Pareciam mais cerimoniais do que úteis. Para uma execução mais do que uma batalha. Imaginei que o fardo de feno fizesse o papel de Sam.
A parte de cima do fardo se soltou quando as balas a acertaram. Ele balançou por um momento antes de tombar para trás e cair. Me inclinei para ver o fardo despencando pelo penhasco e batendo na montanha lá embaixo.
Era uma longa queda.
— Srta. Amani — o capitão Westcroft me cumprimentou, dispensando os soldado com um aceno ligeiro. — Como posso ajudar? — Se ele ficou surpreso que eu estivesse fora do quarto, não demonstrou.
— Quero conversar com você sobre Sam.
— Entendo.
Cruzando as mãos para trás das costas, ele começou a caminhar vagarosamente, obrigando-me a segui-lo.
— Quero que a libertação dele seja uma condição da nossa aliança. — Shazad seria capaz de negociar algo do tipo. Eu não era ela, mas podia fingir apenas durante aquela conversa.
— Receio que não seja possível. — O capitão soou genuinamente pesaroso. O céu estava escurecendo rápido ao nosso redor. Tochas e lamparinas começaram a ser acesas pela fortaleza, afugentando a noite.
— Então é melhor que isso mude. — Tentei soar como Shazad, como se fosse uma ordem, e não um pedido. — Você não tem o direito de executar Sam. Ele está conosco agora.
— Mas continua sendo um desertor. Sempre será. Um exército precisa de disciplina para funcionar. Em lugares assim, longe de casa, deserção e insubordinação são ameaças maiores do que nunca. Se vou pedir aos soldados que atravessem o deserto por você, precisam estar sob controle. — Ele parou, parecendo sério ao virar para mim. — Seu amigo precisa se tornar um exemplo para os outros trezentos homens.
Trezentos soldados.
Aquela era a melhor chance que eu tinha de resgatar Ahmed. Talvez os albish até tivessem magia suficiente para nos conduzir pela Muralha de Ashra, se ela fosse real.
Eu teria que ser idiota para recusar. Mas tinha me acusado bastante daquilo na vida. Eu era a garota idiota, ignorante, imprudente da Vila da Poeira, que não reconheceria um om acordo mesmo se estivesse debaixo do meu nariz.
— Capitão — alguém chamou em albish, atraindo a atenção de Westcroft para o pátio abaixo. O soldado de guarda no portão disse algo rápido demais para eu entender.
A reação de Westcroft foi instantânea. Uma preocupação legítima surgiu em seu rosto.
— Com licença — ele disse rapidamente antes de descer as escadas de pedra. Que levavam para o portão. Eu o segui.
Ainda não havia chegado ao último degrau quando vi o que havia causado a comoção. Do outro lado do portão, podia ver uma figura pálida tropeçando na escuridão. As mãos pressionavam a lateral do corpo, e vestia um uniforme albish ensanguentado. Sob a luz fraca da tocha, pude ver seu rosto retorcido de dor.
Os soldados albish já estavam correndo, passando o portão e entrando na escuridão para ajudá-lo. Os soldados mirajins, por outro lado, pararam de repente, cautelosos, e com razão. Havia algo errado ali, algo que não batia naquele soldado ferido mancando pela noite de volta para casa. Todos nós nascidos no deserto percebemos. Anos olhando por cima do ombro na Vila da Poeira, atenta aos cantos escuros e criaturas à espreita, haviam treinado meus instintos. Mas eu havia aprendido mais alguns truques graças a meus dias no deserto.
— Ele não é humano. — As palavras saíram facilmente da minha língua, o que indicava que era verdade. Estava consciente disso enquanto os soldados iam aos tropeções até o limite da luz lançada pelas lamparinas, segurando-o pelos braços, mantendo-o de pé.
Nenhum deles viu o brilho de seus dentes enquanto girava a cabeça na direção da garganta do soldado mais próximo para destroçá-la.
Era tarde demais para avisar. Tarde demais para qualquer coisa além de agir.
Fui rápida. Saquei a pistola embainhada na cintura do capitão antes que ele pudesse ver. Ela ganhou vida na minha mão. Mirei rápido, enquanto a mandíbula do carniçal se abria, pronta para estraçalhar outro homem.
Atirei.
A bala acertou o andarilho entre os olhos.
Seu rosto roubado nem teve tempo de parecer surpreso ao cair morto.
No mesmo instante, os soldados estrangeiros apontaram as armas na minha direção, pensando que matara um dos seus. Minhas mãos já estavam erguidas, o dedo fora do gatilho, para mostrar que eu não era uma ameaça. A arma do capitão foi arrancada de mim, e as minhas próprias foram tomadas.
— Aquele não era um dos seus soldados — eu disse em mirajin, alto o suficiente para os homens de Balir no portão me ouvirem. Meus braços foram presos dolorosamente nas minhas costas. — Era um andarilho.
O capitão pareceu me compreender, mas não o restante dos soldados. Não entendiam o que haviam atraído.
Balir, moribundo em sua enfermaria, não devia saber o que estavam fazendo. Me perguntei se ele se importava.
E de repente vi outro relance de movimento.
Lembrei de nossa subida pela montanha: havia mais de um corpo parcialmente enterrado, com marcas de dente na pele.
— E ele não está sozinho.
Os soldados mirajins reagiram rápido, suas armas girando na escuridão. Mas os andarilhos sabiam que tinham sido vistos. Eles se mantiveram nas sombras, avançando e recuando rápido demais para mirar, enquanto os canos tentavam segui-los pela noite.
Não tivemos qualquer aviso antes que o próximo atacasse. Ele fincou a boca no ombro de um soldado, cortando a carne e o músculo até chegar ao osso. O grito do homem ecoou pela montanha.
Mas os soldados de Rahim eram bem treinados. Um deles alcançou o andarilho em um segundo, cortando a garganta dele e derrubando o monstro, que se contorceu no chão.
Outro andarilho surgiu da escuridão e avançou na direção daquele soldado.
— Fechem os portões! — o capitão gritou, enquanto seus homens miravam no novo andarilho, acertando-o no peito e derrubando-o. — Agora! — Ele gritou a mesma ordem em albish, incerto de quem era responsável pelo que naquele exército confuso.
Os soldados começaram a recuar, mantendo-se atentos enquanto o enorme portão de ferro era baixado. Armas albish e mirajins dispararam, apontadas para os andarilhos. Dezenas deles deslizavam pelo escuro, avançando para dentro e para fora do campo de visão. Atraídos de seus esconderijos nas montanhas, procurando mais corpos para devorar.
Um tiro foi disparado perto do meu ouvido. Não precisei confirmar se havia acertado o alvo. Sabia que não só pelo modo como o soldado segurava a arma. Os albish pareciam ter medo delas, acostumados demais a ter a magia como forma de defesa. Não pedi permissão para tirar a arma dele, e atirei. Três andarilhos desabaram no escuro, até que as balas acabaram. Droga.
— Onde vocês guardam a munição? — perguntei em mirajin, sem me dar ao trabalho de tentar lembrar as poucas palavras que conhecia do idioma deles, dado o tiroteio que desenrolava. O soldado balançou a cabeça sem entender, enquanto eu mostrava a arma vazia. Revirei os olhos, desesperada, e virei para o capitão.
Ele pareceu preocupado.
— Não precisamos transformar isto numa batalha — ele disse. — Podemos esperar até irem embora. Estamos protegidos pelos muros...
— Eles vão perder o interesse e seguir para as casas mais adiante na montanha — respondi. Podíamos defender a fortaleza, mas os habitantes das vilas de Iliaz não teriam o que fazer. — Onde vocês guardam a munição?
O capitão pareceu sério.
— Em uma tenda perto do portão leste.
Corri, contornando a construção central. Logo via a tenda, armada contra o muro mais externo, destacando-se como um polegar ferido nas cores dos albish, batendo contra a pedra quente da fortaleza.
Lá dentro, havia uma fileira de armamentos: armas, espadas, rifles e algo que podia ser bombas, tudo ordenadamente empilhado. Um pequeno arsenal pronto para marcha sobre Izman, se necessário. Estava prestes a pegar as balas quando vi os rifles dourados alinhados cuidadosamente em um canto.
E então parei.
Do lado de fora ouvi vozes altas, mais tiros e os sons da invasão de carniçais sendo contida à distância. Eu já estivera em um monte de lutas em nome da rebelião. Tinha sentido medo ou não sentido nada, com tudo dentro de mim concentrado em permanecer viva. Mas a raiva daquela noite era novidade. Ela surgia em alguma parte escura da minha alma, mais antiga do que eu. Antiga como minha linhagem sanguínea, antiga como o deserto. Nosso deserto — não deles, para marchar com seus exércitos e o conquistar através de barganhas e alianças, enquanto enterravam seus mortos e possibilitavam que nossos monstros prosperassem. Aquele era nosso deserto, não deles, e de nenhum gallan nem de nenhum outro povo do norte vindo das fronteiras do horizonte.
E eu não ia deixar que ficassem com ele.
Eles podiam lidar com os andarilhos sem mim. Era apenas uma batalha. Eu tinha uma guerra para vencer. Rapidamente, tirei uma faca da parede e comecei a trabalhar na minha sabotagem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!