26 de novembro de 2018

Capítulo 12

LORDE BALIR, EMIR DE ILIAZ, parecia o que realmente era: um homem morrendo.
Havíamos sido escoltados pelos soldados albish pelo resto do caminho até a fortaleza, sob a mira de armas. Leyla gritou e protestou, alegando que era uma prisioneira e precisavam ajudá-la. Mas suas palavras caíam em ouvidos que não entendiam mirajin, ou não se importavam. Finalmente Jin se aproximou dela e falou num sussurro rápido:
— Quer mesmo que saibam que você é a princesa de um país inimigo?
Depois disso, ela manteve um silêncio carrancudo. Podia querer escapar, mas uma fuga para as mãos do inimigo só pioraria sua situação.
Se Iliaz estava ocupada por soldados estrangeiros com autoridade para nos prender, significava que a fortaleza tinha sido tomada. Imaginei que encontraríamos Iliaz invadida, lorde Balir e seus homens mortos ou presos.
Mas quando chegamos aos portões da fortaleza, eles foram abertos por soldados mirajins vestindo o uniforme de Iliaz. Não houve nenhuma troca de palavras entre os soldados albish que nos mantinham prisioneiros e os soldados mirajins, apenas acenos bruscos. O soldado mirajin guardando o portão nos avaliou um a um. Se estava surpreso com nosso grupo, era bem treinado demais para demonstrar. Atrás dele, pude ver um pátio amplo que circundava a fortaleza.
Dezenas de soldados albish em seus uniformes verde-escuros circulavam, metodicamente limpando armas, afiando lâminas ou praticando exercícios militares. E junto a eles, ainda que não misturados, estavam os homens das tropas de Iliaz. Mirajins coexistindo com estrangeiros em seu próprio território.
Não eram invasores, então. Eram aliados. Essa revelação me pegou de surpresa.
— Identifiquem-se — o soldado mirajin no portão ordenou a todos nós.
Não me dei ao trabalho de mentir para ele sobre quem éramos. Tínhamos ido até lá para falar com Balir, afinal. Evidentemente, éramos aguardados. Antes que me desse conta, fui levada com pressa para os aposentos do emir. Os outros permaneceram no extenso corredor de pedra do lado de fora. Senti o olhar de Jin em minhas costas antes que a porta fechasse.
Lá dentro, Balir esperava por mim como se eu fosse uma convidada, não uma prisioneira. Estava sentado com um serviçal de um lado e um soldado do outro, apoiado em dezenas de travesseiros no fim de uma mesa baixa que tinha sido posta com dúzias de pratos tão refinados que eu nem reconhecia.
Ele tinha a mesma idade de Rahim. Os dois haviam crescido juntos, criados pelo pai de Balir como irmãos. Ainda não tinham completado duas décadas. Mas agora, com a doença o destruindo, Balir parecia ter noventa anos, não dezenove.
À sua direita, sentava-se um homem usando um uniforme albish mais elaborado do que o dos jovens que haviam nos levado até ali. Ele não tinha vinhas por todo o uniforme, mas havia dragonas douradas nos ombros e botões dourados que o diferenciavam. Imaginei que fosse o general ou capitão. Parecia estar sofrendo com o calor, seu rosto pálido levemente ruborizado. Seu cabelo era avermelhado, num tom que eu só tinha visto em raposas. Seu bigode cuidadosamente aparado adornava o lábio superior. Ele se remexia desconfortável nos travesseiros perto da mesa baixa, como se preferisse uma cadeira. Mas não encontraria uma ali.
Imaginei que aquela devia ser a sala para recepção de convidados nos aposentos de Balir, mas o lugar não parecia de fato destinado a receber ninguém. Lembrava o quarto de Tamid na Casa Oculta, repleto de mesas, atulhado de livros empilhados e potes contendo pós, etiquetados em um idioma que eu não conhecia.
— Amani — ele me cumprimentou. Pelo menos estava me chamando pelo nome, em vez de “demdji”. — Por favor. — Ele acenou com a mão magra para a refeição à mesa. — Junte-se a mim e ao capitão Westcroft. — Eu não me movi, olhando de Balir para o oficial albish à sua direita. — Afinal, preciso conhecer melhor minha futura esposa.
Sem dúvida alguma Balir estava mais perto da morte do que um mês atrás em Izman, quando nos dera seu ultimato. Ele queria uma esposa demdji para vincular sua vida à dela, e assim continuar vivendo. Então provavelmente achava que era esse o motivo da minha presença.
Não sentei.
— Não vim aqui casar com você.
O servo à esquerda de Balir estremeceu. Eu não o culpava. Esperei pela raiva de Balir. Lembrei que o príncipe Kadir mal contivera a violência quando soube que não poderia me ter. Homens privilegiados não estavam acostumados a receber recusas. Mas Balir simplesmente baixou a mão trêmula até o prato, depois alisou uma dobra na toalha de mesa, ganhando tempo para se recompor.
 — Bem, a que devo a dúbia honra da sua visita, então? — Ele estava mais magro do que na época em que saíra de Izman, e seus olhos pareciam tomados pela dor e pela insônia. Mas sua aparência arrogante não o havia abandonado. Mesmo à beira da morte, não admitiria a derrota.
Olhei novamente para o soldado albish à sua direita, que continuava me observando.
— Nem se incomode. — Balir sacudiu a mão. — O capitão aqui não entende uma palavra do que você diz, e instruirei Anwar a não traduzir. — Ele acenou para o soldado de pé entre os dois. — O albish de Anwar é tão falho quanto o de qualquer homem que o aprendeu com uma mulher. — Anwar pareceu envergonhado com o comentário do emir, mas segurou a língua. — Mas é o melhor que temos no momento, suficiente para nossos propósitos atuais.
O capitão albish estava me observando com uma cara de paisagem de que desconfiei, mas voltei a atenção para Balir mesmo assim.
 — Vim aqui com um alerta. — Tentei transmitir a mesma autoridade natural que Shazad tinha ao falar, como se eu estivesse em vantagem, e não ele. Eu, com meus quatro rebeldes em fuga e dois acompanhantes relutantes. Enquanto ele tinha uma fortaleza, um exército e um arsenal. — E uma oferta.
Balir inclinou a cabeça.
— Acho que prefiro que comece pelo alerta. Não dá para ficar muito pior do que isso.
— O sultão sabe que você se encontrou com Ahmed antes de sair da cidade. — Enfiei a mão no bolso, puxando um pedaço de papel que Jin havia roubado do palácio. Passei-o ao serviçal, que o manteve na altura de Balir para que ele pudesse ler. — Nosso aclamado governante sabe que você é um traidor. Após lidar com a ameaça estrangeira em seus portões — olhei hesitante na direção do capitão com cabelo de raposa — você será o próximo alvo.
Balir não se mostrou muito preocupado enquanto examinava o papel nas mãos do servo. Afinal, teoricamente Iliaz era a cidade inconquistável, a fortaleza que guardava uma das únicas passagens entre o oriente e o ocidente de Miraji. O território estratégico derradeiro, segundo Shazad.
— E sua oferta? — Ele soou entediado, enquanto agitava dois dedos ao serviçal, dispensando a ele e a carta que determinava sua destruição como se não fosse nada de mais. Com cuidado, o serviçal colocou o papel de lado em uma das mesas sobrecarregadas de notas e rabiscos. — Qual é?  — ele insistiu quando não respondi de imediato.
Passei os olhos pelos outros na sala ates de falar.
— Se você nos ajudar a resgatar Rahim — Anwar, o soldado ao lado de Balir, ficou alerta à menção do nome; o mero som do nome de seu capitão pareceu endireitar sua coluna — e Ahmed, faremos nosso melhor para tomar o trono do sultão e garantir que o futuro governante não seja alguém que quer te matar.
A menção a Rahim não pareceu atrair a atenção de Balir da mesma maneira que atraiu a de Anwar. Eu tinha imaginado que fossem como irmãos. Que Balir ia se importar com a morte iminente de Rahim se não fosse resgatado.
Mas Balir simplesmente abriu as mãos, indicando o homem de uniforme albish ao seu lado.
— Parece que estou tentando esconder minha traição, Amani? Que tipo de governante eu seria se não estivesse preparado para enfrentar as consequências?
— Talvez um que não se importe com elas, porque já é um homem morto. — As palavras saíram antes que eu pudesse decidir se deveria pronunciá-las ou não.
Eu podia jurar que vi as sobrancelhas do soldado albish se erguerem só um pouquinho. Balir deixou escapar uma risada rascante que logo se transformou em tosse. Pareceu chacoalhar seus ossos causar uma dor extrema em seu corpo desgastado. O serviçal deu um passo à frente, mas o emir o dispensou rapidamente com um gesto, recompondo-se.
— Acha que eu jogaria o país aos cães por despeito?
Olhei para o capitão albish para ver se ele esboçava alguma reação ao ouvir seu exército sendo chamado de cães. Mas a inexpressividade calculada se manteve em seu rosto.
— Acho que o que você está tratando como aliança parece muito como uma invasão.
— Invasões em geral não começam com um convite. — Balir deslizou a mão sobre a mesa de novo, tentando esconder o tremor das mãos. — Embora eu entenda que a diferença possa ser sutil demais para pessoas mais simples.
Tentei ignorar a vergonha enquanto sua voz adquiria um tom de deboche, imitando meu sotaque ao pronunciar as últimas palavras. Como se eu fosse burra só porque não falava como ele.
— O que fiz foi inevitável, Amani. — As palavras de Balir adquiriram um tom paternalista. — O exército do sultão em nossa fronteira oeste está em ruínas. Há um rumor de que o general Hamad desapareceu e eles estão sem líder. — General Hamad. O pai de Shazad. “Desapareceu”, ele disse. Não “morreu”. Devia ter escapado quando o sultão tentou prendê-lo pela traição da filha. — Sem uma linha de defesa decente, foi fácil para meus novos amigos entrarem no deserto por Amonpour. Nosso governante está tendo dificuldades para manter o controle do país, Amani. Acha mesmo que ele tem recursos para vir atrás de mim por causa de quem escolhi como aliados?
Ele parecia tão presunçoso, sentado ali em sua fortaleza. Mas eu tinha acabado de sair de Izman e sabia que o sultão não devia ser subestimado.
 — E quanto a todos os corpos enterrados lá fora? Não parecem indicar uma aliança tranquila.
— Foi um confronto com um bando de pesadelos mais para baixo na montanha, não com meus homens. Os estrangeiros não estavam preparados. — Balir me olhou como se eu fosse uma criança cujas ideias selvagens o divertissem. — Quer mesmo debater comigo a diferença entre cooperação e invasão? Porque prometo a você que meus estudos de história, estratégia e vocabulário foram muito mais amplos do que os seus. — Me senti de volta ao palácio, sentada na frente do sultão, incapaz de defender o príncipe rebelde contra sua lógica deturpada. Shazad, que tinha mais bagagem de leitura, saberia rebater de forma inteligente; Ahmed, que tinha certeza de suas intenções, teria sido capaz de defender sua posição melhor do que eu. Mas só fiquei lá, absorvendo o golpe de vê-lo rebater meus argumentos sem esforço. — O capitão Westcroft e seu exército estão aqui a meu convite. Não pretendo morrer.
— Muitas pessoas acabam mortas sem querer, sabia? — De canto de olho, vi o capitão albish passar a mão rapidamente pelo bigode, como se escondesse um sorriso.
 — Bem... — A mão de Balir estremeceu novamente. — Embora seu senso de autoimportância seja divertido, você realmente acha que é meu último recurso? — Ele gesticulou fracamente ao redor, para o caos que dominava o restante do aposento. — Já tentei milhares de maneiras de permanecer vivo. Essa é só mais uma. Veja por si mesma.
Dei alguns passos até a mesa onde o serviçal havia jogado a carta que reconhecia a traição de Balir. Eu mal conseguia ver a mesa sob a bagunça.
— Já testei, usei e pesquisei cada possibilidade de feitiçaria mirajin para me salvar, sem nenhum resultado. É hora de deixar a magia do deserto para trás. — Meus dedos dançavam pelos papéis e bilhetes rabiscados. Havia páginas arrancadas de livros, as bordas rasgadas pintadas com flores de pigmento brilhante e animais em ouro. — Os albish sabem como curar com água e terra em vez de fogo e palavras. Você já viu do que são capazes em batalha. — Então ele estava entregando o país aos estrangeiros em troca de uma chance de cura.
Uma página no canto da mesa chamou minha atenção. Era quase toda ocupada pelo desenho de uma montanha, um único pico cinzento que se esticava, invadindo o céu. Ela era oca, e dentro havia um homem de pele vermelha, como fogo em movimento, com os braços acorrentados. Em letras brilhantes e douradas, as palavras inscritas abaixo dele atraíram meus olhos: “O homem na montanha”.
Corri o dedo pela borda dentada do papel, revelando que fora arrancada de um livro. Eu já tinha visto aquela imagem antes, ainda que nunca tão bem desenhada. Em um dos livros de Tamid na Vila da Poeira, havia uma ilustração pálida da cena, feita com tintas baratas. Nela, o homem tinha um tom roxo violento, e seus dentes enormes e afiados se projetavam em uma rosnada. Era mais um monstro. Mas de resto a imagem era a mesma, inclusive o formato peculiar da montanha.
— Costumavam contar essa história para nos assustar — eu disse, pegando a folha. Quando eu tinha seis anos, a mãe de Tamid ralhava comigo: “Seja uma boa menina ou o monstro da montanha vai te pegar. Ele como crianças desobedientes vivas”. — Diziam que havia um monstro que tinha feito um mal tão grande para os djinnis que acabara trancafiado numa montanha por toda a eternidade. Que ele sobrevivia comendo crianças desobedientes.
Balir sacudiu a cabeça.
— Eles sempre entendem tudo errado lá no sul. — Ele disse “sul” como se fosse uma ofensa. — Não era um monstro, apenas um homem. E não fez mal aos djinnis, os djinnis que fizeram mal a ele, roubando sua amada. Muitos djinnis tomas as esposas dos homens. — Ele olhou diretamente para mim, sem qualquer tentativa de disfarçar. — Esse homem, diferente dos outros, ousou se vingar. Ou tentou. Os djinnis o acorrentaram e o trancafiaram na montanha para que se arrependesse. Mas se alguém o libertasse antes disso, teria o maior desejo de seu coração atendido.
Aquele era o motivo do interesse de Balir. Seria outra maneira de escapar da morte, um desejo concedido por um homem imortal numa montanha.
— Você não devia confiar nessas histórias — eu disse, ainda segurando a folha. Nunca tinha visto uma ilustração como aquela. Ele não parecia um monstro, tampouco parecia um homem. Lembrava mais uma criatura feita de fogo. — Elas nunca contam toda a verdade.
Aquilo me lembrou de um jogo quando era criança, em que alguém sussurrava uma frase no ouvido de outra pessoa, que a sussurrava para a próxima, e assim por diante, até a última falar em voz alta uma versão distorcida do original. Só que eu não sabia qual era a cópia: o homem ou o monstro.
 — Mas será que é só uma história? — Balir me observava atentamente. — Porque enviei uma dúzia de soldados ao sul para encontrar esse homem, e eles não retornaram. Não acho que foi uma história que os matou.
Não, provavelmente foram andarilhos, ou um exército estrangeiro, ou o exército do sultão, ou mirajins famintos, ou qualquer outra coisa que poderiam ter encontrado nessa tolice de missão.
Devolvi a folha, relutante.
— Não existe isso de “só uma história”.
Balir teve outro ataque de tosse. Dessa vez, não teve forças para afastar o criado que deu um passo à frente. A tosse não passou. O serviçal e o soldado o ajudaram a levantar e o conduziram pela porta que levava aos seus aposentos privados.
A tosse ecoou pelo corredor por muito tempo depois de a porta ser fechada atrás dele, me deixando sozinha com o capitão albish de cabelo de raposa.
— Então — eu disse para o capitão em mirajin, apesar da boca cheia. Não haviam me ensinado modos, como Balir tivera o prazer de me lembrar, então não fazia sentido fingir. — Você vai mesmo curar Balir? Ou só está tentando vender essa história para pôr os pés no meu país? — O capitão me observou por um momento, a inexpressividade calculada falhando antes de reaparecer. Mas eu não estava no clima para joguinhos. — Sei que você me entende — eu disse. — Se vai fingir o contrário, posso chamar meu intérprete. Só que ele é ainda mais irritante do que eu.
 — Sim, bem... — O capitão pigarreou. Com aquelas poucas palavras, eu já sabia que seu mirajin era quase perfeito, com menos sotaque que o de Sam. — Espero que perdoe a encenação. Não foi por sua causa. Aprendi sua língua na Primeira Guerra mirajin, duas décadas atrás, quando lamentavelmente perdemos nosso país para seu atual sultão e seus aliados gallans. — O capitão pegou um jarro e serviu vinho em copo de vidro. — E minha esposa faz questão de que falemos mirajin em casa, pelo bem das crianças. Para que falem as línguas dos dois pais. — Ele me estendeu o copo de vinho. — Experimente. É muito bom.
Tomei um gole. Ele não estava mentindo. Era bom mesmo. E eu estava com sede.
— É sua segunda tentativa de tomar o deserto, então? — perguntei. — Depois de perder na primeira vez? Por isso está usando Balir ao fingir que pode curar sua doença?
— Certamente faremos nosso melhor para ajudar. — Ele se esquivou habilmente da minha pergunta. — Nosso druida está tentando tirar a doença do sangue dele. Mas talvez já tenha chegado aos ossos. Se for o caso... Mas não é minha intenção deixar um aliado morrer sem um bom motivo. Embora, como você diz, às vezes intenções significam muito pouco quando a morte bater à porta.
— Então qual é a sua intenção? — perguntei.
O capitão não me respondeu de imediato, servindo um copo de vinho para si, ganhando tempo para pensar.
— Srta. Amani — ele disse por fim, em um tom muito educado, que não indicava que ia responder minha pergunta diretamente. — Ouvi com grande interesse o que disse para o bom lorde Balir. E espero que não se incomode por dizer isso de maneira tão franca, mas, de acordo com nosso serviço de inteligência, o príncipe rebelde está morto.
Ah, droga. Eu não queria que ele soubesse aquela parte, mas era tarde demais.
— Bem, entoa seu serviço de inteligência não é tão inteligente assim.
O capitão deu uma tossidinha educada para disfarçar a risada.
— Se nosso serviço de inteligência é de fato falho... acredita realmente que seu príncipe rebelde pode conquistar o trono?
Aquela era a principal pergunta. Eu acreditava que Ahmed era capaz de algo que seu pai dizia que não era? Acreditava que seria o governante de que o país precisava, tanto para o povo quanto para combater os inimigos? Quando toda a lógica dizia que mudar de regime condenaria o deserto? Mas crença era uma coisa engraçada, estrangeira à lógica.
— Se eu não acreditasse, seria idiotice da minha parte arriscar a vida tentando salvá-lo.
— Entendo — o capitão Westcroft ponderou. — E estou certo em presumir que precisa de ajuda para um resgate?
Eu o observei com cautela, sem saber exatamente aonde queria chegar, mas assenti.
— Você me perguntou nossas intenções. — O capitão Westcroft suspirou. — Não sei o quanto conhece da história de Albis, srta. Amani, mas temos um inimigo em comum.
— O império gallan. — O inimigo posicionado nos portões de Izman naquele mesmo momento.
— Sim. Temos evitado uma invasão gallan há milhares de anos através da magia. Imagino que você, melhor do que ninguém, entenda o que a ocupação gallan significaria para... aqueles cujos ancestrais não são totalmente mortais.
Eu entendia perfeitamente. Significaria a morte para os demdjis, para qualquer um que considerassem tocados por um ser primordial. Significaria que o país sangraria para alimentar a cruzada deles contra outros lugares que usavam magia, e que cidades como Vila da Poeira seriam espremidas até a última gota. Significaria soldados descontrolados e sem lei matando e estuprando, transformando meu país em parte do seu terrível império.
 — Muitas pessoas fugiram do seu país com medo dos gallans vinte anos atrás, incluindo minha esposa. Elas foram até nós porque sabiam que tínhamos resistido aos inimigos por séculos. Quando o exército gallan marchou pela primeira vez sobre Albis, milhares de anos atrás, carregando espadas e arcos, nossa primeira rainha levantou a própria terra contra eles. — Ele bufou através do bigode. — Quando Gallandie enviou uma armada contra nós, a rainha varreu os navios do mar com a mão. Mas o sangue dilui, a magia se dissipa, a tecnologia avança. Foi por isso que nossa rainha Hilda foi ao seu sultão tão prontamente para forjar uma aliança durante o Auranzeb. E ele a matou.
Eu me lembrava da noite do Auranzeb, dos líderes estrangeiros queimando nas mãos dos abdals, uma declaração de independência de todos os inimigos espreitando em nossas fronteiras, oferecendo amizade e escondendo algemas nas costas.
Eles buscavam uma aliança, mas o sultão lhes deu a morte. Eu havia considerado todos naquela noite inimigos de Miraji. Mas talvez alguns fossem mais inimigos que outros.
— Há rumores terríveis desde a morte de Hilda de que a nova rainha, sua filha, não consegue sequer acender uma chama sem desmaiar.
— E seus inimigos têm fósforos — eu disse.
— Precisamente. Coloque magia contra espadas e ela sempre vence. Magia contra pistolas, e temos uma chance de lutar. Mas uma rainha mortal contra o poderio dos gallans... — Ele abriu um sorriso desanimado. — Ela não tem quase nenhuma alternativa além de se aliar ou ser derrotada. A jovem rainha Elinore está preparando um trato com Gallandie, uma aliança por meio do casamento com um dos príncipes. Se for ratificada, lutaremos ao lado de nossos inimigos mais antigos contra seu sultão. Estamos aguardando aqui, preparados para receber instruções de nos juntar a eles.
De repente, compreendi tudo. Os bilhetes que Jin tinha encontrado no escritório do sultão. Ele estava aguardando até que todas as forças de nossos inimigos estivessem reunidas do lado de fora dos muros para liberar seu poder.
— Vocês são os reforços que os gallans estão esperando para invadir Izman.
— Sim. — O capitão pareceu levemente envergonhado. — Parte deles, pelo menos. Há mais soldados deles vindo, da própria Gallandie, em direção à costa norte. — Ele falou como se pedisse desculpas. — Sua cidade vai ser cercada.
E poderão ser todos aniquilados por causa disso. Não faziam ideia do tipo de força que o sultão era capaz de voltar contra eles. Por outro lado, talvez o sultão não imaginasse que dois inimigos antigos se aliariam contra ele. O numeroso exército gallan somado à magia albish poderia ter uma chance contra os abdals.
De um jeito ou de outro, seria um massacre. E poderia representar o fim de Miraji antes que sequer tivéssemos a chance de colocar Ahmed no trono. Seríamos um país conquistado pelo império gallan.
— Entretanto — disse o capitão, interrompendo meus pensamentos agitados — antes de seu príncipe rebelde ser executado, foi dito que a rainha Hilda estava inclinada a oferecer seu apoio à rebelião. — O capitão Westcroft brincava com um dos botões de ouro da manga. — Se você concordar, posso enviar uma mensagem a Albis hoje mesmo para descobrir se a oferta de aliança ainda está de pé. Talvez a jovem rainha Elinore prefira essa opção a dormir com o inimigo, por assim dizer. Teríamos uma resposta até amanhã, imagino. — Aquilo não fazia nenhum sentido para mim. Albis ficava a oceanos de distância, muito além do horizonte. Eles realmente deviam ter um tipo de magia que eu não conseguia compreender.
— Então, em troca de uma aliança, você estaria disposto a nos ajudar a resgatar Ahmed? — Ele estava me oferecendo o que eu tinha ido pedir a Balir: um exército. Mas eu hesitava.
Lembrei de estar sentada em frente ao sultão no palácio, diante do pato que eu havia matado. Ele me repreendia, dizendo que o mundo não era tão simples quanto os rebeldes gostavam de pensar. Que Miraji não podia resistir sozinha. Que seria conquistada sem aliados. Ele estava jogando comigo, mas isso não significava que não fosse verdade. Para nos ajudar a manter nosso país, eles queriam nosso país. Um país que não pertencia a mim para entregar.
Mas, se não déssemos um jeito de resgatar Ahmed, se eu deixasse os albish se aliarem aos gallans, então Miraji também nunca pertenceria ao príncipe rebelde.
Antes que eu pudesse responder, alguém gritou do lado de fora. Houve uma comoção no corredor, onde eu havia deixado os meninos e a princesa. Levantei em um segundo, e o capitão estrangeiro me seguiu. Abri a porta atempo de ver um soldado albish com cachos castanho-claros tentar socar Sam, enquanto dois de seus compatriotas olhavam sem se meter.
Surpreendentemente, Sam pareceu acanhado ao tomar um soco na cara.
Ele caiu no chão com o nariz sangrando. O capitão Westcroft gritou algo que pareceu uma ordem em albish. Os outros dois soldados bateram em continência, mas aquele que havia socado Sam ou não ouviu ou não se importou, partindo para cima de Sam de novo. Avancei para impedi-lo, mas Jin estava mais perto. Ele pegou o soldado pelo uniforme e o pressionou contra a parede oposta. Então ele lhe disse algo em um albish ligeiro. Soou como uma ameaça, mas o soldado não atacou Jin. Provavelmente porque Jin era bem mais alto.
Só então o soldado pareceu notar seu capitão. Ele se endireitou rápido, embora estivesse preso contra a parede, e fez seu melhor para ajeitar o uniforme retorcido.
O capitão disse algo em albish que imaginei que fosse “O que está acontecendo aqui?”. Era o que eu queria saber também. Jin finalmente soltou o soldado e estendeu a mão para ajudar Sam a levantar. Ele ainda estava deitado no chão. Parecendo atordoado.
— Estou bem — disse, levantando cambaleante. — É que nunca tinha tomado um soco na cara.
— Acho bem difícil de acreditar — disse Jin.
— Fico impressionada que não tenha sido um de nós a dar o primeiro — eu disse, me afastando do capitão. — Por que ele bateu em você?
— Ciúme — disse Sam, passando a manga no rosto ensanguentado. — Da minha beleza. Acha que meu nariz está quebrado?
— Parece que nosso amigo com um belo gancho de direita conhece Sam de seus dias no exército. — Jin revelou, traduzindo rapidamente o que o soldado mais novo estava dizendo ao capitão.
Resmunguei, olhando para o teto.
— Então eles sabem que você é um desertor.
— Gostaria de lembrar — Sam disse com o nariz ensanguentado, fingindo estar indignado, mas sem muito sucesso — que eu nem estaria aqui e portanto não poderia ser reconhecido como desertor se não fosse por sua causa.
— Não, você provavelmente estaria boiando junto aos destroços do Peixe Branco — Jin falou antes que eu pudesse retrucar.
— Além disso, o soco não foi por patriotismo — Sam continuou. — Quando larguei o exército, precisava de recursos adicionais para me financiar, até me estabelecer em Izman, sabe?
— Então você o roubou. — Aquela história só melhorava.
— Não. — Sam pareceu ofendido. — Roubei um monte de gente. Não foi nada pessoal.
Apertei o osso do nariz, irritada.
— Me lembre de matar você quando sairmos dessa, combinado?
Antes que Sam tivesse a chance de se meter em mais confusão, os outros dois soldados se adiantaram, passando por nós quase se desculpando para pegar Sam pelos braços.
— O que vai acontecer agora? — perguntei.
O capitão Westcroft parecia infeliz, com as mãos atrás das costas enquanto dava ordens as seus soldados.
— Ele vai ser preso — disse Jin, enquanto Sam era levado, com sua incredulidade debochada mudando para algo mais sério. — Por deserção.
— E depois o quê? — perguntei. Sam dissera que em Albis eles enforcavam seus desertores em árvores. Mas as árvores estavam em falta ali nas montanhas.
Jin hesitou; não queria me falar a resposta.
— Ele vai ser executado — o capitão Westcroft me respondeu, apesar de não parecer feliz com aquilo. — Ao amanhecer. Fuzilamento.
Ao que tudo indicava, eu não precisaria matá-lo no fim das contas.

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