26 de novembro de 2018

Capítulo 11

ERA MEIO-DIA QUANDO CHEGAMOS ÀS MONTANHAS DE ILIAZ.
Eu sentia o peso do luto, como se estivesse pesada demais para voar pelos céus do deserto daquele jeito. Pesada demais para Maz me carregar, mesmo com suas asas imensas, que projetavam uma sombra comprida na areia lá embaixo. Mas, de alguma forma, estávamos subindo no ar, deixando Izman cada vez mais para trás, acelerando em direção à fortaleza montanhosa de Iliaz à nossa frente. A bússola de Jin ia nos levar até Ahmed, mas precisávamos fazer uma parada primeiro. Nosso destino ficava a apenas algumas horas de voo a oeste.
Eu sentia a perda toda vez que olhava para Izz, voando em paralelo ao irmão, carregando Sam, Tamid e Leyla, enquanto Maz carregava apenas Jin e eu.
Não deveria ter sido daquele jeito. Tínhamos um plano. Eu esperei na Casa Oculta enquanto Sam e Hala acompanhavam os outros pelos túneis que Leyla mencionara. Sam usou seu dom para ajudá-los a atravessar as saídas fechadas com tijolos, passando além da barreira de fogo. Depois Hala usara seu poder demdji para atravessar com eles pelo cerco dos gallans em volta da cidade sem serem vistos. Quando os outros estavam escondidos além da cidade, Hala e Sam voltaram para a Casa Oculta, para esperar até que fosse hora de pôr em prática nosso grande truque na casa de oração.
E depois... pó de ferro, sangue, balas... E perdemos nossa demdji de pele dourada.
Senti a ausência de Hala assim que Sam e eu emergimos do outro lado dos tijolos e da areia, saindo do túnel para a luz clara do dia, enfrentando os inimigos sem a cobertura de uma ilusão.
— O que fazemos agora? — Sam perguntara em uma voz baixa que ecoou demais para o meu gosto. Estávamos abaixados do outro lado dos muros de Izman, de frente para as tendas dos gallans. De repente, me senti uma criança.
Eu havia crescido em um deserto cheio de monstros, mas nunca temera os pesadelos ou andarilhos tanto quanto temia os gallans.
Por um momento, não era mais uma rebelde. Era uma garotinha me escondendo debaixo de casa quando os gallans iam para a Vila da Poeira. Observando pelas janelas quando arrastaram um homem para fora de sua casa por cuspir em suas botas e então atiraram nele. Vendo uma mulher ser enforcada porque um soldado gallan a havia agarrado sozinha no escuro e todo mundo fechara os olhos e tampara os ouvidos, fingindo não escutar seus gritos. Eu estava indefesa em Fahali, quando vi uma bala passar pela cabeça de um demdji antes mesmo de saber o que era um demdji.
Estava indefesa na época, mas não agora.
Eu era uma demdji também. Tinha mais motivos para temê-los por isso. Mas também tinha mais armas.
Eu era uma demdji. Não uma garotinha. Repeti isso enquanto reunia poder suficiente dentro de mim para criar uma pequena tempestade de areia ao nosso redor, apoiando-me em Sam. Foi o suficiente para nos cobrir enquanto íamos para o outro lado, onde os demais nos esperavam.
Agora Maz abria suas asas, mal roçando meus joelhos enquanto eu me segurava para me proteger do vento. Jin passou o braço ao meu redor, me apoiando, enquanto o gêmeo se preparava para descer.
Da última vez que estivera naquelas montanhas, eu tinha tomado um tiro na barriga, e Jin conseguira me salvar por pouco. Era suficiente dizer que não me despertavam memórias maravilhosas. Mas até eu precisava admitir que Iliaz era uma bela visão para se contemplar. Metade do nosso país podia ser um deserto, mas as nuvens de chuva que se aglomeravam sobre o mar desaguavam todo o seu poder sobre as montanhas, tornando o solo fértil. As encostas estavam ornadas com vinhas, campos e pomares. No ponto mais alto, governando sobre a única passagem pelas montanhas, ficava a grande fortaleza.
A bússola de Jin apontava para o sudoeste, para Eremot, se Leyla dissera a verdade. Mas nem eu era imprudente o suficiente para achar que poderíamos organizar um resgate com apenas oito de nós – sete, lembrei a mim mesma. A Bandida de Olhos Azuis, um impostor, um príncipe estrangeiro, um ex-amigo relutante, gêmeos metamorfos e uma princesa inimiga. Não era exatamente um exército.
Precisávamos de ajuda.
Os gêmeos pousaram quando estávamos fora do campo de visão da fortaleza. Nos aproximarmos voando nas costas de metamorfos parecia uma boa maneira de tomar um tiro. Achei que devíamos pelo menos esperar até estarmos fora de Izman por um dia inteiro antes que mais alguém morresse.
Cambaleei ao descer das costas de Maz. Minhas pernas machucadas quase cederam no momento em que pisei no chão. Jin me seguiu, se alongando de uma maneira que fez sua camisa subir apenas o suficiente para mostrar a beira da tatuagem o osso do quadril, atraindo meus olhos.
Logo Izz pousou nas proximidades, trazendo Tamid, Leyla, Sam e todos os nossos problemas para terra firme. Maz estava voltando à sua forma humana, deixando as sacolas que havíamos pendurado nele caírem no chão. As penas viraram pele e as asas, braços, até que, no lugar de um roc, tínhamos um garoto magricela de cabelo azul.
Jin tirou uma calça da sacola e jogou para ele.
— Certo. — Maz a pegou no ar e a vestiu. — Damas na área.
— E desde quando você é uma dama? — Sam me perguntou, pegando Leyla sem cerimônia como se ela fosse uma criança birrenta e deixando-a no chão com as mãos amarradas. Não queríamos a companhia da princesa traidora, mas não tínhamos muitas opções.
Sam desceu atrás dela com facilidade, deixando Tamid montado sem jeito. Sua perna ruim o mantinha no lugar, entre as asas enormes de Izz.
Ele parecia abalado e zangado enquanto olhava fixamente para as costas emplumadas de Izz. Ofereci a mão para ajudá-lo a descer, mas Tamid se recusou a me encarar enquanto impulsionava a perna postiça e descia cuidadosamente. Ele caiu de mau jeito. Corri para levantá-lo, mas Tamid acenou me dispensando. Recuei, vendo-o se levantar com uma dificuldade agonizante.
Ele estava com raiva de mim por causa de Hala. Havia perdido mais uma pessoa, alguém com quem formara um vínculo improvável nas noites em que ela não conseguia dormir por causa da dor do luto, enquanto ele examinava os livros que ela levava, procurando uma resposta que não estava lá.
— Consegue andar? — perguntei.
Izz havia voltado para sua forma humana e se vestido. Estávamos prontos para seguir viagem.
— Consigo — Tamid respondeu com amargura, passando por mim. Então começamos a caminhar na direção da fortaleza para trocar algumas palavras com lorde Balir, emir de Iliaz.
Não havíamos avançado muito quando passamos pelo primeiro corpo.
Estava parcialmente coberto de terra, como se alguém – ou alguma coisa – tivesse começado a cavar para desenterrá-lo. Fosse lá o que tivesse cavado, tinha conseguido desenterrar um braço e parte do tronco. Havia marcas de dentes na pele, como se um carniçal tivesse começado sua refeição antes que o nascer do sol o afugentasse.
O braço vestia um uniforme verde-escuro com detalhes dourados. Eram as cores albish. E o cabelo que escapava da cova era do mesmo tom claro que o de Sam. O que um soldado albish estaria fazendo nos arredores de Iliaz?
Aquela era a passagem mais importante do leste para o oeste em Miraji. O bastião contra a invasão de Izman. O combate ali era frequente, de modo que seus soldados eram os mais bem treinados do país, e os com maior chance de morrer. Fora para lá que tinham enviado Rahim quando garoto para treinar, com a expectativa de que não durasse muito. Uma maneira fácil de seu pai se livrar dele. Mas Rahim havia prosperado, tornando-se comandante, primeiro sob o governo do pai de Balir e, mais tarde, sob o governo do próprio Balir. Iliaz defendia o país contra os invasores. Então como agora havia um invasor tão perto da fortaleza, e do lado errado da passagem?
Um pouco mais adiante, havia outra pilha de terra revolvida de modo similar. E mais outra. Uma fileira inteira delas.
— O que é isso? — perguntei.
— Tentaram enterrar os corpos. — Jin parecia sombrio. Estávamos perto da fortaleza agora, e os muros de pedra surgiam acima de nós, lançando sombras sobre aquele lado da montanha enquanto a tarde avançava.
— Por que alguém faria isso? — Passamos por outro monte de terra, intacto. Estava marcado com um graveto, enfiado direto no solo, arrancado das vinhas que subiam pelas montanhas.
 — Ao norte não queimamos nossos mortos, como vocês fazem aqui — Sam falou da parte de trás do grupo. Ele parecia apreensivo — nós os enterramos. Devolvemos para a terra de onde vieram. Em Albis, teoricamente devem ser colocados em terra macia. E uma árvore é plantada para marcar o lugar.
Aquilo não fazia nenhum sentido. Corpos tinham que ser queimados. Deixar um cadáver nas redondezas assim era o mesmo que convidar carniçais para um banquete.
— Ao norte eles não têm o mesmo problema com carniçais que temos aqui no deserto — Jin disse distraidamente. — Há somente cinco covas. Não é um número grande o bastante para ser resultado de uma batalha.
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer, fizemos uma curva no caminho que levava para a fortaleza. Meia dúzia de soldados albish ergueram a cabeça, reunidos em volta de um buraco recém-cavado. As jaquetas dos uniformes estavam estendidas em pedras próximas, as camisas tinham sido enroladas até os cotovelos, as testas suavam sob o sol de Miraji. Enterravam outro corpo quando interrompemos.
Saquei a arma num piscar de olhos, assim com Jin. Os soldados estavam atrapalhados procurado pelas próprias armas, jogando-se sobre os cinturões largados no chão. Estaríamos em desvantagem numérica se fossem bem-sucedidos.
Precisávamos atirar primeiro.
Meu dedo estava no gatilho quando o chão se moveu sob meus pés. Não foi como se a própria montanha se mexesse, foi mais como se sua pele estivesse tentando se livrar de nós, como se fôssemos uma coceira incômoda. Terra deslizou sob nossos pés, desequilibrando Sam e jogando-o no chão. Tentei me se segurar, sem sucesso. Um vento surgiu do nada, me derrubando para trás, me fazendo cair feio, ralando o cotovelo e derrubando a arma da minha mão.
E depois, tão rápido quanto começou, tudo parou. A montanha se acalmou. O vento morreu.
— O que aconteceu? — perguntei, segurando o cotovelo que sangrava.
Sam resmungou, apertando a lateral do corpo enquanto rolava. Havia arranhado o rosto. Era um golpe em sua vaidade, sem dúvida.
— Os de uniforme verde-escuro — ele disse. — São como eu. Bem, na verdade acho que parecem mais com você — Sam se corrigiu depressa, parecendo amargo.
Olhei para os homens. Dois vestiam uniformes diferentes dos demais, o verde do tecido marcado com um padrão dourado de folhas, como vinhas se retorcendo para cima e ao redor do corpo. Diferente de todos os outros, que apontavam as armas para nós, estavam desarmados. Um deles tinha o par de olhos verdes sobrenaturais mais brilhantes que eu já vira. O outro tinha um tom fraco de cinza em sua pele clara, como se fosse feito de pedra.
Sam podia ter sangue imortal vindo de um ancestral, mas seus pais eram mortais. Aqueles homens eram demdjis. Ou fosse lá como os albish chamavam seus demdjis. Jim me dissera uma vez que suas criaturas imortais não eram feitas de fogo, vento e areia, mas de água, nuvens e terra macia. Seus dons eram diferentes, mas inconfundíveis. E eles não estavam se escondendo. Exibiam-se orgulhosos, vestindo o símbolo de seu país bordado no peito, usando seus poderes para lutar.
Os gêmeos e Leyla também tinham caído. Continuaram onde estavam, parecendo atordoados, enquanto Jin, Sam, Tamid e eu nos entreolhamos de nossas posições no chão. Sam não precisou traduzir o que eles gritavam daquela curta distância. Eu sabia o que fazer quando tinha uma arma apontada para a cabeça. Já estivera do outro lado vezes o bastante.
Erguemos as mãos em rendição.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!